Tuesday, January 12, 2010




Caminhos e caminhantes

Pedro J. Bondaczuk

Gostaria que todas as pessoas fossem iguais, pelo menos no que considero essencial, ou seja, em posses, direitos e aptidões. Evidentemente, não são. Há desníveis profundíssimos e absurdos entre a minoria privilegiada (e nunca consegui entender a razão desse privilégio) e a maioria que vegeta na miséria, sem ter, nem ao menos, o que comer. “É a realidade”, dizem os cínicos e os omissos, do alto da sua arrogância e burrice.
Há, é verdade, uma niveladora implacável que, mais cedo ou mais tarde, iguala a todos no mesmíssimo destino: a morte. Tentam, porém, estabelecer diferenças até aí. Os que gozaram de todas as regalias possíveis e imagináveis são sepultados com pompas e circunstâncias, em mausoléus caríssimos, que são verdadeiros palácios para os indigentes.
Já estes... Não raro, não têm sequer sepultura. Às vezes têm os corpos doados para estudos em faculdades de Medicina. Ou quando são enterrados, o são em alguma gaveta provisória nos cemitérios que as têm ou em covas rasas, logo esquecidas onde ficam e de quem são. Todavia, não importa. Tanto os milionários quanto os mendigos cumprem o derradeiro ritual da natureza: “és pó e ao pó retornarás”.
Levamos vidas tão desiguais que nem parecemos espécimes da mesma espécie. Até não faz muito, era perigoso tocar nesse assunto. Logo lhe sapecavam a pecha de “comunista” e davam a essa palavra conotação de horror, como se quem defendesse a isonomia de direitos e deveres entre as pessoas fosse um monstro sanguinário e vil, uma aberração, um mal a ser combatido e extirpado. Ou estou exagerando?
O pitoresco é que justamente os que seriam os maiores beneficiados com a implantação de um comunismo genuíno (não me refiro àquela caricatura que havia na extinta União Soviética e que ainda há na China, em Cuba e na Coréia do Norte), eram os que mais o combatiam. Os miseráveis da Terra vegetam em tamanha indigência, que aquilo que mais querem é pelo menos um prato de comida por dia, um abrigo seguro e alguma diversão. Sequer cogitam em qualquer tipo de igualdade de direitos e deveres.
Embora muitos achassem que eu fosse comunista, nunca o fui. E não por temor de represálias, de prisão, torturas e até mesmo da morte. Informado como sou e conhecedor da natureza humana, sempre tive plena convicção da impraticabilidade dessa utopia. Em teoria é, sem dúvida, ideal tentador e maravilhoso. Na prática, porém, não resistiria a um único dia, após se tentar implantá-la, sem que fosse, de imediato, corrompida e descaracterizada.
Escrevo esta crônica ainda sob o impacto daquelas imagens dantescas que presenciei, em noite recente, à saída do trabalho: a de um andrajoso indigente revirando o lixo de um famoso restaurante aqui de Campinas, em busca do que comer.
E o que me abalou ainda mais foi o fato de milhares de pessoas transitarem pela calçada, passando pelo pobre infeliz como se fosse menos até do que um animal doméstico, um cachorro ou um gato, mas simples objeto inanimado, um poste talvez, ou, quem sabe, um muro.
Tentei parar meu carro para ajudar o infeliz, meu irmão de espécie, mas quem diz que consegui? Um coro de irritantes buzinas (mesmo sendo à noite) alertou-me que burgueses omissos e inconscientes queriam passar para seguir suas vidinhas medíocres, inúteis e inconscientes. Não sei, portanto, que fim levou aquele pobre infeliz que “garimpava” seu jantar em infecta lata de lixo. Não duvido nada que tenha sido preso, por “perturbação da ordem pública”.
Sempre que toco no assunto, sou, invariavelmente, confrontado com o questionamento, feito em tom arrogante e agressivo: “você partilharia seus bens com algum indigente”? Sinceramente? A resposta é sim, mas sob uma condição. A de que todos, absolutamente todos, não importa onde morem, o cargo que ocupem ou a fortuna que tenham, fizessem o mesmo. Por que? Porque se defendo igualdade de direitos, deveres e aptidões para “todos”, seria incoerente se apenas eu recebesse tratamento diferenciado.
O fato é que essas vidas tão desiguais continuarão dessa mesma forma que estão agora, década após década, século após século, milênio após milênio, isso se a humanidade não for extinta antes, ou se não se extinguir por sua própria ação, em encarniçada e furiosa batalha entre os que têm tudo e querem muito mais e os que são tratados de modo inferior, até, que cachorros e gatos. Por isso, amargurado, tenho que admitir que Johann Wolfgang von Goethe estava cobertíssimo de razão quando constatou:“Nem todos os caminhos são para todos os caminhantes”. Só aduziria um sincero “infelizmente”.

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