Friday, November 27, 2015

A chuva e o frio acentuam a melancolia nas pessoas e ressaltam a solidão dos solitários, a angústia dos depressivos e a carência afetiva dos despojados de afeto. Aliás, o homem é um ser "meteorológico". O clima influi decisivamente em suas emoções e, por conseqüência, na sua forma de reagir aos estímulos externos. O calor, por exemplo, acentua a violência. Tanto que as estatísticas demonstram que a criminalidade aumenta muito no verão. Já no inverno, o que cresce é o número de suicídios. Em ambos os casos, é a vida que acaba por ser agredida. No entanto ela é tão preciosa e bela! Essa influência climática para um artista, seja de que arte for, contudo, costuma ser benéfica. Engendra obras que se tornam imortais. Há pinturas notáveis, de grandes mestres, mostrando a fúria das tempestades, ou campos nevados, ou, como Paul Gauguin, a luminosidade dos mares do Sul nas ilhas do Taiti que brotaram de seu pincel encantado. No meu caso, funciono geralmente melhor na época do calor, quando fico descontraído e sem inibição. Daí expor-me com mais facilidade, sem muito receio ou escrúpulos, nessa ocasião. Conforme ressaltei recentemente em uma crônica, o verdadeiro escritor é aquele que se expõe por completo. Mas o faz com sinceridade e clareza. Com amor pelo próximo e grandeza.


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Cidadão comum não vê necessidade de guerra



Pedro J. Bondaczuk


A proximidade de uma guerra, que vai começar, oficialmente – embora não necessariamente num campo de batalha nessa data – a partir do primeiro minuto da quarta-feira, caso o presidente iraquiano, Saddam Hussein, não retire, total e incondicionalmente, suas tropas do Kuwait, está forçando as pessoas, em várias partes do mundo, a saírem da sua rotina para meditar sobre a necessidade e as implicações desse conflito.

Os apologistas do recurso militar para a solução de pendências estão tendo cada vez mais dificuldades para convencer os cidadãos da eficiência e da moralidade desse meio. É evidente, até para as mentes broncas, que matar nunca foi um ato nobre.

O homem, deste fim de milênio, a despeito da aparência de alienado que possui, tem muito maior consciência sobre asa questões mundiais e o jogo do poder, disputado na arena internacional, do que os seus predecessores do início do século. Ele sabe no que resultaram duas guerras mundiais.

Vivemos em plena era da comunicação. E a despeito dos instrumentos da informação poderem ser usados para manipular a opinião, especialmente das massas – Hitler já dizia que estas são “virgens histéricas, loucas para serem estupradas” –, o advento da televisão via satélite torna esse exercício cada vez mais difícil.

Um expert em propaganda política, como o nazista Goebbels, não teria muita chance, hoje em dia, diante do espírito crítico mais aguçado que existe, em especial entre as pessoas mais jovens. Muito do que se diz, ou do que se escreve, sobre a crise do Golfo Pérsico, traz a marca sutil – e às vezes ostensiva – dos interesses antagônicos em jogo.

A imprensa ocidental, por exemplo, pinta George Bush e as forças multinacionais estacionadas na Arábia Saudita como autênticos campeões da liberdade. Em contraposição, o iraquiano Saddam Hussein é descrito como um ditador sanguinário e cruel, terrível agressor, que, virtualmente, estuprou a nação kuwaitiana, matando cidadãos indiscriminadamente, pilhando a economia do emirado e ameaçando repetir a dose com a Arábia Saudita.

O interessante é que, há somente quatro anos, o presidente do Iraque era pintado, por esses mesmos meios de comunicação, como um político pragmático, um estrategista hábil e um homem elegante, que prestava um favor ao mundo ao conter o fanatismo dos sombrios aiatolás iranianos.

Sua invasão ao Kuwait foi, de fato, abominável. Por mais que tente, nunca conseguirá justificar este ato estúpido. Mas seria o homem contemporâneo tão burro a ponto de não conhecer outro meio de conter um estadista delinqüente, a não ser mediante uma guerra das proporções que se planeja no Golfo Pérsico?

Estariam os grandes “business men”, os artistas, os ecologistas, os idealistas e os que ainda crêem na sensatez humana dispostos a enterrar suas causas e ideais nas areias do deserto saudita?
       
(Artigo publicado na página 17, Internacional, do Correio Popular, em 13 de janeiro de 1991)


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A inesquecível “fair lady”

Pedro J. Bondaczuk

O irlandês George Bernard Shaw é dessas personalidades emblemáticas, e raras, das tais que basta você conhecer alguns episódios de sua biografia, e pode ser qualquer um, para se “apaixonar” por ele. É uma figura absolutamente inesquecível!!! Dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista (entre tantos outros “istas”), ousou, sobretudo, defender, publicamente, causas que não eram do agrado dos poderosos. Foi, por exemplo, socialista ferrenho. Ainda assim desagradou as autoridades da extinta União Soviética, que de socialistas não tinham nada (afinal seu regime era tecnicamente mero Capitalismo de Estado e não comunismo, como apregoava) que moveram feroz campanha contra ele. Foi feminista convicto, numa época em que defender essa causa era querer cair em ridículo. Em certa época da vida, converteu-se ao vegetarianismo, postura que defendeu com inusitado vigor e entusiasmo sempre que pode. E deu-se bem nessa postura na contramão da maioria por ter, a seu favor, uma “arma” de dificílimo manejo, mas que, quando bem manejada, é insuperável: a ironia.

Seria de se esperar, pois, que um sujeito tão ousado, tão polêmico e tão controvertido (mas sumamente talentoso), criasse personagens no mínimo marcantes, de ambos os sexos, mas, sobretudo, femininas (afinal, era feminista). E, de fato, criou. Quem é ela? É, nada mais, nada menos, que uma “fair lady”. Trata-se de Eliza Doolittle, a obtusa vendedora de flores das ruas de Londres, transformada em refinadíssima dama da alta sociedade inglesa, primor no quesito etiqueta social, e em apenas seis meses, pelo culto professor de fonética, Henry Higgins. A personagem foi criada para protagonizar uma paródia do mito de Pigmalião, do poeta romano Ovídio, que Shaw tratou com tanta habilidade a ponto de esquecermos a fonte que o inspirou, e lembrarmo-nos somente da sua peça, pela originalidade que conseguiu emprestar ao seu enredo.

A criação teatral do autor irlandês é tão perfeita que hoje é tida e havida, com justiça, como “clássico” da arte dramática, com milhares e milhares de representações, nos mais diversos palcos ao redor do mundo. E mais, o próprio Bernard Shaw teve o capricho de adaptá-la para o cinema. Dessa forma, conseguiu uma façanha nunca mais repetida por escritor algum: conquistou, com “Pigmalião”, tanto o Prêmio Nobel de Literatura de 1925, quanto o Oscar, da Academia de Cinema de Hollywood, de 1938. Anos mais tarde, em 1964, a peça foi refilmada, baseada no roteiro de Shaw, agora com o título de “My fair lady”, produção dirigida por George Cukor. Até os estúdios Disney basearam um de seus mais populares desenhos animados nessa obra do dramaturgo irlandês, ou seja, “A dama e o vagabundo”. E, claro, a personagem Eliza Doolittle, tão bem urdida por ele, ganhou destaque em todas essas versões e tornou-se absolutamente inesquecível. Pudera!

Pigmalião, conforme Ovídio, era um escultor e rei de Chipre. Era um artista tão competente e refinado que se apaixonou por uma estátua que havia esculpido ao tentar reproduzir a mulher ideal. Ficou, todavia, frustrado pelo fato da escultura não ter vida. E tanto se frustrou que começou a definhar, definhar e definhar, corroído de tristeza causada pela insana paixão por algo impossível. A deusa Afrodite, todavia, apiedou-se de Pigmalião. Atendendo a seu desesperado pedido, e não encontrando em toda a ilha mulher que sequer remotamente chegasse aos pés da estátua que o artista havia esculpido (tanto em beleza, quanto em pudor), transformou a escultura numa “humana”, ou seja, de carne e osso. E o caso, na versão de Ovídio, teve o devido “happy end”. Pigmalião casou-se com a bela e virtuosa criação sua que, graças a Afrodite, ganhou vida e, nove meses depois, o casal gerou uma filha, chamada Pafos, que inclusive deu nome à ilha que existe até hoje no Mar Egeu.

Para o leitor entender melhor a personalidade de George Bernard Shaw, cito, de passagem, sua atitude em relação ao Nobel de Literatura. Em princípio, ele quis recusar o prêmio diretamente, chegando a anunciar que o renunciaria. Argumentou que não tinha nenhuma vontade de receber honrarias públicas pelo que produzia. Aceitou-o, no entanto, mas somente a mando da esposa. Ela convenceu-o que a homenagem não era propriamente para ele, mas para a Irlanda, que ele representava. Shaw, no entanto, impôs uma condição para a aceitação: a de que o prêmio em dinheiro fosse todo utilizado para financiar traduções de livros suecos para o inglês. E assim se fez.

Esse foi o Bernard Shaw que tanto admiro e que chegou quase à idade centenária, produtivo e cada vez mais irônico e mordaz à medida que os anos passavam. Ele nasceu em Dublin, capital da atual República da Irlanda, em 26 de julho de 1856. E faleceu em Ayot Saint Lawrence, em 2 de novembro de 1950, aos prolíficos e bem vividos 94 anos de idade. Até na morte conseguiu ser original e polêmico. Por recomendação sua, feita antes de morrer, seu corpo foi cremado e suas cinzas, juntamente com as da esposa, foram misturadas e lançadas no jardim de sua casa ao longo (vejam só) da estátua de Joana d'Arc em Shaw's Corner, Hertfordshire na Inglaterra. Por essas e por outras, considero Eliza Doolittle personagem feminina inesquecível de um escritor que, com certeza, nunca conseguirei esquecer.


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Thursday, November 26, 2015

O renomado clínico norte-americano, Northcote Parkinson, escreveu, há cerca de trinta anos, no “Medical Affairs”: “Fiz uma descoberta importantíssima para a medicina clínica: as pessoas mais ocupadas não têm tempo para ficar doentes”. E não têm mesmo...Se você já passou dos 60, experimente fazer isso. O que você terá a perder?! É indispensável, por outro lado, que jamais nos deixemos vencer pela tentação da autopiedade. Não podemos assumir a postura de “coitadinhos”. Se o fizermos, seremos, com toda a certeza, por maior que seja o nosso potencial, de fato dignos apenas de piedade. James W. Kennedy dizia, com muita sabedoria, que “o que realmente importa é o que acontece em nós, e não a nós”. É esta integridade de espírito, esta riqueza interior, que devemos cultivar, para nos servir nos anos mais difíceis da nossa existência. Estas têm que ser as armas ao nosso dispor para quando nossos músculos já não obedecerem, com prontidão, as ordens emanadas pelo cérebro; para quando nossos olhos não enxergarem com a mesma acuidade da juventude; para quando nossos ouvidos já não captarem os sons com a mesma nitidez dos bons tempos e quando o nosso raciocínio levar um tempo enorme para “esquentar”. Envelheçamos, sim, pois esta é uma fatalidade biológica. Mas o façamos com tranqüilidade, com picardia e, sobretudo, com dignidade, Sejamos, até o derradeiro segundo de vida, senhores, de fato, do nosso destino! Ou, pelo menos, não abdiquemos de tentar.


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Eleições devem mudar poucas posições



Pedro J. Bondaczuk


Os norte-americanos estão em pleno final de campanha eleitoral, para a renovação total da Câmara de Representantes e de um terço do Senado. As eleições, que vão ocorrer na próxima terça-feira, apresentam uma disputa mais renhida apenas entre os senadores, onde o Partido Republicano detém frágil maioria, de apenas seis cadeiras e que pode perder agora.

Não que o eleitorado esteja descontente com o presidente Ronald Reagan e com sua agremiação, mas porque esta irá colocar em disputa uma quantidade maior de vagas. Evidentemente, as chances de perde-las também são mais elevadas.

Serão renovados, no Senado, 34 senadores, dos quais 223 são do Partido Republicano e apenas 12 do Democrata. Bastará à oposição, portanto, conservar sua uma dúzia de cadeiras e ganhar mais seis para obter, também, a maioria na Casa, já que na Câmara de Representantes ninguém espera dramáticas surpresas. Nem mesmo Reagan vem fazendo campanha para conquistar maioria ali.

O que o presidente deseja, para ter os dois anos derradeiros do seu último mandato tranqüilos, é conservar a vantagem que tem. O auge da campanha está concentrado em dez Estados, onde os democratas buscam desalojar senadores republicanos e estes apelam para todos os recursos (inclusive para gastos exorbitantes com publicidade e para muita demagogia) para se manterem.

Mas, se por uma eventualidade o governo vier a sofrer uma derrota nas urnas, isso não será nenhuma tragédia. Não quer dizer, em absoluto, que o presidente ficará impossibilitado de governar. Ele apenas terá que negociar, daí para frente, os projetos que desejar ver aprovados, na base do dá cá, toma lá.

As estimativas que os analistas fazem, no entanto, é que o quadro que vai emergir das urnas de 4 de novembro próximo não deverá ser muito diferente do atual. Pelas informações que recebemos de amigos que residem nos Estados Unidos, nos arriscamos a prever que os democratas irão ampliar, em no máximo dez cadeiras, sua maioria na Câmara. E no Senado, os republicanos continuarão mandando, talvez perdendo três vagas, detendo, daí para frente, uma diferença fragílima a seu favor, de apenas três senadores. Mas como eleições costumam, às vezes, trazer certas surpresas, não seria nenhuma zebra a oposição também alcançar o domínio dessa Casa, embora tudo leve a crer que não.    


(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 1º de novembro de 1986)

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Um desesperado amor interracial

Pedro J. Bondaczuk

A escritora norte-americana Pearl S. Buck – criada na China, onde passou cerca da metade da vida – tinha, como tema recorrente dos seus romances, o amor interracial, que na primeira metade do século XX era tabu. Havia forte preconceito a respeito o que, a bem da verdade, ainda persiste, posto que de forma dissimulada, camuflada, revestida de eufemismos e que não é, portanto, tão ostensiva como então. A resistência a essas uniões entre pessoas de etnias diferentes, todavia, permanece viva entre as famílias dos envolvidos, entre seus amigos, conhecido e vai por aí afora. Claro que, como toda forma de preconceito, esta também é absurda e inconcebível. Mas existe (ainda).

A propósito de Pearl Buck citei, como personagem feminina “mais” inesquecível (o que pressupõe que ela não criou uma única e solitária, com tal característica, mas várias) a chinesa Kwei-Lan, protagonista do livro “Vento Leste vento Oeste”. Um leitor questionou-me. Perguntou-me o que eu achava da japonesa Josui, que se apaixonou pelo soldado norte-americano Allen, do romance “A flor oculta”.  Confesso que já havia me esquecido desse livro. Pudera, li-o em 1961 e depois dele, minha quantidade de leitura foi absurdamente elevada. Haja memória! Por coincidência, tenho essa obra em minha volumosíssima (porém caótica) biblioteca. Reli-o, pois, neste final de semana e não posso deixar de dar razão ao leitor que me questionou. Josui é, mesmo, personagem feminina inesquecível, sem tirar e nem por (desde que se tenha o romance na memória).

Não é que o livro seja desses que a gente esquece meses (ou mesmo dias) após concluída a leitura. Não se trata disso. Ocorre que já se passaram 54 anos (uma vida) desde que o li. Por isso é que desenvolvi o hábito da releitura. Para não cometer injustiça com grandes romances e seus autores. “A flor oculta” (cujo título original é “The didden flower”), foi lançado em 1960, pela Editora Globo, com tradução de Stela Altenbernd e Gilberto Miranda. Tratava-se do volume 19 da Coleção Catavento. Foi relançado em 1977 pela Edibolso.

O enredo lembra, de alguma forma, “Madame Buterfly”, do drama teatral de David Belasco que, por sua vez, se baseou numa história escrita pelo advogado norte-americano John Luther Long. A peça inspirou o compositor Giácomo Puccini a compor sua famosa ópera com esse nome, com libreto da dupla italiana Luigi Illica e Guseppe Giacosa que estreou em 17 de fevereiro de 1904 no famoso Teatro Scala, de Milão. A maioria das pessoas do meu círculo íntimo de amizades conhece essa história por haver assistido à apresentação dessa célebre peça musical e não por assistirem o drama no teatro ou por lerem o livro que a inspirou. Mas... isso não vem ao caso.

No romance de Pearl Buck, Josui é uma japonesa que havia vivido na Califórnia e que um dia regressou ao Japão. Ali, conheceu Allen, soldado norte-americano, em missão na terra do sol nascente. A despeito de suas diferenças culturais e realidades pessoais e familiares muito diversas, ambos se encontraram, se apaixonaram e... esbarraram no obstáculo quase que irremovível do preconceito racial. Nem a família de Josui aceitava Allen e nem a dele aprovava seu relacionamento com a bela japonesa. Óbvio que ambos sofreram horrores e se separaram. Mas desse romance resultou algo de concreto e bom: o nascimento de Lennie, fruto desse desesperado amor proibido, que conquistou simpatias gerais, e que é, ao fim e ao cabo, a tal “flor oculta” do título do livro. Se puderem, leiam essa memorável obra e se emocionem com o drama, com a emoção, com a tristeza e posterior saudade de Josui, personagem feminina de fato inesquecível. Eu me emocionei.


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Wednesday, November 25, 2015

Os anos parecem passar com tamanha rapidez, depois de certa idade, que não percebemos o início do inexorável processo de envelhecimento. Quando nos damos conta, todavia...lá estamos nós vivendo a mesmíssima situação de fragilidade que criticávamos em nossos avós ou em outras pessoas idosas. Há, contudo, uma forma racional da pessoa não sentir o impacto dessa fase da sua vida. Há um modo prático e eficaz de não cair na armadilha da solidão, que é o que de pior acontece a quem já passou a barreira dos 60 anos (depois das doenças, é claro). E qual é? Simples: trata-se de não abrir mão dos ideais e dos objetivos que sempre nortearam a sua conduta. E, quanto mais inalcançáveis eles forem, tanto melhor. Sempre existirá uma meta a ser perseguida. É indispensável, contudo, que mesmo tendo consciência de que o alvo perseguido é muito difícil, senão impossível de ser atingido, que não se pare de lutar, de tentar, com todas as forças, tornar concreta essa utopia.


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Sem favoritos


Pedro J. Bondaczuk


O início dos "playoffs", da fase semifinal do Campeonato Brasileiro de Futebol, mostra um equilíbrio poucas vezes visto nessa competição, ao longo dos seus 28 anos de disputa. Nenhum crítico que se preze arriscaria um palpite --- a despeito das vantagens para a segunda partida conquistadas tanto pelo Santos, após vencer o Corínthians, na Vila Belmiro, por 2 a 1, quanto pelo Cruzeiro, ao derrotar a Lusa, no Mineirão, por 3 a 1 --- sobre quem será o campeão.

Os quatro semifinalistas equivalem-se, tecnicamente, e têm, nos respectivos bancos, quatro dos melhores treinadores do País na atualidade: Emerson Leão, Wanderley Luxemburgo, Levir Culpi e Candinho. Para completar essa relação dos mais gabaritados técnicos, todos habilitados a comandar a seleção brasileira, faltaria incluir apenas os nomes de Luiz Felipe Scolari, do Palmeiras e de Antônio Lopes, do Vasco da Gama.

O Cruzeiro, teoricamente, tem pequena desvantagem em relação aos outros três adversários: é o único, dos quatro, envolvido em mais de uma competição, no caso, a Copa Mercosul, tendo pela frente um adversário duríssimo nesta semana, o Racing, da Argentina, em jogo a ser disputado em Buenos Aires. Mas a equipe mineira já deu provas do seu fôlego, ao eliminar, em pleno Parque Antártica, o Verdão de Scolari. Pode, portanto, repetir a façanha com a Lusa e conquistar o título.

Quanto ao mundial de vôlei masculino, disputado no Japão, infelizmente cumpriu-se a nossa previsão. Há duas semanas, afirmamos que a equipe brasileira poderia aspirar, no máximo, a uma medalha de bronze. Nem isso conseguiu. O importante é que a seleção revelou novos talentos (e que talentos!), ganhou experiência internacional (foi o que lhe faltou para a conquista do campeonato) e, caso seja mantida (e não há razões para não ser), tem todas as condições para conseguir o ouro olímpico, nas Olimpíadas de Sydney, do ano 2000. A necessária renovação foi feita. Agora, é manter a base e treinar, treinar e treinar...

(Artigo divulgado na revista eletrônica "Barão Virtual", na Internet, na primeira semana de março de 1999)

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Personagem que vive conflito entre culturas antagônicas

Pedro J. Bondaczuk

A escritora norte-americana Pearl Sydenstricker Buck (cujo nome de solteira era Pearl Comfort Sydenstricker), que viveu grande parte da sua vida – toda a infância e adolescência e alguns anos da maturidade – na China, produziu várias obras-primas literárias, a maioria tendo esse país por foco. De todos os seus mais de 110 livros, muitos de contos e de novelas, o meu predileto é justamente seu romance de estréia, publicado em 1930, “Vento Leste, vento Oeste”, que foi muito bem recebido pela crítica e que teve dezenas de edições mundo afora, inclusive no Brasil. Todavia, sua obra mais premiada, comentada e vendida foi “China, velha China” (título da primeira tradução para o português, mudado, nas posteriores, para “A boa terra”), lançado um ano depois, em 1931 e que vendeu 1,8 milhão de cópias somente no primeiro ano. E mais, por ele, recebeu, em 1932, o Prêmio Pulitzer e, em 1938, o Nobel de Literatura.

É uma obra-prima, sem dúvida. Mas o meu livro preferido é “Vento Leste, vento Oeste”, embora goste demais de tudo o que já li de Pearl Buck, sobretudo seus contos, gênero pelo qual tenho especial predileção em Literatura de ficção, ao qual, aliás, me dedico, há já algumas décadas, como esforçado “aprendiz de contista”. E por que tenho essa preferência, deixando “A boa terra” num segundo plano? Porque desse romance emerge a personagem feminina “mais” inesquecível das tantas criadas por Pearl Buck. E esse “mais” não é supérfluo. É plenamente justificável, já que, sem exagero, todas as mulheres criadas e retratadas por essa autora são inesquecíveis. E quem é essa protagonista que me impressionou tanto? É a chinesa Kwei-Lan, a narradora do enredo dessa história tão marcante que desperta tantas reflexões nos leitores.

Esclareço, para quem não teve o privilégio de ler este romance, que “Vento Leste vento Oeste” trata, em essência, do momento em que uma tradicional e cristalizada sociedade, com milenares e imutáveis costumes, no caso a chinesa, começa a incorporar, a princípio sem se aperceber, determinados elementos, digamos “modernos” do mundo ocidental. Essa incorporação, todavia, em certo momento, é, sobretudo, conflituosa. Implica na ruptura de alguns paradigmas, de padrões sociais estabelecidos há centenas, quiçá milhares de gerações. Por isso, gera perplexidades e inúmeras dúvidas em quem entra em contato com uma cultura que não é a sua. Os personagens vivem a aventura da inserção, que se mostra, compreensivelmente, traumática pois, de repente, percebem que não pertencem mais a mundo nenhum: nem ao tradicional, em que foram educados e muito menos ao “novo”, cujos elementos não conseguem entender em profundidade e assimilar por completo.

Kwei-Lan é produto típico dessa milenar cultura cristalizada, em que a mulher tem papel absolutamente definido, de submissão e de irrestrita obediência ao homem: ao pai, ao irmão e ao marido. Ela não contesta isso e nem se rebela contra. Foi educada assim. Para ela, é a situação “normal”. Certo dia, no entanto, Kwi-Lan deixa a nobre e refinada casa dos pais para se casar. O marido, todavia, não é alguém criado e educado nos mesmos padrões culturais dela. É um jovem que, embora chinês, recém retornou dos Estados Unidos, onde tinha se formado em "medicina ocidental". Estudando na América, assimilou os costumes do Ocidente, que passaram a ser os seus.

O conflito começa logo após a cerimônia matrimonial. O marido de Kwei-Lan rompe de cara toda a sua expectativa quanto à união conjugal. Propõe, por exemplo, que ambos durmam em quartos separados. Justifica sua proposta argumentando que o casamento havia sido arranjado pelas famílias, e não motivado pelo amor. Assim,  não consuma, como manda a tradição, a união conjugal, com a atônita esposa. Kwei-Lan, portanto, permanece virgem, e assim ficará enquanto não sentir amor genuíno pelo marido. Com a convivência, vai, aos poucos, assimilando as idéias e costumes do esposo e gostando deles (e dele), não mais por obrigação, mas por livre escolha.

Revelador é este monólogo de Kwei-Lan, habilmente urdido por Pearl Buck, que demonstra o profundo conhecimento da autora da cultura chinesa: “Vejo-me na festa do Dragão. Para esta circunstância, vestiram-me de seda vermelha e rosa, bordada com flores de ameixeira. Ardo em impaciência esperando a noite e a chegada de meu irmão que conduzir-me-á à beira do rio para ver passar a barca do Dragão”. E prossegue: “Vejo a trêmula lanterna de lótus que minha velha ama me presenteou no dia da festa das Lanternas.A ama ri-se de minha expressão quando, uma vez chegada a noite, acendo o pavio da bruxuleante vela”.

Kwei-Lan segue dando curso à suas lembranças: “Vejo-me estando com passos lentos, ao lado de minha mãe, quando entrávamos no templo. Observo como deposita o incenso na urna, e com ela me ajoelho piedosamente ante os deuses, com o frio do medo na alma”. Ao fim e ao cabo, indaga, perplexa: “Eu pergunto, irmã, como, com semelhante passado, me podia adaptar a um homem do caráter de meu marido. Para que servem todos meus dons? Decido pôr-me uma jaqueta de seda azul com botões negros incrustados de prata. Enfeitarei meus cabelos com flores de jasmim, calçarei meus sapatos pretos bordados de azul e saudarei meu senhor quando entrar... Faço-o assim, mas é em vão. Seus olhos correm imediatamente para outras coisas... As cartas abertas em cima da mesa, os livros. Para mim, nem um pensamento solitário”. Pobre e confusa Kwei-Lan, em sua perplexidade com atitudes que não compreende!!

Aos poucos, porém, essa típica moça chinesa vai mudando seus pensamentos: sobre si mesma, sobre sua visão do Ocidente em confronto com as idéias que lhe foram incutidas desde tenra infância. E assimila, quase sem perceber, costumes do marido. Confronta, em seu íntimo, as duas culturas tão díspares, em alguns pontos, antagônicas, e com isso constrói seu próprio lugar no mundo. Não revelarei mais nada sobre o enredo dessa obra-prima nem sobre essa personagem feminina, rica em experiências que, pelo que vive e pelo que faz, se torna absolutamente inesquecível na mente do leitor. Tire a prova. Leia essa maravilha de romance, que é “Vento Leste vento Oeste”, de Pearl S. Buck.


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Tuesday, November 24, 2015

Nas civilizações mais evoluídas do passado (nem tão remoto assim) e em algumas atuais da África, as pessoas de mais idade ocupavam, e ocupam, lugares vitalícios nos conselhos de Estado, graças à sua experiência, reputada como muito preciosa. Hoje, essa condição é, na maioria dos lugares, insensatamente desprezada. E o pior é que quem age assim vai, também (isto, é claro, se alguma doença, acidente ou ato de violência não o eliminar antes) envelhecer. O salutar e prudente costume de respeito ao idoso, que o jovem de hoje não contribui para implantar e tornar rotineiro; as leis de proteção à Terceira Idade, que não se empenha para que sejam cumpridas; e o pouco caso que demonstra em relação à defasagem das aposentadorias, entre outras tantas coisas, são circunstâncias que vão se refletir, um dia, sobre ele mesmo. Quem se importa, todavia, com isso? A imprensa, pelo menos, parece não se importar. A Terceira Idade é tema quase sempre ausente das páginas dos jornais diários, como estão cada vez mais ausentes também das redações os jornalistas veteranos, com sessenta anos ou mais, “banidos” precocemente da atividade. Há exceções, lógico, mas a regra é confundir juventude com genialidade, o que é absurdo, evidentemente.


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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet – WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria – Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

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Nossa dívida eterna


Pedro J. Bondaczuk


O pacote de ajuda ao Brasil, coordenado pelo Fundo Monetário Internacional, envolvendo quatro organizações multilaterais e governos de 22 países (EUA e outros 21 da Europa), no valor total de US$ 41,5 bilhões, foi anunciado na  "sexta-feira 13" passada (seria um mau agouro?), oficialmente, em Washington, na sede do FMI. Membros do governo deram um enorme suspiro de alívio e a mídia tratou o empréstimo externo (pois é disso que se trata) como a "salvação" nacional. Até seria, se o dinheiro fosse aplicado onde deveria ser. Não é preciso ser profeta para adivinhar que não será.

O Brasil já nasceu endividado. Em 1825, tomou seu primeiro empréstimo externo, de dois milhões de libras esterlinas, junto à poderosa casa Rotschild, em Londres, para "pagar" a independência a Portugal, conforme termos do tratado de paz firmado em 29 de agosto desse ano com o governo português. Dizem as más línguas que essa dívida não foi resgatada até hoje.  Depois disso, o País se endividou mais e mais, em valores muito maiores e condições cada vez piores, tendo desembolsado, em juros, um montante várias vezes superior ao total de dinheiro já emprestado. Desta vez, a "mordida" foi colossal: US$ 41,5 bilhões!

Serão as gerações futuras de brasileiros que terão que arcar com o "deslumbramento" do governo atual (que vai passar, como tantos outros) com a chamada "globalização", que vem dilapidando o já parco patrimônio nacional. Pode-se afirmar, com toda a certeza, que a dívida do Brasil não é externa, mas "eterna". Diante de tudo o que foi dito e escrito (de positivo), na imprensa (cada vez mais com o "rabo preso"), sobre o pacote do FMI, me lembro das palavras de James Baker III, na oportunidade secretário do Tesouro dos EUA, em 17 de janeiro de 1987, sobre um pedido de novo empréstimo do governo José Sarney naquela ocasião: "Dar dinheiro aos países devedores não solucionaria os seus problemas. Poderia, inclusive, piorar a sua situação, se o novo financiamento não pudesse ser produtivamente absorvido". E os US$ 41,5 bilhões atuais podem? Certamente que não! É possível que sirvam apenas para aplacar (se é que vão) a voracidade dos especuladores.

(Artigo divulgado na revista eletrônica "Barão Virtual", na Internet, na segunda semana de fevereiro de 1999)


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Escritora com “a China nas veias”

Pedro J. Bondaczuk

A escritora norte-americana Pearl S. Buck foi uma figura notável, e não somente por sua importância para a Literatura do seu país, do seu tempo, e do mundo, mas como figura humana excepcional: idealista, batalhadora e exemplar. Trata-se de personagem sobre a qual, há tempos, pretendia escrever, mas que, por um motivo ou por outro, sempre fui protelando. Mas à medida que ia adiando essa abordagem, colhia, mais e mais, informações sobre sua vida e sua obra. E crescia, exponencialmente, meu fascínio e admiração por Pearl Buck.  Creio, pois, que chegou o momento para tratar dela, mesmo que não seja com a extensão e com o brilho que ela merece.

De cara, o que me chamou a atenção, em particular, sobre ela foi o fato de, embora nascida nos Estados Unidos (na cidade de Hillsboro, em 26 de junho de 1892), essa mulher ter sido alguém que sempre trouxe “a China nas veias”. Creiam-me, não é exagero. A escritora foi apaixonada por esse país. Foi influenciada por sua cultura, por seus costumes e suas tradições, que não só assimilou, mas retratou fielmente em sua vasta e admirável obra, sobretudo ficcional. Abordou, com extrema sensibilidade, os vários contrastes culturais e sociais que essa milenar civilização, a mais antiga que sobreviveu, tinha e ainda tem. Desvendou, sobretudo ao Ocidente, muitos dos mistérios e costumes (para nós, exóticos) desse país que é o mais populoso do Planeta, pois detém, sozinho, pouco mais de um sétimo de toda a população da Terra (1,357 bilhão de habitantes).

Pearl Buck foi parar na China em fins do século XIX, em 1895, quando tinha, somente, três anos de idade. Foi levada para lá pelo pai, missionário presbiteriano, de imensa cultura, que dedicou a maior parte da sua vida à tradução da Bíblia do grego para o chinês (o mandarim), sem se descuidar da sua principal missão, que era a de evangelizar e prestar ajuda aos habitantes locais. Cresceu ali. Foi criada naquele país. Frequentou escola chinesa até os quinze anos de idade, tendo por preceptor um sábio confucionista. Foi apresentada, muito cedo, à dura realidade chinesa, tendo trabalhado em um abrigo para mulheres escravas e prostitutas. Estava tão identificada com a China que recebeu, até mesmo, um nome chinês: Sai Zhen Zhu.

Por tudo isso, não estranho que o foco de seus mais de 110 livros, entre romances, contos, ensaios, além de dezenas de novelas de rádio, tenha sido, quase que exclusivamente, esse país, que conhecia tão bem e pelo qual se afeiçoou tanto. Afeiçoar, aliás, é dizer pouco. Na verdade, Pearl Buck apaixonou-se pela China! A escritora completou sua educação nos Estados Unidos. Formou-se em Psicologia, em sua terra natal, em 1914, mas regressou à sua segunda pátria, para lecionar em uma escola presbiteriana local e cuidar da mãe doente. Em nova passagem pelos EUA, obteve, ainda, mestrado em Literatura, em 1926, pela Universidade de Cornell. A despeito da sangrenta guerra civil que então estraçalhava sua pátria de adoção, regressou à China, ciente dos riscos que corria, sobretudo por causa da hostilidade, por parte das facções em conflito, aos estrangeiros. Mas voltou por sentir no íntimo que ali muita gente inocente precisava de sua ajuda.

Pearl Buck só deixou de vez esse país tão problemático por haver sido expulsa dali, em 1934, pelos nacionalistas, que tomaram o poder, oportunidade em que foi removida, primeiro para o Japão e, posteriormente, para os Estados Unidos. Nunca mais lhe permitiram regressar à China, onde viveu metade da vida, apesar das inúmeras e sucessivas tentativas que fez para tal. Por estas e outras, nunca tive grande apreço (na verdade, não tenho nenhum) pela imensa maioria dos políticos.

A última vez que Pearl Buck tentou voltar à China foi alguns meses antes da sua morte (ocorrida em 6 de março de 1973, na cidade de Danby, aos oitenta anos de idade). Em vão! O mundo vivia, então, o auge da chamada “guerra fria” e o poder era exercido, com mão de ferro, por Mao-Tse-Tung. O argumento para a recusa foi o de que a escritora era “agente imperialista”. Ora, ora, ora... No entanto, tudo indica que, finalmente, os chineses estão prestes a lhe fazer justiça, mesmo que postumamente. Até que enfim, as autoridades locais têm um sopro de racionalidade, lucidez e bom senso. Notícias dão conta que a casa em que Pearl Buck e sua família viveram, na cidade de Zhenjiang, nas proximidades de Xangai, está sendo reformada e transformada em um museu em sua homenagem. Antes tarde do que nunca.

Ufa! Como foi difícil alguém entender que essa mulher inteligente, lúcida, idealista e batalhadora promoveu, no Ocidente, a China e sua cultura muito mais do que qualquer medalhão local, ou mesmo seu aparato oficial de propaganda, mesmo sem nunca contar com o mínimo reconhecimento por parte das autoridades!!! Como prova dessa eficiente divulgação, estão aí seus mais de 110 livros, muitos dos quais obras-primas da literatura mundial – que lhe garantiram, inclusive, a conquista do Prêmio Nobel de Literatura de 1945. Em torno de cinqüenta deles foram traduzidos e publicados no Brasil, podendo ser encontrados nas boas bibliotecas e em vários sebos, para quem queira adquiri-los – dos quais tratarei na sequência.

Ressalte-se e enfatize-se, todavia, quantas vezes for necessário, que ninguém tratou, e em tempo algum, com tamanha sensibilidade, capacidade de observação e interesse humano, dos milenares problemas chineses – que só agora vêm sendo parcialmente atacados pelas autoridades locais –  do que esta norte-americana que, reitero, sempre teve “a China nas veias”.


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