Sunday, August 03, 2008

DIRETO DO ARQUIVO


Fidel ganhou com os motins?


Pedro J. Bondaczuk

O senador norte-americano Bob Graham, do Partido Democrata, afirmou, ontem, sobre o motim dos presos cubanos, nas penitenciárias federais de Oakdale, no Estado de Louisiana e de Atlanta, na Geórgia, que os incidentes “são uma vitória do presidente Fidel Castro”.
Evidentemente, o parlamentar, que estava criticando o Departamento de Estado de seu país e as autoridades penais, quis se referir aos problemas causados aos Estados Unidos. Neste aspecto, ele tem razão. De fato, as rebeliões foram bem-sucedidas, no sentido de darem grandes dores de cabeça à Casa Branca e até ao Pentágono, que deslocou tropas para tentar uma eventual invasão num dos complexos amotinados.
Todavia, do ponto-de-vista de propaganda, nada mais negativo para Cuba e seu regime do que esse verdadeiro levante de prisioneiros. No mundo todo o cidadão comum está raciocinando que na ilha deve haver algo de muito terrível para que homens, considerados párias em qualquer sociedade, seja ela marxista ou capitalista, prefiram morrer numa prisão do exterior a voltarem para lá.
Em todo esse incidente, fica evidente a falha das autoridades norte-americanas, que não souberam prever a reação dos candidatos potenciais e óbvios à expatriação. É claro que para qualquer um seria difícil, senão impossível, adivinhar que esses cubanos sentissem tamanho pavor dos líderes com poder de decisão em seu país de origem.
A impressão que fica é que a velha mania de fazer propaganda ideológica prevaleceu sobre a prudência. O acordo de repatriamento, obtido mediante negociações secretas, foi conseguido na sexta-feira, na capital mexicana. O Departamento de Estado dos Estados Unidos, antes de emitir um comunicado oficial a quem de fato o caso interessava, ou seja, às autoridades penitenciárias do país, encarregadas da guarda dos expatriáveis, deixou que a notícia vazasse para a imprensa no mesmo dia.
No Sábado, ou seja, menos de 24 horas depois, os cubanos detidos em Oakdale se amotinaram. Pegaram todos de surpresa. Mais surpreendente ainda, no entanto, foi a repetição do motim, num outro Estado, apenas dois dias depois.
Ficou claro, portanto, que houve uma sucessão imperdoável de erros da parte de quem não tinha o direito de os cometer. Não, pelo menos, de forma reincidente. A questão, ao que tudo indica, vai se transformar noutro magnífico “imbroglio” para a Casa Branca, num ano em que tudo o que há de ruim parece Ter acontecido envolvendo a administração Reagan.

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 26 de novembro de 1987)

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