Monday, January 29, 2007

Crítica aos críticos


Pedro J. Bondaczuk

A Literatura – em todos os seus gêneros, estilos e formas – comove-me, instiga-me, fascina-me, apaixona-me e até me fanatiza. Sou um leitor sôfrego, ávido, insaciável e compulsivo. A mesma classificação me serve como escritor. Se bom ou ruim, são outros quinhentos. O julgamento, nesse caso, cabe (e deve sempre caber) exclusivamente aos que me lêem.

Uns, por exemplo, apreciam o meu estilo despojado e não raro agressivo. Elogiam os temas que abordo e a minha visão (em geral, otimista) da vida e das suas circunstâncias. Outros, todavia, esmeram-se em críticas. Algumas, convenhamos, são infantis, meras birras de meninos mimados, dos que criticam tudo e todos, apenas pelo prazer de criticar. Acham que, agindo assim, manifestam um certo poder. Sei lá! Entendo que não. Até porque, não raro, esses críticos azedos e com mania de grandeza, caem em ridículo, publicamente, e sequer se apercebem. Não levo a sério este tipo de crítica, facílimo de identificar. E nem poderia.

Outros não apreciam o meu estilo, principalmente pelo fato de eu escrever a maioria das minhas crônicas na primeira pessoa. Acusam-me de personalista, de vaidoso e de, em suma, ser narcisista. Respeito essas opiniões, mas discordo delas.

Claro que se estiver escrevendo um artigo, não irei usar desse expediente. Muito menos, num editorial – que é o pensamento da empresa jornalística a que presto serviços. E, menos, ainda, numa reportagem, tendo em vista que o papel do repórter tem que ser, necessariamente, sempre, sempre e sempre, em toda e qualquer circunstância, o de “reportar”, com a máxima fidelidade factual, o que viu ou que soube. Mas isso é jornalismo e estou tratando, aqui, de literatura. É essa distinção que meus críticos, provavelmente por desconhecimento, não sabem ou não querem fazer.

Entendo que é o cúmulo da hipocrisia, do pedantismo e (para usar uma expressão mais popular), de frescura ficar escrevendo, numa crônica, coisas do tipo “nós pensamos que”, “nós entendemos” e tantas e tantas outras colocações, feitas na primeira pessoa do plural. Para quê? Onde a objetividade dessa falsa manifestação de “humildade”? Quem pensa, quem entende, quem age, quem opina sou eu! Por que, raios, então não mostrar isso ao leitor?

A crítica (quer seja de artes plásticas, quer de cinema, quer de música popular, quer e principalmente de literatura) é uma arte, e das mais complicadas. Presume-se (com razão) que quem a exerce está habilitado a esse exercício. Ou seja, que entenda do riscado. É inconcebível, por exemplo, que alguém se disponha a avaliar um quadro, sem ter a menor noção de pintura. Ou que teça comentários sobre determinado filme, sem que o tenha pelo menos assistido (e que sequer goste de cinema). Muitos se metem a fazer crítica literária e nem mesmo são bons leitores. Cansei de ver colega fazendo resenha de determinado livro sem sequer tê-lo aberto, quanto mais lido. Criticam com base, somente, no que está escrito nas “orelhas” do volume que têm em mãos, ou no prefácio, ou na contracapa. Às vezes, nem isso! Não raro, se limitam a “cozinhar” o texto do release da editora, e pronto. E ainda querem posar de críticos literários! Ora, ora, ora... Por incrível que pareça, há gente assim!

Há, ainda, os que embora entendendo do riscado, se apegam, literalmente, a um dos significados da palavra “crítica” e entendem que esse exercício de avaliação tem que ser, necessariamente, agressivo. Que é preciso encontrar, e apontar, defeitos, mesmo onde estes não existam.

Criticam, por exemplo, um quadro, que acaba obtendo o primeiro lugar em alguma bienal importante e adquire cotação astronômica nas principais leilões de arte. Vêem defeitos mil num filme, que finda por conquistar sete a oito Oscars da Academia de Cinema de Hollywood (embora essa premiação, convenhamos, não possa ser tomada, rigorosamente, como parâmetro de qualidade de nenhuma produção). Impõem restrições mil a um determinado livro (que não leram, ou se o fizeram, não atentaram para importantes nuances que só quem é do ramo, ou seja, escritor, é capaz de notar), que finda por se transformar em best-seller e a assegurar, em casos extremos, um Prêmio Nobel, ou Pulitzer, ou Príncipe das Astúrias ou (para ficarmos em âmbito doméstico), Jabuti de Literatura ao autor.

Caem em ridículo, como se vê, porque querem. Metem-se em searas que não têm preparo, estudo e competência para estar e, não raro, se dão mal. Claro que abordei, aqui, casos extremos. A crítica literária é, inclusive, um gênero da própria Literatura, e dos mais importantes. O Brasil sempre teve grandes nomes nessa área, verdadeiros mestres, que sabem o que dizem e por isso granjearam merecidíssima reputação. Para não me estender em demasia, citaria, em ordem alfabética, Antônio Houaiss, Araripe Junior, Athos Damasceno Ferreira, Antônio Cândido, Gilda de Mello e Souza, José Brito Broca, José Cândido de Andrade Muricy, Otto Maria Carpeaux, Roberto Schwarz e Sílvio Romero, entre tantos e tantos outros.

Se algumas dessas personalidades me dessem a honra de avaliar minhas crônicas e tecer críticas sobre elas, eu me sentiria o mais privilegiado dos privilegiados dos cronistas, mesmo que concluíssem que meus textos não passam de um apanhado de abobrinhas e de lugares-comuns. Eles podem! Entendem do riscado!

Mas as críticas infantis, meras birras de meninos mimados (e piores eles se tornam quando são marmanjos infantilizados, o que é muito comum), dos que criticam tudo e todos apenas pelo prazer de criticar, nunca levei, não levo e jamais levarei em conta!!! E deveria?!!!

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