Wednesday, June 03, 2009

Retrato do dono


Pedro J. Bondaczuk

O escritor e diplomata português, Antero Figueiredo, escreveu, em um dos seus 13 livros publicados (não me lembro qual), que “a casa é o retrato do seu dono”. Concordo. Vou mais longe e afirmo, sem medo de errar: “mostre-me onde e como você mora e lhe direi quem você é”.
Não é preciso residir em uma moradia de luxo, claro, para ressaltar aspectos positivos da personalidade do morador. Visitei vários barracos de favela, mambembes, pra lá de toscos, mas que no seu interior encontrei limpeza, ordem e até criatividade na decoração. Havia cortinas feitas de sacos de pão, limpinhas e bem-elaboradas, toalhas bordadas na mesa rústica feita de tabuas de caixote, gravuras recortadas de revistas enfeitando as paredes e outras tantas coisas mais, além do chão rigorosamente limpo, embora de terra batida.
Claro que esse está longe de ser o perfil desse tipo de moradia (diria “esconderijo”). Muitos (diria a maioria) aliam relaxo à miséria. Isso reflete, sobretudo, não somente absoluta carência de condições econômicas mínimas, mas falta de educação no sentido lato do termo.
Em contrapartida, estive em algumas mansões em que o desmazelo era visível por todos os lados. As paredes estavam manchadas ou descascadas, os tapetes empoeirados, os lustres sujos etc. “Isso é culpa dos empregados”, dirão alguns. Concordo, mas só em parte. Também é dos donos, acrescento, que não fiscalizam o que ocorre em suas próprias casas.
Para pôr um pouquinho de “pimenta” nestas considerações, recorro a outro escritor português, Carlos Malheiros Dias, que escreveu, a propósito: “Como os ninhos, que são a casa da ave, e que todos diferem consoante a ave que a fabricou e o habita, a casa do homem reproduz com fidelidade a vida, a ocupação, o caráter, o sentimento dos moradores. Toda a casa tem, como os donos, uma fisionomia especial, que as gerações lhe imprimiram”.
Peço licença para abrir um parêntese e trazer algumas informações sobre essa figura pitoresca, que poucos hoje em dia conhecem, mas que foi alvo de grande polêmica em fins do século XIX e início do XX. Carlos Malheiros Dias nasceu em Portugal, mas tinha grande identificação com o Brasil. O pai era português, mas a mãe brasileira. Além de escritor, foi jornalista e historiador, tendo fundado a Academia Real de História Portuguesa.
Em fins do século XIX, mudou-se para o Rio de Janeiro. Ali, fundou, e dirigiu por muitos anos, uma publicação que viria a se tornar famosa sob o comando de Assis Chateaubriand, a revista “O Cruzeiro” (pouquíssimos se lembram que ele foi, de fato, seu fundador). Mas a polêmica não se deu com esse importante órgão de imprensa.
Deu-se com seu primeiro livro, “A Mulata” (lançado em 1896), romance naturalista, sobre o baixo mundo do Rio de Janeiro, tendo como principal personagem uma prostituta. Foi um escândalo na época. Os moralistas, dedo em riste, investiram furiosamente contra o autor, argumentando que este detratava a então já “Cidade Maravilhosa”. Agiam como se a então capital federal não tivesse desníveis sociais profundos (como tem, até em maior grau, nos dias atuais), miséria, corrupção, violência, degradação etc.
A crítica, na época, recebeu, portanto, com extrema hostilidade essa obra. Alguns críticos, mais ferozes (ou mais burros, diria) chegaram a classificá-la de “infame” e de “enxurrada de lama”. Como se vê, imbecilidade e estupidez não são, nunca foram e nem serão prerrogativas exclusivas dos dias de hoje.
Mas, voltemos ao tema que nos importa. A casa em que moramos reflete, de fato, nossa personalidade, condição econômica, posição social e até estado de espírito. Caso resida, por exemplo, em um barraco, é evidente que não tenho recursos para adquirir (ou alugar) moradia melhor. Por outro lado, esse fato pode indicar (também) que sou pessoa despojada, que pouco ou nada se importa com bens materiais, voltada exclusivamente para as “coisas do espírito”. É raro, mas pode acontecer.
Conheci escritores que viviam de forma espartana, mesmo contando com recursos financeiros para morar melhor. Mas em sua moradia havia ordem, disciplina e limpeza. Por toda a parte, viam-se indicações enfáticas de sua grande paixão: livros e mais livros em profusão. Ademais, simplicidade não é e nunca foi sinônimo de desleixo, desmazelo, falta de higiene e outras tantas faltas mais. Como se vê, o tema é fascinante e prometo voltar a abordá-lo oportunamente.

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