Sunday, April 26, 2015

Um tempo muito especial

Pedro J. Bondaczuk

O universo é, sobretudo, dinâmico. Nada nele está parado, estático, imóvel. Pelo contrário, tudo está em permanente movimento, em contínuo processo de transformação, em constante mudança de um determinado estado para outro. Pode-se dizer, grosso modo, que se trata de “moto perpétuo”.  E isso ocorre desde um princípio, se é que houve algum, especulado por nossa ciência como sendo um tal “Big Bang”, quando um concentrado de tudo o que há tinha (ou teria) o tamanho comparável ao de uma bola de gude e explodiu (ou teria explodido) com tamanha intensidade que o som dessa explosão poderia ser ouvido ainda hoje ecoando no espaço. Será? Quando isso ocorreu (se é que ocorreu)? Há 13,1 bilhões de anos, como se teoriza? Há mais tempo? Se sim, há quanto? Mistério! Insondável mistério, sobre o qual é possível, apenas, imaginar. Essa, por enquanto, todavia, é nossa “verdade”, até que alguém consiga desmenti-la (alguém, porventura, algum dia, conseguirá? Quem o sabe?!!!).

O admirável é o fato de nós, humanos, sermos capazes de ao menos especular a propósito de coisas de tamanha magnitude. O que somos em comparação com o inconcebivelmente grandioso universo em que estamos inseridos? Numa comparação grosseiríssima e sumamente imperfeita poderíamos nos comparar a um neutrino, a menor partícula subatômica do núcleo de um átomo, em relação á Terra. Ou, para ser mais preciso, com a nossa Via Láctea. Ou, apurando ainda mais a precisão, com o tamanho de todas as galáxias existentes, somadas. E, ainda assim, a comparação será exageradamente inadequada. Somos tão pequenos a ponto de sermos “invisíveis”, inexistentes, quando comparados a qualquer corpo celeste. No entanto... existimos. No entanto, nosso cérebro é capaz de captar tamanha imensidão, de teorizar a propósito e até de descobrir leis que regem todo esse misterioso e assombroso conjunto. Isso não o assombra, leitor? A mim sim.

Uma das conclusões a que podemos chegar, ditadas pela experiência, é que tudo no universo tende à desordem, ao colapso, ao caos. É a tal da lei termodinâmica da “entropia”, que se contrapõe a outra força poderosíssima, que cria tudo o que vemos pelos mais potentes e sofisticados telescópios: a da gravidade. Esta tende a pôr ordem na natural desordem universal. Ela é a responsável pela criação de galáxias, estrelas, planetas, nós etc.etc.etc. Todavia, sua constância e sua intensidade são tamanhas, tão ininterruptas e tão grandes, que ao final e ao cabo favorece o caos, levando tudo o que criou a explodir em determinado momento, desagregando o que agregou. A entropia prevalece. Matéria e energia, de alguma forma, se perdem com essa desorganização.

E o processo é contínuo, ininterrupto. A gravidade promove a formação de galáxias, estrelas, planetas etc., mas, por seguir atuando, acumula tanta pressão que acaba explodindo. Desagrega, pois, tudo o que agregou, reitero. Diz a lógica que em determinado momento a força gravitacional acabará, finalmente, vencida. Não conseguirá mais agregar matéria para formar sóis, galáxias, planetas etc.etc.etc. Todo o movimento, todo o dinamismo, toda organização  cessarão. O universo não disporá mais de calor. Será inerte e frio. Quando isso irá ocorrer (se é que ocorrerá, porquanto tudo isso, possivelmente, não passe de especulação, se não de simples fantasia)?. Como saber? Nossa miraculosa inteligência já faz muito em compreender pelo menos parte desse monstruosamente imenso processo.

E o que vem a ser essa tal de entropia? Em termos de termodinâmica, é a medida de desordem das partículas de um sistema físico. Para que o leitor, leigo como eu na matéria, entenda minimamente esse conceito, nada como recorrer a um exemplo prático para ilustrá-lo. Recorro, para isso, ao portal “Só Física” (WWW.sofisica.com.br) que exemplifica assim: “Comparando este conceito ao cotidiano, podemos pensar que, uma pessoa ao iniciar uma atividade tem seus objetos organizados, e á medida que ela vai os utilizando e desenvolvendo suas atividades, seus objetos tendem a ficar cada vez mais desorganizados”. Assim acontece (provavelmente) no universo, em relação a tudo o que nele há: galáxias, estrelas, planetas etc.etc.etc.

Se as coisas são realmente assim (e tudo indica que sejam), e se a tendência é que a entropia prevaleça, que o caos predomine, que o sol, a Terra, os demais planetas e satélites, todas as outras estrelas e galáxias (e nós) tendem a desaparecer e a não serem mais formadas outras novas, qual a conclusão a que podemos chegar? À óbvia! À de que vivemos um período (curtíssimo no contexto universal, comparável a mera piscadela de olhos) especial. É nele que nós e boa parte do que vemos – embora algumas estrelas estejam tão distantes de nós que, apesar de vermos sua luz, que viaja no espaço a 300 mil quilômetros por segundo, boa parte delas, se não a maioria, já se desintegrou, quiçá, há bilhões de anos e, portanto, já não existam mais – existimos. E, todavia... muitos de nós (certamente a maioria), não sabemos valorizar nossas vidas e nem o que fazer com elas. É a contradição das contradições, ora se é!


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Saturday, April 25, 2015

Vocês já notaram que todo o começo de alguma ação que venhamos a empreender, não importa de que natureza, é, via de regra, alegre, promissor e não raro eufórico? Pois é. Dificilmente, porém, conseguimos manter o mesmo pique, o mesmo entusiasmo, a mesma determinação até o fim dessa jornada, mesmo que bem-sucedida. Encaramos o sucesso (quando o conseguimos, claro) como pequeno demais face ao esforço despendido e nosso sentimento, então, em vez de ser o de euforia, é o de decepção. Iniciamos uma longa caminhada com o máximo de energia, certos de que chegaremos ao destino da mesma maneira, ou seja, alegres e bem-dispostos, mesmo que cansados. Quase nunca chegamos. Vamo-nos desgastando ao longo da empreitada, esmorecendo, perdendo o ímpeto e a força, nos cansando e, não raro, sequer chegamos à meta pretendida. Ficamos, lamentavelmente, pelo caminho.


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
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Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

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Produtividade vence crises


Pedro J. Bondaczuk


O País está sendo submetido a um duro tratamento da doença econômica que há anos o acometeu, tendo que tomar um remédio amargo para deter o processo hiperinflacionário que havia se instalado na ressaca dos Planos Cruzado I e II e Verão, e para pôr fim à crise que afeta a toda a sociedade.

Há quem tema que a terapia esteja descambando para o exagero, ou por inadequação do “medicamento”, ou por erro na dosagem. Outros, porém, entendem que não há caminhos alternativos. Ou o Brasil organiza a sua economia, modernizando-a e tornando-a mundialmente competitiva, ou terá que amargar a decadência, num mundo em plena transformação, onde o que conta é a eficiência, o resultado final.

A chave de tudo, não somente para os brasileiros, mas para outros povos, qualquer que seja o estágio de desenvolvimento que atravessem, está um conceito simples, que vem sendo crescentemente valorizado: a produtividade. Ou seja, a utilização inteligente, racional e planejada dos recursos disponíveis para produzir cada vez mais, sem mutilar a qualidade. É disso que o País precisa, principalmente diante da sua carência de capitais.

O presidente Collor de Mello ressaltou esse aspecto, no discurso que proferiu anteontem, em Maceió, se referindo à reativação do Proálcool. No entanto ele pode (e deve) ser estendido a toda atividade produtiva nacional. Momentos de crise não admitem acomodação.

Situações críticas podem tanto destruir uma pessoa (ou uma sociedade), quanto servir de degrau para a sua evolução. E em instantes de dificuldade, quando não se pode recorrer a ninguém para nos socorrer, quando tudo e todos parecem estar contra nós e temos que sair de alguma enrascada por nossa própria conta, que lançamos mão daquele potencial de criatividade e força que possuímos e muitas vezes nem sabemos que temos, ou somos incapazes de dimensionar.

O momento é grave e angustiante para os brasileiros. O último boletim do Dentro de Estudos da Conjuntura do Instituto de Economia da Unicamp, por exemplo, prevê o aprofundamento da recessão para o próximo ano. Isto é mortal para um país que tem a necessidade inadiável de gerar anualmente 2,5 milhões de novos empregos.

Em épocas de salários achatados, não há outro caminho para se ganhar melhor, do que o de produzir mais. Não se admite, em ocasiões como esta, o subaproveitamento de recursos: humanos, tecnológicos e financeiros. Caso se aja assim, corre-se o risco de estagnação. Afinal, os senhores de nossos destinos não são (e nem devem ser) os outros, governos, ideologias ou instituições. Somos nós mesmos, quando de fato queremos erigir um mundo melhor.  

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 31 de agosto de 1990)


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Preciosidade literária

Pedro J. Bondaczuk

O livro de poesias “Permanência”, de Márcia Mendes, é uma preciosidade, qualquer que seja o aspecto que se o aborde. Sobretudo, o literário, mas não somente ele. A edição é primorosa. Além disso, conta com prefácio e textos de orelha e contracapa explicativos e pertinentes; E o conteúdo... é  desses de tirar o fôlego do leitor que, além de se emocionar com os poemas, é induzido a refletir sobre aspectos importantes e até transcendentais da vida. Apaixona-se, de imediato, pela autora. É inevitável. Nota dez, portanto, para a editora “Mar de Letras” por este feito editorial.

A organização do livro, ou seja, a distribuição ordenada e coerente dos poemas, coube (conforme a própria Márcia informa) ao ilustre poeta Pedro Lyra, tido e havido, com justiça, como “referência de grande valor na literatura brasileira pós-modernista”, como o professor Antonio Miranda o caracteriza. Ele explica, no texto de contracapa, qual o critério adotado na distribuição das composições, de acordo com suas vertentes temáticas: “Nas cinco partes do livro, subintituladas com expressivos sintagmas extraídos dos versos das peças de abertura, ela (Márcia Mendes) reúne poemas que, numa incisiva linguagem, abordam temas fundamentais não apenas do nosso tempo: o amor, em I) No Caminho; o universo pessoal feminino, em II) Meu Risco; o dia a dia, em III) Vácuo da Vida; dramas sociais e existenciais, em IV) Na Curva do Tempo; e, como em todo poeta consciente do seu ofício, alguns aspectos do fazer poético, em V) Urgência”.

Em textos anteriores comentei a pertinência do título do livro e apresentei um pouco do que a autora é, fez e pensa do mundo e da vida. Para tratar do conteúdo (que só será devidamente valorizado pelo leitor, óbvio, pela leitura da obra), recorro a nomes ilustres que, de alguma forma, participaram da sua edição. Como o escritor e professor Godofredo de Oliveira Neto, docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que escreveu, na orelha de “Permanência”: “Ao consorciar a beleza da arte poética a elevada mensagem de paz, como no poema ‘Perdidos’, que abre esta coletânea, Márcia Mendes envolve o leitor nos mistérios cavernosos do universo e seu eu-lírico, ao ‘se deixar beijar pelas palavras’, desbasta veredas por onde se embrenham os mais finos versos. Entre o inconsciente e as sugestões do pensamento, a autora busca a síntese através da linguagem”.

Já a poetisa, editora e tradutora Thereza Christina Roque da Motta – membro da Academia Brasileira de Poesia e do Penn Clube do Brasil – fez a seguinte observação, em determinado trecho do prefácio                       (intitulado “O dom da permanência”): “(...) O que Márcia procura ela encontra. O que ela sente, ela diz. O que ela pensa, sente, chora, espera, ama, ela escreve. E através dessa escrita, ela descreve o universo ao qual pertence de modo inalienável. Sua extrema consciência de si e do outro, sua candura, sua visão humaníssima estão presentes nos poemas desse Permanência, pois é a permanências que os poemas buscam. Ela não sabe o que está fazendo o tempo todo, ninguém sabe, mas ela busca, como todos buscam entender, descobrir, desvendar e revelar naquilo que escrevem. O poeta nunca sabe quando escreverá seu próximo poema, mas ele sempre tem de ser definitivo, como se fosse o último, como se dividisse o tempo em antes e depois dele, por ser inesquecível. Ninguém é o mesmo depois de ler um poema como esse. Nele está a fórmula da eternidade e da permanência”.

Ao cabo da leitura do livro, corroboro estas opiniões. Foram exatamente estas as impressões que “Permanência” deixou em meu espírito. Refleti, me emocionei e, sobretudo, me apaixonei por todos os poemas, como este, que selecionei a esmo, na impossibilidade de reproduzir todos eles:

Farta

“Estou farta!
Da fome no mundo,
Da decadência elegante,
Da deseducação dos ricos,
Do descaso ao semelhante,
Do roubo, da violência, da corrupção,
Dos falsos profetas,
Dos falsos amores,
Das dores, terrores e dissabores!

Morrer é pouco.
Quero desencobrir desejos,
Despir-me da couraça do passado
Insosso.
Quero o encontro da areia,
No litoral.
Quero suspender saberes,
Literais,
E quem sabe
Se no rastro do horizonte
Adentro o sonho
De um mundo melhor?!”

“Permanência” é, creiam-me, uma preciosidade: literária, poética, editorial. O poeta Pedro Lyra acentua, a propósito: “O leitor consciente se encontrará em muitas passagens desse livro, para se ler com olhar crítico. E permanecer”. Viva você também essa experiência estética. Confira e se embeveça, como eu fiquei embevecido.


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Friday, April 24, 2015

Os sintomas de erosão da autoconfiança, nossa ou alheia, são perfeitamente detectáveis, desde que tenhamos sensibilidade para senti-los, vê-los e identificá-los. Nem sempre, todavia, se tem. Aliás, isso é mais visível nos outros, do que em nós mesmos. A insidiosa instalação do medo, que antecede o colapso, o temido fracasso, igualmente não é muito difícil de perceber. Basta ser bom “bisbilhoteiro”, se não observador, que não passa de eufemismo. Mas o processo negativo pode ser interrompido e, não somente isso, pode ser revertido. Concordo com John Steinbeck quando diz que “o homem pode lutar contra grandes coisas”. E como pode! Destarte, pode vencê-las (como pode ser vencido por elas, claro). Notável (e verdadeira) é esta exclamação que John Steinbeck coloca, na boca de um dos personagens de “O inverno dos descontentes”: “Que grande homem um homem pode tornar-se!” Mas o oposto também é possível. Podemos dizer, dependendo das circunstâncias: “Que grande canalha um homem pode se tornar!”. E não pode?! Infelizmente, sim

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À sombra dos acordos


Pedro J. Bondaczuk


Os Estados Unidos e a União Soviética vão para a reunião de Genebra (visando a obtenção de um acordo global que reduza as armas nucleares) dentro de apenas 18 dias, numa posição de profunda desconfiança mútua. À medida em que se aproxima o dia do início das conversações, acusações e denúncias se multiplicam, em Washington e em Moscou, tendo desta vez por pomo da discórdia o mirabolante projeto do presidente norte-americano, Ronald Reagan, a Iniciativa de Defesa Estratégica, vulgarmente conhecida como “Guerra nas Estrelas”, ou “starwars”, no idioma original.

Já tivemos inúmeras oportunidades para expressar nosso cepticismo quanto a tais conferências, que tudo leva a crer se tratem apenas de uma maneira de se dar uma satisfação à opinião pública e a levar à esperança de que ainda é possível deter a vertiginosa corrida para a destruição.

Nunca se negociou tanto a esse respeito quanto da segunda metade da década de 70 até o ano de 1982. E o que foi que aconteceu de prático? Conseguiram-se dois acordos Salt, um dos quais permanece até hoje esquecido em alguma gaveta qualquer do Senado norte-americano, à espera da competente ratificação. Apenas isso.

Em contrapartida, jamais, em outra época nenhuma, o mundo conheceu uma corrida armamentista tão intensa quanto neste período de tantas conferências e negociações. O negócio de armas movimenta hoje tamanha soma de recursos, que de maneira nenhuma as superpotências desejarão matar essa “galinha dos ovos de ouro”, mesmo que a manutenção dessa situação implique numa insensata “roleta russa” nuclear.

Apenas para que o leitor tenha uma pálida idéia do dinheiro envolvido na questão, basta dizer que a “Guerra nas Estrelas” completa deverá custar aos EUA a astronômica cifra de US$ 1 trilhão, o que representa dez vezes o valor da dívida externa do Brasil ou 120% do endividamento global do Terceiro Mundo.

Apenas para este ano, para início das pesquisas, está sendo destinada uma verba de US$ 20 bilhões. Ou seja, um quarto daquilo que devemos no Exterior. Ou dez vezes o endividamento externo da Bolívia.

Todo este dinheiro circula não apenas nos EUA. Diversas matérias-primas são adquiridas em vários outros países, bem como componentes e ligas especiais (inclusive no Brasil). Por essa razão, os protestos internacionais são tão débeis e sem grande convicção. Todos, com maior ou menor intensidade, têm interesses em jogo.

A União Soviética grita, esperneia, deblatera, faz-se de vítima, mas investiu nos últimos anos muito mais do que a superpotência rival na corrida armamentista. Com uma agravante: sua riqueza nacional é apenas um quarto da norte-americana e não é necessário ser nenhum gênio para se concluir que o sacrifício imposto à população russa tem sido bem maior.

Estima-se, otimisticamente, que 40% de toda a atividade econômica da URSS gira em torno de armas. Com isso, o cidadão soviético ser vê privado de mais automóveis, geladeiras, fogões e outros tantos utensílios que a moderna tecnologia desenvolveu para tornar menos penosa a vida das pessoas.

É irônica, mas rigorosamente verídica, a constatação de que hoje “a indústria da morte” tem papel fundamental para a manutenção pessoal de milhões de indivíduos. Por isso ela vem crescendo e segundo prognósticos da Agência para o Desarmamento dos EUA, deverá movimentar no corrente ano mais de US$ 1 trilhão.

Fica a pergunta no ar: o que, afinal, soviéticos e norte-americanos vão negociar em Genebra, a partir de 12 de março? A redução das armas nucleares, com certeza, não haverá de ser!

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 22 de fevereiro de 1985).


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Amantes em vez de adeptos

Pedro J. Bondaczuk

O carismático poeta espanhol, Federico Garcia Llorca, afirmou em certa ocasião: “A poesia não quer adeptos: quer amantes”. Ou seja, não admite meios termos. Ou você se apaixona por ela ou ignora-a. É nisso que ela se diferencia de outros gêneros: no sentimento, na empatia, na cumplicidade que estabelece entre autor e leitor. Nesse aspecto, todo poeta (refiro-me aos bons) é carismático. Consegue, simultaneamente, nos fazer sentir a mensagem que se propõe a transmitir e refletir sobre seu significado. E a poetisa fluminense Márcia Mendes, autora do livro “Permanência”, publicado pela editora “Mar de Letras”, não foge à regra. Conta com esse carisma. Faz, de quem a lê, não propriamente apenas admirador, mas, sobretudo, “amante” de sua poesia.

Como e por que esse fenômeno ocorre? Bem, poderia citar um sem número de explicações, ou de tentativas de explicar, mas nenhuma delas convence. Pelo menos eu não me sinto convencido por nenhuma delas. Para mim, isso é inexplicável. Prefiro a explicação, que nada explica, dada pelo mesmo Garcia Llorca, que citei no preâmbulo dessas reflexões, que afirmou: “Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas”. Ou não é?!!! Como se forjam os poetas? De onde lhes vem esse talento de nos comover, apaixonar e refletir?

Creio que seja inato, embora o ambiente em que o poeta nasce e vive possa ter alguma influência. Vejam o caso de Márcia Mendes. Ela nasceu (em 7 de janeiro de 1969) em um lugarejo bucólico, próximo à cidadezinha litorânea de Mangaratiba, no Estado do Rio de Janeiro. Passou a infância em um ambiente que rescendia a poesia, entre o mar e a mata atlântica. “Só isso fez dela a poetisa sensível e carismática que é?”, perguntaria o leitor mais cético. Claro que não! Fosse “apenas” esta a causa, todos os moradores dessa localidade seriam poetas, o que, evidentemente, não são. Entram aí, além do talento potencial, as influências do meio ambiente, da família, da vivência e da leitura, entre tantos e tantos fatores.

A própria Márcia deixa isso claro na entrevista que deu a Selmo Vasconcellos, publicada no portal dele (WWW.selmovasconcellos.com.br), ao informar: “Vivi com meus avós paternos num lugarejo próximo a Mangaratiba.  Era uma casinha rosa de janelas verdes, construída por vovô, espremida entre o mar e a mata atlântica. Não havia luz naquela época.  As noites eram proseadas na varanda, à luz do lampião à querosene. Minha avó, catalã, contava histórias de sua cultura, enquanto vovô lia em voz alta a poesia de Pessoa, Bandeira, Cecília e Drummond.  A leitura está entronizada de tal forma na minha estrutura psíquica que faz parte do meu Eu.  Leio tudo. Busco a leitura com voracidade, inclusive novos autores.  Gosto de encontrar na pluralidade, o singular de cada autor, o original, aquilo que me traz espanto”. Entendo que, sobretudo, ambiente, família e talento inato, os três fatores simultaneamente, fizeram de Márcia Mendes a excelente poetisa que é. Tudo isso e muito mais...    

O carismático poeta chileno Pablo Neruda, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, afirmou, certa feita, em uma de suas tantas entrevistas: “A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem”. De fato, tem. Fala, pois, diretamente à alma e não, propriamente, ao intelecto ou prioritariamente a ele. É algo muito mais para ser sentido do que propriamente entendido. E essa capacidade Márcia tem de sobejo. Não por causa de sua profissão de psicóloga, que sonda a mente dos pacientes em busca de problemas que os afligem, como os desavisados podem supor. Pode até ser que ajude, mas não é essencial. Fosse assim, todos profissionais dessa área seriam poetas. Todavia, raros são.

A própria Márcia define sua aptidão, neste trecho da citada entrevista que deu a Selmo Vasconcellos, ao fazer esta declaração: “Sabe, Selmo, eu acho que o poeta é um alquimista capaz de transformar o cotidiano.  O verdadeiro poeta transforma as lentes, pinta as telas, traz colorido à vida.  Nossas emoções traduzem sentimentos. Sentimos aquilo que nos emociona. O poeta percebe as sutilezas que envolvem a linguagem e o sentir, assim, consegue decifrar esse enigma e mostrar o avesso do feio, do triste, do mal.  Não há impacto, o impacto está na percepção do poeta.  Escrevo em cafés barulhentos, em aviões, em aeroportos, no silêncio da madrugada, ou no meio do dia. Escrevo quando as palavras me alcançam.  A palavra é viva.  Enfileiram-se e dão concretude aos meus pensamentos que traduzem as imagens mentais que percebo”.

Partilho com você, paciente leitor, o poema abaixo, publicado no livro “Permanência”, de Márcia Mendes, destes que a gente gostaria de ser o autor, por expressarem a caráter o que pensamos a respeito:

Morte

“Papel em branco?
Não temo.
Temo a morte que tem cara feia
Que faz o coração se soltar do peito
E sangrar,
E doer…
Morte tem cara?
Chega sem que se espere.
Entra sem ser convidada,
Suspendendo amores,
Interrompendo dizeres,
Levando pessoas
Sei lá pra onde,
Trazendo saudade.
Mal-educada, atrevida, insolente!
Morte é fio cortado
É esquina dobrada
É rosto escondido.
Dona Cotinha, carpideira convicta
diz que já viu:
É mulher, veste preto e cheira a terra.
Pro padre ela não tem rosto.
Pensando bem morte deve ser homem,
Veste branco e cheira a flores.
Somente ela foi capaz de acabar
Com dores intermináveis,
Sofrimentos inaceitáveis,
Viveres mortos.
Isolamento de tudo…
É a morte um exílio?
Pode ser.
Só sei que
Não sei morrer”.

Agora, respondam-me: como não se apaixonar por uma poesia assim?!!! E, sobretudo, por uma poetisa tão competente e convincente?!! Sim, leitor, como?!!!Voltarei, certamente, ao tema.


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Thursday, April 23, 2015

Sempre afirmei, e reitero, que não há nenhuma fórmula infalível para o sucesso. Aliás, para nada, principalmente para a felicidade. O que existe são pistas, indicações, procedimentos, que tendem a ajudar a nos tornarmos bem-sucedidos. John Steinbeck coloca esta pertinente afirmação na boca de um dos personagens: “Que coisa alarmante é o ser humano, um conjunto de arruelas, botões e registradores, dos quais só podemos interpretar alguns, ainda assim sem muita exatidão”. Por isso, fazer previsões sobre o sucesso ou o fracasso de quem quer que seja é um exercício que, além de antipático, é, sobretudo, inútil. Somos incapazes de prever, com mínimo potencial de precisão, sequer o que pode ocorrer nos próximos cinco minutos, quanto mais nos próximos dias, meses, anos e décadas. E antes de tudo é preciso definir, com precisão, a que tipo de sucesso estamos nos referindo. Ou seja, êxito no quê?


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Seres humanos não se classificam por raças


Pedro J. Bondaczuk


A história jamais se repete e, por essa razão, os erros cometidos no passado, que levaram civilizações à decadência e à posterior extinção, acabam sendo esquecidos. Caso não o fossem, sofrimentos inúteis, destruições insensatas e massacres criminosos seriam certamente evitados.

Se porventura a humanidade soubesse não reincidir em equívocos praticados em outros tempos, os povos teriam queimado etapas na busca de uma sociedade ideal, onde houvesse fartura, equilíbrio e solidariedade. Em que todos pudessem se sentir realizados e, conseqüentemente, felizes.

Mas por causa, exclusivamente, da nossa estupidez, o simples desejo de coisas tão corriqueiras e fáceis de se conseguir hoje soa como utopia, como uma enorme fantasia, como algo que extrapola, em muito, o plano da realidade.

O racismo, nas mais variadas formas em que se apresenta, já redundou, entre outras coisas, em duas guerras mundiais neste século. A primeira foi causada pela revolta dos bósnios e sérvios, que se recusavam a ver parte dos seus territórios anexada à Áustria. E por razões puramente étnicas. Por isso, Gavrilo Princip, integrante de um grupo nacionalista chamado "Mão Negra", que costumava manter reuniões na taverna "Grinalda Verde", em Belgrado, foi incumbido de uma missão que ele julgava sagrada e que no entanto se revelou desastrosa. Ou seja, deveria assassinar o arquiduque Francisco Ferdinando, que estava com viagem marcada para a Bósnia, para comandar exercícios militares.

E ele cometeu, de fato, esse ato de violência, que encarava como fundamental para a sua causa, em 28 de junho de 1914. Com isso, conseguiu deflagrar a Primeira Guerra Mundial, que já vinha "fermentando" há tempos e que carecia somente de um pretexto para começar.

Passados 21 anos dessa conflagração, e eis que outra, muito mais escabrosa e cruel, surgiu, por idênticos motivos: por pretensa superioridade de uma etnia sobre outra (ou sobre outras, para sermos mais exatos). Foi deflagrada por uma questão indefinida, vaga, tola ao extremo, chamada "racismo".

O que, em termos de seres humanos, se entende por "raça"? A separação de pessoas por tal parâmetro é indigna. Animaliza os homens. Estes possuem a identidade do seu poder de raciocínio, do livre-arbítrio, do fato de serem "imagem e semelhança" da divindade. Raça é algo que se aplica para seres inferiores, para os animais, não para pessoas.

Mas é este conceito estúpido e ilógico que ainda prevalece hoje. Na África do Sul, a maioria do povo que habita esse país foi privado por anos de todos os direitos em sua própria pátria somente por uma questão de cor da pele. Nos Estados Unidos, os conflitos raciais permanecem sempre latentes. Na União Soviética, distúrbios étnicos entravaram a evolução da "glasnost" e da "perestroika". E o racismo se multiplica pela Grã-Bretanha, Itália, França etc. Que pena que a história nunca se repita!

(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 5 de setembro de 1989).


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“Todo mundo quer permanência”

Pedro J. Bondaczuk

A Literatura é fascinante por todo e qualquer motivo que se considere. O livro é um mestre onipresente, o tempo todo à nossa disposição, pronto para nos ensinar, orientar, emocionar etc.etc.etc. e, sobretudo, para nos fazer refletir. Basta, somente, que estejamos dispostos a empreender este aprendizado, essa deliciosa aventura da inteligência, do saber e do espírito e que não o tenhamos, apenas, como objeto decorativo, como muitos fazem. Manda o bom senso que façamos dele companheiro constante e indispensável. Tenho pena de quem se priva, ou que seja privado, do privilégio da leitura”.

Foi dessa forma que iniciei texto recente – que alguns consideram ensaio curto e que eu classifico de crônica – intitulado “Isso também passará”. Até parece que quando escrevi essas palavras estava me referindo especificamente ao volume de poesias da poetisa e psicanalista fluminense Márcia Mendes (que ela generosamente me presenteou, com a devida dedicatória), intitulado “Permanência”, oportuno relançamento da Editora “Mar de Letras”. Não estava me referindo a ele. Mas bem que poderia (e principalmente deveria) estar. O que escrevi nessa crônica cabe exatinho, como uma luva, nesse caso. A referida obra satisfaz tudo o que espero encontrar em um bom livro, notadamente de poesias, quando me preparo para lê-lo: ensina, orienta, emociona e, sobretudo, induz á reflexão. É a conclusão a que chego agora, ao terminar, embevecido, sua leitura.      

Poesia não pode ser lida como se leem textos de outros gêneros, como romance, conto, novela, crônica etc.etc.etc. Tem que ser degustada, saboreada, sentida, como uma comida saborosa, como nutritivo maná, como a ambrosia dos deuses, posto que delícia para o intelecto e, sobretudo, para o espírito e não para a carne. A leitura tem que ser feita sempre em voz alta, para que os ouvidos identifiquem o som de cada uma das palavras escritas, para que a alma baile leve e solta com sua musicalidade. Sua mensagem deve ser interpretada pelo leitor, respeitando, rigorosamente, a pontuação. Além disso, poesia exige releituras, não duas ou três, mas uma quantidade incontável delas. É assim que as leio. Foi assim que proporcionei régio banquete à alma com os versos de Márcia Mendes.

Ainda na citada crônica, observei: “Meu objetivo é o de conferir à obra que pretenda produzir certo caráter de permanência”. Convenhamos, todo escritor que se preze age da mesma forma. Ninguém escreve textos, digamos, “pret-a-porter”, do tipo “use e jogue fora”. Espera que permaneçam e, se possível, até o final dos tempos. Mas... Ponderei, na sequência: “Essa condição (a da permanência) suscita infindas considerações. Por mais que pretendamos e nos empenhemos, nada no mundo é permanente. Vou mais longe: nada no universo é. Tudo está em permanente mudança”.

Lembrei, então, o óbvio: “Estrelas nascem, estrelas se extinguem, estrelas explodem, ou seja, mudam. Novas galáxias surgem,  velhas galáxias desaparecem, muitas galáxias se fundem e vai por aí adiante. Tudo muda o tempo todo. Nós mudamos, de um dia para o outro, sem que nos apercebamos. Heráclito de Éfeso já havia chegado a essa conclusão, a da inflexível mutabilidade das pessoas e das coisas, por volta do ano 500 antes de Cristo. O lúcido filósofo escreveu a propósito: ‘A permanência é uma ilusão. Somente a mudança é real’. E ilustrou sua tese com a célebre afirmação: ‘É impossível pisar duas vezes no mesmo rio’. E não é? A calha pode até permanecer a mesma (posto que só por algum tempo, e quanto não importa), mas as águas que correm nela evidentemente, jamais serão”.

Sustento essa opinião, porém observo que o fato da permanência absoluta ser uma impossibilidade, nem por isso podemos abrir mão de tentar tornar nossas obras permanentes, mesmo que não por todo o tempo, mas pelo menos por algum (de preferência por muito) tempo. É o que Márcia Mendes faz, esbanjando talento e sensibilidade. Seu livro é daqueles que não podem ser analisados em um único texto, sob pena de se cometer tremenda injustiça com a autora e de se deixar o leitor no ar. Certamente, voltarei ao tema. Contudo, deixo-lhes, como preciosa e requintada “entrada”, de régio banquete, este poema que dá título à obra e que Márcia dedicou à avó:

Permanência

“Gostava de crisântemos na janela.
Flor da Nobreza.
Nâo eram bonitos, nem feios,
Mas aguentavam aquele calor suburbano.

Um dia, pensando no tempo
Ela acordou rica de tristeza,
Pegou um crisântemo amarelo,
Botou numa taça de vinho
E foi viver mais.

Todo mundo quer permanência”.


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