Drogas e prevenção
O ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas, o diplomata peruano Javier Perez de Cuellar, destacou, num extenso relatório divulgado ao cabo de sua gestão de dez anos no comando da ONU, que o tráfico e consumo de drogas, ao lado da pandemia mundial da Aids (questões intimamente associadas), são os maiores problemas enfrentados pela comunidade internacional na atualidade. Todavia, enquanto as soluções se mostram extremamente tímidas, quando não tardias, o vício avança por toda a parte. E seus agentes enriquecem à custa da desgraça de milhões, rindo das autoridades e permanecendo impunes na maioria das vezes. Quadrilhas de narcotraficantes formam autênticos exércitos – como ocorre, por exemplo, na Birmânia, ou nos morros do Rio de Janeiro – desafiando o poder constituído.
O Brasil não está a salvo desse flagelo. Pelo contrário. De simples rota do tráfico, o País já se transformou num grande mercado consumidor. O alvo tem sido o indivíduo mais desprotegido e vulnerável da sociedade, o que não dispõe de experiência alguma para evitar as armadilhas dos agentes do vício: os jovens. Ou, o que é pior, crianças na faixa dos 9 aos 11 anos de idade. Em fins de setembro de 1994 foi realizado, em Belo Horizonte, o “1º Congresso Brasileiro de Prevenção ao Uso de Drogas”, que reuniu grandes especialistas na matéria.
Dados altamente preocupantes foram divulgados no encontro, que não se ateve ao diagnóstico do problema, mas apresentou um conjunto de estratégias, para tornar mais eficientes o combate tanto ao uso de entorpecentes e estupefacientes, quanto à sua venda. Uma das constatações dos congressistas foi a de que 25%, em média, dos adolescentes brasileiros já são usuários de algum tipo de substância tóxica, como o crack, a cocaína, a maconha, a morfina, a heroína ou a cola de sapateiro. Isto sem contar o álcool. Em algumas capitais, estas cifras chegam a 30%.
A chamada “Carta de Belo Horizonte” propõe uma série de medidas, tanto na área da repressão dos traficantes, quanto de recuperação de viciados e de prevenção ao vício. Uma delas chama, particularmente, a atenção, pela sua simplicidade e eficácia. Trata-se da proposta de implantação imediata de programas educativos sobre drogas nas escolas públicas e privadas, nos cursos de 1º e 2º graus. A questão é a de que os esclarecimentos sobre os efeitos das substâncias tóxicas sejam incluídos nas disciplinas de Ciência e de Biologia e que o enfoque seja primordialmente científico.
Faz sentido. A própria “Carta de Belo Horizonte” justifica a razão dessa tônica. Propõe uma abordagem “sem dramatismo, sem sensacionalismo, sem terrorismo, sem lições de moral” porque, “se há uma linguagem que o jovem aceita bem é a da ciência”. Contudo, admite que “antes de educar nossos filhos, precisamos educar nossos mestres”. Trata-se de um investimento que precisa ser feito – a par de medidas de repressão ao tráfico, de punição a mais severa possível aos traficantes e de recuperação dos viciados – e com urgência, para prevenir uma situação futura que se torne incontrolável. Cabe aos pais cobrar essas medidas das autoridades de ensino e compete-lhes, sobretudo, estabelecer uma vigilância diligente, sábia, sadia, ininterrupta e inteligente sobre os jovens, para que eles não venham a enveredar por um caminho que na maioria das vezes não tem volta.
(Capítulo do livro “Por uma nova utopia”, Pedro J. Bondaczuk, páginas 23 a 25, 1ª edição – 5 mil exemplares – fevereiro de 1998 – Editora M – São Paulo).
Thursday, February 16, 2006
Wednesday, February 15, 2006
Evasão e repetência
Evasão e repetência
Os políticos brasileiros, em especial os candidatos a cargos executivos – prefeituras, governos de Estado e Presidência da República – sempre que em campanha, nomeiam, invariavelmente, a educação como sua prioridade. Não estão errados nessa escolha. Todavia, após eleitos, ou não cumprem suas solenes promessas de palanque, ou mostram que possuem uma visão distorcida, quando não mal-intencionada, da questão ou forjam justificativas descabidas para sua falta de competência. Quando investem nesse setor, invariavelmente o fazem no sentido físico. Ou seja, na construção de prédios escolares, não raro superfaturados, deixando de lado o essencial: o ensino.
Sempre se disse que o principal problema educacional brasileiro era a evasão escolar. Não há dúvida de que é algo a ser levado em consideração. Dados de 1988 davam conta que mais de 80% das crianças em todo o País não completavam o primeiro grau. Informes mais recentes, do Ministério da Educação, que foram repassados este ano ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), situam esse percentual em 39%, que ainda assim é alto.
Todavia, um recente estudo, elaborado pelo Laboratório Nacional de Computação Científica do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica, sob a orientação do físico e educador Sérgio Costa Ribeiro, detecta um problema ainda mais grave, raramente mencionado ou levado em conta por políticos, pedagogos e planejadores. Trata-se da repetência. O índice dos que repetem é altíssimo e aumenta de ano a ano. Hoje a taxa situa-se em cerca de 50% já na primeira série do primeiro grau.
Nas escolas particulares, além de se constituir num ônus (muitas vezes intolerável para os pais), a reprovação traumatiza os alunos. Alguns têm toda sua vida modificada em decorrência disso. Adquirem complexos, criam bloqueios e não conseguem, de forma alguma, obter as notas necessárias para passar de ano. Recebem (e assumem) a pecha de “burros”. Acabam desistindo de estudar. Nas unidades públicas, a única diferença é a ausência do prejuízo material, da perda total do dinheiro despendido com as mensalidades. Não são poucos os casos de pais que, após a segunda repetência do menino ou menina, concluem, desalentados: “Filho, você não é bom da cabeça. Não dá para o estudo. É melhor aprender uma profissão que não dependa de diploma e arranjar emprego”. E muitas vocações acabam sendo sufocadas dessa maneira.
A culpa, todavia, raras vezes é do aluno. Os autores do estudo supracitado asseguram: “Hoje, parte destas repetências são induzidas pela própria escola com argumentos de que é melhor que o aluno não faça as provas finais porque seus professores já decidiram que ele será reprovado. Uma forma perversa de dizer que o fracasso do aluno é culpa dele, de seus pais, da cor da sua pele ou do nível sócio-econômico de sua família”. Não é por acaso que o Brasil ocupa o último lugar no ranking de ensino básico, que reúne 129 países. Perde para o Gabão, o Haiti e a Arábia Saudita em termos de evasão escolar. A repetência induz à desistência. E o País soma mais alguns pontinhos em seu imbatível recorde mundial de desperdício, ao jogar fora tanto potencial humano.
(Capítulo do livro “Por uma nova utopia”, Pedro J. Bondaczuk, páginas 19 a 21, 1ª edição – 5 mil exemplares – fevereiro de 1998 – Editora M – São Paulo).
Os políticos brasileiros, em especial os candidatos a cargos executivos – prefeituras, governos de Estado e Presidência da República – sempre que em campanha, nomeiam, invariavelmente, a educação como sua prioridade. Não estão errados nessa escolha. Todavia, após eleitos, ou não cumprem suas solenes promessas de palanque, ou mostram que possuem uma visão distorcida, quando não mal-intencionada, da questão ou forjam justificativas descabidas para sua falta de competência. Quando investem nesse setor, invariavelmente o fazem no sentido físico. Ou seja, na construção de prédios escolares, não raro superfaturados, deixando de lado o essencial: o ensino.
Sempre se disse que o principal problema educacional brasileiro era a evasão escolar. Não há dúvida de que é algo a ser levado em consideração. Dados de 1988 davam conta que mais de 80% das crianças em todo o País não completavam o primeiro grau. Informes mais recentes, do Ministério da Educação, que foram repassados este ano ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), situam esse percentual em 39%, que ainda assim é alto.
Todavia, um recente estudo, elaborado pelo Laboratório Nacional de Computação Científica do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica, sob a orientação do físico e educador Sérgio Costa Ribeiro, detecta um problema ainda mais grave, raramente mencionado ou levado em conta por políticos, pedagogos e planejadores. Trata-se da repetência. O índice dos que repetem é altíssimo e aumenta de ano a ano. Hoje a taxa situa-se em cerca de 50% já na primeira série do primeiro grau.
Nas escolas particulares, além de se constituir num ônus (muitas vezes intolerável para os pais), a reprovação traumatiza os alunos. Alguns têm toda sua vida modificada em decorrência disso. Adquirem complexos, criam bloqueios e não conseguem, de forma alguma, obter as notas necessárias para passar de ano. Recebem (e assumem) a pecha de “burros”. Acabam desistindo de estudar. Nas unidades públicas, a única diferença é a ausência do prejuízo material, da perda total do dinheiro despendido com as mensalidades. Não são poucos os casos de pais que, após a segunda repetência do menino ou menina, concluem, desalentados: “Filho, você não é bom da cabeça. Não dá para o estudo. É melhor aprender uma profissão que não dependa de diploma e arranjar emprego”. E muitas vocações acabam sendo sufocadas dessa maneira.
A culpa, todavia, raras vezes é do aluno. Os autores do estudo supracitado asseguram: “Hoje, parte destas repetências são induzidas pela própria escola com argumentos de que é melhor que o aluno não faça as provas finais porque seus professores já decidiram que ele será reprovado. Uma forma perversa de dizer que o fracasso do aluno é culpa dele, de seus pais, da cor da sua pele ou do nível sócio-econômico de sua família”. Não é por acaso que o Brasil ocupa o último lugar no ranking de ensino básico, que reúne 129 países. Perde para o Gabão, o Haiti e a Arábia Saudita em termos de evasão escolar. A repetência induz à desistência. E o País soma mais alguns pontinhos em seu imbatível recorde mundial de desperdício, ao jogar fora tanto potencial humano.
(Capítulo do livro “Por uma nova utopia”, Pedro J. Bondaczuk, páginas 19 a 21, 1ª edição – 5 mil exemplares – fevereiro de 1998 – Editora M – São Paulo).
Tuesday, February 14, 2006
Comunicação exige bom-senso
Pedro J. Bondaczuk
O profissional de comunicação, seja qual for a área em que atuar, tem um compromisso e uma responsabilidade muito grandes para com o público que pretende atingir. No primeiro caso, trata-se de uma postura voltada para a prestação de serviços à comunidade, esclarecendo-a, orientando-o e atuando como o seu porta-voz. O segundo, por sua vez, decorre do anterior.
Quanto maior for a amplitude do meio que o comunicador utilizar, mais responsável ele terá que ser quanto àquilo que disser ou que escrever. Precisará ter muito critério. Deverá ser guiado por um elenco de pressupostos que vão desde o interesse à qualidade; da técnica usada à utilidade da comunicação, passando, por aí, o bom-gosto, a inteligência e outras coisas mais, que o jornalista e/ou o radialista conhecem, ou deveriam conhecer de sobejo.
Quem não aceitar isso, espontaneamente, sem imposição ou pressões, estará, evidentemente, em profissão errada. A mensagem que o profissional de comunicação passar, embora possa ser endereçada a um determinado público, bastante específico, terá influências as mais variadas possíveis. Tem que atentar o que, como, para que e a quem comunicar.
Isto vai depender das circunstâncias e do perfil psicológico de quem tiver acesso a essas mensagens. Pelo menos, é o que deveria ocorrer. Nem sempre ocorre, claro. Um comunicador irresponsável pode, até mesmo, provocar uma sublevação popular. Veja-se, por exemplo, o que vem ocorrendo nos países muçulmanos, em decorrência da publicação, por parte de um jornal dinamarquês, da caricatura do profeta Maomé.
Que benefício, e a quem, essa divulgação, no fundo, no fundo, preconceituosa, trouxe a quem quer que seja? Qual a necessidade de se mexer com as crenças e convicções alheias, mesmo as que consideremos ridículas e frutos do atraso (não é o caso), utilizando, como pretexto, o direito da liberdade de expressão? Convém ressaltar que um comunicador tem a possibilidade de influenciar idéias, costumes, comportamentos e ações. Quanto mais liberdade tiver, maior será, em contrapartida, a sua responsabilidade.
Estas considerações vêm a propósito do desvirtuamento que se vem fazendo, em determinados canais de televisão (e isso não é de hoje) e em alguns horários nem sempre apropriados, da arte do erotismo. Seu limite, em relação à pornografia, é sutil, sutilíssimo e nem todos os expectadores têm critério ou maturidade suficientes para fazer essa distinção.
Não defendo, evidentemente, nenhum tipo de censura. A própria Constituição brasileira proíbe esse comportamento. O que é necessário é que o próprio comunicador, autor de novela, roteirista de filme ou mesmo escritor de romances tenha autocrítica. Que pergunte, a si mesmo, se tem algo inteligente, proveitoso, interessante e construtivo a dizer (ou a escrever, claro).
Para se destruir algo, seja lá o que for, não é preciso ser criativo, dispor de muita técnica ou ter um pouquinho a mais de massa cinzenta que os mortais comuns. Construir, porém, é tarefa de gigantes, de pessoas especiais, talentosas e de grande visão.
Será que é válido, por uma certa importância em dinheiro (e não importa quanto), um intelectual se expor ao ridículo e alterar (para pior) o comportamento de pessoas mais simples e menos dotadas de capacidade de análise?
A pornografia barata apenas alimenta uma tara, uma doença comportamental, o “voyuerismo” e nada acrescenta a quem quer que seja. Há, evidentemente, quem goste dela. Essas pessoas estão no seu direito – afinal, como preceitua a doutrina do Direito, nem tudo o que é legal é moral e vice-versa – mas elas que procurem veículos adequados para satisfazer sua compulsão: um pornoshop, por exemplo, ou fitas de vídeo, que existem, por aí, em profusão.
Há toda uma indústria voltada à pornografia. Exibir bobagens publicamente, todavia, sob o rótulo de arte, é, antes de tudo, uma fraude, e das mais grotescas e grosseiras. Trata-se de uma enorme tapeação a quem espera do comunicador coisas criativas, originais e, sobretudo, construtivas.
O profissional de comunicação, seja qual for a área em que atuar, tem um compromisso e uma responsabilidade muito grandes para com o público que pretende atingir. No primeiro caso, trata-se de uma postura voltada para a prestação de serviços à comunidade, esclarecendo-a, orientando-o e atuando como o seu porta-voz. O segundo, por sua vez, decorre do anterior.
Quanto maior for a amplitude do meio que o comunicador utilizar, mais responsável ele terá que ser quanto àquilo que disser ou que escrever. Precisará ter muito critério. Deverá ser guiado por um elenco de pressupostos que vão desde o interesse à qualidade; da técnica usada à utilidade da comunicação, passando, por aí, o bom-gosto, a inteligência e outras coisas mais, que o jornalista e/ou o radialista conhecem, ou deveriam conhecer de sobejo.
Quem não aceitar isso, espontaneamente, sem imposição ou pressões, estará, evidentemente, em profissão errada. A mensagem que o profissional de comunicação passar, embora possa ser endereçada a um determinado público, bastante específico, terá influências as mais variadas possíveis. Tem que atentar o que, como, para que e a quem comunicar.
Isto vai depender das circunstâncias e do perfil psicológico de quem tiver acesso a essas mensagens. Pelo menos, é o que deveria ocorrer. Nem sempre ocorre, claro. Um comunicador irresponsável pode, até mesmo, provocar uma sublevação popular. Veja-se, por exemplo, o que vem ocorrendo nos países muçulmanos, em decorrência da publicação, por parte de um jornal dinamarquês, da caricatura do profeta Maomé.
Que benefício, e a quem, essa divulgação, no fundo, no fundo, preconceituosa, trouxe a quem quer que seja? Qual a necessidade de se mexer com as crenças e convicções alheias, mesmo as que consideremos ridículas e frutos do atraso (não é o caso), utilizando, como pretexto, o direito da liberdade de expressão? Convém ressaltar que um comunicador tem a possibilidade de influenciar idéias, costumes, comportamentos e ações. Quanto mais liberdade tiver, maior será, em contrapartida, a sua responsabilidade.
Estas considerações vêm a propósito do desvirtuamento que se vem fazendo, em determinados canais de televisão (e isso não é de hoje) e em alguns horários nem sempre apropriados, da arte do erotismo. Seu limite, em relação à pornografia, é sutil, sutilíssimo e nem todos os expectadores têm critério ou maturidade suficientes para fazer essa distinção.
Não defendo, evidentemente, nenhum tipo de censura. A própria Constituição brasileira proíbe esse comportamento. O que é necessário é que o próprio comunicador, autor de novela, roteirista de filme ou mesmo escritor de romances tenha autocrítica. Que pergunte, a si mesmo, se tem algo inteligente, proveitoso, interessante e construtivo a dizer (ou a escrever, claro).
Para se destruir algo, seja lá o que for, não é preciso ser criativo, dispor de muita técnica ou ter um pouquinho a mais de massa cinzenta que os mortais comuns. Construir, porém, é tarefa de gigantes, de pessoas especiais, talentosas e de grande visão.
Será que é válido, por uma certa importância em dinheiro (e não importa quanto), um intelectual se expor ao ridículo e alterar (para pior) o comportamento de pessoas mais simples e menos dotadas de capacidade de análise?
A pornografia barata apenas alimenta uma tara, uma doença comportamental, o “voyuerismo” e nada acrescenta a quem quer que seja. Há, evidentemente, quem goste dela. Essas pessoas estão no seu direito – afinal, como preceitua a doutrina do Direito, nem tudo o que é legal é moral e vice-versa – mas elas que procurem veículos adequados para satisfazer sua compulsão: um pornoshop, por exemplo, ou fitas de vídeo, que existem, por aí, em profusão.
Há toda uma indústria voltada à pornografia. Exibir bobagens publicamente, todavia, sob o rótulo de arte, é, antes de tudo, uma fraude, e das mais grotescas e grosseiras. Trata-se de uma enorme tapeação a quem espera do comunicador coisas criativas, originais e, sobretudo, construtivas.
Monday, February 13, 2006
Por uma nova utopia
O papel do intelectual e, sobretudo, do escritor, vem sendo cada vez mais questionado nos últimos tempos, dada a enxurrada de obras sofríveis – algumas até de autores de reconhecido talento – que tem invadido as livrarias. A falsa modernidade está desviando muitas pessoas brilhantes do verdadeiro objetivo daquele que faz literatura: o engrandecimento cultural do homem. Os temas explorados, hoje, são variações em geral em torno de um único e mesmo assunto: sexo.
Mas a abordagem dessa temática, válida por sinal, tem sido infeliz e equivocada. Resvala para a degradação do ser humano e lança-o de ponta-cabeça no inferno, contrariando a advertência do poeta Daisaku Ikeda de que esse procedimento é doentio e, mais do que isso, destrutivo. Há que se resgatar a utopia, acreditar na racionalidade do “homo sapiens”, provocar reflexão nos leitores, mas em sentido construtivo, evolutivo, para a busca de solução dos graves problemas contemporâneos, que são solúveis, desde que sejam atacados com vontade e com sabedoria.
Hoje abundam críticas e sobeja o desencanto, numa confissão tácita do homem contemporâneo da sua falta de fibra, do seu medo pânico de se expor às responsabilidades. Pensadores deixaram, através dos tempos, grandes marcos de esperança de um mundo melhor, de uma sociedade perfeita, onde a individualidade fosse respeitada, a solidariedade fosse uma ação até instintiva e a violência em todas as suas formas, da mais ostensiva à mais sutil, fosse banida do convívio social.
Tivemos, por exemplo, “A República”, de Platão, escrita por volta de 330 a.C., onde o sábio grego descreve um Estado perfeito, governado por um rei-filósofo. Santo Agostinho coloca, em sua “A Cidade de Deus”, do século V, a religião como base para uma sociedade ideal e sem atritos. Thomas Morus, por seu turno, publicou, no século XVI, o seu muito citado, mas pouco lido, “Sobre a Melhor Condição do Estado e Sobre a Nova Ilha Utopia”.
Nesse seu mundinho restrito, mas perfeito, a moral seria baseada estritamente na virtude, o trabalho seria dever de todos e distribuído eqüitativamente e o tempo de lazer seria empregado pelo homem no enriquecimento cultural. Esperava-se que uma sociedade, que pelo menos se aproximasse disso, viesse a existir neste século XX. Mas o que se viu no seu transcorrer? Um avanço tecnológico fantástico acompanhado de uma regressão no comportamento às fronteiras da barbárie.
Parte da culpa desse retrocesso deve-se aos intelectuais, aos artistas, aos escritores, e à sua ânsia de inovar, mesmo que a inovação significasse recuo. Muitos endeusaram tiranos e a maioria simplesmente se omitiu. Aleksandr Soljenytsin, todavia, adverte: “se nós, os criadores de arte, nos submetermos obedientemente a este deslize por baixo, se deixarmos de nutrir e valorizar a grande tradição cultural dos séculos passados, juntamente com os fundamentos espirituais dos quais ela surgiu, estaremos contribuindo para a queda extremamente perigosa do espírito humano, para a degeneração da humanidade em direção a alguma espécie de estado inferior, que mais se aproxima do mundo animal”.
Cabe, pois, ao intelectual, ao escritor contemporâneo, sinalizar uma nova utopia, que apesar do seu significado (em grego significa “não existe tal lugar”), pode sair do plano da idealização e se fazer concreta.
(Capítulo do livro “Por uma nova utopia”, Pedro J. Bondaczuk, páginas 13 a 15, 1ª edição – 5 mil exemplares – fevereiro de 1998 – Editora M – São Paulo).
Mas a abordagem dessa temática, válida por sinal, tem sido infeliz e equivocada. Resvala para a degradação do ser humano e lança-o de ponta-cabeça no inferno, contrariando a advertência do poeta Daisaku Ikeda de que esse procedimento é doentio e, mais do que isso, destrutivo. Há que se resgatar a utopia, acreditar na racionalidade do “homo sapiens”, provocar reflexão nos leitores, mas em sentido construtivo, evolutivo, para a busca de solução dos graves problemas contemporâneos, que são solúveis, desde que sejam atacados com vontade e com sabedoria.
Hoje abundam críticas e sobeja o desencanto, numa confissão tácita do homem contemporâneo da sua falta de fibra, do seu medo pânico de se expor às responsabilidades. Pensadores deixaram, através dos tempos, grandes marcos de esperança de um mundo melhor, de uma sociedade perfeita, onde a individualidade fosse respeitada, a solidariedade fosse uma ação até instintiva e a violência em todas as suas formas, da mais ostensiva à mais sutil, fosse banida do convívio social.
Tivemos, por exemplo, “A República”, de Platão, escrita por volta de 330 a.C., onde o sábio grego descreve um Estado perfeito, governado por um rei-filósofo. Santo Agostinho coloca, em sua “A Cidade de Deus”, do século V, a religião como base para uma sociedade ideal e sem atritos. Thomas Morus, por seu turno, publicou, no século XVI, o seu muito citado, mas pouco lido, “Sobre a Melhor Condição do Estado e Sobre a Nova Ilha Utopia”.
Nesse seu mundinho restrito, mas perfeito, a moral seria baseada estritamente na virtude, o trabalho seria dever de todos e distribuído eqüitativamente e o tempo de lazer seria empregado pelo homem no enriquecimento cultural. Esperava-se que uma sociedade, que pelo menos se aproximasse disso, viesse a existir neste século XX. Mas o que se viu no seu transcorrer? Um avanço tecnológico fantástico acompanhado de uma regressão no comportamento às fronteiras da barbárie.
Parte da culpa desse retrocesso deve-se aos intelectuais, aos artistas, aos escritores, e à sua ânsia de inovar, mesmo que a inovação significasse recuo. Muitos endeusaram tiranos e a maioria simplesmente se omitiu. Aleksandr Soljenytsin, todavia, adverte: “se nós, os criadores de arte, nos submetermos obedientemente a este deslize por baixo, se deixarmos de nutrir e valorizar a grande tradição cultural dos séculos passados, juntamente com os fundamentos espirituais dos quais ela surgiu, estaremos contribuindo para a queda extremamente perigosa do espírito humano, para a degeneração da humanidade em direção a alguma espécie de estado inferior, que mais se aproxima do mundo animal”.
Cabe, pois, ao intelectual, ao escritor contemporâneo, sinalizar uma nova utopia, que apesar do seu significado (em grego significa “não existe tal lugar”), pode sair do plano da idealização e se fazer concreta.
(Capítulo do livro “Por uma nova utopia”, Pedro J. Bondaczuk, páginas 13 a 15, 1ª edição – 5 mil exemplares – fevereiro de 1998 – Editora M – São Paulo).
Sunday, February 12, 2006
Carta de um humanista
Carta do Dr. Daisaku Ikeda ao jornalista Pedro J. Bondaczuk
Tóquio, 7 de junho de 1998
Prezado confrade:
Primeiramente, desejo que esta missiva encontre-o desfrutando de ótima saúde em meio ao seu nobre trabalho jornalístico e literário.
Neste ensejo, quero acusar o recebimento de vossa obra POR UMA NOVA UTOPIA, através das mãos do digníssimo Vereador Luiz Carlos Rossini. Este importantíssimo livro foi coroado com sua maravilhosa dedicatória, na qual as palavras são mensageiras de profundo espírito filosófico. Querido confrade: aceite, por favor, meu muitíssimo obrigado!
Não pude conter minha emoção e honra ao ser informado do conteúdo das linhas onde V. Sa. refere-se a meu respeito. Assim, solicitei imediatamente que todas as três páginas fossem traduzidas na íntegra.
O Vereador Rossini expôs-me com grande propriedade sobre a grandiosidade de sua pessoa.
Estou perfeitamente ciente que V. Sa., como legítimo guerreiro da imprensa escrita, tem divulgado a realidade brasileira e mundial, sempre marcada pela coragem e vigorosidade de seus inúmeros artigos e crônicas, ou ainda nas brilhantes palestras, bradando heroicamente seu sublime pensamento para toda sociedade brasileira.
Fui informado também que V. Sa. foi o mais jovem escritor a tornar-se membro da Academia Campinense de Letras.
Estou convicto de que V.Sa., como a pena de ouro do Brasil do século XXI e bravo defensor da justiça, personifica o desejo máximo do povo e a esperança da própria humanidade.
Espero e oro para que algum dia, no futuro, eu seja agraciado com a oportunidade de dialogar com Vossa Senhoria. Até a chegada deste grande dia, estarei enviando continuamente as minhas orações pela boa saúde e pleno êxito nas valorosas atividades desempenhadas pelo meu querido confrade.
Respeitosamente
a) Daisaku Ikeda - Presidente da Sokka Gakkai Internacional
NOTA: O Dr. Daisaku Ikeda é poeta, novelista e ensaísta, dos mais conceituados internacionalmente. É líder da mais importante organização budista do Japão, voltada ao cultivo de valores, que congrega mais de 1,2 milhão de membros em 116 países, inclusive no Brasil. Destaca-se pelo empenho em favor do entendimento entre os povos, pressuposto para a paz no mundo.
Seus principais livros traduzidos no Brasil são os diálogos com personalidades mundiais, com destaque para "Escolha a Vida" (com o historiador Arnold Toynbee), "Antes que seja tarde demais" (com um dos fundadores do Clube de Roma, Aurélio Peccei), "A revolução humana e a condição humana" (com André Malraux), "A terceira ponte do arco-íris" (com Anatoly Logunav) e "A noite clama pela alvorada" (com René Huyghe), que foram vertidos para 14 idiomas. Destacam-se, ainda, os cinco volumes de "A Revolução Humana", os dois de "Uma Paz Duradoura", além dos "Clássicos da Literatura Japonesa".
É detentor de várias dezenas de prêmios internacionais, com destaque para o Prêmio da Paz das Nações Unidas (1983), de dezenas de títulos de doutor e professor "honoris causa" das mais renomadas universidades dos cinco continentes e títulos de cidadania dos Estados do Paraná e Rio de Janeiro e das cidades de Curitiba, São Paulo, Londrina e Campinas.
Tóquio, 7 de junho de 1998
Prezado confrade:
Primeiramente, desejo que esta missiva encontre-o desfrutando de ótima saúde em meio ao seu nobre trabalho jornalístico e literário.
Neste ensejo, quero acusar o recebimento de vossa obra POR UMA NOVA UTOPIA, através das mãos do digníssimo Vereador Luiz Carlos Rossini. Este importantíssimo livro foi coroado com sua maravilhosa dedicatória, na qual as palavras são mensageiras de profundo espírito filosófico. Querido confrade: aceite, por favor, meu muitíssimo obrigado!
Não pude conter minha emoção e honra ao ser informado do conteúdo das linhas onde V. Sa. refere-se a meu respeito. Assim, solicitei imediatamente que todas as três páginas fossem traduzidas na íntegra.
O Vereador Rossini expôs-me com grande propriedade sobre a grandiosidade de sua pessoa.
Estou perfeitamente ciente que V. Sa., como legítimo guerreiro da imprensa escrita, tem divulgado a realidade brasileira e mundial, sempre marcada pela coragem e vigorosidade de seus inúmeros artigos e crônicas, ou ainda nas brilhantes palestras, bradando heroicamente seu sublime pensamento para toda sociedade brasileira.
Fui informado também que V. Sa. foi o mais jovem escritor a tornar-se membro da Academia Campinense de Letras.
Estou convicto de que V.Sa., como a pena de ouro do Brasil do século XXI e bravo defensor da justiça, personifica o desejo máximo do povo e a esperança da própria humanidade.
Espero e oro para que algum dia, no futuro, eu seja agraciado com a oportunidade de dialogar com Vossa Senhoria. Até a chegada deste grande dia, estarei enviando continuamente as minhas orações pela boa saúde e pleno êxito nas valorosas atividades desempenhadas pelo meu querido confrade.
Respeitosamente
a) Daisaku Ikeda - Presidente da Sokka Gakkai Internacional
NOTA: O Dr. Daisaku Ikeda é poeta, novelista e ensaísta, dos mais conceituados internacionalmente. É líder da mais importante organização budista do Japão, voltada ao cultivo de valores, que congrega mais de 1,2 milhão de membros em 116 países, inclusive no Brasil. Destaca-se pelo empenho em favor do entendimento entre os povos, pressuposto para a paz no mundo.
Seus principais livros traduzidos no Brasil são os diálogos com personalidades mundiais, com destaque para "Escolha a Vida" (com o historiador Arnold Toynbee), "Antes que seja tarde demais" (com um dos fundadores do Clube de Roma, Aurélio Peccei), "A revolução humana e a condição humana" (com André Malraux), "A terceira ponte do arco-íris" (com Anatoly Logunav) e "A noite clama pela alvorada" (com René Huyghe), que foram vertidos para 14 idiomas. Destacam-se, ainda, os cinco volumes de "A Revolução Humana", os dois de "Uma Paz Duradoura", além dos "Clássicos da Literatura Japonesa".
É detentor de várias dezenas de prêmios internacionais, com destaque para o Prêmio da Paz das Nações Unidas (1983), de dezenas de títulos de doutor e professor "honoris causa" das mais renomadas universidades dos cinco continentes e títulos de cidadania dos Estados do Paraná e Rio de Janeiro e das cidades de Curitiba, São Paulo, Londrina e Campinas.
Um jornal das sensações
Pouco sei da biografia pessoal de Pedro Bondaczuk, exceto que foi radialista e trabalhador de indústria, que escreve contos e poemas, especializou-se num jornalismo multímodo e tem uma grande biblioteca. Seu único livro até aqui publicado, “Quadros de Natal”, circula por aí em edições sucessivas, sob o selo de um colégio preparatório. E isso é tudo o que sei.
Mas não é preciso muito para imagina-lo por trás de sua escrivaninha de escriba, consciente de um método que é só dele, seguro de uma lucidez que não se entrega. Basta acompanhar sua produção através das páginas do “Correio Popular”, caudalosa, variada e sempre informativa. Tem-se a impressão de que dando-lhe espaço ele encheria um jornal inteiro, diariamente, com seu repertório inesgotável. Balzac o colocaria num romance, Diderot gostaria de tê-lo a serviço de sua Enciclopédia.
Assim como pululam, em todas as épocas, os cronistas da negatividade, Pedro Bondaczuk é positivo até mesmo quando critica. Não perde ocasião de rechaçar as frases feitas dos céticos, recusa-se a acreditar na surrada lenda que diz que “os tempos atuais” são os piores, nega-se a “fazer da angústia um estilo de vida”. Mas tampouco pactua com os pares que, para edulcorar seu próprio cotidiano, tratam de extrair “riqueza da miséria, nobreza da canalhice, ética da imoralidade”.
Pode-se dizer que, homogêneo na variedade de suas peças, este livro é bem o retrato de seu autor, nele transparecendo sua concepção de vida, a clareza de suas idéias, a profundidade de seus conhecimentos e a riqueza de suas esperanças. Seus temas tanto podem ser a cidade que o acolheu e lhe deu um título de cidadania quanto aos progressos da ciência, a poetisa que morreu prematuramente, os rumos do País à porta do novo milênio ou os mistérios da realidade circundante “que, de tão fantástica, chega a humilhar a ficção”.
Trata de reis e crianças abandonadas, tanto cita Tolstoi quanto poetas de província.
Mas, generoso, é severo com os grandes e indulgente com os pequenos. Claramente para ele não contam o dinheiro, o prestígio ou o poder, mas sim “o ato de viver, de apreciar esta maravilhosa aventura (da vida), que tem mais valor por ser única”. Não por acaso há nele ressonância de Krishnamurti e Daisaku Ikeda, mas é na frase de Roland Barthes – “Nenhum poder, algum saber, muito sabor” – que acharemos talvez a melhor definição para a escolha filosófica de Bondaczuk, cujo texto é sempre um incitamento ao exercício de viver, às possibilidades da existência.
Creio que a certa altura o autor se coloca a questão que para ele deve ser crucial: escritor-jornalista ou jornalista-escritor? Parece-me que a questão se resolve naturalmente na medida em que todo o texto jornalístico de Bondaczuk se inclina para a literatura e, como tal, apresenta características de durabilidade que o jornalismo puro não tem. Não por acaso ele passeia da poesia à ética, da biologia à história, da sociologia ao romance. Ninguém é capaz de fazê-lo sem contar com um senso de orientação apurado e sem o domínio das formas breves da linguagem literária. E ele os tem.
Brevidade, concisão, clareza. Eu diria que são estas suas principais qualidades.
Homem de muitos instrumentos, Bondaczuk prefere todavia o solo da flauta – o conto, o poema, a crônica. Está no seu elemento, conhece as complexidades do gênero e as domina. Isso lhe permite falar consigo mesmo e com seus leitores, sondar-lhes os sentimentos, ouvir sua respiração e, a partir dessa intensa troca de códigos cotidianamente o diário de suas sensações, como um jornal que, refletindo as pompas e as misérias do mundo, ecoasse tam,bem o fragor da alma.
Eustáquio Gomes – Jornalista, escritor, mestre em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cronista semanal da revista “Metrópole” do Correio Popular, autor de dez livros, entre os quais “Febre Amorosa” (romance, recentemente traduzido para o russo), “Cavalo Inundado” (poesia), “A mulher que virou canoa” (contos), “Os jogos de junho” (novela), “Hemmingway: sete encontros com o leão” (ensaio biográfico), “Jonas Blau” (romance) e “O mapa da Austrália” (romance).
(Prefácio do livro “Por uma nova utopia”, Pedro J. Bondaczuk, páginas 9 a 11, 1ª edição – 5 mil exemplares – fevereiro de 1998 – Editora M – São Paulo).
Mas não é preciso muito para imagina-lo por trás de sua escrivaninha de escriba, consciente de um método que é só dele, seguro de uma lucidez que não se entrega. Basta acompanhar sua produção através das páginas do “Correio Popular”, caudalosa, variada e sempre informativa. Tem-se a impressão de que dando-lhe espaço ele encheria um jornal inteiro, diariamente, com seu repertório inesgotável. Balzac o colocaria num romance, Diderot gostaria de tê-lo a serviço de sua Enciclopédia.
Assim como pululam, em todas as épocas, os cronistas da negatividade, Pedro Bondaczuk é positivo até mesmo quando critica. Não perde ocasião de rechaçar as frases feitas dos céticos, recusa-se a acreditar na surrada lenda que diz que “os tempos atuais” são os piores, nega-se a “fazer da angústia um estilo de vida”. Mas tampouco pactua com os pares que, para edulcorar seu próprio cotidiano, tratam de extrair “riqueza da miséria, nobreza da canalhice, ética da imoralidade”.
Pode-se dizer que, homogêneo na variedade de suas peças, este livro é bem o retrato de seu autor, nele transparecendo sua concepção de vida, a clareza de suas idéias, a profundidade de seus conhecimentos e a riqueza de suas esperanças. Seus temas tanto podem ser a cidade que o acolheu e lhe deu um título de cidadania quanto aos progressos da ciência, a poetisa que morreu prematuramente, os rumos do País à porta do novo milênio ou os mistérios da realidade circundante “que, de tão fantástica, chega a humilhar a ficção”.
Trata de reis e crianças abandonadas, tanto cita Tolstoi quanto poetas de província.
Mas, generoso, é severo com os grandes e indulgente com os pequenos. Claramente para ele não contam o dinheiro, o prestígio ou o poder, mas sim “o ato de viver, de apreciar esta maravilhosa aventura (da vida), que tem mais valor por ser única”. Não por acaso há nele ressonância de Krishnamurti e Daisaku Ikeda, mas é na frase de Roland Barthes – “Nenhum poder, algum saber, muito sabor” – que acharemos talvez a melhor definição para a escolha filosófica de Bondaczuk, cujo texto é sempre um incitamento ao exercício de viver, às possibilidades da existência.
Creio que a certa altura o autor se coloca a questão que para ele deve ser crucial: escritor-jornalista ou jornalista-escritor? Parece-me que a questão se resolve naturalmente na medida em que todo o texto jornalístico de Bondaczuk se inclina para a literatura e, como tal, apresenta características de durabilidade que o jornalismo puro não tem. Não por acaso ele passeia da poesia à ética, da biologia à história, da sociologia ao romance. Ninguém é capaz de fazê-lo sem contar com um senso de orientação apurado e sem o domínio das formas breves da linguagem literária. E ele os tem.
Brevidade, concisão, clareza. Eu diria que são estas suas principais qualidades.
Homem de muitos instrumentos, Bondaczuk prefere todavia o solo da flauta – o conto, o poema, a crônica. Está no seu elemento, conhece as complexidades do gênero e as domina. Isso lhe permite falar consigo mesmo e com seus leitores, sondar-lhes os sentimentos, ouvir sua respiração e, a partir dessa intensa troca de códigos cotidianamente o diário de suas sensações, como um jornal que, refletindo as pompas e as misérias do mundo, ecoasse tam,bem o fragor da alma.
Eustáquio Gomes – Jornalista, escritor, mestre em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cronista semanal da revista “Metrópole” do Correio Popular, autor de dez livros, entre os quais “Febre Amorosa” (romance, recentemente traduzido para o russo), “Cavalo Inundado” (poesia), “A mulher que virou canoa” (contos), “Os jogos de junho” (novela), “Hemmingway: sete encontros com o leão” (ensaio biográfico), “Jonas Blau” (romance) e “O mapa da Austrália” (romance).
(Prefácio do livro “Por uma nova utopia”, Pedro J. Bondaczuk, páginas 9 a 11, 1ª edição – 5 mil exemplares – fevereiro de 1998 – Editora M – São Paulo).
Saturday, February 11, 2006
Pontes
Minha vida tem sido uma busca
por justiça e pela criação
de liames, de pontes concretas
que liguem o real ao ideal.
Constante pesquisa do que sou,
de olho no que possa vir a ser,
sem pensar no que esperam de mim.
Muitas vezes perco-me em vazios,
fico sem ter referenciais
e ao tentar livrar-me do atoleiro
vacilo e atolo-me mais e mais.
Sob os pés que trilham este trecho
esquecido e singular do tempo,
abrem-se fundas, famintas valas,
perdem-se esperanças e crenças.
Mas volto a lançar pontes de barro,
renovo com freqüência o alento
e, munido de exemplar paciência,
disponho-me a recomeçar.
E os dias, com suas circunstâncias,
macetes e peculiaridades,
as horas, passageiras fugazes,
as muitas ausências e distâncias,
são valas escuras e profundas,
famintas, insaciáveis gargantas.
Hienas famélicas e vorazes,
encurvadas, sempre a gargalhar
dos meus tolos sonhos infantis:
devoram toda e cada esperança
nova. Forçam a me renovar.
Não houvesse você, alma gêmea,
que partilha ilusão e a vida,
sonhos, sorte, azar e destino,
fé e tudo o quanto ainda sou;
não houvesse você, companheira,
que segue através do meu caminho
repisando os rastros dos meus passos,
e jamais eu lançaria pontes
sobre abismos e valas profundos
e ao invés de apenas meus desejos
eles destruiriam meu ser.
Vem para meus braços, doce amada.
Sinta...Sinta o mudo desespero
que vibra na fragílima carne.
Sinta...Sinta na sua estrutura
minha virilidade, euforia,
meu carnal e instintivo amor.
Acolhe neste seu ventre fértil
sementes sagradas do amanhã.
Faça gerar em suas entranhas,
para lançar sobre o fundo abismo
a nossa concretíssima ponte
entre o efêmero humano e Deus.
(Poema composto em Campinas em 5 de abril de 1971)
por justiça e pela criação
de liames, de pontes concretas
que liguem o real ao ideal.
Constante pesquisa do que sou,
de olho no que possa vir a ser,
sem pensar no que esperam de mim.
Muitas vezes perco-me em vazios,
fico sem ter referenciais
e ao tentar livrar-me do atoleiro
vacilo e atolo-me mais e mais.
Sob os pés que trilham este trecho
esquecido e singular do tempo,
abrem-se fundas, famintas valas,
perdem-se esperanças e crenças.
Mas volto a lançar pontes de barro,
renovo com freqüência o alento
e, munido de exemplar paciência,
disponho-me a recomeçar.
E os dias, com suas circunstâncias,
macetes e peculiaridades,
as horas, passageiras fugazes,
as muitas ausências e distâncias,
são valas escuras e profundas,
famintas, insaciáveis gargantas.
Hienas famélicas e vorazes,
encurvadas, sempre a gargalhar
dos meus tolos sonhos infantis:
devoram toda e cada esperança
nova. Forçam a me renovar.
Não houvesse você, alma gêmea,
que partilha ilusão e a vida,
sonhos, sorte, azar e destino,
fé e tudo o quanto ainda sou;
não houvesse você, companheira,
que segue através do meu caminho
repisando os rastros dos meus passos,
e jamais eu lançaria pontes
sobre abismos e valas profundos
e ao invés de apenas meus desejos
eles destruiriam meu ser.
Vem para meus braços, doce amada.
Sinta...Sinta o mudo desespero
que vibra na fragílima carne.
Sinta...Sinta na sua estrutura
minha virilidade, euforia,
meu carnal e instintivo amor.
Acolhe neste seu ventre fértil
sementes sagradas do amanhã.
Faça gerar em suas entranhas,
para lançar sobre o fundo abismo
a nossa concretíssima ponte
entre o efêmero humano e Deus.
(Poema composto em Campinas em 5 de abril de 1971)
Friday, February 10, 2006
Gula fatal
Pedro J. Bondaczuk
A natureza tem regras inflexíveis, gerais, válidas para absolutamente todos os seres vivos, que não podem ser burladas impunemente. Muitos até que tentam burlar. Contudo, quem se arrisca a passar por cima delas paga, invariavelmente, um preço, que não raro pode significar a perda prematura da vida. Nem tudo o que agrada os sentidos e nos dá prazer é saudável. Aliás, a maioria não é.
Lembro-me que um dos grandes sucessos de Roberto Carlos, nos anos 70, era uma canção cuja letra dizia, em determinado trecho: "...Porque tudo o que é bom é ilegal, imoral ou engorda" (talvez não seja literalmente isso o que escreveu o letrista, mas o sentido é esse). Pessoas de hábitos austeros, com alimentação frugal, dedicadas ao trabalho e ao raciocínio, parecem viver mais. Pareciam... Agora, já há prova concreta, baseada em estudos sérios e meticulosos, de que não se trata apenas de impressão, mas de certeza.
Estas considerações vêm a propósito de uma notícia, publicada pela imprensa, dando conta de que pesquisadores norte-americanos descobriram o tão desejado "elixir da longa vida". E o que isso tem a ver com as regras da natureza, ou com os hábitos alimentares (saudáveis ou não) das pessoas? Tem tudo!
Essa "fonte da juventude", que Ponce de Leon acreditava ter descoberto na Flórida, e que centenas de aventureiros procuraram em vão pelo mundo afora, não se situa em qualquer lugar remoto e perdido do Planeta, como muitos pensavam (e ainda podem pensar). Está em nosso organismo, no âmago das nossas células. Trata-se da proteína que os cientistas batizaram de "Sir2", responsável pela longevidade dos animais. E, por conseqüência, dos homens... É essa maravilhosa substância que impede a superutilização dos genes e, com isso, evita que as pontas dos cromossomas se desgastem, os preservando da degradação. Com isso, aumentam o tempo de vida dos que a possuem.
Até aí, tudo bem. Ocorre que essa mágica proteína só está presente no organismo das pessoas que se submetem a "regimes drásticos de alimentação". Em outras palavras, daqueles que, no dizer dos nossos avós, "comem para viver e não vivem para comer". Bem que se diz que não é apenas o peixe que "morre pela boca". E não é mesmo. Hoje, esses dois grupos (os que ingerem alimentos em quantidade muito maior do que a necessária e os que vegetam em permanente inanição) equivalem-se em quantidade. "E como sabemos disso?", perguntará o leitor céptico, que seja dado à prática da glutonaria. Mediante a divulgação, pela imprensa, de uma outra pesquisa, intitulada "A Epidemia Global da Má Nutrição", levada a efeito pelo Instituto Worldwatch dos Estados Unidos.
Os autores deste estudo concluíram que o número de pessoas desnutridas no mundo (famintas, na verdade), que é de 1,2 bilhão de indivíduos, é, por incrível coincidência, o mesmo que o de obesos (os que comem em demasia e alimentos inadequados). Portanto, fica claro que mais de um terço da humanidade (2,4 bilhões dos 6 bilhões de habitantes da Terra), não sabem (ou não podem) comer direito.
O primeiro grupo paga um preço intolerável pela gula do segundo. E este, por sua vez, paga o inflexível preço, cobrado pela natureza, pelos excessos que comete. Tudo, provavelmente, ficaria bem se ambos partilhassem os seus extremos. Ou seja, se os gulosos comessem menos e se a parte que deixassem de comer fosse destinada aos que não têm recursos para comprar a comida de que precisam. Essa possibilidade, contudo, não passa de utopia.
Os "regimes drásticos de alimentação", responsáveis pela existência no organismo da proteína da longevidade, não significam, evidentemente, a privação de alimentos. Caso significassem, os mais pobres entre os pobres da Terra teriam vidas longas, no mínimo centenárias, e não morreriam precocemente de doenças de fácil combate, que ceifam multidões, nos chamados Quarto e Terceiro Mundo. Alimentar-se bem é, portanto, questão de "qualidade", não de "quantidade".
No Brasil, a Worldwatch detectou que 36% da população já estão no time dos "gordinhos", ou seja, naquele grupo de risco, que precisa fechar, urgentemente (pelo menos um pouco mais), a boca, se não quiser morrer de forma repentina e prematura. É a justa punição da natureza para aqueles que participam do indecente e absurdo processo de exclusão, que nos faz duvidar da existência de uma genuína civilização no mundo, nesta véspera do terceiro milênio. Na África, por outro lado, há 150 milhões de crianças desnutridas, com seu desenvolvimento físico e mental seriamente comprometido, sob o risco de morrerem de inanição ou das seqüelas da subnutrição! O consolo está na conclusão de que dois terços da humanidade (a maioria, portanto) alimentam-se de forma adequada e saudável, de acordo com o referido estudo. Tomara que os extremos finalmente se toquem. E que a fome, esse flagelo filho do egoísmo e da injustiça social, seja, um dia, banida da face da Terra...É improvável, mas tomara que aconteça. A natureza faz a sua parte para promover esse equilíbrio. Falta o homem...
A natureza tem regras inflexíveis, gerais, válidas para absolutamente todos os seres vivos, que não podem ser burladas impunemente. Muitos até que tentam burlar. Contudo, quem se arrisca a passar por cima delas paga, invariavelmente, um preço, que não raro pode significar a perda prematura da vida. Nem tudo o que agrada os sentidos e nos dá prazer é saudável. Aliás, a maioria não é.
Lembro-me que um dos grandes sucessos de Roberto Carlos, nos anos 70, era uma canção cuja letra dizia, em determinado trecho: "...Porque tudo o que é bom é ilegal, imoral ou engorda" (talvez não seja literalmente isso o que escreveu o letrista, mas o sentido é esse). Pessoas de hábitos austeros, com alimentação frugal, dedicadas ao trabalho e ao raciocínio, parecem viver mais. Pareciam... Agora, já há prova concreta, baseada em estudos sérios e meticulosos, de que não se trata apenas de impressão, mas de certeza.
Estas considerações vêm a propósito de uma notícia, publicada pela imprensa, dando conta de que pesquisadores norte-americanos descobriram o tão desejado "elixir da longa vida". E o que isso tem a ver com as regras da natureza, ou com os hábitos alimentares (saudáveis ou não) das pessoas? Tem tudo!
Essa "fonte da juventude", que Ponce de Leon acreditava ter descoberto na Flórida, e que centenas de aventureiros procuraram em vão pelo mundo afora, não se situa em qualquer lugar remoto e perdido do Planeta, como muitos pensavam (e ainda podem pensar). Está em nosso organismo, no âmago das nossas células. Trata-se da proteína que os cientistas batizaram de "Sir2", responsável pela longevidade dos animais. E, por conseqüência, dos homens... É essa maravilhosa substância que impede a superutilização dos genes e, com isso, evita que as pontas dos cromossomas se desgastem, os preservando da degradação. Com isso, aumentam o tempo de vida dos que a possuem.
Até aí, tudo bem. Ocorre que essa mágica proteína só está presente no organismo das pessoas que se submetem a "regimes drásticos de alimentação". Em outras palavras, daqueles que, no dizer dos nossos avós, "comem para viver e não vivem para comer". Bem que se diz que não é apenas o peixe que "morre pela boca". E não é mesmo. Hoje, esses dois grupos (os que ingerem alimentos em quantidade muito maior do que a necessária e os que vegetam em permanente inanição) equivalem-se em quantidade. "E como sabemos disso?", perguntará o leitor céptico, que seja dado à prática da glutonaria. Mediante a divulgação, pela imprensa, de uma outra pesquisa, intitulada "A Epidemia Global da Má Nutrição", levada a efeito pelo Instituto Worldwatch dos Estados Unidos.
Os autores deste estudo concluíram que o número de pessoas desnutridas no mundo (famintas, na verdade), que é de 1,2 bilhão de indivíduos, é, por incrível coincidência, o mesmo que o de obesos (os que comem em demasia e alimentos inadequados). Portanto, fica claro que mais de um terço da humanidade (2,4 bilhões dos 6 bilhões de habitantes da Terra), não sabem (ou não podem) comer direito.
O primeiro grupo paga um preço intolerável pela gula do segundo. E este, por sua vez, paga o inflexível preço, cobrado pela natureza, pelos excessos que comete. Tudo, provavelmente, ficaria bem se ambos partilhassem os seus extremos. Ou seja, se os gulosos comessem menos e se a parte que deixassem de comer fosse destinada aos que não têm recursos para comprar a comida de que precisam. Essa possibilidade, contudo, não passa de utopia.
Os "regimes drásticos de alimentação", responsáveis pela existência no organismo da proteína da longevidade, não significam, evidentemente, a privação de alimentos. Caso significassem, os mais pobres entre os pobres da Terra teriam vidas longas, no mínimo centenárias, e não morreriam precocemente de doenças de fácil combate, que ceifam multidões, nos chamados Quarto e Terceiro Mundo. Alimentar-se bem é, portanto, questão de "qualidade", não de "quantidade".
No Brasil, a Worldwatch detectou que 36% da população já estão no time dos "gordinhos", ou seja, naquele grupo de risco, que precisa fechar, urgentemente (pelo menos um pouco mais), a boca, se não quiser morrer de forma repentina e prematura. É a justa punição da natureza para aqueles que participam do indecente e absurdo processo de exclusão, que nos faz duvidar da existência de uma genuína civilização no mundo, nesta véspera do terceiro milênio. Na África, por outro lado, há 150 milhões de crianças desnutridas, com seu desenvolvimento físico e mental seriamente comprometido, sob o risco de morrerem de inanição ou das seqüelas da subnutrição! O consolo está na conclusão de que dois terços da humanidade (a maioria, portanto) alimentam-se de forma adequada e saudável, de acordo com o referido estudo. Tomara que os extremos finalmente se toquem. E que a fome, esse flagelo filho do egoísmo e da injustiça social, seja, um dia, banida da face da Terra...É improvável, mas tomara que aconteça. A natureza faz a sua parte para promover esse equilíbrio. Falta o homem...
Thursday, February 09, 2006
Indivíduo e sociedade
Pedro J. Bondaczuk
O ser humano, individualmente, é um dos animais mais frágeis e desprotegidos, no aspecto físico, entre todos os que existem na natureza. Conta, é verdade, com instintos básicos, de preservação da vida, de perpetuação da espécie e outros tantos, que se desenvolvem, todavia, apenas com um par de anos após seu nascimento. Todos precisamos de alguém, por algum motivo, em todos os estágios da nossa vida, para sobrevivermos.
Nossos sentidos são muito mais frágeis do que os da maioria (para não dizer, totalidade) dos animais. Um cavalo, um bezerro, um leão etc., por exemplo, conseguem ficar de pé, por seus próprios meios, alguns minutos após o nascimento. E dão os primeiros passos logo a seguir, acompanhando a mãe. E nós?
Um bebê precisa de cerca de dois meses somente para se virar de lado, por seus próprios meios, no berço. E assim mesmo é preciso que se fique atento para impedir que ele sufoque. Senta-se aos quatro ou cinco meses e, só a partir daí, começa a engatinhar. Dá os primeiros e vacilantes passos, com o amparo dos pais, entre dez meses e um ano. Se nesse período fosse deixado sozinho, por sua conta e risco... certamente não sobreviveria.
Precisa ser ensinado de tudo, desde comer, a falar; desde como se livrar dos pequenos e grandes perigos, até sobre noções elementares, como o próximo, a família, a escola, a sociedade e o País. É um processo lento, vagaroso, de longo prazo, que exige completa atenção, paciência e amparo dos pais. Portanto, tem dependência absoluta de semelhantes que já se tenham desenvolvido.
Mesmo depois de adulto, o ser humano dificilmente sobreviveria sem a companhia de outros indivíduos da espécie. Precisa, pois, associar-se, pois ninguém é dotado de todos os talentos, de todas as habilidades e de todas as potencialidades que garantam a satisfação de suas necessidades (materiais e espirituais) e, por extensão, sua sobrevivência.
Em qualquer aspecto que se encare, quer físico, quer psicológico, quer emocional, pessoa algum sobreviveria se tivesse que se virar sozinha, só, por sua conta e risco. Santo Tomás de Aquino enquadrou os solitários (e ninguém o é por completo, frise-se) em três categorias: “excellentia naturae”, “corruptio naturae” e “mala fortuna”.
No primeiro caso, estariam os que optam livremente por um retiro, pelo isolamento, pelo afastamento da sociedade para meditação, livrando-se dos desejos materiais para se dedicar às coisas do espírito. Os segundos, seriam aqueles indivíduos tão corrompidos e daninhos, que precisariam ser banidos, para não ameaçar e nem prejudicar os outros. E os terceiros, seriam frutos da má sorte, com capacidade insuficiente para conquistar seu espaço no contexto social e que cairiam na indigência e, por isso, optariam (ou seriam forçados pelas circunstâncias) pelo isolamento.
A vida em sociedade, no entanto (e pensamos numa que seja ideal, justa e solidária, e não na real, nesta que aí está), inibe, quando não sufoca, a individualidade. Os interesses coletivos, que teoricamente ganham prevalência, não raro se chocam com os individuais. Apesar dos grupos haverem instituído regras, preceitos e leis reguladoras, a tão apregoada (e pouco praticada) igualdade de direitos e deveres, constante em todas as Constituições do mundo, é meramente retórica e há muito não passa de utopia.
Somos frutos da educação que recebemos, cujas diretrizes são determinadas pelos detentores do poder. Infelizmente, quer no lar, quer na escola, quer na sociedade, não somos educados para desenvolver e exercer plenamente nossas potencialidades, físicas, mentais e espirituais, mas meramente “adestrados” para determinadas tarefas que uma entidade abstrata, chamada Estado, nos determina.
Mesmo que não venhamos a nos dar conta, somos despersonalizados. Poucos se importam com nossas sensações e emoções pessoais, com nossas carências ou necessidades, e muito menos se sentimos fome, sede, dor, saudade, alegria, tristezas, iras etc. Somos tratados como ferramentas utilitárias de produção de bens e serviços, que podem ser descartadas a qualquer momento, tão logo percam a utilidade ou reduzam a produtividade ou quando os poderosos de plantão assim decidam.
Adam Smith alertou, no livro “A Riqueza das Nações”, que “nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz se a grande maioria de seus membros for pobre ou miserável”. Poucas, todavia, pouquíssimas (diria, nenhuma), atingem esse grau de excelência. E mesmo as que conseguem se aproximar desse estágio ideal, contam com imensos contingentes de miseráveis, sem lugar para morar, sem roupa adequada para se aquecer, sem alimentos fartos e nutritivos para assegurar a saúde e a força etc.
Embora informalmente, os homens se dividem em castas. Há uma minoria que nada faz e tudo tem, em detrimento de uma imensa maioria, que tudo produz e, contudo, tem que se contentar com meras migalhas do produto do seu trabalho. Impera, na verdade, no mundo, a lei da selva, a do mais forte (e não necessariamente no aspecto físico).
Teoricamente, ao nascermos, todos firmamos um pacto tácito, tendo por procuradores os nossos pais, em que abrimos mão de parcela de nossos direitos individuais, em favor do coletivo. Na teoria isso até que soa bem. Mas na prática...Funciona? Claro que não!
Urge, caso se queira, de fato, fazer justiça (e esse suposto desejo, por enquanto, se limita só a palavras) que a maioria dos pretensos “sócios” (todos nós, sem exceção e nem distinção de sexo, raça, religião, posição social ou crença política) seja, de fato e de direito, integrada à “sociedade”, e tratada como tal, conquistando cidadania plena, pois este é o único caminho real para o desenvolvimento e até para a sobrevivência do que se convencionou chamar de civilização. Pôr isso em prática, todavia, é que são elas. Será que um dia o homem conseguirá?
O ser humano, individualmente, é um dos animais mais frágeis e desprotegidos, no aspecto físico, entre todos os que existem na natureza. Conta, é verdade, com instintos básicos, de preservação da vida, de perpetuação da espécie e outros tantos, que se desenvolvem, todavia, apenas com um par de anos após seu nascimento. Todos precisamos de alguém, por algum motivo, em todos os estágios da nossa vida, para sobrevivermos.
Nossos sentidos são muito mais frágeis do que os da maioria (para não dizer, totalidade) dos animais. Um cavalo, um bezerro, um leão etc., por exemplo, conseguem ficar de pé, por seus próprios meios, alguns minutos após o nascimento. E dão os primeiros passos logo a seguir, acompanhando a mãe. E nós?
Um bebê precisa de cerca de dois meses somente para se virar de lado, por seus próprios meios, no berço. E assim mesmo é preciso que se fique atento para impedir que ele sufoque. Senta-se aos quatro ou cinco meses e, só a partir daí, começa a engatinhar. Dá os primeiros e vacilantes passos, com o amparo dos pais, entre dez meses e um ano. Se nesse período fosse deixado sozinho, por sua conta e risco... certamente não sobreviveria.
Precisa ser ensinado de tudo, desde comer, a falar; desde como se livrar dos pequenos e grandes perigos, até sobre noções elementares, como o próximo, a família, a escola, a sociedade e o País. É um processo lento, vagaroso, de longo prazo, que exige completa atenção, paciência e amparo dos pais. Portanto, tem dependência absoluta de semelhantes que já se tenham desenvolvido.
Mesmo depois de adulto, o ser humano dificilmente sobreviveria sem a companhia de outros indivíduos da espécie. Precisa, pois, associar-se, pois ninguém é dotado de todos os talentos, de todas as habilidades e de todas as potencialidades que garantam a satisfação de suas necessidades (materiais e espirituais) e, por extensão, sua sobrevivência.
Em qualquer aspecto que se encare, quer físico, quer psicológico, quer emocional, pessoa algum sobreviveria se tivesse que se virar sozinha, só, por sua conta e risco. Santo Tomás de Aquino enquadrou os solitários (e ninguém o é por completo, frise-se) em três categorias: “excellentia naturae”, “corruptio naturae” e “mala fortuna”.
No primeiro caso, estariam os que optam livremente por um retiro, pelo isolamento, pelo afastamento da sociedade para meditação, livrando-se dos desejos materiais para se dedicar às coisas do espírito. Os segundos, seriam aqueles indivíduos tão corrompidos e daninhos, que precisariam ser banidos, para não ameaçar e nem prejudicar os outros. E os terceiros, seriam frutos da má sorte, com capacidade insuficiente para conquistar seu espaço no contexto social e que cairiam na indigência e, por isso, optariam (ou seriam forçados pelas circunstâncias) pelo isolamento.
A vida em sociedade, no entanto (e pensamos numa que seja ideal, justa e solidária, e não na real, nesta que aí está), inibe, quando não sufoca, a individualidade. Os interesses coletivos, que teoricamente ganham prevalência, não raro se chocam com os individuais. Apesar dos grupos haverem instituído regras, preceitos e leis reguladoras, a tão apregoada (e pouco praticada) igualdade de direitos e deveres, constante em todas as Constituições do mundo, é meramente retórica e há muito não passa de utopia.
Somos frutos da educação que recebemos, cujas diretrizes são determinadas pelos detentores do poder. Infelizmente, quer no lar, quer na escola, quer na sociedade, não somos educados para desenvolver e exercer plenamente nossas potencialidades, físicas, mentais e espirituais, mas meramente “adestrados” para determinadas tarefas que uma entidade abstrata, chamada Estado, nos determina.
Mesmo que não venhamos a nos dar conta, somos despersonalizados. Poucos se importam com nossas sensações e emoções pessoais, com nossas carências ou necessidades, e muito menos se sentimos fome, sede, dor, saudade, alegria, tristezas, iras etc. Somos tratados como ferramentas utilitárias de produção de bens e serviços, que podem ser descartadas a qualquer momento, tão logo percam a utilidade ou reduzam a produtividade ou quando os poderosos de plantão assim decidam.
Adam Smith alertou, no livro “A Riqueza das Nações”, que “nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz se a grande maioria de seus membros for pobre ou miserável”. Poucas, todavia, pouquíssimas (diria, nenhuma), atingem esse grau de excelência. E mesmo as que conseguem se aproximar desse estágio ideal, contam com imensos contingentes de miseráveis, sem lugar para morar, sem roupa adequada para se aquecer, sem alimentos fartos e nutritivos para assegurar a saúde e a força etc.
Embora informalmente, os homens se dividem em castas. Há uma minoria que nada faz e tudo tem, em detrimento de uma imensa maioria, que tudo produz e, contudo, tem que se contentar com meras migalhas do produto do seu trabalho. Impera, na verdade, no mundo, a lei da selva, a do mais forte (e não necessariamente no aspecto físico).
Teoricamente, ao nascermos, todos firmamos um pacto tácito, tendo por procuradores os nossos pais, em que abrimos mão de parcela de nossos direitos individuais, em favor do coletivo. Na teoria isso até que soa bem. Mas na prática...Funciona? Claro que não!
Urge, caso se queira, de fato, fazer justiça (e esse suposto desejo, por enquanto, se limita só a palavras) que a maioria dos pretensos “sócios” (todos nós, sem exceção e nem distinção de sexo, raça, religião, posição social ou crença política) seja, de fato e de direito, integrada à “sociedade”, e tratada como tal, conquistando cidadania plena, pois este é o único caminho real para o desenvolvimento e até para a sobrevivência do que se convencionou chamar de civilização. Pôr isso em prática, todavia, é que são elas. Será que um dia o homem conseguirá?
Wednesday, February 08, 2006
Solidão a dois
Pedro J. Bondaczuk
A comunicação entre as pessoas é um dos exercícios mais freqüentes, indispensáveis e, no entanto, frustrantes do cotidiano. Nem sempre o que se diz é o que de fato se sente. Romances têm início, e também terminam, com base em equívocos, em erros de avaliação, em expressões e ações subjetivas, mesmo que pretendamos lhes dar a maior objetividade possível, ao tentarmos comunicar nossos pensamentos, emoções ou sentimentos.
Até os gestos mais espontâneos, inocentes e que não escondam nenhuma segunda intenção, correm o risco de serem mal-interpretados e nos trazerem aborrecimentos, não somente nos relacionamentos amorosos, mas no dia-a-dia. Palavras, por sua vez, são ambíguas, com sentidos muitas vezes bastante vagos, quando não opostos aos que pretendemos lhes emprestar, e mais complicam do que favorecem a genuína comunicação.
Quantas vezes, por exemplo, um elogio é interpretado como galhofa pelo nosso (ou pela nossa) interlocutor (ou interlocutora), gerando tensões, conflitos, rompimentos, quando não coisa pior! E a recíproca, claro, é verdadeira. Por isso, esse ato supremo de racionalidade é o que mais me fascina e foi o que determinou, inclusive, o meu rumo na vida, a minha atividade à qual dedico 24 horas por dia, a minha paixão e a minha profissão.
Escrevi, recentemente, uma crônica, em que tentei demonstrar o acerto do escritor francês André Malraux, que disse que integramos o que pode ser denominado de “a civilização da solidão”. Não, é claro, no sentido em que o termo é usualmente compreendido, ou seja, da falta de companhia, mas num outro mais profundo, intrínseco, espiritual: o de não sermos entendidos em nossas palavras, ações e, notadamente, intenções pelos que nos cercam ou que convivem conosco.
Creio que não há quem nunca não tenha se sentido só, absoluta e irremediavelmente só, mesmo caminhando em uma rua apinhada de gente de alguma gigantesca metrópole, ou num teatro superlotado, durante um show de música popular, ou num estádio de futebol, em dia de grande clássico ou em tantos outros lugares, caracterizados pelo grande afluxo de pessoas.
Há, porém, uma forma de solidão mais comum e muito mais incômoda e dolorosa. Não raro, ela deixa marcas profundas em nossa mente, tanto no consciente quanto, e principalmente, no subconsciente, e é causa de grande sofrimento, que não raro se transforma em complexos de inferioridade, neuroses, psicoses ou coisas piores. Tem motivado, inclusive, tragédias, como agressões físicas e/ou morais, assassinatos, suicídios etc. Refiro-me à chamada “solidão a dois”.
Todo relacionamento afetivo, que não objetive, somente, uma ocasional relação sexual, começa sob os melhores augúrios e expectativas. Principalmente quando achamos que encontramos o amor da nossa vida. Alguns conseguem, bem ou mal, expressar esse afeto, e receber reciprocidade. Nesses casos, a união se torna estável, cresce, se consolida e dura até que um dos parceiros venha a morrer. Outros se acomodam, assumem a postura de “donos” do seu par, ou experimentam aventuras extraconjugais que machucam e não raro sufocam e findam por matar o afeto, mas por questões familiares, mantêm, nominalmente, o casamento. Tornam-se infelizes (e geram infelicidade a quem juraram “amor eterno”). Instala-se, num relacionamento desse tipo, a terrível solidão a dois em que, fisicamente, os parceiros permanecem juntos. Mas psicológica e afetivamente...
Há casos e casos, todos com final infeliz. Existem pares, por exemplo, que mesmo se amando reciprocamente, não sabem expressar o que sentem. Findam por se separar, em meio a ressentimentos, mágoas, recriminações e surdo (mas onipresente) rancor mútuo.
E tudo por que? Por falta de diálogo. Pelo fato dos dois (ou de um deles pelo menos) se esquecerem que o amor é auto-doação mútua, total, irrestrita e permanente. Por não se darem conta que o relacionamento amoroso não se trata de mera transação, do tipo dá cá, toma lá. Por não entenderem que ele não é um jogo de interesses, não importa de que natureza, e que não implica em dominação e conseqüente servidão, mas exige absoluta igualdade, quer de comportamento, quer de sentimentos, entre os parceiros.
Quem raciocina de forma egoísta, julgando-se o centro do universo e, portanto, “senhor” da companheira (ou “senhora” do companheiro, claro), faz com que o relacionamento fique doentio, vicioso, asfixiante e assuma caráter de terrível instabilidade, mesmo que ambos se amem, genuína e sinceramente. Quem agir dessa forma, certamente irá conhecer as agruras e o terror da solidão a dois. Sua aposta, mesmo que não se dê conta ou que negue, será no fracasso.
Por isso, é de rara felicidade o que Vinícius de Moraes escreveu, em um dos seus antológicos e mais inspirados poemas, conhecido pela maioria. Ou seja, que “o amor é eterno... enquanto dura”. Para uns, adquire a durabilidade que se estende por toda a vida (e, quem sabe, além dela). Para outros...pode durar poucos anos, quando não meses, semanas ou mesmo alguns parcos dias.
A comunicação entre as pessoas é um dos exercícios mais freqüentes, indispensáveis e, no entanto, frustrantes do cotidiano. Nem sempre o que se diz é o que de fato se sente. Romances têm início, e também terminam, com base em equívocos, em erros de avaliação, em expressões e ações subjetivas, mesmo que pretendamos lhes dar a maior objetividade possível, ao tentarmos comunicar nossos pensamentos, emoções ou sentimentos.
Até os gestos mais espontâneos, inocentes e que não escondam nenhuma segunda intenção, correm o risco de serem mal-interpretados e nos trazerem aborrecimentos, não somente nos relacionamentos amorosos, mas no dia-a-dia. Palavras, por sua vez, são ambíguas, com sentidos muitas vezes bastante vagos, quando não opostos aos que pretendemos lhes emprestar, e mais complicam do que favorecem a genuína comunicação.
Quantas vezes, por exemplo, um elogio é interpretado como galhofa pelo nosso (ou pela nossa) interlocutor (ou interlocutora), gerando tensões, conflitos, rompimentos, quando não coisa pior! E a recíproca, claro, é verdadeira. Por isso, esse ato supremo de racionalidade é o que mais me fascina e foi o que determinou, inclusive, o meu rumo na vida, a minha atividade à qual dedico 24 horas por dia, a minha paixão e a minha profissão.
Escrevi, recentemente, uma crônica, em que tentei demonstrar o acerto do escritor francês André Malraux, que disse que integramos o que pode ser denominado de “a civilização da solidão”. Não, é claro, no sentido em que o termo é usualmente compreendido, ou seja, da falta de companhia, mas num outro mais profundo, intrínseco, espiritual: o de não sermos entendidos em nossas palavras, ações e, notadamente, intenções pelos que nos cercam ou que convivem conosco.
Creio que não há quem nunca não tenha se sentido só, absoluta e irremediavelmente só, mesmo caminhando em uma rua apinhada de gente de alguma gigantesca metrópole, ou num teatro superlotado, durante um show de música popular, ou num estádio de futebol, em dia de grande clássico ou em tantos outros lugares, caracterizados pelo grande afluxo de pessoas.
Há, porém, uma forma de solidão mais comum e muito mais incômoda e dolorosa. Não raro, ela deixa marcas profundas em nossa mente, tanto no consciente quanto, e principalmente, no subconsciente, e é causa de grande sofrimento, que não raro se transforma em complexos de inferioridade, neuroses, psicoses ou coisas piores. Tem motivado, inclusive, tragédias, como agressões físicas e/ou morais, assassinatos, suicídios etc. Refiro-me à chamada “solidão a dois”.
Todo relacionamento afetivo, que não objetive, somente, uma ocasional relação sexual, começa sob os melhores augúrios e expectativas. Principalmente quando achamos que encontramos o amor da nossa vida. Alguns conseguem, bem ou mal, expressar esse afeto, e receber reciprocidade. Nesses casos, a união se torna estável, cresce, se consolida e dura até que um dos parceiros venha a morrer. Outros se acomodam, assumem a postura de “donos” do seu par, ou experimentam aventuras extraconjugais que machucam e não raro sufocam e findam por matar o afeto, mas por questões familiares, mantêm, nominalmente, o casamento. Tornam-se infelizes (e geram infelicidade a quem juraram “amor eterno”). Instala-se, num relacionamento desse tipo, a terrível solidão a dois em que, fisicamente, os parceiros permanecem juntos. Mas psicológica e afetivamente...
Há casos e casos, todos com final infeliz. Existem pares, por exemplo, que mesmo se amando reciprocamente, não sabem expressar o que sentem. Findam por se separar, em meio a ressentimentos, mágoas, recriminações e surdo (mas onipresente) rancor mútuo.
E tudo por que? Por falta de diálogo. Pelo fato dos dois (ou de um deles pelo menos) se esquecerem que o amor é auto-doação mútua, total, irrestrita e permanente. Por não se darem conta que o relacionamento amoroso não se trata de mera transação, do tipo dá cá, toma lá. Por não entenderem que ele não é um jogo de interesses, não importa de que natureza, e que não implica em dominação e conseqüente servidão, mas exige absoluta igualdade, quer de comportamento, quer de sentimentos, entre os parceiros.
Quem raciocina de forma egoísta, julgando-se o centro do universo e, portanto, “senhor” da companheira (ou “senhora” do companheiro, claro), faz com que o relacionamento fique doentio, vicioso, asfixiante e assuma caráter de terrível instabilidade, mesmo que ambos se amem, genuína e sinceramente. Quem agir dessa forma, certamente irá conhecer as agruras e o terror da solidão a dois. Sua aposta, mesmo que não se dê conta ou que negue, será no fracasso.
Por isso, é de rara felicidade o que Vinícius de Moraes escreveu, em um dos seus antológicos e mais inspirados poemas, conhecido pela maioria. Ou seja, que “o amor é eterno... enquanto dura”. Para uns, adquire a durabilidade que se estende por toda a vida (e, quem sabe, além dela). Para outros...pode durar poucos anos, quando não meses, semanas ou mesmo alguns parcos dias.
Tuesday, February 07, 2006
A praça é do povo
Pedro J. Bondaczuk
As praças, nas grandes cidades brasileiras, vêm perdendo a função para a qual foram originalmente criadas. Ou seja, a de servirem de referências, de pontos de concentração do povo, onde as pessoas iam para se distrair, para reivindicar, para protestar, para rever amigos, para entabular namoros, etc. Atualmente, dada a violência urbana, esses locais se tornaram perigosos, especialmente à noite, e são cada vez menos freqüentados. Tornaram-se enormes calçadões, grandes espaços vazios, ilhados entre avenidas, por onde as pessoas apenas transitam, apressadas e distraídas e onde camelôs montam suas banquinhas e apregoam seus produtos. Pelo menos as de Campinas são assim. Há, claro, um ou outro aposentado que se arrisca a se sentar em seus bancos para apreciar o movimento ou ler calmamente seu jornal.
Mesmo estes corajosos (ou distraídos), todavia, escasseiam cada vez mais, muitos por terem passado por experiências traumatizantes, como assaltos em plena luz do dia. No período noturno...Nem é bom falar. Só os malucos se arriscam a freqüentá-las. Hoje, as praças (há exceções, claro), transformaram-se em pontos de traficantes e de viciados, de travestis e de prostitutas, em focos de vícios, de violência e conseqüentemente de perigo. Deixaram de ser do povo, para se tornar dos marginais. Em algumas cidades do interior elas ainda têm coretos, mas sem retretas. Estes lhes servem, somente, de bizarros ornamentos.
O tempo das bandinhas já passou, como o de tantas outras coisas boas que, por uma razão ou outra, foram abandonadas e substituídas por outras piores ou simplesmente esquecidas. Namoros já não começam nesses jardins. O chamado "footing" há tempos não existe mais e a moçada de hoje sequer sabe o que a palavra significa. Aliás, nem mesmo se namora hoje em dia, no sentido que a minha geração e as anteriores emprestavam a esse ritual de conquista. As regras tácitas nesse sentido estão completamente alteradas. A iniciativa, por exemplo, não cabe mais ao homem. Ou não a ele exclusivamente. E a dinâmica antiga, quando se levava uma eternidade para a ocorrência dos primeiros contatos físicos entre os casais, há muito deixou de existir. Atualmente, entre a apresentação e a cama é questão de horas, quando não de minutos.
Mas nosso tema não é bem este. Platão, em seus escritos, defendia que a população ideal de uma cidade era de 5.440 habitantes. Ou seja, o total de pessoas que preenchiam a principal praça de Atenas, tamanha era a importância que dava a esses locais. Era neles que os decretos dos governantes eram divulgados aos cidadãos, em um período em que as comunicações eram orais, diretas, boca-a-boca. Era ali que notícias sobre expedições militares vinham a público, dando conta dos sucessos e insucessos das guerras (que nunca faltavam) ou do que se passava em outras comunidades vizinhas ou países. Nesses lugares prestígios eram firmados ou derrubados. Poetas e menestréis divulgavam as suas obras ao povo. Reivindicações e reclamações populares ganhavam vida e consistência.
Castro Alves tem um poema célebre a respeito, (transformado em letra de uma musiquinha de Carnaval muito cantada na Bahia). Em certo trecho, o poeta acentua: "A praça! A praça é do povo/como o céu é do condor!/É o antro onde a liberdade/cria guias em seu calor./Senhor, pois quereis a praça?/Desgraçada a populaça!/Só tem a rua de seu.../Ninguém vos rouba os castelos,/tendo palácios tão belos.../Deixai a terra ao Anteu". Hoje, nem isso o povo possui. A não ser os pobres entre os pobres, os indigentes, os "humilhados e ofendidos", que fazem das praças seu lar.
Outro ponto a destacar é a ausência de monumentos exaltando os heróis populares. O rádio, inicialmente, e a televisão, de 1950 para cá, quando foi inaugurado o primeiro canal no País (a TV Tupi de São Paulo), criaram vários deles, entre cantores, atores, jogadores de futebol, etc. Ou seja, gente verdadeiramente ligada ao povo e amada por ele. No entanto, apenas "vultos" da história, muitos dos quais absolutamente desconhecidos para a atual geração, continuam merecendo estátuas e bustos de bronze nos locais públicos. A vontade popular não é respeitada sequer nesses lugares que teoricamente pertencem ao cidadão anônimo. Por isso, ninguém se identifica com as praças como ocorria há não muito tempo. Por essa razão elas perdem mais e mais suas funções. Afinal, são as pessoas humildes, e não os figurões, que fazem de fato a história e consagram ou derrubam reputações.
Faltam em nossas praças estátuas de uma Carmem Miranda, de um Chico Alves, de um Orlando Silva, de uma Ellis Regina, de um Garrincha, de um Heleno de Freitas, de um Ayrton Senna, de um Tom Jobim e de tantos outros brasileiros, que com seu talento e suas vidas, bem ou mal, ajudaram a erigir a cultura e o esporte deste País. Já é tempo dos governantes entenderem que para a população, os verdadeiros heróis não são os que fazem a guerra, mas os que promovem e consolidam a paz.
As praças, nas grandes cidades brasileiras, vêm perdendo a função para a qual foram originalmente criadas. Ou seja, a de servirem de referências, de pontos de concentração do povo, onde as pessoas iam para se distrair, para reivindicar, para protestar, para rever amigos, para entabular namoros, etc. Atualmente, dada a violência urbana, esses locais se tornaram perigosos, especialmente à noite, e são cada vez menos freqüentados. Tornaram-se enormes calçadões, grandes espaços vazios, ilhados entre avenidas, por onde as pessoas apenas transitam, apressadas e distraídas e onde camelôs montam suas banquinhas e apregoam seus produtos. Pelo menos as de Campinas são assim. Há, claro, um ou outro aposentado que se arrisca a se sentar em seus bancos para apreciar o movimento ou ler calmamente seu jornal.
Mesmo estes corajosos (ou distraídos), todavia, escasseiam cada vez mais, muitos por terem passado por experiências traumatizantes, como assaltos em plena luz do dia. No período noturno...Nem é bom falar. Só os malucos se arriscam a freqüentá-las. Hoje, as praças (há exceções, claro), transformaram-se em pontos de traficantes e de viciados, de travestis e de prostitutas, em focos de vícios, de violência e conseqüentemente de perigo. Deixaram de ser do povo, para se tornar dos marginais. Em algumas cidades do interior elas ainda têm coretos, mas sem retretas. Estes lhes servem, somente, de bizarros ornamentos.
O tempo das bandinhas já passou, como o de tantas outras coisas boas que, por uma razão ou outra, foram abandonadas e substituídas por outras piores ou simplesmente esquecidas. Namoros já não começam nesses jardins. O chamado "footing" há tempos não existe mais e a moçada de hoje sequer sabe o que a palavra significa. Aliás, nem mesmo se namora hoje em dia, no sentido que a minha geração e as anteriores emprestavam a esse ritual de conquista. As regras tácitas nesse sentido estão completamente alteradas. A iniciativa, por exemplo, não cabe mais ao homem. Ou não a ele exclusivamente. E a dinâmica antiga, quando se levava uma eternidade para a ocorrência dos primeiros contatos físicos entre os casais, há muito deixou de existir. Atualmente, entre a apresentação e a cama é questão de horas, quando não de minutos.
Mas nosso tema não é bem este. Platão, em seus escritos, defendia que a população ideal de uma cidade era de 5.440 habitantes. Ou seja, o total de pessoas que preenchiam a principal praça de Atenas, tamanha era a importância que dava a esses locais. Era neles que os decretos dos governantes eram divulgados aos cidadãos, em um período em que as comunicações eram orais, diretas, boca-a-boca. Era ali que notícias sobre expedições militares vinham a público, dando conta dos sucessos e insucessos das guerras (que nunca faltavam) ou do que se passava em outras comunidades vizinhas ou países. Nesses lugares prestígios eram firmados ou derrubados. Poetas e menestréis divulgavam as suas obras ao povo. Reivindicações e reclamações populares ganhavam vida e consistência.
Castro Alves tem um poema célebre a respeito, (transformado em letra de uma musiquinha de Carnaval muito cantada na Bahia). Em certo trecho, o poeta acentua: "A praça! A praça é do povo/como o céu é do condor!/É o antro onde a liberdade/cria guias em seu calor./Senhor, pois quereis a praça?/Desgraçada a populaça!/Só tem a rua de seu.../Ninguém vos rouba os castelos,/tendo palácios tão belos.../Deixai a terra ao Anteu". Hoje, nem isso o povo possui. A não ser os pobres entre os pobres, os indigentes, os "humilhados e ofendidos", que fazem das praças seu lar.
Outro ponto a destacar é a ausência de monumentos exaltando os heróis populares. O rádio, inicialmente, e a televisão, de 1950 para cá, quando foi inaugurado o primeiro canal no País (a TV Tupi de São Paulo), criaram vários deles, entre cantores, atores, jogadores de futebol, etc. Ou seja, gente verdadeiramente ligada ao povo e amada por ele. No entanto, apenas "vultos" da história, muitos dos quais absolutamente desconhecidos para a atual geração, continuam merecendo estátuas e bustos de bronze nos locais públicos. A vontade popular não é respeitada sequer nesses lugares que teoricamente pertencem ao cidadão anônimo. Por isso, ninguém se identifica com as praças como ocorria há não muito tempo. Por essa razão elas perdem mais e mais suas funções. Afinal, são as pessoas humildes, e não os figurões, que fazem de fato a história e consagram ou derrubam reputações.
Faltam em nossas praças estátuas de uma Carmem Miranda, de um Chico Alves, de um Orlando Silva, de uma Ellis Regina, de um Garrincha, de um Heleno de Freitas, de um Ayrton Senna, de um Tom Jobim e de tantos outros brasileiros, que com seu talento e suas vidas, bem ou mal, ajudaram a erigir a cultura e o esporte deste País. Já é tempo dos governantes entenderem que para a população, os verdadeiros heróis não são os que fazem a guerra, mas os que promovem e consolidam a paz.
Monday, February 06, 2006
Sem medo da vida
Pedro J. Bondaczuk
Todas as coisas, na vida, como já dizia Eclesiastes, têm o seu tempo certo. Inclusive as que escapam à nossa competência, como o nascer e o morrer... É necessário que tenhamos uma postura de permanente participação, sempre, a cada momento, enquanto tenhamos um sopro vital, por menor que seja, e nunca se restringir à mera contemplação. Individualmente, não somos nada.
Poucos animais na natureza são, fisicamente, mais dependentes do que o homem. Mas nenhum opera as maravilhas de que ele é capaz, quando se prepara adequadamente e quando manifesta sua vontade e suas aptidões através de atos. É tolice esse mito da juventude, de que esta seja a fase mais criativa e produtiva da vida.
Até se explica essa postura, que não foi, de forma alguma, imposta pelos jovens. Ocorre que em certa fase da vida brasileira, a taxa de natalidade por aqui era muito elevada. O País era um dos que tinham o maior contingente mundial de pessoas entre zero e 21 anos, que chegou a representar, em determinado período, de 70% a 75% do total da população. Os homens de negócio viram nesse mercado enorme um bom filão para auferir grandes lucros. E com razão. Do resto, a propaganda e a publicidade se encarregaram..."Business", como diriam os norte-americanos...
Com isso, criaram-se modas e modismos voltados exclusivamente, ou quase, para essa faixa de brasileiros. Ocorre que esses jovens cresceram, amadureceram e inverteram o perfil etário do Brasil. Hoje, o patamar dos idosos é o que mais cresce. E crescerá muito mais nos anos vindouros. Logo, estejam certos, a indústria e o comércio vão atentar para esse fenômeno. E toda a propaganda e publicidade estarão voltadas (e a inversão já está começando) para os cidadãos de maduros para velhos, que eufemisticamente são chamados de integrantes da "3ª idade".
Assim é a vida. Cada fase dela tem suas vantagens e desvantagens. E mesmo que não tivesse, o controle do processo de envelhecimento não está em mãos humanas. É um ciclo biológico inevitável. De nada adiante se rebelar contra ele.
O Marquês de Maricá, conhecido por seus aforismos, citados em profusão nos antigos almanaques de laboratórios – hoje desaparecidos – tem um que fala a esse respeito. Diz: "Os velhos ruminam o pretérito, os moços antecipam e devoram o futuro". Tanto um, quanto o outro, estão errados. Ambos deveriam viver o aqui e o agora na sua plenitude. Ruminar o passado não o traz de volta e é, portanto, perda de tempo, que poderia ser melhor utilizado para coisas úteis, como por exemplo, para construir, a cada dia, um novo instante de felicidade. Antecipar o que é meramente potencial, por sua vez, é uma forma de apressar a velhice.
Um fruto, por mais saboroso que seja, só é saudável e próprio para o consumo quando está no ponto certo. Verde, amarra a boca. Podre... Assim também é a vida. E, igualmente, o que se entende por poder. Para que não seja simples miragem, este precisa de um período de maturação. O escritor, principalmente, deve ser sempre atemporal. Não pode, sob pena de fracassar, voltar suas mensagens apenas para pessoas de sua própria faixa etária. Tem que escrever para todo o tipo de leitor. Quanto maior a quantidade, tanto melhor. Terá mais "poder" para a difusão de idéias. Deve, sobretudo, compreender o comportamento dos indivíduos em cada etapa de sua vida, e nas variadas formas existentes, para incorporar em seus personagens e dessa forma dar-lhes verossimilhança. E em que parâmetro se basear? Na observação e, sobretudo, na memória. Deve recorrer à lembrança de como se comportava em cada idade pela qual passou.
Honoré de Balzac, profundo conhecedor da alma, sentenciou: "Todo poder humano é um misto de paciência e tempo". Claro que a juventude é fascinante, quando quem está nela tem as condições ideais de saúde, ambiente e educação. Quando conta com uma família esclarecida, que lhe balize o caminho a seguir. Mas é repleta de armadilhas e sobressaltos. É cheia de espinhos e sofrimentos, de perplexidade e de abandono quando não se tem nada disso. Os meninos de rua brasileiros (e de outras partes carentes do mundo) que o digam... Guimarães Rosa escreveu: "...Juventude? É uma maravilha. A juventude é quase tudo. É a humanidade, é a esperança recomeçando". De fato, é tudo isso. Mas para a burguesia. Para as classes alta e média. Generalizar essa "maravilha" não passa de alienação.
Mas seja qual for a nossa idade ou nossa condição social, a postura que tivermos face à vida vai contar muito para nosso sucesso ou fracasso, para nossa alegria ou tristeza, para nossa vitória ou frustração. Essa é uma tarefa solitária que apenas nós mesmos poderemos exercer. De pouca valia têm os conselhos, se não nos conscientizarmos daquilo que é o melhor para nós. Egon Krenz, um dos últimos líderes da extinta Alemanha Oriental, em pronunciamento que fez em 18 de janeiro de 1989, disse uma coisa muito importante a esse respeito. Observou: "Precisamos reconhecer os sinais do tempo e reagir, do contrário seremos punidos pela vida. Só correm perigo os que temem a vida". Não a temamos, portanto. Livremo-nos desse risco. Bebamos desse cálice milagroso até a derradeira gota...
Todas as coisas, na vida, como já dizia Eclesiastes, têm o seu tempo certo. Inclusive as que escapam à nossa competência, como o nascer e o morrer... É necessário que tenhamos uma postura de permanente participação, sempre, a cada momento, enquanto tenhamos um sopro vital, por menor que seja, e nunca se restringir à mera contemplação. Individualmente, não somos nada.
Poucos animais na natureza são, fisicamente, mais dependentes do que o homem. Mas nenhum opera as maravilhas de que ele é capaz, quando se prepara adequadamente e quando manifesta sua vontade e suas aptidões através de atos. É tolice esse mito da juventude, de que esta seja a fase mais criativa e produtiva da vida.
Até se explica essa postura, que não foi, de forma alguma, imposta pelos jovens. Ocorre que em certa fase da vida brasileira, a taxa de natalidade por aqui era muito elevada. O País era um dos que tinham o maior contingente mundial de pessoas entre zero e 21 anos, que chegou a representar, em determinado período, de 70% a 75% do total da população. Os homens de negócio viram nesse mercado enorme um bom filão para auferir grandes lucros. E com razão. Do resto, a propaganda e a publicidade se encarregaram..."Business", como diriam os norte-americanos...
Com isso, criaram-se modas e modismos voltados exclusivamente, ou quase, para essa faixa de brasileiros. Ocorre que esses jovens cresceram, amadureceram e inverteram o perfil etário do Brasil. Hoje, o patamar dos idosos é o que mais cresce. E crescerá muito mais nos anos vindouros. Logo, estejam certos, a indústria e o comércio vão atentar para esse fenômeno. E toda a propaganda e publicidade estarão voltadas (e a inversão já está começando) para os cidadãos de maduros para velhos, que eufemisticamente são chamados de integrantes da "3ª idade".
Assim é a vida. Cada fase dela tem suas vantagens e desvantagens. E mesmo que não tivesse, o controle do processo de envelhecimento não está em mãos humanas. É um ciclo biológico inevitável. De nada adiante se rebelar contra ele.
O Marquês de Maricá, conhecido por seus aforismos, citados em profusão nos antigos almanaques de laboratórios – hoje desaparecidos – tem um que fala a esse respeito. Diz: "Os velhos ruminam o pretérito, os moços antecipam e devoram o futuro". Tanto um, quanto o outro, estão errados. Ambos deveriam viver o aqui e o agora na sua plenitude. Ruminar o passado não o traz de volta e é, portanto, perda de tempo, que poderia ser melhor utilizado para coisas úteis, como por exemplo, para construir, a cada dia, um novo instante de felicidade. Antecipar o que é meramente potencial, por sua vez, é uma forma de apressar a velhice.
Um fruto, por mais saboroso que seja, só é saudável e próprio para o consumo quando está no ponto certo. Verde, amarra a boca. Podre... Assim também é a vida. E, igualmente, o que se entende por poder. Para que não seja simples miragem, este precisa de um período de maturação. O escritor, principalmente, deve ser sempre atemporal. Não pode, sob pena de fracassar, voltar suas mensagens apenas para pessoas de sua própria faixa etária. Tem que escrever para todo o tipo de leitor. Quanto maior a quantidade, tanto melhor. Terá mais "poder" para a difusão de idéias. Deve, sobretudo, compreender o comportamento dos indivíduos em cada etapa de sua vida, e nas variadas formas existentes, para incorporar em seus personagens e dessa forma dar-lhes verossimilhança. E em que parâmetro se basear? Na observação e, sobretudo, na memória. Deve recorrer à lembrança de como se comportava em cada idade pela qual passou.
Honoré de Balzac, profundo conhecedor da alma, sentenciou: "Todo poder humano é um misto de paciência e tempo". Claro que a juventude é fascinante, quando quem está nela tem as condições ideais de saúde, ambiente e educação. Quando conta com uma família esclarecida, que lhe balize o caminho a seguir. Mas é repleta de armadilhas e sobressaltos. É cheia de espinhos e sofrimentos, de perplexidade e de abandono quando não se tem nada disso. Os meninos de rua brasileiros (e de outras partes carentes do mundo) que o digam... Guimarães Rosa escreveu: "...Juventude? É uma maravilha. A juventude é quase tudo. É a humanidade, é a esperança recomeçando". De fato, é tudo isso. Mas para a burguesia. Para as classes alta e média. Generalizar essa "maravilha" não passa de alienação.
Mas seja qual for a nossa idade ou nossa condição social, a postura que tivermos face à vida vai contar muito para nosso sucesso ou fracasso, para nossa alegria ou tristeza, para nossa vitória ou frustração. Essa é uma tarefa solitária que apenas nós mesmos poderemos exercer. De pouca valia têm os conselhos, se não nos conscientizarmos daquilo que é o melhor para nós. Egon Krenz, um dos últimos líderes da extinta Alemanha Oriental, em pronunciamento que fez em 18 de janeiro de 1989, disse uma coisa muito importante a esse respeito. Observou: "Precisamos reconhecer os sinais do tempo e reagir, do contrário seremos punidos pela vida. Só correm perigo os que temem a vida". Não a temamos, portanto. Livremo-nos desse risco. Bebamos desse cálice milagroso até a derradeira gota...
Sunday, February 05, 2006
Civilização da solidão
Pedro J. Bondaczuk
Os tempos atuais são caracterizados, entre outras tantas coisas, por uma profunda solidão, que se abate sobre grandes contingentes de pessoas, gerando infelicidade, carências afetivas, neuroses, depressão e outros males psíquicos e físicos.
“Mas como?!”, perguntará, admirado, o atento leitor, como que duvidando da sanidade do cronista. “Afinal, já somos mais de 6,3 bilhões de tripulantes na espaçonave Terra e, atualmente, nascem mais de três bebês por segundo em todo o mundo”, dirá, com convicção, o mais bem-informado, como se apresentasse um argumento decisivo, que pusesse fim à conversa.
De fato, é o que ocorre. “Ademais”, acrescentará, “os meios de comunicação são cada vez mais sofisticados, aproximando pessoas de todos os continentes; como os jornais e revistas que se multiplicam pelo mundo afora; os computadores, cada vez mais rápidos, simples e popularizados; o rádio e a televisão, onipresentes em nosso dia-a-dia; e o telefone celular, que permite a qualquer um falar diretamente com milhões de interlocutores, estejam onde estiverem”.
Isto, é fato, não há como negar. Desde que acordamos, até o momento de nos recolhermos de novo, para dormir, mantemos contatos diretos e/ou indiretos com dezenas, centenas e, não raro, com milhares de pessoas em nosso convívio, quer familiar, quer profissional, quer social. Ainda assim...sem que na maioria das vezes venhamos a nos dar conta, estamos, de fato, real e irremediavelmente sós.
Tanto que o escritor francês André Malraux (1901-1976), especializado em assuntos políticos, de comportamento e de cultura (em 1959 assumiu o então recém-criado Ministério das Questões Culturais no governo do general Charles De Gaulle), assegurou, do alto da sua experiência e conhecimento, que de fato integramos “a civilização da solidão”.
As comunicações que mantemos em nosso cotidiano raramente são pessoais, íntimas e intensas. Caracterizam-se, em geral, pelo formalismo, pela impessoalidade, pela frieza e pela formalidade. Parecem atos, gestos e palavras ensaiados, como se estivéssemos representando uma peça teatral num palco. E, de fato, estamos, mesmo que não saibamos ou não admitamos.
Raros se preocupam, de verdade, com o que o interlocutor é, com o que pensa e, principalmente, com o que sente. E a recíproca é verdadeira. Poucas vezes temos a oportunidade (e a confiança suficiente), para abrirmos, de fato, nossos corações a alguém, até mesmo aos cônjuges ou aos pais, para expressarmos, sem pudor, sem freios e nem restrições, nossas angústias, carências, temores, fraquezas e idéias. Em geral mostramos o que não somos e o que não pensamos, por medo de críticas e recriminações. Felizes os que encontram um ouvido generoso ou um ombro amigo e acolhedor para as suas confidências
Não raro, vivemos anos sob o mesmo teto com um punhado de pessoas sem que nos conheçamos, de fato, naquilo que realmente importa. Por isso, embora residindo em superpovoadas concentrações urbanas, algumas com populações equivalentes à de países (São Paulo, por exemplo, tem uma vez e meia o número de habitantes de Portugal), apesar de termos nosso espaço vital cada vez mais restrito e encolhido e da privacidade ter se tornado, literalmente, uma impossibilidade, somos, ou pelo menos nos sentimos, cada vez mais sós. Irremediavelmente sós!
Ademais, sem que sequer nos apercebamos, nos vemos coagidos a abrir mão da nossa individualidade, dos nossos gostos, do nosso jeito de ser, induzidos, sutilmente (pelo que se convencionou chamar de “educação”), quando não coagidos, à massificação. Concordemos ou não, temos que nos enquadrar em determinado sistema, ideológico, político, econômico, religioso e/ou social. Somos forçados a aderir ao que se convencionou chamar de “moda”, que nos impõe o que e como se vestir, que tipo de alimento consumir, que espécie de lazer praticar e, até mesmo, como amar uma pessoa.
Experimente, por exemplo, caro leitor, sair à rua trajando fraque, cartola e usando um pince-nez. A primeira interpretação de quem o vir com esses trajes será a de que você está vestido para um baile de fantasias, principalmente se for tempo de Carnaval, ou para participar, como ator, de alguma peça de teatro. Mesmo que você aprecie esse traje, portanto, jamais o usará no dia-a-dia, a menos que não se importe de se expor ao ridículo.
Esta civilização, como assinalou Malraux, separa inflexivelmente, de todas as anteriores, “a posse dos gestos humanos”. Massa. Temos que nos enquadrar na massa, mesmo que não concordemos com o que nos for imposto. Ou nos enquadramos, ou nos tornamos marginais, discriminados e, quem sabe, confinados num manicômio, como loucos perigosos.
Eminentes filósofos, como Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, afirmaram que o homem jamais está, de fato, só e que nunca deve ficar, já que é um animal basicamente social, sobretudo político. A solidão, todavia, pode ter dupla interpretação. Do ponto de vista físico, num mundo com mais de 6,3 bilhões de habitantes, não há, de fato, como estar sozinho. Todavia, espiritualmente...Se levarmos em conta nossas diferenças de gostos, de sentimentos e de emoções, o processo genuíno de comunicação, salvo exceções, torna-se quase que mera abstração. Não somos entendidos e, em contrapartida, não entendemos os que nos cercam. E nos sentimos irremediavelmente sós...
Os tempos atuais são caracterizados, entre outras tantas coisas, por uma profunda solidão, que se abate sobre grandes contingentes de pessoas, gerando infelicidade, carências afetivas, neuroses, depressão e outros males psíquicos e físicos.
“Mas como?!”, perguntará, admirado, o atento leitor, como que duvidando da sanidade do cronista. “Afinal, já somos mais de 6,3 bilhões de tripulantes na espaçonave Terra e, atualmente, nascem mais de três bebês por segundo em todo o mundo”, dirá, com convicção, o mais bem-informado, como se apresentasse um argumento decisivo, que pusesse fim à conversa.
De fato, é o que ocorre. “Ademais”, acrescentará, “os meios de comunicação são cada vez mais sofisticados, aproximando pessoas de todos os continentes; como os jornais e revistas que se multiplicam pelo mundo afora; os computadores, cada vez mais rápidos, simples e popularizados; o rádio e a televisão, onipresentes em nosso dia-a-dia; e o telefone celular, que permite a qualquer um falar diretamente com milhões de interlocutores, estejam onde estiverem”.
Isto, é fato, não há como negar. Desde que acordamos, até o momento de nos recolhermos de novo, para dormir, mantemos contatos diretos e/ou indiretos com dezenas, centenas e, não raro, com milhares de pessoas em nosso convívio, quer familiar, quer profissional, quer social. Ainda assim...sem que na maioria das vezes venhamos a nos dar conta, estamos, de fato, real e irremediavelmente sós.
Tanto que o escritor francês André Malraux (1901-1976), especializado em assuntos políticos, de comportamento e de cultura (em 1959 assumiu o então recém-criado Ministério das Questões Culturais no governo do general Charles De Gaulle), assegurou, do alto da sua experiência e conhecimento, que de fato integramos “a civilização da solidão”.
As comunicações que mantemos em nosso cotidiano raramente são pessoais, íntimas e intensas. Caracterizam-se, em geral, pelo formalismo, pela impessoalidade, pela frieza e pela formalidade. Parecem atos, gestos e palavras ensaiados, como se estivéssemos representando uma peça teatral num palco. E, de fato, estamos, mesmo que não saibamos ou não admitamos.
Raros se preocupam, de verdade, com o que o interlocutor é, com o que pensa e, principalmente, com o que sente. E a recíproca é verdadeira. Poucas vezes temos a oportunidade (e a confiança suficiente), para abrirmos, de fato, nossos corações a alguém, até mesmo aos cônjuges ou aos pais, para expressarmos, sem pudor, sem freios e nem restrições, nossas angústias, carências, temores, fraquezas e idéias. Em geral mostramos o que não somos e o que não pensamos, por medo de críticas e recriminações. Felizes os que encontram um ouvido generoso ou um ombro amigo e acolhedor para as suas confidências
Não raro, vivemos anos sob o mesmo teto com um punhado de pessoas sem que nos conheçamos, de fato, naquilo que realmente importa. Por isso, embora residindo em superpovoadas concentrações urbanas, algumas com populações equivalentes à de países (São Paulo, por exemplo, tem uma vez e meia o número de habitantes de Portugal), apesar de termos nosso espaço vital cada vez mais restrito e encolhido e da privacidade ter se tornado, literalmente, uma impossibilidade, somos, ou pelo menos nos sentimos, cada vez mais sós. Irremediavelmente sós!
Ademais, sem que sequer nos apercebamos, nos vemos coagidos a abrir mão da nossa individualidade, dos nossos gostos, do nosso jeito de ser, induzidos, sutilmente (pelo que se convencionou chamar de “educação”), quando não coagidos, à massificação. Concordemos ou não, temos que nos enquadrar em determinado sistema, ideológico, político, econômico, religioso e/ou social. Somos forçados a aderir ao que se convencionou chamar de “moda”, que nos impõe o que e como se vestir, que tipo de alimento consumir, que espécie de lazer praticar e, até mesmo, como amar uma pessoa.
Experimente, por exemplo, caro leitor, sair à rua trajando fraque, cartola e usando um pince-nez. A primeira interpretação de quem o vir com esses trajes será a de que você está vestido para um baile de fantasias, principalmente se for tempo de Carnaval, ou para participar, como ator, de alguma peça de teatro. Mesmo que você aprecie esse traje, portanto, jamais o usará no dia-a-dia, a menos que não se importe de se expor ao ridículo.
Esta civilização, como assinalou Malraux, separa inflexivelmente, de todas as anteriores, “a posse dos gestos humanos”. Massa. Temos que nos enquadrar na massa, mesmo que não concordemos com o que nos for imposto. Ou nos enquadramos, ou nos tornamos marginais, discriminados e, quem sabe, confinados num manicômio, como loucos perigosos.
Eminentes filósofos, como Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, afirmaram que o homem jamais está, de fato, só e que nunca deve ficar, já que é um animal basicamente social, sobretudo político. A solidão, todavia, pode ter dupla interpretação. Do ponto de vista físico, num mundo com mais de 6,3 bilhões de habitantes, não há, de fato, como estar sozinho. Todavia, espiritualmente...Se levarmos em conta nossas diferenças de gostos, de sentimentos e de emoções, o processo genuíno de comunicação, salvo exceções, torna-se quase que mera abstração. Não somos entendidos e, em contrapartida, não entendemos os que nos cercam. E nos sentimos irremediavelmente sós...
Saturday, February 04, 2006
Desafio da Esfinge
Pedro J. Bondaczuk
Os tempos atuais caracterizam-se pela angústia, pela violência, pela incerteza quanto ao futuro e por um profundo abismo que separa uma inexpressiva minoria, que tudo pode e tudo tem e que detém, virtualmente, todos os bens e recursos do Planeta, e uma imensa maioria, excluída, segregada, vítima do “apartheid” social, que vegeta nos limites ou nas profundezas da miséria.
A humanidade confronta-se com aguda e generalizada crise, de múltiplas facetas, certamente a mais grave da História, desde que o homem surgiu na face Terra. De como vai equacioná-la (se é que vai), dependerá a sobrevivência ou não da espécie, seriamente ameaçada de extinção por uma série de perigos, dos quais os mais iminentes e assustadores são as profundas mudanças climáticas (provavelmente irreversíveis) que ocorrem no mundo e a eventual utilização das armas nucleares.
Enquanto isso, a população continua a se multiplicar, como metástase de um tumor maligno, acelerando, mais e mais, a depredação ambiental e agravando problemas, já por si sós graves, dos quais o maior de todos é o de como alimentar tantas bocas. Crescentes extensões do solo, outrora cobertas por florestas, vêm sendo utilizadas, sem planejamento e sem critério, comprometendo nascentes dos rios e aquecendo cada vez mais o clima terrestre. Por enquanto, a agricultura vem dando conta da produção de alimentos mais do que suficientes para o contingente atual de pessoas. Mas até quando isso vai continuar?
Milhões, bilhões de hectares de terra, outrora férteis, se esgotam rapidamente e exigem crescentes quantidades de produtos químicos, ou seja, de fertilizantes, cujas influências sobre o organismo são, certamente, daninhas, para continuar produzindo. Toneladas e mais toneladas de defensivos agrícolas, ou seja, de venenos, são utilizadas, para impedir que pragas arrasem as colheitas. Chegará o dia, porém, diz a lógica, em que os solos estarão exauridos e negarão o fruto da terra. Quando isso ocorrer... o cenário, que provavelmente vai se desenhar será de impossível descrição, tão terríveis são as suas possibilidades.
Ademais, a distribuição desses alimentos, hoje produzidos em imensas quantidades, é das mais injustas e perversas. Enquanto a obesidade se tornou a doença mais difundida nas sociedades privilegiadas, em decorrência da gula, milhares e milhares de pessoas, nos países pobres da África, da Ásia e das Américas, morrem de fome.
René Huyghe (1906-1997), que durante um quarto de século ocupou a cadeira de Psicologia das Artes Plásticas do Collége de France – foi presidente do Conselho Artístico do Museu Nacional e foi membro da Academia Francesa – afirmou que a crise que compromete a humanidade não vem do exterior. Provém, no seu entender, “do antagonismo de interesses e dos atritos, que se constituem em fonte de ódio”. Ou seja, procede do coração do homem.
Daí a sua gravidade. As pessoas não têm como e nem para onde fugir desse perigo. É como se fossem confrontadas com a mitológica Esfinge que, conforme os gregos, estava postada em frente às portas de Tebas e desafiava os que para lá se dirigiam: “Decifra-me ou te devoro!”.
O único caminho possível para o homem é o que nos parece, simultânea e paradoxalmente, impossível. Ou seja, o da profunda transformação da mentalidade reinante e do comportamento de cada pessoa, substituindo o atual egoísmo e a atual avareza, pela justa e fraterna partilha de bens e pela irrestrita solidariedade. Utopia, não é verdade? Infelizmente, sim!
Ademais, não é correto se falar em uma única “crise”, mas sim, passá-la para o plural. O que temos são várias crises, entre as quais as principais são a material (já abordada, caracterizada por um consumismo insensato e crescente, que ameaça esgotar, em poucos anos, os recursos da Terra, além de causar irreversível poluição), a psíquica e, sobretudo, a moral, entre outras.
A humanidade parece estar dormindo e inconsciente para a dimensão e a iminência do perigo. Ou está como que narcotizada, iludida pelo suposto progresso, que é como denomina essa insensata acumulação de bens materiais. Por conseqüência, como assinala Huyghe, “sua reação é cega como a de um doente que enlouquece e, debatendo-se, agrava seus males”.
E sabe o leitor em que reside o risco maior? Nisto, destacado pelo líder budista japonês, Daisaku Ikeda: “Se o homem permanecer passivo diante de um perigo imediato, se pressentir a morte sem reagir, ele não será mais do que uma coisa inerte com o nome de homem”. Ainda há tempo de mudar a mentalidade e o comportamento do homem. Mas este é ínfimo e urge agir com a maior presteza. para garantir a sobrevivência, com dignidade, da espécie. Decifra-me ou te devoro!
Os tempos atuais caracterizam-se pela angústia, pela violência, pela incerteza quanto ao futuro e por um profundo abismo que separa uma inexpressiva minoria, que tudo pode e tudo tem e que detém, virtualmente, todos os bens e recursos do Planeta, e uma imensa maioria, excluída, segregada, vítima do “apartheid” social, que vegeta nos limites ou nas profundezas da miséria.
A humanidade confronta-se com aguda e generalizada crise, de múltiplas facetas, certamente a mais grave da História, desde que o homem surgiu na face Terra. De como vai equacioná-la (se é que vai), dependerá a sobrevivência ou não da espécie, seriamente ameaçada de extinção por uma série de perigos, dos quais os mais iminentes e assustadores são as profundas mudanças climáticas (provavelmente irreversíveis) que ocorrem no mundo e a eventual utilização das armas nucleares.
Enquanto isso, a população continua a se multiplicar, como metástase de um tumor maligno, acelerando, mais e mais, a depredação ambiental e agravando problemas, já por si sós graves, dos quais o maior de todos é o de como alimentar tantas bocas. Crescentes extensões do solo, outrora cobertas por florestas, vêm sendo utilizadas, sem planejamento e sem critério, comprometendo nascentes dos rios e aquecendo cada vez mais o clima terrestre. Por enquanto, a agricultura vem dando conta da produção de alimentos mais do que suficientes para o contingente atual de pessoas. Mas até quando isso vai continuar?
Milhões, bilhões de hectares de terra, outrora férteis, se esgotam rapidamente e exigem crescentes quantidades de produtos químicos, ou seja, de fertilizantes, cujas influências sobre o organismo são, certamente, daninhas, para continuar produzindo. Toneladas e mais toneladas de defensivos agrícolas, ou seja, de venenos, são utilizadas, para impedir que pragas arrasem as colheitas. Chegará o dia, porém, diz a lógica, em que os solos estarão exauridos e negarão o fruto da terra. Quando isso ocorrer... o cenário, que provavelmente vai se desenhar será de impossível descrição, tão terríveis são as suas possibilidades.
Ademais, a distribuição desses alimentos, hoje produzidos em imensas quantidades, é das mais injustas e perversas. Enquanto a obesidade se tornou a doença mais difundida nas sociedades privilegiadas, em decorrência da gula, milhares e milhares de pessoas, nos países pobres da África, da Ásia e das Américas, morrem de fome.
René Huyghe (1906-1997), que durante um quarto de século ocupou a cadeira de Psicologia das Artes Plásticas do Collége de France – foi presidente do Conselho Artístico do Museu Nacional e foi membro da Academia Francesa – afirmou que a crise que compromete a humanidade não vem do exterior. Provém, no seu entender, “do antagonismo de interesses e dos atritos, que se constituem em fonte de ódio”. Ou seja, procede do coração do homem.
Daí a sua gravidade. As pessoas não têm como e nem para onde fugir desse perigo. É como se fossem confrontadas com a mitológica Esfinge que, conforme os gregos, estava postada em frente às portas de Tebas e desafiava os que para lá se dirigiam: “Decifra-me ou te devoro!”.
O único caminho possível para o homem é o que nos parece, simultânea e paradoxalmente, impossível. Ou seja, o da profunda transformação da mentalidade reinante e do comportamento de cada pessoa, substituindo o atual egoísmo e a atual avareza, pela justa e fraterna partilha de bens e pela irrestrita solidariedade. Utopia, não é verdade? Infelizmente, sim!
Ademais, não é correto se falar em uma única “crise”, mas sim, passá-la para o plural. O que temos são várias crises, entre as quais as principais são a material (já abordada, caracterizada por um consumismo insensato e crescente, que ameaça esgotar, em poucos anos, os recursos da Terra, além de causar irreversível poluição), a psíquica e, sobretudo, a moral, entre outras.
A humanidade parece estar dormindo e inconsciente para a dimensão e a iminência do perigo. Ou está como que narcotizada, iludida pelo suposto progresso, que é como denomina essa insensata acumulação de bens materiais. Por conseqüência, como assinala Huyghe, “sua reação é cega como a de um doente que enlouquece e, debatendo-se, agrava seus males”.
E sabe o leitor em que reside o risco maior? Nisto, destacado pelo líder budista japonês, Daisaku Ikeda: “Se o homem permanecer passivo diante de um perigo imediato, se pressentir a morte sem reagir, ele não será mais do que uma coisa inerte com o nome de homem”. Ainda há tempo de mudar a mentalidade e o comportamento do homem. Mas este é ínfimo e urge agir com a maior presteza. para garantir a sobrevivência, com dignidade, da espécie. Decifra-me ou te devoro!
Friday, February 03, 2006
Renúncia e compreensão
Pedro J. Bondaczuk
As pessoas, em geral, apegam-se excessivamente às coisas. A um carro, a uma casa, a um barco, a um livro e principalmente àquilo que lhes possibilita adquirir todos esses objetos: o dinheiro. Mais da metade do tempo de nossa vida gastamos na tentativa de conseguir esses bens. Pretextos não faltam para justificar essa atitude. Agimos como se da sua posse dependesse a nossa sobrevivência. Não depende. Precisamos de poucas, pouquíssimas coisas para viver. Para obter os objetos dos nossos desejos, não titubeamos em sacrificar valores que realmente importam: amor, amizades, solidariedade, etc. Isto quando não transgredimos a moral ou as leis. Perdemos a grandeza com a perda da perspectiva.
Alguns, em determinado instante das suas vidas, têm um lampejo de lucidez, um momento de iluminação, um clique mental e compreendem a inutilidade desse perpétuo juntar. A maioria, releva essa percepção, esquece-a, e continua na mesma toada até a morte. Há, contudo, os que dão uma guinada de 180 graus. Revêem seus conceitos, reciclam suas crenças, renovam seus valores. E dão o grande, o magnífico, o doloroso passo da renúncia. Os que os cercam não entendem nada. Acham que essas pessoas "piraram", perderam o bom-senso, se tornaram caducas. O poeta Paul Valéry, citado por André Maurois em seu livro "Vozes da França", observa: "Um homem que renuncia ao mundo coloca-se em condições de compreendê-lo".
Paulo Setúbal deu esse magnífico passo. Pena que não viveu mais tempo para explicar melhor essa experiência. Mas deixou um registro escrito dessa dramática conversão. Li-o, pela primeira vez, em 1958, quando era um garoto de 14 anos. Aliás, na ocasião, fui obrigado a ler, para fazer um trabalho de escola, na aula de português, pelo saudoso professor Moisés Prates, no então Ginásio Adventista Campineiro, em Hortolândia. Reli-o há poucos dias de um só sopro. E entendi, em toda a sua extensão, a profundidade da mensagem. Refiro-me ao livro "Confiteor".
Nele, Paulo Setúbal – que ocupou a cadeira 31, cujo patrono é Pedro Luís, da Academia Brasileira de Letras, ocupada antes dele por Luís Guimarães Junior e João Ribeiro e depois por Cassiano Ricardo, João Cândido de Carvalho e Geraldo França de Lima – relata a sua "estrada de Damasco", a sua iluminação, o seu momento da verdade.
Trata-se de uma obra publicada "post-mortem" pela Editora Saraiva. É o relato, a confissão íntima, o corajoso "mea culpa" de um homem doente, com os dias contados, que sabia que iria morrer, mas que não estava nem temeroso e nem revoltado com essa dolorosa circunstância. Estava revestido de magnífica serenidade. Teve tempo e forças e lucidez para rever seus atos, seus conceitos, suas idéias e seus valores. E foi grandioso, foi íntegro, foi sábio ao ponto de renunciar a um passado vitorioso, (pelo menos na visão da sociedade) para voltar-se a Deus.
Abriu mão do efêmero concreto para buscar o que apenas a fé sugere que exista, mas que seria eterno. Cito este caso, por estar ao nosso alcance e haver prova concreta dele: o livro. Há inúmeras pessoas que renunciam ao mundo sem deixar vestígios ou testemunhos. Encerram-se em mosteiros, retiram-se para lugares ermos, mudam até mesmo de nome. E ninguém, a não ser parentes próximos, fica sabendo dessa decisão.
Paulo Setúbal afirma no "Confiteor": "O homem, enquanto não enfreia os seus pendores inatos, enquanto é vaidoso, é soberbo, é vingativo, é iroso, é dominador, é odiento, é carnal; o homem, enquanto está apenas voltado para as coisas terrenas, enquanto ama a glória vã, ama o louvor, ama a riqueza, ama o poder, ama as honrarias; o homem assim...o homem que não tem os olhos virados para os esplendores espirituais, esse homem é ainda o `homem velho', o das cavernas, o que não se transformou, o que não se comoveu ante a palavra avassaladora do Cristo, o que não sentiu a beleza imortal do sermão da montanha, o que não foi tocado pelo anseio da perfeição. Até porque, como constatou o rei Salomão na velhice, após conhecer o auge da riqueza, da glória e do poder: "Vaidade, vaidade... Tudo no mundo é vaidade..." E como é!
As pessoas, em geral, apegam-se excessivamente às coisas. A um carro, a uma casa, a um barco, a um livro e principalmente àquilo que lhes possibilita adquirir todos esses objetos: o dinheiro. Mais da metade do tempo de nossa vida gastamos na tentativa de conseguir esses bens. Pretextos não faltam para justificar essa atitude. Agimos como se da sua posse dependesse a nossa sobrevivência. Não depende. Precisamos de poucas, pouquíssimas coisas para viver. Para obter os objetos dos nossos desejos, não titubeamos em sacrificar valores que realmente importam: amor, amizades, solidariedade, etc. Isto quando não transgredimos a moral ou as leis. Perdemos a grandeza com a perda da perspectiva.
Alguns, em determinado instante das suas vidas, têm um lampejo de lucidez, um momento de iluminação, um clique mental e compreendem a inutilidade desse perpétuo juntar. A maioria, releva essa percepção, esquece-a, e continua na mesma toada até a morte. Há, contudo, os que dão uma guinada de 180 graus. Revêem seus conceitos, reciclam suas crenças, renovam seus valores. E dão o grande, o magnífico, o doloroso passo da renúncia. Os que os cercam não entendem nada. Acham que essas pessoas "piraram", perderam o bom-senso, se tornaram caducas. O poeta Paul Valéry, citado por André Maurois em seu livro "Vozes da França", observa: "Um homem que renuncia ao mundo coloca-se em condições de compreendê-lo".
Paulo Setúbal deu esse magnífico passo. Pena que não viveu mais tempo para explicar melhor essa experiência. Mas deixou um registro escrito dessa dramática conversão. Li-o, pela primeira vez, em 1958, quando era um garoto de 14 anos. Aliás, na ocasião, fui obrigado a ler, para fazer um trabalho de escola, na aula de português, pelo saudoso professor Moisés Prates, no então Ginásio Adventista Campineiro, em Hortolândia. Reli-o há poucos dias de um só sopro. E entendi, em toda a sua extensão, a profundidade da mensagem. Refiro-me ao livro "Confiteor".
Nele, Paulo Setúbal – que ocupou a cadeira 31, cujo patrono é Pedro Luís, da Academia Brasileira de Letras, ocupada antes dele por Luís Guimarães Junior e João Ribeiro e depois por Cassiano Ricardo, João Cândido de Carvalho e Geraldo França de Lima – relata a sua "estrada de Damasco", a sua iluminação, o seu momento da verdade.
Trata-se de uma obra publicada "post-mortem" pela Editora Saraiva. É o relato, a confissão íntima, o corajoso "mea culpa" de um homem doente, com os dias contados, que sabia que iria morrer, mas que não estava nem temeroso e nem revoltado com essa dolorosa circunstância. Estava revestido de magnífica serenidade. Teve tempo e forças e lucidez para rever seus atos, seus conceitos, suas idéias e seus valores. E foi grandioso, foi íntegro, foi sábio ao ponto de renunciar a um passado vitorioso, (pelo menos na visão da sociedade) para voltar-se a Deus.
Abriu mão do efêmero concreto para buscar o que apenas a fé sugere que exista, mas que seria eterno. Cito este caso, por estar ao nosso alcance e haver prova concreta dele: o livro. Há inúmeras pessoas que renunciam ao mundo sem deixar vestígios ou testemunhos. Encerram-se em mosteiros, retiram-se para lugares ermos, mudam até mesmo de nome. E ninguém, a não ser parentes próximos, fica sabendo dessa decisão.
Paulo Setúbal afirma no "Confiteor": "O homem, enquanto não enfreia os seus pendores inatos, enquanto é vaidoso, é soberbo, é vingativo, é iroso, é dominador, é odiento, é carnal; o homem, enquanto está apenas voltado para as coisas terrenas, enquanto ama a glória vã, ama o louvor, ama a riqueza, ama o poder, ama as honrarias; o homem assim...o homem que não tem os olhos virados para os esplendores espirituais, esse homem é ainda o `homem velho', o das cavernas, o que não se transformou, o que não se comoveu ante a palavra avassaladora do Cristo, o que não sentiu a beleza imortal do sermão da montanha, o que não foi tocado pelo anseio da perfeição. Até porque, como constatou o rei Salomão na velhice, após conhecer o auge da riqueza, da glória e do poder: "Vaidade, vaidade... Tudo no mundo é vaidade..." E como é!
Thursday, February 02, 2006
Cérebro reprogramado
Pedro J. Bondaczuk
O tipo de vida que levamos, em especial nas grandes cidades, é uma fonte quase que inesgotável de preocupações, de angústias e de tensões, que não raro nos conduzem a neuroses e a outros males ainda maiores (físicos e sobretudo psicológicos), em geral irreversíveis, quando não letais.Desde quando nos levantamos, pela manhã, para nos dirigirmos ao trabalho, até a hora de nos recolhermos, depois de concluído nosso dia, somos confrontados com pequenas ou grandes dificuldades que, dada a repetição, nos produzem, pouco a pouco, um desgaste profundo, que nos impede de vermos, e por isso de valorizarmos, as coisas boas que nos acontecem e que não são poucas.
Já começamos o dia, logo de cara, a nos irritar: com o trânsito, com o excesso de burocracia no trabalho, com as contas a pagar, com o barulho característico destas arapucas que são as grandes cidades, e vai por aí afora. O lar, não raro, é outra grande fonte de angústias (há exceções, é claro, como em toda a regra). Há, por exemplo, o desgaste no relacionamento com a (ou com o) cônjuge, com os filhos (permanente fonte de preocupações, dado os riscos a que estão expostos), com o cachorro, com os vizinhos etc. etc. etc.
Ademais, os meios de comunicação não nos ajudam a cultivar um sadio otimismo. Pelo contrário, nos bombardeiam, da manhã até a noite, com uma enxurrada de notícias ruins: a violência urbana, a corrupção dos políticos, os desastres naturais ou provocados pelo homem, a inflação, a selvajaria do sistema financeiro e outras tantas, e tantas e tantas desgraças, patifarias e tragédias. Esse conjunto de eventos negativos levou o escritor Aldous Huxley a essa instigante pergunta: “E se este mundo for o inferno de outro planeta?”. Claro que não é. Pelo menos, não o é de outro planeta. É nosso, humano. Nós é que o criamos, com nossa insensatez e fragilidade.
Todavia, "a vida que você leva foi criada por você e não pelas circunstâncias". Certo? Para Lair Ribeiro, um dos maiores especialistas em neurolingüística do País, sim. De acordo com este médico, que está fazendo enorme sucesso em um novo campo de atividades, objeto de muita discussão entre os que acreditam em suas propostas e os que acham que se trata de outro modismo (como o famoso "como fazer amigos e influenciar pessoas", de Dale Carneggie, dos anos 50), para obtermos êxito em nossa vida – tanto profissional, quanto social ou afetiva – precisamos "acreditar".
Ou seja, temos que nos predispor para o sucesso. Devemos "reprogramar" nossos cérebros, para extrair deles o pessimismo, o medo do fracasso e o ressentimento contra terceiros e colocar no lugar otimismo, confiança e simpatia. Difícil? Sem dúvida! Impossível? Jamais! A felicidade (não importa como a entendemos), o sucesso em nossas atividades e o progresso, espiritual e/ou material, não nos são oferecidos de bandeja. Temos que conquistá-los! As estratégias para isso são inúmeras, mas nenhuma delas implica em pessimismo quanto às nossas possibilidades, em medo de nos expormos ou em ressentimentos contra fulano, sicrano, beltrano e, por extensão, contra o mundo.
Lair Ribeiro condena, especificamente, o uso de três palavras-chaves que, conforme ele, são altamente negativas e nos inibem na busca da felicidade e, portanto, precisam ser banidas do nosso vocabulário: "não", "nunca" e "tentar". A primeira, aliás, mereceu memorável e antológico sermão do Padre Antônio Vieira, no século XVII, constante em todas as boas antologias da língua portuguesa. Em contrapartida, o neurolingüísta recomenda que coloquemos como lemas, como metas, até como uma espécie de mantras em nosso subconsciente, estas expressões afirmativas: "eu quero!", "eu posso!" e "eu vou!".
Pode ser que a sua técnica não se constitua em panacéia para todos os males (não há uma fórmula mágica, que funcione em toda e qualquer situação e seja válida para todos. Antes houvesse! A vida não é tão simples.). Contudo, que uma postura otimista, positiva e autoconfiante nos leva a encarar os problemas com maior objetividade, disso não há dúvida. E a "reprogramação" do nosso cérebro é uma fascinante experiência.
Lair acentua que "a vida é um eco. Se você não está gostando do que está recebendo, observe o que você está emitindo". E conclui: "Todo ato humano é motivado pelas seguintes razões: evitar sofrimento ou procurar prazer. Tudo o que você faz é baseado num equilíbrio entre esses dois motivos. Vivemos, então, numa escala analógica entre sofrimento e prazer". Faz sentido. Afinal, a principal obrigação do ser humano é consigo próprio: a de ser feliz. O que temos é que achar o caminho da felicidade e o trilharmos com otimismo, com determinação e, sobretudo, com persistência. E esta trilha, convenhamos, não é (e nem pode ser) a do pessimismo, a do medo ou a do ressentimento.
O tipo de vida que levamos, em especial nas grandes cidades, é uma fonte quase que inesgotável de preocupações, de angústias e de tensões, que não raro nos conduzem a neuroses e a outros males ainda maiores (físicos e sobretudo psicológicos), em geral irreversíveis, quando não letais.Desde quando nos levantamos, pela manhã, para nos dirigirmos ao trabalho, até a hora de nos recolhermos, depois de concluído nosso dia, somos confrontados com pequenas ou grandes dificuldades que, dada a repetição, nos produzem, pouco a pouco, um desgaste profundo, que nos impede de vermos, e por isso de valorizarmos, as coisas boas que nos acontecem e que não são poucas.
Já começamos o dia, logo de cara, a nos irritar: com o trânsito, com o excesso de burocracia no trabalho, com as contas a pagar, com o barulho característico destas arapucas que são as grandes cidades, e vai por aí afora. O lar, não raro, é outra grande fonte de angústias (há exceções, é claro, como em toda a regra). Há, por exemplo, o desgaste no relacionamento com a (ou com o) cônjuge, com os filhos (permanente fonte de preocupações, dado os riscos a que estão expostos), com o cachorro, com os vizinhos etc. etc. etc.
Ademais, os meios de comunicação não nos ajudam a cultivar um sadio otimismo. Pelo contrário, nos bombardeiam, da manhã até a noite, com uma enxurrada de notícias ruins: a violência urbana, a corrupção dos políticos, os desastres naturais ou provocados pelo homem, a inflação, a selvajaria do sistema financeiro e outras tantas, e tantas e tantas desgraças, patifarias e tragédias. Esse conjunto de eventos negativos levou o escritor Aldous Huxley a essa instigante pergunta: “E se este mundo for o inferno de outro planeta?”. Claro que não é. Pelo menos, não o é de outro planeta. É nosso, humano. Nós é que o criamos, com nossa insensatez e fragilidade.
Todavia, "a vida que você leva foi criada por você e não pelas circunstâncias". Certo? Para Lair Ribeiro, um dos maiores especialistas em neurolingüística do País, sim. De acordo com este médico, que está fazendo enorme sucesso em um novo campo de atividades, objeto de muita discussão entre os que acreditam em suas propostas e os que acham que se trata de outro modismo (como o famoso "como fazer amigos e influenciar pessoas", de Dale Carneggie, dos anos 50), para obtermos êxito em nossa vida – tanto profissional, quanto social ou afetiva – precisamos "acreditar".
Ou seja, temos que nos predispor para o sucesso. Devemos "reprogramar" nossos cérebros, para extrair deles o pessimismo, o medo do fracasso e o ressentimento contra terceiros e colocar no lugar otimismo, confiança e simpatia. Difícil? Sem dúvida! Impossível? Jamais! A felicidade (não importa como a entendemos), o sucesso em nossas atividades e o progresso, espiritual e/ou material, não nos são oferecidos de bandeja. Temos que conquistá-los! As estratégias para isso são inúmeras, mas nenhuma delas implica em pessimismo quanto às nossas possibilidades, em medo de nos expormos ou em ressentimentos contra fulano, sicrano, beltrano e, por extensão, contra o mundo.
Lair Ribeiro condena, especificamente, o uso de três palavras-chaves que, conforme ele, são altamente negativas e nos inibem na busca da felicidade e, portanto, precisam ser banidas do nosso vocabulário: "não", "nunca" e "tentar". A primeira, aliás, mereceu memorável e antológico sermão do Padre Antônio Vieira, no século XVII, constante em todas as boas antologias da língua portuguesa. Em contrapartida, o neurolingüísta recomenda que coloquemos como lemas, como metas, até como uma espécie de mantras em nosso subconsciente, estas expressões afirmativas: "eu quero!", "eu posso!" e "eu vou!".
Pode ser que a sua técnica não se constitua em panacéia para todos os males (não há uma fórmula mágica, que funcione em toda e qualquer situação e seja válida para todos. Antes houvesse! A vida não é tão simples.). Contudo, que uma postura otimista, positiva e autoconfiante nos leva a encarar os problemas com maior objetividade, disso não há dúvida. E a "reprogramação" do nosso cérebro é uma fascinante experiência.
Lair acentua que "a vida é um eco. Se você não está gostando do que está recebendo, observe o que você está emitindo". E conclui: "Todo ato humano é motivado pelas seguintes razões: evitar sofrimento ou procurar prazer. Tudo o que você faz é baseado num equilíbrio entre esses dois motivos. Vivemos, então, numa escala analógica entre sofrimento e prazer". Faz sentido. Afinal, a principal obrigação do ser humano é consigo próprio: a de ser feliz. O que temos é que achar o caminho da felicidade e o trilharmos com otimismo, com determinação e, sobretudo, com persistência. E esta trilha, convenhamos, não é (e nem pode ser) a do pessimismo, a do medo ou a do ressentimento.
Wednesday, February 01, 2006
Insatisfação criadora
Pedro J. Bondaczuk
A insatisfação é a mola propulsora de todas as realizações humanas, seja em que campo for. Na economia, é essencial. É um dos raros comportamentos do homem que atravessou todos os ciclos de civilização e está mais vivo do que nunca. Os gregos, por exemplo, nunca se contentaram com suas extraordinárias conquistas intelectuais. Com isso, criaram o teatro, a filosofia e a poesia, desenvolveram a escultura e a arquitetura e produziram outros tantos frutos do intelecto.
Já a insatisfação romana era basicamente sensorial, referente ao gozo da carne. A dos povos da Idade Média, por seu turno, era espiritual, a da prevalência do espírito, no sentido transcendental, sobre os sentidos. Claro que cometeram excessos e exageros, mortificando a carne, achando que, com isso, estavam “salvando” a alma. Evidentemente, não estavam. E o homem contemporâneo, é insatisfeito? Mais do que nunca!
A este, no entanto, materialista por excelência, nenhum bem satisfaz de maneira suficiente. É essa insatisfação que move a economia, gerando necessidades (reais ou imaginárias), que as pessoas empreendedoras e dinâmicas buscam, em vão, satisfazer. Com isso, criam-se indústrias, produzem-se objetos, geram-se empregos e faz-se circular a riqueza, em um "moto perpétuo".
O jornalista é um eterno insatisfeito e é necessário que o seja. Mas não deve ser arauto dessa alienada insatisfação que impera, insensível e burra, não raro induzida pela publicidade e pela propaganda, apenas em busca de bens e serviços. Tem que mostrar insatisfação, isto sim, com a miséria, com as injustiças sociais, com a depredação do meio-ambiente, com a corrupção galopante, com o egoísmo e seus subprodutos e com todas as ações que ameacem a preservação, a paz e o futuro do mundo.
A fúria consumista do homem contemporâneo traz, como principal conseqüência, a poluição, em todas as suas formas, que afeta a saúde de todos. Causa, além disso, o esgotamento dos recursos do Planeta, que são finitos e, portanto, não-renováveis. No ritmo de uso atual, boa parte das matérias-primas essenciais àquilo que se convencionou chamar de progresso e das fontes de energia, que movem a economia do Planeta, estará exaurida e já por volta de 2050 (e isso, numa projeção até bastante otimista). Poucos, pouquíssimos, porém, abordam esse tema e, quando o fazem, não dão a devida ênfase.
Mas a Terra está, sobretudo, doente, muito doente. Sofre mudanças dramáticas e (tomara que não) – ao que tudo indica – irreversíveis. O aquecimento global é uma realidade, que não há mais como negar. As geleiras derretem e causam perigosa elevação do nível dos mares. Caso se acelere, dezenas de cidades (e até países insulares) tendem a desaparecer.
A civilização, como a conhecemos, está seriamente ameaçada e a imprensa, nesse aspecto, exerce, é verdade, seu papel, informando, advertindo e cobrando providências de quem compete agir. Porém... Falta a ênfase adequada para despertar a humanidade de seu sono letárgico, que transforme suas eventuais preocupações em atos concretos, de correção de rumos.
A filosofia que impera no mundo, desde meados do século XIX, é a da “insatisfação organizada”. Ou seja, o desejo das pessoas de consumir mais e mais, tanto o essencial quanto o supérfluo (principalmente este), como automóveis, telefones celulares, brinquedos, computadores, DVDs e tantos e tantos e tantos outros objetos, úteis ou inúteis, essenciais ou supérfluos, sem o quê não haverá produção, geração de riquezas, circulação de bens e serviços, blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá e, em última instância, empregos.
E como se organiza isso? Quais as estratégias para manter viva, e crescente, essa “insatisfação organizada”? Mediante a publicidade! Daí esse ramo, hoje, ser mais do que mera disciplina do campo das comunicações. Transformou-se em arte por excelência, englobando disciplinas tão variadas quanto a psicologia, a antropologia, a etologia (ciência do comportamento) e até a filosofia. O satisfeito (se é que existe algum) é, antes de tudo, um perdedor. Certo? Certíssimo! Os gregos já sabiam disso...Só que a insatisfação tem que ser genuína, fruto da consciência e não somente para consumo externo. E, sobretudo, precisa ser racional, inteligente, prática e que não se limite a elucubrações, mas seja acompanhada de indispensáveis e imprescindíveis ações. Esse é o tipo de insatisfeito, que alguns chamam de “revolucionário”, que o mundo precisa!
A insatisfação é a mola propulsora de todas as realizações humanas, seja em que campo for. Na economia, é essencial. É um dos raros comportamentos do homem que atravessou todos os ciclos de civilização e está mais vivo do que nunca. Os gregos, por exemplo, nunca se contentaram com suas extraordinárias conquistas intelectuais. Com isso, criaram o teatro, a filosofia e a poesia, desenvolveram a escultura e a arquitetura e produziram outros tantos frutos do intelecto.
Já a insatisfação romana era basicamente sensorial, referente ao gozo da carne. A dos povos da Idade Média, por seu turno, era espiritual, a da prevalência do espírito, no sentido transcendental, sobre os sentidos. Claro que cometeram excessos e exageros, mortificando a carne, achando que, com isso, estavam “salvando” a alma. Evidentemente, não estavam. E o homem contemporâneo, é insatisfeito? Mais do que nunca!
A este, no entanto, materialista por excelência, nenhum bem satisfaz de maneira suficiente. É essa insatisfação que move a economia, gerando necessidades (reais ou imaginárias), que as pessoas empreendedoras e dinâmicas buscam, em vão, satisfazer. Com isso, criam-se indústrias, produzem-se objetos, geram-se empregos e faz-se circular a riqueza, em um "moto perpétuo".
O jornalista é um eterno insatisfeito e é necessário que o seja. Mas não deve ser arauto dessa alienada insatisfação que impera, insensível e burra, não raro induzida pela publicidade e pela propaganda, apenas em busca de bens e serviços. Tem que mostrar insatisfação, isto sim, com a miséria, com as injustiças sociais, com a depredação do meio-ambiente, com a corrupção galopante, com o egoísmo e seus subprodutos e com todas as ações que ameacem a preservação, a paz e o futuro do mundo.
A fúria consumista do homem contemporâneo traz, como principal conseqüência, a poluição, em todas as suas formas, que afeta a saúde de todos. Causa, além disso, o esgotamento dos recursos do Planeta, que são finitos e, portanto, não-renováveis. No ritmo de uso atual, boa parte das matérias-primas essenciais àquilo que se convencionou chamar de progresso e das fontes de energia, que movem a economia do Planeta, estará exaurida e já por volta de 2050 (e isso, numa projeção até bastante otimista). Poucos, pouquíssimos, porém, abordam esse tema e, quando o fazem, não dão a devida ênfase.
Mas a Terra está, sobretudo, doente, muito doente. Sofre mudanças dramáticas e (tomara que não) – ao que tudo indica – irreversíveis. O aquecimento global é uma realidade, que não há mais como negar. As geleiras derretem e causam perigosa elevação do nível dos mares. Caso se acelere, dezenas de cidades (e até países insulares) tendem a desaparecer.
A civilização, como a conhecemos, está seriamente ameaçada e a imprensa, nesse aspecto, exerce, é verdade, seu papel, informando, advertindo e cobrando providências de quem compete agir. Porém... Falta a ênfase adequada para despertar a humanidade de seu sono letárgico, que transforme suas eventuais preocupações em atos concretos, de correção de rumos.
A filosofia que impera no mundo, desde meados do século XIX, é a da “insatisfação organizada”. Ou seja, o desejo das pessoas de consumir mais e mais, tanto o essencial quanto o supérfluo (principalmente este), como automóveis, telefones celulares, brinquedos, computadores, DVDs e tantos e tantos e tantos outros objetos, úteis ou inúteis, essenciais ou supérfluos, sem o quê não haverá produção, geração de riquezas, circulação de bens e serviços, blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá e, em última instância, empregos.
E como se organiza isso? Quais as estratégias para manter viva, e crescente, essa “insatisfação organizada”? Mediante a publicidade! Daí esse ramo, hoje, ser mais do que mera disciplina do campo das comunicações. Transformou-se em arte por excelência, englobando disciplinas tão variadas quanto a psicologia, a antropologia, a etologia (ciência do comportamento) e até a filosofia. O satisfeito (se é que existe algum) é, antes de tudo, um perdedor. Certo? Certíssimo! Os gregos já sabiam disso...Só que a insatisfação tem que ser genuína, fruto da consciência e não somente para consumo externo. E, sobretudo, precisa ser racional, inteligente, prática e que não se limite a elucubrações, mas seja acompanhada de indispensáveis e imprescindíveis ações. Esse é o tipo de insatisfeito, que alguns chamam de “revolucionário”, que o mundo precisa!
Tuesday, January 31, 2006
Vontade e consciência
Pedro J. Bondaczuk
O convívio entre as pessoas, dadas as contradições do nosso tempo entre a avançada tecnologia e o retrocesso do humanismo, descamba cada vez mais para o absurdo. A vida que se vê por aí, no plano material, naquele que se convencionou chamar de "real", é marcada por dores, medos, egoísmo, desamor, injustiças e violência. E também por sujeição, exploração, cinismo, corrupção e impiedade. Vez por outra tomamos conhecimento de um ato nobre, de um gesto desprendido, de uma manifestação genuína de amor. Não daquele possessivo, que tudo quer e pouco ou nada dá em troca. Mas do magnânimo, do desinteressado, do espontâneo, que ainda resiste e existe (embora a maioria duvide), mas que é extremamente raro.
Porém essa não é uma regra, senão exceção. No mais... O noticiário da imprensa é um desfile de desgraças, corrupção, sangue e aberrações. Ao contrário do que pensam os alienados, não é a mídia que cria (ou pelo menos amplia) tamanha insanidade. Ela não passa de espelho do comportamento humano. Só reflete a feiúra e a loucura do suposto "homo sapiens".
É preciso que o homem crie um outro mundo – o da razão, o da arte, o do ideal, o da sensibilidade – para que esta existência se torne pelo menos suportável. Não é a vida que é ruim, mas a maneira como somos forçados a viver. Quando nascemos, isto que está aí já existia e já havia um relativamente extenso retrospecto de insânia, que se denomina de "História", instalado. Deixaremos que as gerações futuras encontrem o mesmo cenário, ou quiçá pior? É o questionamento que o intelectual, o homem racional e idealista deve fazer a cada instante da sua existência. Se deixarmos, seremos cúmplices dos tiranos, dos corruptos e dos assassinos que levaram a humanidade ao atual impasse.
Sem ilusão de que as coisas podem e vão melhorar, o indivíduo é capaz de enlouquecer, tamanha sua impotência para se proteger e tão grandes são os perigos que o cercam a cada passo do seu convívio, desde que põe os pés fora de casa até seu regresso (e mesmo no recesso do seu lar). Mas esta precisa ter uma dosagem certa. Não pode se limitar a mera fantasia. Tem que ser verossímil. Precisa poder ser transformada em potencial, em meta, em alvo, em objetivo factível a se alcançar.
Estas idéias, embora eu concorde com elas (e nem posso deixar de concordar diante das evidências palpáveis da sua exatidão), não são minhas. São do teatrólogo, poeta, ensaísta político e ex-presidente da República Checa, Vaclav Havel. Li, recentemente, uma resenha de seu pensamento e senti-me enriquecido por conhecer alguém que conseguiu colocar em palavras aquilo que eu apenas intuía, embora sentisse na própria carne as contradições que ele aponta.
Como sobre o absurdo da existência tal como a vivemos, onde a busca do poder é o objetivo maior de alguns, o acúmulo de bens materiais é de outros e a luta pura e simples pela sobrevivência física é o que resta à maioria das pessoas. Por que, se todos os homens nascem iguais e o fim é idêntico – “com terra por cima e na horizontal", como diz a letra de um samba de Billy Blanco?
Outro aspecto marcante da sua obra é o que destaca a importância do intelectual como fator de transformação social, como o que desperta e cristaliza os anseios de liberdade do indivíduo e dos grupos mesmo que não organizados ou mobilizados e lhes mostra o caminho adequado para empreender essa luta milenar, essencial, básica, fundamento da paz. Essa influência é que torna tais pessoas "especiais". Mas também as transforma em contestadoras, revolucionárias, subversivas, "perigosas" para os tiranos e os que lucram com o sistema e que por isso agem no sentido da sua preservação.
Quem exerce esse poder de influenciar afronta enorme responsabilidade. Não pode ser um cego guiando outros. Precisa ter clarividência para entender que as idéias são mais poderosas do que as pessoas. Deve armar a estratégia adequada para que a verdade prevaleça. E necessita ter, sobretudo, sinceridade de propósito, para não transformar a vitória sobre a tirania em outra pior. Só faz cabeças quem já tenha a própria feita. O intelectual, dependendo do seu engajamento e do seu poder de persuasão, tanto pode se transformar em fator de libertação quanto conduzir multidões ao caos da violência, do preconceito e da destruição.
É escusado apresentar exemplos históricos, de lideranças equivocadas, que conduziram povos à desgraça, tão recentes e abundantes eles são. No sentido inverso, os casos também abundam, embora em número menor. O verdadeiro líder, o que dissemina humanismo e razão e cuja vida se torna um marco, um referencial, um guia no caminho da liberdade para os homens do seu tempo e das gerações vindouras, trabalha, basicamente, com dois conceitos abstratos importantes: vontade e consciência. Cada um deles deve ser aplicado no momento e na dosagem adequados.
Através do primeiro, são deflagradas as ações, embora estas possam ser positivas ou negativas. Mediante o segundo, são feitas as correções de rumo, evitadas as distorções, reparadas as injustiças e dominados os demônios interiores que tentam o indivíduo a subjugar e explorar seus semelhantes. O escritor Humberto de Campos sintetizou os dois, determinando o seu âmbito e abrangência, ao escrever: "Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência". Existe síntese melhor?
O convívio entre as pessoas, dadas as contradições do nosso tempo entre a avançada tecnologia e o retrocesso do humanismo, descamba cada vez mais para o absurdo. A vida que se vê por aí, no plano material, naquele que se convencionou chamar de "real", é marcada por dores, medos, egoísmo, desamor, injustiças e violência. E também por sujeição, exploração, cinismo, corrupção e impiedade. Vez por outra tomamos conhecimento de um ato nobre, de um gesto desprendido, de uma manifestação genuína de amor. Não daquele possessivo, que tudo quer e pouco ou nada dá em troca. Mas do magnânimo, do desinteressado, do espontâneo, que ainda resiste e existe (embora a maioria duvide), mas que é extremamente raro.
Porém essa não é uma regra, senão exceção. No mais... O noticiário da imprensa é um desfile de desgraças, corrupção, sangue e aberrações. Ao contrário do que pensam os alienados, não é a mídia que cria (ou pelo menos amplia) tamanha insanidade. Ela não passa de espelho do comportamento humano. Só reflete a feiúra e a loucura do suposto "homo sapiens".
É preciso que o homem crie um outro mundo – o da razão, o da arte, o do ideal, o da sensibilidade – para que esta existência se torne pelo menos suportável. Não é a vida que é ruim, mas a maneira como somos forçados a viver. Quando nascemos, isto que está aí já existia e já havia um relativamente extenso retrospecto de insânia, que se denomina de "História", instalado. Deixaremos que as gerações futuras encontrem o mesmo cenário, ou quiçá pior? É o questionamento que o intelectual, o homem racional e idealista deve fazer a cada instante da sua existência. Se deixarmos, seremos cúmplices dos tiranos, dos corruptos e dos assassinos que levaram a humanidade ao atual impasse.
Sem ilusão de que as coisas podem e vão melhorar, o indivíduo é capaz de enlouquecer, tamanha sua impotência para se proteger e tão grandes são os perigos que o cercam a cada passo do seu convívio, desde que põe os pés fora de casa até seu regresso (e mesmo no recesso do seu lar). Mas esta precisa ter uma dosagem certa. Não pode se limitar a mera fantasia. Tem que ser verossímil. Precisa poder ser transformada em potencial, em meta, em alvo, em objetivo factível a se alcançar.
Estas idéias, embora eu concorde com elas (e nem posso deixar de concordar diante das evidências palpáveis da sua exatidão), não são minhas. São do teatrólogo, poeta, ensaísta político e ex-presidente da República Checa, Vaclav Havel. Li, recentemente, uma resenha de seu pensamento e senti-me enriquecido por conhecer alguém que conseguiu colocar em palavras aquilo que eu apenas intuía, embora sentisse na própria carne as contradições que ele aponta.
Como sobre o absurdo da existência tal como a vivemos, onde a busca do poder é o objetivo maior de alguns, o acúmulo de bens materiais é de outros e a luta pura e simples pela sobrevivência física é o que resta à maioria das pessoas. Por que, se todos os homens nascem iguais e o fim é idêntico – “com terra por cima e na horizontal", como diz a letra de um samba de Billy Blanco?
Outro aspecto marcante da sua obra é o que destaca a importância do intelectual como fator de transformação social, como o que desperta e cristaliza os anseios de liberdade do indivíduo e dos grupos mesmo que não organizados ou mobilizados e lhes mostra o caminho adequado para empreender essa luta milenar, essencial, básica, fundamento da paz. Essa influência é que torna tais pessoas "especiais". Mas também as transforma em contestadoras, revolucionárias, subversivas, "perigosas" para os tiranos e os que lucram com o sistema e que por isso agem no sentido da sua preservação.
Quem exerce esse poder de influenciar afronta enorme responsabilidade. Não pode ser um cego guiando outros. Precisa ter clarividência para entender que as idéias são mais poderosas do que as pessoas. Deve armar a estratégia adequada para que a verdade prevaleça. E necessita ter, sobretudo, sinceridade de propósito, para não transformar a vitória sobre a tirania em outra pior. Só faz cabeças quem já tenha a própria feita. O intelectual, dependendo do seu engajamento e do seu poder de persuasão, tanto pode se transformar em fator de libertação quanto conduzir multidões ao caos da violência, do preconceito e da destruição.
É escusado apresentar exemplos históricos, de lideranças equivocadas, que conduziram povos à desgraça, tão recentes e abundantes eles são. No sentido inverso, os casos também abundam, embora em número menor. O verdadeiro líder, o que dissemina humanismo e razão e cuja vida se torna um marco, um referencial, um guia no caminho da liberdade para os homens do seu tempo e das gerações vindouras, trabalha, basicamente, com dois conceitos abstratos importantes: vontade e consciência. Cada um deles deve ser aplicado no momento e na dosagem adequados.
Através do primeiro, são deflagradas as ações, embora estas possam ser positivas ou negativas. Mediante o segundo, são feitas as correções de rumo, evitadas as distorções, reparadas as injustiças e dominados os demônios interiores que tentam o indivíduo a subjugar e explorar seus semelhantes. O escritor Humberto de Campos sintetizou os dois, determinando o seu âmbito e abrangência, ao escrever: "Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência". Existe síntese melhor?
Monday, January 30, 2006
Confraria clandestina
Pedro J. Bondaczuk
A tradição esotérica diz que a humanidade já atingiu, por dez ou doze vezes ao longo do tempo, o ápice da civilização e retroagiu às cavernas, em conseqüência de catástrofes provocadas pela ganância, pela insensatez e, sobretudo, pela estupidez do homem. O cinema tem explorado muito essa possibilidade. Filmes como o “Planeta dos Macacos”, por exemplo, abordaram, posto que de maneira superficial, esse tipo de hipótese ou de fantasia, sei lá.
Está provado, cientificamente, que as grandes hecatombes aterrorizam de tal forma as pessoas nelas envolvidas, que ocorre uma espécie de amnésia coletiva entre os que conseguem sobreviver a elas. O instinto de sobrevivência sobrepõe-se a todos os valores, quer sejam éticos, morai, legais ou comportamentais. E a parte animal do ser humano prevalece, invariavelmente, sobre a razão, em detrimento desta.
Mitos? Lendas? Pode ser! Mas pode ser que não sejam. Não há como provar nem uma coisa e nem outra. O mais provável é que descrições de algumas dessas civilizações extintas, feitas por poetas, por escritores, por místicos ou por filósofos (como a da Atlântida, descrita por Platão, com base em supostos relatos feitos por um sacerdote egípcio ao líder ateniense Solon), sejam resquícios de memória coletiva adormecidos, que emergem na mente de indivíduos superiormente dotados.
Há muitos deles no mundo atual, como que escondidos, temendo falar sobre o que sabem, com receio de exposição ao ridículo. Essas pessoas, porém, têm uma responsabilidade muito grande, pelo fato de terem uma acuidade mental privilegiada. Compete-lhes guiar as massas pelos caminhos da virtude e do bem, para impedir que um novo ciclo civilizatório (o atual), em iminente perigo, se encerre abruptamente, com outra catástrofe, provavelmente nuclear. E que tudo tenha que começar de novo, virtualmente do “zero”, penosamente, por longos milênios a fio, como que num "moto perpétuo" de evolução espiritual e material e profundo e abrupto retrocesso.
O novelista espanhol, Fernando Sanchez Dragó, observa a este propósito: "Há uma determinada classe de seres humanos que são portadores da chama, por assim dizer, que formam uma confraria universal acima das idéias, acima das fronteiras; pessoas que, sem se conhecerem se reconhecem quando se vêem...e são os que se salvarão, os que estão preparados para viver, são os Noés, por assim dizer, que levam toda sua vida construindo uma arca e essas pessoas são convocadas a erigir um novo mundo".
Considero jornalistas (alguns), pelo nível de informação e de consciência que a atividade que exercem os obriga a alcançar, como sendo membros dessa “confraria da clandestinidade”, como a denomina Dragó, dessa casta especial de homens esclarecidos, desses “Noés” contemporâneos. A maioria, porém, abre mão dessa prerrogativa. Opta por exercer sua função de forma preguiçosa, convencional e burocrática, quando não arrogante. E estes, infelizmente, são os que levam vantagem nas redações e fazem estragos imensos, mesmo que não pretendam conscientemente isso.
A quanta informação fundamental, por exemplo, vedada à grande maioria das pessoas, eles têm acesso, sem que ao menos a tentem transmitir à população! É certo que, via de regra, sofrem coação – não raro da direção das empresas a que estão vinculados – para que omitam determinadas denúncias, que não deveriam omitir. Para preservar o emprego, todavia, submetem-se docilmente. Satisfazem, dessa forma, os interesses de quem os paga, em detrimento daqueles a que (pretensamente) se dispuseram a servir: o público.
Assim, muita coisa que poderia (e deveria) ser evitada, acaba não sendo. Guerras que poderiam morrer no nascedouro (como a do Iraque), merecedoras do repúdio generalizado (como todas, por sinal) por sua inutilidade e perversidade, acabam sendo aceitas passivamente, por uma população mal informada e desinteressada, e até apoiadas por ela, mesmo que “beneficiem” somente à poderosa indústria de armamentos, de olho apenas em lucros, não importa a que preço.
Esses jornalistas, convocados a erigir um novo e maravilhoso mundo, que por uma razão ou por outra abrem mão dessa convocação, contribuem, com sua omissão (para não dizer covardia), para que os riscos se multipliquem. Que tal se pelo menos aproveitassem o que já está feito e tentassem melhorar o que aí está?!
Que tal se buscassem – mas sinceramente, e com todo o empenho – mudar o coração dos tiranos, dos néscios, dos arrogantes, dos alienados, dos violentos, dos obcecados pela cobiça e dos ignorantes, para que a catástrofe não sobreviesse e a civilização, em vez de morrer, e dos sobreviventes (caso haja, é claro), em vez de terem de recomeçar do zero, aperfeiçoassem o que já existe, e erigissem sociedades justas, harmoniosas e equilibradas?! Utopia? Pelo que se vê hoje em dia, sem dúvida alguma! Mas poderia não ser!
A tradição esotérica diz que a humanidade já atingiu, por dez ou doze vezes ao longo do tempo, o ápice da civilização e retroagiu às cavernas, em conseqüência de catástrofes provocadas pela ganância, pela insensatez e, sobretudo, pela estupidez do homem. O cinema tem explorado muito essa possibilidade. Filmes como o “Planeta dos Macacos”, por exemplo, abordaram, posto que de maneira superficial, esse tipo de hipótese ou de fantasia, sei lá.
Está provado, cientificamente, que as grandes hecatombes aterrorizam de tal forma as pessoas nelas envolvidas, que ocorre uma espécie de amnésia coletiva entre os que conseguem sobreviver a elas. O instinto de sobrevivência sobrepõe-se a todos os valores, quer sejam éticos, morai, legais ou comportamentais. E a parte animal do ser humano prevalece, invariavelmente, sobre a razão, em detrimento desta.
Mitos? Lendas? Pode ser! Mas pode ser que não sejam. Não há como provar nem uma coisa e nem outra. O mais provável é que descrições de algumas dessas civilizações extintas, feitas por poetas, por escritores, por místicos ou por filósofos (como a da Atlântida, descrita por Platão, com base em supostos relatos feitos por um sacerdote egípcio ao líder ateniense Solon), sejam resquícios de memória coletiva adormecidos, que emergem na mente de indivíduos superiormente dotados.
Há muitos deles no mundo atual, como que escondidos, temendo falar sobre o que sabem, com receio de exposição ao ridículo. Essas pessoas, porém, têm uma responsabilidade muito grande, pelo fato de terem uma acuidade mental privilegiada. Compete-lhes guiar as massas pelos caminhos da virtude e do bem, para impedir que um novo ciclo civilizatório (o atual), em iminente perigo, se encerre abruptamente, com outra catástrofe, provavelmente nuclear. E que tudo tenha que começar de novo, virtualmente do “zero”, penosamente, por longos milênios a fio, como que num "moto perpétuo" de evolução espiritual e material e profundo e abrupto retrocesso.
O novelista espanhol, Fernando Sanchez Dragó, observa a este propósito: "Há uma determinada classe de seres humanos que são portadores da chama, por assim dizer, que formam uma confraria universal acima das idéias, acima das fronteiras; pessoas que, sem se conhecerem se reconhecem quando se vêem...e são os que se salvarão, os que estão preparados para viver, são os Noés, por assim dizer, que levam toda sua vida construindo uma arca e essas pessoas são convocadas a erigir um novo mundo".
Considero jornalistas (alguns), pelo nível de informação e de consciência que a atividade que exercem os obriga a alcançar, como sendo membros dessa “confraria da clandestinidade”, como a denomina Dragó, dessa casta especial de homens esclarecidos, desses “Noés” contemporâneos. A maioria, porém, abre mão dessa prerrogativa. Opta por exercer sua função de forma preguiçosa, convencional e burocrática, quando não arrogante. E estes, infelizmente, são os que levam vantagem nas redações e fazem estragos imensos, mesmo que não pretendam conscientemente isso.
A quanta informação fundamental, por exemplo, vedada à grande maioria das pessoas, eles têm acesso, sem que ao menos a tentem transmitir à população! É certo que, via de regra, sofrem coação – não raro da direção das empresas a que estão vinculados – para que omitam determinadas denúncias, que não deveriam omitir. Para preservar o emprego, todavia, submetem-se docilmente. Satisfazem, dessa forma, os interesses de quem os paga, em detrimento daqueles a que (pretensamente) se dispuseram a servir: o público.
Assim, muita coisa que poderia (e deveria) ser evitada, acaba não sendo. Guerras que poderiam morrer no nascedouro (como a do Iraque), merecedoras do repúdio generalizado (como todas, por sinal) por sua inutilidade e perversidade, acabam sendo aceitas passivamente, por uma população mal informada e desinteressada, e até apoiadas por ela, mesmo que “beneficiem” somente à poderosa indústria de armamentos, de olho apenas em lucros, não importa a que preço.
Esses jornalistas, convocados a erigir um novo e maravilhoso mundo, que por uma razão ou por outra abrem mão dessa convocação, contribuem, com sua omissão (para não dizer covardia), para que os riscos se multipliquem. Que tal se pelo menos aproveitassem o que já está feito e tentassem melhorar o que aí está?!
Que tal se buscassem – mas sinceramente, e com todo o empenho – mudar o coração dos tiranos, dos néscios, dos arrogantes, dos alienados, dos violentos, dos obcecados pela cobiça e dos ignorantes, para que a catástrofe não sobreviesse e a civilização, em vez de morrer, e dos sobreviventes (caso haja, é claro), em vez de terem de recomeçar do zero, aperfeiçoassem o que já existe, e erigissem sociedades justas, harmoniosas e equilibradas?! Utopia? Pelo que se vê hoje em dia, sem dúvida alguma! Mas poderia não ser!
Sunday, January 29, 2006
Pequenas vitórias
Pedro J. Bondaczuk
As pessoas costumam (e entre estas me incluo) colocar suas pretensões acima das suas possibilidades. Algumas chegam a desejar o impossível. Claro, sonhos são sonhos e é lícito lutar por sua concretização. Mas desde que sejam factíveis.
Se eu pretender ser um astronauta, por um desses caprichos da fantasia, por mais que tente jamais chegarei a sê-lo. Uma série de fatores, dos físicos, aos referentes a oportunidades, tornariam esse desejo absolutamente impossível. Há uma série de outros que a mínima lógica sugere serem irrealizáveis. Mas teimamos em correr atrás deles. E nos frustramos, nos desesperamos e entramos em depressão quando não temos sucesso na busca dessas irracionalidades.
Na maioria das vezes, a busca insensata por essas fantasias impede que valorizemos as aparentemente pequenas vitórias que obtemos, mas que em alguns casos são decisivas. No meu caso, não tenho o direito de me reprovar por falta de esforço. E nem os que souberem da minha "saga" heróica de alguns anos atrás para conseguir o que para as pessoas comuns é natural, mas que para mim foi a maior e decisiva das aventuras: reaprender a andar.
Quando estava com seis anos de idade, fui acometido de poliomielite. Até então, eu era uma criança sadia, normal, travessa, nem melhor e nem pior do que ninguém. Talvez um pouco mais agitada, a acreditar nas reclamações dos meus pais.
Da noite para o dia, vi-me privado de todos os movimentos. Fiquei totalmente paralisado, precisando de ajuda para tudo: para comer, trocar de roupa, tomar banho etc. Era completamente dependente dos outros. Como administrar isso? Só quem passou por situação semelhante sabe o desespero que se apossa da gente ao perceber o que se está perdendo da vida.
Passado o período crítico da doença, veio a fase dificílima da adaptação à nova condição. A primeira reação natural que temos nessas circunstâncias é a da revolta, sem que saibamos exatamente contra quem. E surge a pergunta mais do que natural e óbvia na nossa mente, que fica piscando como as luzes de um neon: por que eu? A auto-piedade é outra tentação que passa a acompanhar os que têm essa ou outra infelicidade que os incapacitem fisicamente. No meu caso, através da fisioterapia, comecei vagarosamente a recuperar alguns movimentos.
Dia a dia conquistava pequenas vitórias, que nas circunstâncias eram imensas. Primeiro, consegui readquirir por completo os movimentos e funções do braço esquerdo e parcial da perna direita. Depois, pude sentar-me sozinho. No dia em que consegui comer, sem que ninguém precisasse me dar comida na boca, chorei de alegria. Mas eu intuía que não poderia parar nisso.
Havia muita vida dentro de mim para permanecer deitado o tempo todo em uma cama, quando havia um mundo lá fora a ser conquistado. Pensamentos aterrorizadores me assaltavam a mente. "E se eu perder os meus pais? O que será de mim?", raciocinava angustiado. Precisava aprender a me locomover! Mas como?!?
A primeira alternativa foi a cadeira de rodas. Esta, porém, permitia-me uma locomoção muito limitada. Como freqüentaria a escola, por exemplo, nestas circunstâncias? Não, não era o bastante! Cismei que poderia aprender a andar de muletas, embora os médicos achassem isso impossível, pela atrofia que eu havia sofrido na perna esquerda e no braço direito. Nem liguei para esse diagnóstico.
Alguma coisa, no meu íntimo, dizia que eu poderia conseguir. E que iria. Insisti com meu pai para que me fizesse um par de muletas, já que éramos muito pobres para poder comprar um. A princípio relutando, mas depois até para se livrar da minha insistência, fui atendido.
A primeira vez que voltei a ficar de pé, sem a ajuda alheia, senti-me um rei. Deve ter sido a mesma sensação que sir Edmund Hillary teve ao plantar, pela primeira vez na história, a bandeira no seu país no Pico do Everest, o "teto do mundo".
Daí para os primeiros passos, foi uma piscada de olhos. As quedas foram muitas e algumas perigosas. Cheguei a sofrer pequenas fraturas. Mas contra a opinião e a recomendação gerais, persisti. Em suma, com o tempo adquiri tamanha mobilidade, que conseguia tomar ônibus, subir escadas e levar vida completamente normal. Freqüentei a escola primária, fiz o ginásio, o colégio e a faculdade. Adquiri uma profissão, que procuro exercer com todo o amor. Sei o que me custou chegar até onde cheguei.
Casei-me, gerei quatro filhos saudáveis e maravilhosos e agora, muito raramente, lembro-me que tenho problema físico. Apostei no impossível e me dei bem. Narro este fato íntimo não para me engrandecer ou para que os outros digam: como este sujeito é esforçado!
Menciono-o para mostrar que, por pior que seja o nosso problema, sempre há uma solução, mesmo que não a ideal ou a que preencha as nossas expectativas, em geral carregadas de fantasia. Temos a obrigação de valorizar as aparentemente pequenas vitórias que, colocadas no devido contexto, são, na realidade, maiúsculas.
As pessoas costumam (e entre estas me incluo) colocar suas pretensões acima das suas possibilidades. Algumas chegam a desejar o impossível. Claro, sonhos são sonhos e é lícito lutar por sua concretização. Mas desde que sejam factíveis.
Se eu pretender ser um astronauta, por um desses caprichos da fantasia, por mais que tente jamais chegarei a sê-lo. Uma série de fatores, dos físicos, aos referentes a oportunidades, tornariam esse desejo absolutamente impossível. Há uma série de outros que a mínima lógica sugere serem irrealizáveis. Mas teimamos em correr atrás deles. E nos frustramos, nos desesperamos e entramos em depressão quando não temos sucesso na busca dessas irracionalidades.
Na maioria das vezes, a busca insensata por essas fantasias impede que valorizemos as aparentemente pequenas vitórias que obtemos, mas que em alguns casos são decisivas. No meu caso, não tenho o direito de me reprovar por falta de esforço. E nem os que souberem da minha "saga" heróica de alguns anos atrás para conseguir o que para as pessoas comuns é natural, mas que para mim foi a maior e decisiva das aventuras: reaprender a andar.
Quando estava com seis anos de idade, fui acometido de poliomielite. Até então, eu era uma criança sadia, normal, travessa, nem melhor e nem pior do que ninguém. Talvez um pouco mais agitada, a acreditar nas reclamações dos meus pais.
Da noite para o dia, vi-me privado de todos os movimentos. Fiquei totalmente paralisado, precisando de ajuda para tudo: para comer, trocar de roupa, tomar banho etc. Era completamente dependente dos outros. Como administrar isso? Só quem passou por situação semelhante sabe o desespero que se apossa da gente ao perceber o que se está perdendo da vida.
Passado o período crítico da doença, veio a fase dificílima da adaptação à nova condição. A primeira reação natural que temos nessas circunstâncias é a da revolta, sem que saibamos exatamente contra quem. E surge a pergunta mais do que natural e óbvia na nossa mente, que fica piscando como as luzes de um neon: por que eu? A auto-piedade é outra tentação que passa a acompanhar os que têm essa ou outra infelicidade que os incapacitem fisicamente. No meu caso, através da fisioterapia, comecei vagarosamente a recuperar alguns movimentos.
Dia a dia conquistava pequenas vitórias, que nas circunstâncias eram imensas. Primeiro, consegui readquirir por completo os movimentos e funções do braço esquerdo e parcial da perna direita. Depois, pude sentar-me sozinho. No dia em que consegui comer, sem que ninguém precisasse me dar comida na boca, chorei de alegria. Mas eu intuía que não poderia parar nisso.
Havia muita vida dentro de mim para permanecer deitado o tempo todo em uma cama, quando havia um mundo lá fora a ser conquistado. Pensamentos aterrorizadores me assaltavam a mente. "E se eu perder os meus pais? O que será de mim?", raciocinava angustiado. Precisava aprender a me locomover! Mas como?!?
A primeira alternativa foi a cadeira de rodas. Esta, porém, permitia-me uma locomoção muito limitada. Como freqüentaria a escola, por exemplo, nestas circunstâncias? Não, não era o bastante! Cismei que poderia aprender a andar de muletas, embora os médicos achassem isso impossível, pela atrofia que eu havia sofrido na perna esquerda e no braço direito. Nem liguei para esse diagnóstico.
Alguma coisa, no meu íntimo, dizia que eu poderia conseguir. E que iria. Insisti com meu pai para que me fizesse um par de muletas, já que éramos muito pobres para poder comprar um. A princípio relutando, mas depois até para se livrar da minha insistência, fui atendido.
A primeira vez que voltei a ficar de pé, sem a ajuda alheia, senti-me um rei. Deve ter sido a mesma sensação que sir Edmund Hillary teve ao plantar, pela primeira vez na história, a bandeira no seu país no Pico do Everest, o "teto do mundo".
Daí para os primeiros passos, foi uma piscada de olhos. As quedas foram muitas e algumas perigosas. Cheguei a sofrer pequenas fraturas. Mas contra a opinião e a recomendação gerais, persisti. Em suma, com o tempo adquiri tamanha mobilidade, que conseguia tomar ônibus, subir escadas e levar vida completamente normal. Freqüentei a escola primária, fiz o ginásio, o colégio e a faculdade. Adquiri uma profissão, que procuro exercer com todo o amor. Sei o que me custou chegar até onde cheguei.
Casei-me, gerei quatro filhos saudáveis e maravilhosos e agora, muito raramente, lembro-me que tenho problema físico. Apostei no impossível e me dei bem. Narro este fato íntimo não para me engrandecer ou para que os outros digam: como este sujeito é esforçado!
Menciono-o para mostrar que, por pior que seja o nosso problema, sempre há uma solução, mesmo que não a ideal ou a que preencha as nossas expectativas, em geral carregadas de fantasia. Temos a obrigação de valorizar as aparentemente pequenas vitórias que, colocadas no devido contexto, são, na realidade, maiúsculas.
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