Thursday, February 15, 2007

Lições de amor


Pedro J. Bondaczuk


O poetinha Vinícius de Moraes, com a sua verve irresistível e seu jeito doce de poetar, escreveu inúmeros poemas sobre o amor, a maioria antológica. Seus versos são citados, amiúde, por namorados ou simples paqueradores, Brasil afora, pela beleza que encerram e pela forma convincente de se conquistar uma mulher. Aliás, não me lembro de nenhum deles (e nem de nenhuma das centenas de letras de canção que escreveu), em que o tema não estivesse presente, ou de forma ostensiva, ou subjacente, mediante simples sugestão. E está certo o poeta. Nada é mais importante que o amor.
Mas amar, ao contrário do que possa parecer, não é tão fácil quanto se apregoa. Para que esse sentimento se manifeste e se realize, em sua plenitude, temos que abrir mão de grande parcela do nosso egoísmo e do nosso arraigado e não raro exacerbado egocentrismo.
Apregoar o amor não é difícil, pelo contrário. Senti-lo, também não chega a beirar a impossibilidade e não envolve maior complexidade. Mas vivê-lo em sua plenitude é que são elas! Para isso, temos que relevar os defeitos alheios, que a rigor não são maiores do que os nossos, sem ares de superioridade ou tentativas de imposições.
Muita gente fracassa no amor pelo simples fato de não saber amar. Confunde esse nobilíssimo sentimento, que só é genuíno se for espontâneo, com a idéia de posse, de imposição das próprias vontades e da conseqüente submissão da pessoa amada. Claro que um relacionamento desse tipo só pode resultar em fracasso.
Mesmo que originalmente haja amor entre os que se relacionam dessa forma viciosa e equivocada, este, em pouco tempo, se esvai, em decorrência da coação de uma das partes. Ocorre que seres humanos são livres e não são (e nem podem ser jamais) “propriedades” de ninguém. Cada pessoa é senhora da própria vontade, que tem que ser respeitada às últimas conseqüências. O amor implica, sempre, em absoluta igualdade entre os parceiros, em tudo e por tudo.
Mas há formas e formas de amar. E há objetos e mais objetos desse sentimento. As obras duradouras, que permanecem anos, séculos, quiçá milênios após a nossa morte e que beneficiam gerações, não importa seu tamanho ou natureza, são, por exemplo, atos de amor. Não esse estereotipado, mutilado e distorcido, como é entendido por grande parte das pessoas, ou seja, a mera transação de corpos, almas e interesses, sem nenhum comprometimento profundo e genuíno.
Este tipo de sentimento conduz, somente, à frustração, ao desespero e à solidão. O amor a que me refiro é aquele desprendido, abnegado, altruísta, que move céus e terras para proteger e beneficiar seus destinatários, sem esperar agradecimentos, vantagens e sequer reciprocidade. Por esta emoção, sim, vale a pena viver e, se preciso, vale a pena morrer. Quem não ama o que faz, jamais conseguirá fazer nada bem feito.
Só o amor, desprendido e abnegado, pode redimir a humanidade e estabelecer uma interminável corrente de afetos e de solidariedade. Não serão governos, sistemas, Estados e ideologias que irão estabelecer a harmonia e a justiça social de que tanto necessitamos.
O poeta Dante Aligheri, no livro “A Divina Comédia” (no Canto XXII, quando trata do “Purgatório”), afirma esta grande verdade: “O amor aceso em nome da virtude, uma vez alteada a sua chama, sempre ateia um outro amor”. Ou seja, é como uma fagulha, num capinzal seco: depois de ateado o fogo, este se torna incontrolável. Ninguém mais consegue apagá-lo. Pena que haja tão pouco desta chama no mundo!
Temos que amar, sobretudo, a humanidade, a despeito de suas fraquezas, aberrações, patifarias e contradições. Ou seja, devemos agir como recomendam lúcidos pregadores: “abominar o pecado, mas ter compaixão pelo pecador”. Aquele que não ama os semelhantes e, pior do que isso, que os abomina, jamais dedicará a vida na elaboração de uma obra cujos resultados não irá aproveitar.
Nunca podemos perder de vista o fato de que somos efêmeros e que desconhecemos nosso tempo de vida. Quanto menos esperarmos, zás, alguma fatalidade (acidente, doença ou agressão), pode nos atingir e pôr fim à nossa aventura no mundo. E mortos, claro, de nada nos valerão nossos bens ou nossas virtudes ou nossas aptidões. Tudo o que fazemos, portanto, mesmo que não venhamos a nos dar conta, é para usufruto alheio.
Em geral, só damos o devido valor a uma pessoa, coisa ou qualquer outro bem, quando os perdemos. Aí, já é muito tarde. Há quem viva, por exemplo, anos e anos ao lado de alguém, que lhe devota respeito, afeição, lealdade e veneração, e sequer se dá conta. É incapaz do mais simples gesto, de uma única palavra que seja de reconhecimento e de gratidão. Contudo, quando perde essa pessoa – por morte, separação ou qualquer outro motivo – fica inconsolável, julgando-se o mais infeliz dos viventes, lamentando a tola indiferença que manifestou.
Por isso, em vez de corrermos atrás de sombras e ilusões, o mais sábio é valorizarmos a substância ao nosso alcance. Ou seja, é mais prudente mantermos o pássaro que tivermos nas mãos do que corrermos, loucamente, atrás dos que estiverem voando. E devemos, sobretudo, amar, amar e amar, sem restrições ou limites, a nossa cara metade, os nossos filhos e netos, os nossos pais, os nossos amigos e, o que é o máximo da abnegação, não somente o nosso próximo, mas a humanidade. O amor é a única coisa que aumenta na mesma proporção que o damos. Sejamos, pois, pródigos e perdulários na sua doação!

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