Tuesday, August 10, 2010




Duas batalhas decisivas

Pedro J. Bondaczuk

O adversário do Brasil, nas quartas de final da Copa do Mundo de 1970, foi uma das mais agradáveis surpresas daquele mundial. Refiro-me ao Peru, que perdeu, na primeira fase, apenas uma partida, e para a poderosa seleção alemã. Classificou-se categoricamente e jogando muito bem.
Aliás, os peruanos vinham surpreendendo desde as eliminatórias. Afinal, conquistaram sua vaga eliminando a reconhecidamente excelente equipe da Argentina. Tratava-se de façanha que não era para qualquer um. A Seleção do Peru contava com jogadores como De La Torre, Gallardo, Chumpitaz, Miflin, Perico León e Cubillas, entre outros. Mas o seu grande astro, seu principal trunfo, estava no banco de reservas. Era o seu técnico, que se tornara uma espécie de herói nacional desde que eliminara a Argentina. E era um brasileiro. E vencedor.
Mais do que isso, era bicampeão mundial, em 1958 e 1962. Refiro-me ao então já lendário Waldir Pereira, o nosso Didi, velho companheiro de Zagallo na Seleção Brasileira, a quem agora enfrentaria, com ambos na mesma função, embora em lados diferentes: a de treinadores.
Aquela geração de jogadores peruanos foi, sem dúvida, a melhor que o país andino já conseguiu produzir. Como se esperava, os comandados de Didi complicaram, equilibraram e endureceram o jogo para o Brasil.
A partida foi disputada em 14 de junho de 1970, no Estádio Jalisco de Guadalajara, com arbitragem do belga Vital Louraux. Zagallo mandou a campo a equipe considerada titular, com apenas uma mudança. Marco Antonio substituiu Everaldo na lateral esquerda.
No segundo tempo, Paulo César Caju entrou no lugar de Gerson, que estava um tanto sem ritmo de jogo, enquanto que Roberto substituiu Jairzinho. O jogo, muito bem disputado e emocionante, terminou com o placar de 4 a 2 a nosso favor. Tostão fez dois gols e Rivelino e Jairzinho (sempre ele) completaram o marcador. Marcaram para o Peru Gallardo e Cubillas.
Nossa seleção teria, agora, pela frente, os dois últimos obstáculos para a conquista do tri. Exatos vinte anos depois do Maracanazo, o Brasil voltaria a cruzar com seu algoz de 1950. A imprensa só falava nisso. Palavras como “revanche”, “troco” e “vingança” circulavam em todas as manchetes e na boca dos torcedores.
As circunstâncias, porém, eram outras. Nossos jogadores, experientes e com grande “rodagem” internacional, não entrariam, mais, nas provocações dos uruguaios. Esse jogo emblemático foi disp0utado em 17 de junho de 1970, de novo no Estádio Jalisco de Guadalajara, com arbitragem do espanhol Ortiz Mendibil.
Por alguns momentos, nós, brasileiros, revivemos o pesadelo de 1950 no Maracanã. Foi quando o ponta direita uruguaio Cubilla (que tinha quase o mesmo nome do peruano Cubillas, à exceção do “s” no final), fez o gol da celeste olímpica.
Na casa do Rony Bueno, em Barão Geraldo, distrito de Campinas, onde assistia a essa partida, na companhia de umas vinte pessoas, o silêncio foi total, tenso e opressivo. Dava para ouvir uma mosca voando. Estávamos paralisados, de olho grudado na tela, à espera da reação brasileira. E esta não tardou a acontecer.
Antes de acabar o primeiro tempo, Clodoaldo surpreendeu não apenas a defesa do Uruguai – ele que dificilmente passava do meio de campo –, como seus companheiros, o Brasil, o mundo e a galáxia. Num chute certeiro e indefensável, anotou o gol de empate.
Alívio geral. No fundo, no fundo, no entanto, restava uma pontinha de apreensão e de medo, que buscávamos disfarçar. Todavia, o segundo tempo da Seleção Brasileira foi um primor. Ali senti que a Copa seria nossa, fosse quem fosse o adversário da final.
O Brasil jogou, contra o Uruguai, com sua equipe titular, com a volta de Everaldo à lateral esquerda. Zagallo não fez nenhuma substituição nesse dia. Os onze que começaram jogando, terminaram o jogo. E precisava substituir? Substituir quem, e por que, se todos estavam jogando o fino da bola?!
Não tardou para que viessem os gols e a tão esperada classificação para a final da Copa. Foram marcados por Jairzinho e Rivelino, selando o categórico 3 a 1 no placar e lavando a alma dos brasileiros, principalmente dos mais velhos (inclusive a minha) que haviam chorado o melancólico e dramático resultado de 2 a 1 no Maracanã, vinte anos antes.

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