Tuesday, December 16, 2008

Idade de Ouro


Pedro J. Bondaczuk

A humanidade, ao longo de tempo, geração após geração, sonha com o retorno de uma hipotética e suposta Idade de Ouro, que teria existido no início da aventura humana, que teria sido caracterizada pela inocência e felicidade. Claro que me refiro àquela parcela que pensa e não à imensa massa cuja única preocupação sempre foi, é (e temo que continuará sendo) a de meramente sobreviver, enquanto lhe for possível, e se reproduzir freneticamente, para que sua descendência aja exatamente da mesma forma, enquanto a espécie existir.
Tenho, comigo, que esse período de bonança e paz de fato existiu. Caso contrário, o inconsciente coletivo não traria, gravada, essa aspiração, que independe de povo, cultura ou crença. Nossa civilização, a judaico-cristã, nos fala, por exemplo, de um “Jardim do Éden”, em que o casal primitivo, Adão e Eva, teria vivido por um período que não se sabe de quantos anos (talvez séculos, quiçá milênios), antes de perder a inocência, ao pretender conhecer os segredos que o Criador lhes havia interditado. Esta, para nós, seria a decantada Idade de Ouro que seria repetida no final dos tempos.
A Mitologia Grega também fala dessa tão sonhada era. Situa-a, inclusive, no reinado de Cronos, a segunda dinastia dos seus deuses. Teria sido sob o seu comando que a humanidade haveria experimentado a felicidade plena, sem malícias e sem cobiça. Tratar-se-ia de uma época perfeita, sem violência e injustiças e, sobretudo, com fartura de alimentos, abundantes não somente para pequena parcela de privilegiados (como ocorre hoje), mas para todos, indiscriminadamente, sem nenhuma distinção.
Esta, aliás, foi a razão de eu ter adotado, simbolicamente, este personagem mitológico como uma espécie de metáfora do tempo (como outros tantos já fizeram, há milênios e ainda fazem mundo afora, não havendo, portanto, nenhuma originalidade da minha parte), em meu livro “Cronos & Narciso”. Para quem não conhece esse mito, peço licença para reproduzi-lo, posto que resumidamente. E, para quem tem conhecimento dele, por favor, não me leve a mal por buscar lhe refrescar a memória.
Cronos (conhecido como Saturno, entre os romanos) era o mais novo dos seis grandes titãs. Era filho de Urano (o céu) e de Gaia ou Geia (a terra). Para assumir o comando do universo, como o primeiro rei dos deuses, precisou destronar o pai. E fez um reinado tão hábil e competente, que foi ao longo dele que a humanidade conheceu a tão desejável Idade de Ouro.
Cronos, a rigor, assumiu o trono não por nutrir eventual ambição de poder. Foi por instâncias da mãe. Não tomou, pois, sozinho, nenhuma iniciativa nesse sentido. É verdade que mais tarde tomou gosto pelo mando. Mas esta já é uma outra história...
Aborrecida com o fato de que, cada vez que tinha um filho, Urano o devolvia ao seu ventre, Gaia tramou com Cronos contra o marido para evitar que ele continuasse agindo dessa maneira. Incitado pela mãe e ajudado pelos outros cinco titãs, seus irmãos, esperou, determinado dia, que o pai dormisse. E quando isso aconteceu, castrou-o, com uma foice. Essa castração resultou na separação do céu e da terra.
Dos testículos de Urano, atirados ao mar, formou-se uma espuma de esperma da qual emergiu Afrodite, deusa do amor. Cronos, então, ocupou o lugar do pai e casou-se com a irmã, Réia. Vivia, porém, aflito em decorrência de uma profecia que dava conta de que teria destino semelhante ao de Urano. Ou seja, seria destronado por um de seus filhos.
Para evitar que isso ocorresse, resolveu se precaver. Como? Engolindo todos os filhos que Réia lhe gerava imediatamente após o nascimento. Fez isso em cinco oportunidades. Aliás, essa foi a principal razão dele ser associado ao tempo. Afinal, este devora, sem cessar, todos os instantes (seus filhos), fazendo com que praticamente não exista presente. Mal este nasce e, em infinitésimos de segundos, já se transforma em passado.
Cronos, contudo (pelo menos na mitologia) se deu mal com essa tática. Réia conseguiu enganá-lo, assim que lhe nasceu o sexto filho, Zeus. Deu ao marido, para que este engolisse, uma pedra, embrulhada em um pano, que ele engoliu, sem perceber o engodo, achando que se tratava do recém-nascido.
O bebê, por sua vez, foi ocultado em uma caverna da Ilha de Creta. Ali, Zeus cresceu e um dia retornou ao Olimpo. Antes de destronar o pai, fez com que este vomitasse seus cinco irmãos que havia engolido: Deméter, Hera, Hades, Héstia e Poseidon. Depois, desterrou Cronos e os titãs, seus aliados, para a distante e terrível região do Tártaro, de onde nunca mais saíram.
Todos os povos têm lendas e mitos parecidos com este, em que se fala de uma esplêndida e radiosa Idade de Ouro. Nada, porém, sobrevive por tanto tempo, se não tiver um mínimo fundo de verdade. Desconfio que este seja o caso. Só não é possível determinar quando, como e onde isso teria acontecido.
O sociólogo francês, Raoul Girardet, escreveu o seguinte, a respeito, em seu livro “Mitos e Mitologias Políticas” (Editora Companhia das Letras): “A visão da Idade de Ouro confunde-se irredutivelmente com a de um tempo não-datado, não-mensurável, não-contabilizável, do qual se sabe apenas que se situa no começo da aventura humana e que foi o da inocência e da felicidade”. Mas, minha intuição me diz que ela, de fato, existiu. Porém, igualmente me adverte que jamais será reproduzida. A humanidade perdeu, para sempre, a inocência e com ela fechou, em definitivo, as portas da felicidade e da plena justiça. Uma pena...

1 comment:

Anonymous said...

Na verdade, existem estudiosos que situam a Idade Dourada realmente no início da existência da raça humana, mais precisamente na época dos caçadores-coletores, antes mesmo da invenção da agricultura e de toda a domesticação posterior. Recomendo o ensaio-livro Futuro Primitivo, do americano John Zerzan; ele cita vários antropólogos no tangente a este assunto, e pode ser facilmente achado na Internet para leitura. Vale a pena