Friday, December 04, 2015

A rica e fascinante Literatura Brasileira

Pedro J. Bondaczuk

A Literatura Brasileira (sem nenhum ufanismo) é das mais ricas, variadas e fascinantes do mundo. Por mais que alguém a conheça a fundo (e estes “experts”, convenhamos, são pouquíssimos), presumo (e mais que isso, concluo sem qualquer margem para equívocos, com base na pura lógica), que nenhum deles a conhece (talvez algum dia conheça, sabe-se lá) em toda sua extensão. Os maiores especialistas têm, na ponta da língua, autores, livros, estilos etc. dos “figurões” do mundo literário, das estrelas nacionais, dos que conseguiram projeção e conseqüente (e rara) consagração. Estes, todavia, qualquer estudante aplicado, que nem precisa ser aluno de algum curso universitário de Letras, mas do ensino secundário, conhece, mesmo que superficialmente. Poucos, todavia, atentam para as características regionais da nossa literatura.

Apesar dos habitantes de cada um dos 27 Estados do País serem, todos, brasileiros, de falarem e de escreverem utilizando o mesmíssimo idioma, os escritores de cada uma dessas unidades da federação expressam-se de formas diferentes. Refletem culturas regionais típicas, próprias, características, únicas. Valem-se de dialetos locais, nem sempre compreensíveis pelos que habitam outras localidades. Agem como se pertencessem a países distintos, que não o Brasil. Ainda assim, bem ou mal, nos entendemos. Muitos expoentes literários locais são absolutamente desconhecidos em âmbito nacional, embora sejam muito bons e de não ficarem nada a dever, em termos de criatividade e de qualidade, aos grandes “figurões”. Cite, paciente leitor, que ache que estou exagerando, por exemplo, três escritores amapaenses. Ou três sergipanos. Ou mesmo três paraenses. Ou três de outros Estados, excetuando-se o eixo Rio-São Paulo. Não conseguiu? Não se amofine. A imensa maioria não consegue. Mas esses Estados os têm, e em razoável quantidade. E vários são muito bons, na realidade, são excelentes.

Até mesmo escritores consagrados em âmbito nacional, que lograram conquistar uma cadeira na seletíssima e elitizada casa de Machado de Assis são conhecidos por poucos brasileiros. Querem ver como não estou exagerando? Desafio-os a citarem, sem consultarem o Google, dez membros (não importa de quando) da Academia Brasileira de Letras. Não conseguiram? É o que pensei! Contudo, para chegar lá, todos os que lá chegaram reuniram méritos literários para tal. São (ou foram) mestres da Literatura e do idioma. Em suma, o que falta, no Brasil, não são escritores. Carecemos, isso sim, de “leitores” em idêntica proporção aos que escrevem e publicam livros. E, sobretudo, temos profunda carência de interesse, de reais oportunidades para maiúsculos talentos que morrem anônimos, mesmo sendo excelentes literatos. Em suma, carecemos de divulgação.

Há cerca de 50 anos venho me dedicando, de corpo e alma (e de dois anos para cá em tempo integral, com média de oito horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados) ao estudo de Literatura: a mundial, mas, sobretudo, a doméstica, a local, a brasileira. Quando num arroubo narcisista já acho que conheço, digamos (exagerando) 2% dos melhores escritores e de suas respectivas obras, de repente, sou forçado a cair na realidade e concluir que estou distante anos-luz de conhecer até mesmo esse irrisório porcentual. Volta e meia caem-me, em mãos, livros de autores de que nunca ouvi falar, que jamais suspeitava que existissem, de qualidade beirando à perfeição, e sou forçado a admitir que nada sei sobre a matéria. Esclareço que estudo com tanto afinco a Literatura não por obrigação, por aspirar algum cargo ou posição relacionados com as chamadas “belas letras”. Nada disso. Faço-o livre e espontaneamente, sem que ninguém me obrigue e nem cobre, por puríssimo prazer, por se tratar da minha paixão, daquilo que me diverte e me instrui, que é minha obsessão.

Abordei, nos últimos dez anos, escritores e livros de pelo menos duas regiões específicas do País (que me lembro): os de Brasília, quando do 50º aniversário de fundação da “Capital da Esperança” e os da Bahia (neste caso, apenas os ficcionistas e os mais conhecidos). Cometi inúmeras injustiças, omitindo autores e obras marcantes e não, claro, deliberadamente, mas por pura ignorância. E olhem que tratei, apenas, de duas regiões brasileiras específicas. Tentarei, oportunamente, trazer à baila expoentes dos outros 26 Estados, consciente de que irei omitir, por desconhecer, dezenas, centenas, quiçá milhares de escritores. Ainda assim, entendo que essa pesquisa, com todas as suas falhas, seja válida, para que nós, brasileiros, conheçamos um pouquinho mais da nossa rica, variada e fascinante Literatura. Começarei – e não me perguntem a razão dessa opção – por “alguns” escritores de Santa Catarina. Aguardem-me!!!


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Thursday, December 03, 2015

ARTE EXERCIDA EM CONDIÇÕES ADVERSAS


As grandes obras de arte do passado, as que sobreviveram ao tempo, foram criadas pelo talento de homens como nós. Mas esses artistas só podiam contar com eles mesmos, pois tinham profunda desvantagem em relação às pessoas de hoje, já que não contavam com os conhecimentos, com os meios de locomoção e de comunicação e com o conforto que nos são proporcionados pela evolução da tecnologia. Foram obras geradas por talentos ímpares nas condições mais adversas que se possam conceber. Até a invenção da imprensa, por exemplo, por Johann Guttemberg, os livros eram feitos a mão, um a um, por copistas, geralmente monges, que transcreviam os originais dos autores, mas nem sempre (como seria de se esperar) rigorosamente da forma que eles os haviam concebido. Pouquíssimas pessoas tinham o privilégio de possuir algum desses exemplares. E muitos que os possuíam não os liam, por serem analfabetos. Ainda assim, para nossa felicidade, alguns magníficos textos (e outros não tão excelentes assim), chegaram até nós. Reputo isso como milagre! 


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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.

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Segurança pública



Pedro J. Bondaczuk


A propalada reforma no sistema de segurança pública do País, como tantas outras – a administrativa, a previdenciária, a fiscal, a política, etc. –, parece fadada a cair no esquecimento, depois do tema ter freqüentado as manchetes da imprensa, na ocasião em que era deflagrada a onda de greves nas Polícias Militares.

Infelizmente o tempo passa, mas o Brasil não muda sua atitude de deixar para amanhã o que deveria fazer hoje. Os principais problemas estruturais são debatidos apenas quando algum fato aberrante faz com que venham à tona. O debate, então, adquire conformação passional por alguns dias, até que a questão caia no esquecimento.

Autoridades dão entrevistas, fazem promessas e chegam até a convencer os mais ingênuos de que vão adotar soluções. Quando a população espera por alguma providência definitiva, anuncia-se a criação de "uma comissão". É o quanto basta. A partir desse anúncio, qualquer cidadão atento pode concluir sem nenhuma dificuldade que nada vai ser resolvido. Esta é a deixa das autoridades para manter as coisas do jeito em que estiverem.

É uma forma não muito sutil, mas que funciona, de tapear a opinião pública, dando a entender que alguma coisa está sendo feita, mesmo que todos saibam que não. No caso da segurança, essa falta de atitude assume maior gravidade, já que o País enfrenta nas ruas das grandes metrópoles uma guerra civil não declarada. A população sente-se crescentemente insegura, diante do avanço da violência urbana. Centenas de pessoas perdem a vida ou o patrimônio estupidamente, quando essas perdas poderiam ser evitadas mediante ações preventivas.

"Prevenir é melhor do que remediar", diz o surrado clichê. Mas não é assim que o Poder Público age. Os resultados são catastróficos. O homicídio, por exemplo, já é a terceira causa de morte em São Paulo, na faixa dos 15 aos 35 anos. O tráfico de drogas intensifica-se, desgraçando a vida de milhares de pessoas. O cidadão sente-se cada vez mais inseguro e não está imune de riscos sequer em sua própria casa. Andar nas ruas transformou-se em uma aventura, equivalente a atravessar um minado campo de batalha, em pleno combate.

Uma reforma eficaz no sistema de segurança pública do País exige uma emenda constitucional. Ou seja, depende do Congresso, que sequer aprovou matéria do interesse dos próprios políticos: as regras para as eleições do ano que vem. Como esperar pressa deles, portanto? Logo vem o fim do ano, e assim que janeiro despontar, as atenções serão todas voltadas para a campanha sucessória. Segurança? O cidadão que se vire!

Propostas existem e das mais criativas. Nesta semana, o Centro de Estudos Monsenhor Salim, da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, promoveu um ciclo de debates a respeito, com a presença de juristas, administradores, parlamentares, estudantes e jornalistas.

Os debatedores não se limitaram a apontar o problema, o que não é difícil, mas sugeriram soluções, algumas de simples adoção. Aliás, essa facilidade é apenas teórica. Existiria se não esbarrasse num obstáculo que não deveria ser, mas é, virtualmente, intransponível: a indolência do Congresso. Até quando nossos representantes no Parlamento vão continuar traindo a nossa confiança?

(Texto escrito em 19 de agosto de 1997 e publicado como editorial na Folha do Taquaral).

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Quem ri por último...

Pedro J. Bondaczuk

Hoje, por puro acaso, topei com um artigo que publiquei, no dia 23 de maio de 1994, na coluna “Fera”, do Caderno de Esportes do “Correio Popular” de Campinas, onde era editor (e não apenas de uma única editoria). Esse espaço havia sido criado trinta dias antes da Copa do Mundo dos Estados Unidos, como uma espécie de preparação, de “aquecimento” para a cobertura daquele Mundial, que o jornal prometia que seria completa e original (e foi), a despeito do pessimismo que cercava a Seleção Brasileira, que havia se classificado para a competição na chamada “bacia das almas”. Por pouco não ficou de fora. Ademais, fazia 24 anos da conquista do tri, no México. Foi um ato de ousadia do Correio Popular.

Confesso que não me lembrava que havia digitado esse artigo e arquivado em meu bagunçado e volumoso arquivo eletrônico. E por que trago à baila, neste espaço nobre voltado à Literatura, esse tema que, aparentemente, nada tem de literário? Por dois motivos principais. O primeiro é para lembrar os leitores (e, sobretudo, as editoras) que sou autor de um livro (ainda inédito) sobre sucessos e fracassos da Seleção Brasileira, intitulado “Copas ganhas e perdidas”, atualizado com o “fiasco” do nosso futebol (o segundo em casa) na desastrosa campanha de 2014, que culminou com os “inesquecíveis”  7 a 1 sofridos diante da Alemanha (sobretudo) e com os subsequentes 3 a 0 diante da Holanda. Quem sabe alguém se interesse em bancar essa obra, antes ou durante o Mundial de 2018 na Rússia?! O importante é que ela existe e está madura, prontinha para ser publicada;

E qual é o segundo motivo para tocar nesse assunto? É o de enfatizar o quanto uma intuição é valiosa (quando se confirma, lógico, pois muitas vezes, desde que exposta publicamente, ela nos induz somente ao absoluto ridículo se não der certo) . O título do tal artigo, que localizei, hoje, por puro acaso, é “Já comprei minha camisa”. Com semanas de antecedência do início do Mundial, previ a conquista do tetra, assim na bucha, sem manifestar a mais remota dúvida e sem vacilar. O jornal criou, como havia prometido, um “Caderno da Copa”, com o máximo de informações sobre a competição e fui convidado para comentar a performance da Seleção Brasileira. Aceitei, claro.

Destaco que depois da publicação do tal artigo, os leitores não me deram sossego. Tanto eles, quanto os colegas de redação. Tentaram ridicularizar-me de todas as formas, desde as sutis às mais escrachadas (e inúmeras mal-educadas) e tive que ter muita paciência para administrar as “piadinhas infames” que me eram endereçadas, por cartas (os e-mails, então, nem existiam) e, principalmente, por telefone. Foi um inferno!!! Pude comprovar o quanto o complexo de viralata está entranhado na psique do brasileiro. Mas... quem, afinal, riu por último? Claro que foi este jornalista que nunca temeu correr riscos!!!

Para que o leitor avalie meu “atrevimento”, que resultou, finda a Copa, em aumento do meu prestígio junto à direção do jornal – em vez do descrédito que as “cassandras de mau agouro” previam, para mim e para os comandados de Carlos Alberto Parreira –  reproduzo, na íntegra, o citado artigo que comprova, inclusive, o surrado clichê que diz que “quem ri por último ri melhor”. No caso, eu (e os raros brasileiros que acreditaram na Seleção) rimos com a maior satisfação. Adoro uma polêmica!!! Leiam o que escrevi naquele distante 23 de maio de 1994, véspera do embarque da nossa equipe para os Estados Unidos: 

“A seleção brasileira, convocada a semana passada, e que embarca rumo aos Estados Unidos amanhã, vai estrear na Copa do Mundo com 80% da capacidade física dos jogadores, conforme previsão do fisicultor Moracy Sant'Anna. Isso é bom? É mau? O tempo para a preparação, praticamente de menos de um mês, é curto, como se propala? Acredito que não!

Até porque a sua base é a mesma do grupo de 1990, que fez aquele fiasco, que todos nós lembramos, na Itália. Ocorre que hoje esses jogadores estão mais amadurecidos, mais experientes, mais tarimbados e mais conscientes da importância da conquista do tetracampeonato, não apenas para a satisfação dos 150 milhões de brasileiros, mas principalmente para o fecho de suas carreiras.

Posso dizer que vi, em uma oportunidade ou outra, a apresentação das 24 seleções que vão disputar a Copa e não despontou entre elas nenhum "bicho-papão". Pelo contrário, a grande maioria adota a mesma tática, o mesmo futebol-força, com congestionamento do meio de campo, no máximo dois atacantes natos e apoio dos laterais e miolo de zaga, como fator surpresa. Ou seja, a mesma forma com que o Brasil joga.

A diferença está no talento de um Romário, de um Bebeto, de um Zinho e de um Leonardo, coisa que os nossos adversários não têm.

Ninguém, evidentemente, pode prever quem irá conquistar a Copa. Se isso fosse possível nem haveria disputa. A graça desse esporte e o motivo de ele empolgar multidões é exatamente a sua imprevisibilidade. Nem sempre o melhor é o campeão. Prova disso foi o último Mundial, o da Itália, em que a Alemanha teve uma apresentação discretíssima e emplacou seu tricampeonato sem nenhum brilho. Aliás, na fase de classificação, chegou a ser decepcionante, colhendo magros resultados que lhe permitiram apenas se arrastar até a final.

Apesar de tudo isso, por uma questão, digamos, de sexto sentido, de intuição, fiz uma coisa inédita enquanto torcedor doente da Seleção. E olhem que esta será a 12ª Copa do Mundo da minha vida. Comprei uma camisa canarinho, de número dez --- de Pelé, para dar mais sorte --- na certeza de que desta vez irei, finalmente, soltar o grito que ficou preso na garganta em 1982, por causa do "verdugo de Sarriá", o italiano Paolo Rossi. Aquele time, apesar de haver ficado marcado pelos fatídicos 3 a 2 para a Itália, foi empolgante, espetacular, mágico.

Vejo, todavia, uma determinação maior no atual grupo, que em momento algum, mesmo nos heróicos 6 a 0 contra a Bolívia, no Recife, durante as Eliminatórias, contou com a confiança do torcedor. Além disso, nossos adversários, convenhamos, não são bichos-papões.

A Rússia está às voltas com briguinhas de comadres, e muitos dos seus principais astros não foram convocados. Camarões, apesar da autoconfiança (excessiva) de seus jogadores, é uma seleção envelhecida em quatro anos (a base é a mesma de 1990) e sequer foi a campeã da Copa da África. A Suécia é aquilo que conhecemos. Provavelmente foi o selecionado que o Brasil enfrentou mais vezes em mundiais.

Daí não ser preocupante o fato de a nossa equipe estrear com apenas 80% da sua capacidade física. O auge será, e deve ser, atingido na grande final, quando poderemos soltar o grito preso na garganta há sofridos 24 anos: é tetracampeão, é tetracampeão!!”


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Wednesday, December 02, 2015

VOZES DE ALÉM-TÚMULO

As obras de arte do passado, as que sobreviveram às grandes comoções políticas e sociais, como guerras, saques e destruição, e às múltiplas catástrofes, naturais ou provocadas pelo homem, claro, são como vozes de além-túmulo a nos testemunhar como eram, o que fizeram e como viveram nossos remotos ancestrais. Muita coisa, diria a maioria, se perdeu no tempo, privando-nos de preciosas informações sobre as nossas origens. E esse mal é irremediável. O que se perdeu, é absolutamente irrecuperável. Mas o pouco que restou (e não dá para dimensionar o quanto isso representa, em termos percentuais, em relação ao que foi produzido) tem duplo valor: o artístico e o documental. Essas obras de arte são as mais confiáveis fontes em que o historiador contemporâneo pode “beber”, para nos trazer um relato razoavelmente preciso sobre povos, heróis, vilões, santos e tiranos dos primórdios da civilização. As epopéias “Ilíada” e “Odisséia”, de Homero, nos falam, por exemplo, de como eram os gregos dos tempos heróicos e nos testemunham, também, a existência de Tróia e de seus líderes e seu povo. O mesmo ocorre com a “Eneida”, de Virgílio; com a “Ramaiana” e “Mahabarata”, dos hindus, e com tantos e tantos outros poemas épicos, esculturas, arquitetura etc. que sobreviveram ao tempo e ao esquecimento. São, portanto, quase que literalmente, “vozes de além-túmulo”.


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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

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Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

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Soviéticos querem 10 vezes o Plano Marshall



Pedro J. Bondaczuk


O pedido do presidente Mikhail Gorbachev, feito na quarta-feira, em Moscou, durante entrevista com o primeiro-ministro italiano, Giulio Andreotti, de US$ 100 bilhões para poder levar a cabo a Perestroika, assustou o Ocidente – em especial os Estados Unidos – que ainda está se recuperando de um período recessivo, posto que brando, iniciado no ano passado.

George Bush respondeu ao apelo de forma evasiva, embora sem descartar seu atendimento. Helmut Kohl, o chanceler da unificação alemã, admitiu a necessidade dessa ajuda, talvez não na quantidade pedida. Os outros integrantes do chamado Grupo dos Sete, integrado por países considerados os mais ricos do mundo industrializado, sequer se manifestaram.

Gorbachev colocou a questão como um desafio. Ou o Ocidente estabelece um novo Plano Marshall, desta vez totalmente voltado para a União Soviética, ou perde o bonde da história. Ou seja, deixa de ver desmontado o sistema comunista que pôs o mundo à beira da destruição durante meio século.

Duas coisas estão assustando os líderes ocidentais nesse pedido do presidente soviético. A primeira, evidentemente, é a própria importância solicitada. Afinal, US$ 100 bilhões equivalem, praticamente, à maior dívida externa mundial, a do Brasil.

O Plano Marshall destinou quase um décimo dessa cifra, US$ 12 bilhões, e assim mesmo para toda a Europa Ocidental, para que a região pudesse se recuperar dos estragos causados pela Segunda Guerra. O segundo aspecto que está inquietando o Ocidente é a própria fluidez política na URSS.

Quem garante, por exemplo, que após a concessão de um financiamento dessa ordem, Gorbachev continuará gerindo os destinos da superpotência do Leste? Que garantias os financiadores têm de que o líder do Cremlin não irá retroceder em seu propósito de implantar um sistema de mercado livre no país? Quem pode assegurar que o presidente não vá se aliar de vez com a linha-dura e implantar uma nova ditadura na URSS, conforme advertências de gente séria, como o ex-ministro das Relações Exteriores, Edward Shevardnadze?

Segurança ninguém tem. Será uma decisão arriscada, a ser tomada no escuro, como, aliás, são todas as realmente importantes. É pouco provável que Gorbachev venha a abrir mão do seu projeto reformista, se devidamente apoiado. Ademais, tão logo os soviéticos sintam os primeiros resultados positivos das reformas, certamente irão querer ver pelas costas os conservadores comunistas que levaram o país à beira do abismo.

A impressão que se tem é a de que o Ocidente acabará por apostar na Perestroika. Talvez não conceda a importância pedida pelo presidente soviético. Afinal, estava em seus planos investir US$ 10 bilhões em todo o Leste europeu e assim mesmo ao longo de dez anos.

Claro que Moscou precisará dar determinadas garantias, não se sabe como. Gorbachev terá, sobretudo, de mostrar que detém, de fato, o poder no país, o que, na verdade, não parece. Os decretos que ele tem baixado vêm sendo solenemente ignorados. Ou esbarram na diabólica “Nomenklatura” do Partido Comunista, muito distante de ser desmontada, ou simplesmente são desrespeitados, impunemente, sem que o Cremlin tenha sequer forças para fazer valer tais decisões.   

(Artigo publicado na página 24, Internacional, do Correio Popular, em 26 de maio de 1991)


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A impressionante “mulher-objeto”

Pedro J. Bondaczuk

O conto “A intrusa”, de Jorge Luís Borges, que abre seu livro “O informe de Brodie”, é um dos mais impressionantes da literatura mundial. Dá exata medida de como a mulher era (e ainda é em muitos lugares) tratada em determinadas sociedades. A protagonista feminina dessa história, Juliana Burgos, torna-se personagem feminina inesquecível, mas não por suas ações, pensamentos e, sobretudo, sentimentos, que não são levados em conta. Ela não “age” no enredo. É agente passiva. Sofre. E toda a sorte de abusos, do material ao sexual, culminando com seu assassinato – que permanece impune como se fosse a coisa mais natural – sem que sua vontade seus mais comezinhos direitos sejam levados em momento algum em conta. É, literalmente, a típica “mulher-objeto”.

É considerada menos do que um animal, do que os cavalos dos que a submetem à absoluta sujeição, por exemplo. Juliana Burgos é tratada como propriedade de que se pode dispor como bem se entender, sem dar satisfação a quem quer que seja. O livro “O informe de Brodie” é um primor do gênero contos, do qual Borges foi um dos maiores mestres. A versão que tenho em mãos é a 3ª edição, datada de 1995, lançada pela Editora Globo, com tradução de Hermillo Borba Filho. Todas as narrativas que o integram são primorosas. Porém “A intrusa” se destaca, principalmente por chocar.

É impossível permanecer indiferente após a leitura desse conto. Borges inicia assim essa primorosa narrativa: “Dizem (o que é improvável) que a história foi contada por Eduardo, o mais moço dos Nilsen, no velório de Cristiano, o mais velho, que morreu de morte natural, cerca de mil oitocentos e noventa e tantos, em Morón. O fato é que alguém a ouviu de alguém, durante essa longa noite perdida, entre um e outro mate, e a repetiu a Santiago Dabove, que a contou a mim. Anos depois, em Turdera, onde a história acontecera, ouvi-a novamente. A segunda versão, um pouco mais longa, confirmava em suma a de Santiago, com as pequenas variações e divergências próprias do caso. Escrevo-a agora porque, se não me engano, ela é uma imagem breve e trágica da índole dos antigos ribeirinhos. Farei isso com probidade, mas já prevejo que cederei à tentação literária de acentuar ou acrescentar algum detalhe”.

A história tem como personagens centrais os irmãos  Cristián e Eduardo Nilsen, que viviam na mais completa harmonia, até que passaram a partilhar (pasmem) a mesma mulher, no caso, Juliana Burgos. Borges informa como tudo começou: “Os Nilsen eram estouvados, mas suas aventuras amorosas não tinham passado até então da sala de visitas ou então das casas de tolerância. Não faltaram, pois, comentários quando Cristiano levou Juliana Burgos para viver com ele. É verdade que assim ganhava uma criada, mas também não é menos certo que a acumulou de horríveis bugigangas e que a exibia nas festas. Nas pobres festas de pequenos bordéis onde os requebros e a lascívia estavam proibidos e onde se dançava, ainda, com muita luz. Juliana era morena e tinha olhos rasgados; bastava que alguém a olhasse para que sorrisse. Num bairro modesto, onde o trabalho e o descaso gastam as mulheres, não era malparecida”.

Essa, aliás, é a única descrição feita dela. Apesar dos irmãos não considerarem essa mulher sequer “gente”, a certa altura ela se transformou em pomo da discórdia entre eles. Quem a levou para casa foi Cristian. No entanto, não tardou para Eduardo perceber-se “apaixonado” por ela. Mas era paixão exclusivamente animal, carnal, sexual. Não era, óbvio, amor. Juliana cedeu aos seus impulsos e passou a fazer sexo com ele. Aliás, com os dois irmãos. Não tinha como evitar. Era a parte frágil da incomum relação. É verdade que, a princípio, um fingia ignorar que o outro dormia com aquela mulher. Isso até quando não foi mais possível seguir ignorando tamanha promiscuidade. À sua revelia, pois não tinha como evitar, Juliana tornou-se, insisto, pomo da discórdia entre os irmãos, que nunca haviam brigado até então por motivo algum.

Maria Luiza Bonorino Machado descreve assim, em seu ensaio “A sombra da mulher em Borges”, a “solução” encontrada para que a paz doméstica fosse restabelecida: “A humilhação de se sentirem diminuídos enquanto homens, a ameaça que a mulher representa à ordem de suas vidas, o ciúme ambíguo que os corrói, os levará a vendê-la à dona de um prostíbulo em Morón. O dinheiro é dividido entre os dois, afinal eles são os donos de Juliana. Mas vender a mulher não soluciona a questão, ambos continuam apaixonados e acabam comprando-a de volta”. E tudo recomeçou.

Borges narra como as coisas então ficaram: “Uma noite, ao voltar tarde do papo na esquina, Eduardo viu o cavalo de Cristiano amarrado na cerca. No pátio, o mais velho o estava esperando todo ataviado. A mulher ia e vinha com o mate na mão. Cristiano disse a Eduardo: -Vou para uma farra na casa de Farias. Aí tens Juliana; se quiseres, usa-a. O tom da voz era entre mandão e cordial. Eduardo ficou a olhá-lo durante um certo tempo; não sabia o que fazer. Cristiano levantou-se, despediu-se de Eduardo, mas não de Juliana, que era apenas uma coisa, montou a cavalo e saiu trotando, sem pressa. A partir daquela noite a mulher foi compartilhada por eles. Ninguém jamais saberá os pormenores dessa sórdida união que ultrajava o decoro do bairro. O arranjo foi bom por umas semanas, mas não podia durar”. Não durou.

E a narrativa prossegue:  “Voltaram à mesma vida que já se contou. A infame solução fracassara. Os dois haviam cedido à tentação de fazer trapaça. Caim andava por ali, mas o amor entre os Nilsen era muito grande – quem sabe que durezas e que perigos haviam compartilhado! – e preferiram descarregar sua exasperação sobre os outros. Com um desconhecido, com os cachorros, com Juliana que havia trazido a discórdia”. Na cabeça dura daqueles homens rudes, para lá de primitivos, a mulher estava longe de ser vítima. Era a vilã que punha em xeque uma amizade jamais antes abalada.

E o que fizeram para restabelecer os laços fraternos, prestes a serem rompidos? Eliminaram, literalmente, a causa de suas desavenças. Borges conclui assim esse chocante conto: “O mês de março estava chegando ao fim e o calor não diminuía. Um  domingo (nos domingos as pessoas costumam recolher-se cedo) Eduardo, que voltava do armazém, viu que Cristiano atrelava os bois. Cristiano lhe disse: -Vem, temos que deixar uns couros no Pardo. Já está tudo carregado, vamos aproveitar a fresca. O comércio de Pardo ficava, creio, mais ao sul. Tomaram pelo Caminho das Tropas e depois por um desvio. O campo ia crescendo com a noite. Contornaram um restolhal; Cristiano jogou fora o cigarro que acendera e disse sem pressa: -Vamos trabalhar, meu irmão. Depois os caracarás nos ajudarão. Eu a matei hoje. Que fique aqui com as suas bugigangas. Já não causará mais dissabores. Abraçaram-se, quase chorando. Agora, estavam ligados por outro laço: a mulher tristemente sacrificada e a obrigação de esquecê-la”.

Os irmãos Nilsen, para quem Juliana Burgos só tinha duas serventias – a de criada ou, pior, a de escrava e a função de servir de “objeto” (como se fosse dessas bonecas infláveis vendidas em pornoshops) apropriado para a satisfação sexual de ambos – até podiam esquecê-la (como ficou implícito que esqueceram). Todavia... o leitor inteligente e sensível nunca conseguirá esquecer essa personagem feminina espezinhada, humilhada, usada, abusada e indefesa, descartada como bagaço de uma laranja cujo caldo tenha se esgotado. Este é um dos contos mais impressionantes que já li até hoje.


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Tuesday, December 01, 2015

LIBERAÇÃO DE TENSÕES

A vida, nas grandes cidades, por sua complexidade e pela multiplicidade de problemas que apresenta, tende a ser tensa e neurotizante. Na luta pela sobrevivência, acumulamos medos, raivas e frustrações de toda a sorte, recalcados, dia após dia, sem que sequer venhamos a nos dar conta. Esse acúmulo de tensões gera, além de desespero e depressão, várias doenças e enorme (e às vezes irresistível) necessidade de fuga da realidade. Muitos fazem da arte uma forma de sublimação. Transformam problemas em soluções. Tornam-nos matéria-prima de poemas, canções, pinturas, esculturas, etc. Desde épocas muito remotas, foram criadas várias formas de liberação dessa carga de emoções negativas. São catarses coletivas, sob variados disfarces e pretextos. Entre estas estavam jogos, de diversas espécies, entretenimentos, esportes e festas populares. Esses eventos multiplicam-se ainda hoje. Neles, as pessoas dão vazão, com certa liberdade,  aos instintos reprimidos. Livram-se, (ao menos parcialmente) das amarras sociais e voltam à infância. Brincam, gritam, pulam, cantam, embriagam-se (de vinho e de fantasia), num simulacro de alegria. Provavelmente o Carnaval, como outras tantas festas populares, também surgiu com esse objetivo: o de liberação de tensões (físicas, psicológicas e afetivas).


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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet – WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria – Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

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Limites da força



Pedro J. Bondaczuk


O presidente norte-americano Ronald Reagan está passando, desde sexta-feira (guardadas as devidas proporções), com o seqüestro do Boeing 727 da TWA feito por muçulmanos xiitas, o mesmo tipo de problema que Jimmy Carter teve que enfrentar em 1980, no affaire da detenção de 53 reféns dos EUA em Teerã, pelos fundamentalistas iranianos.

Aquele caso, entretanto, foi muito mais complicado e longo (embora não se saiba quanto tempo o atual pode durar). Começou em 4 de novembro de 1979, quando a embaixada norte-americana foi ocupada, numa Teerã em plena efervescência revolucionária. E só terminou 444 dias depois, a 20 de janeiro de 1981, dia exato da posse de Reagan na Casa Branca.

Naquela oportunidade, o caso dos reféns acabou sendo fatal para as pretensões de Jimmy Carter à reeleição. Seu opositor, na cômoda condição de pedra, e não de vidraça, esmagou o oponente nas urnas, explorando sua incompetência em solucionar um problema que sempre preocupou os norte-americanos.

Muitos analistas afirmam que o aiatolá Khomeini agiu assim deliberadamente (retendo os reféns durante toda a campanha presidencial) com o objetivo de punir o ex-presidente democrata, por ele ter acolhido o ex-xá Rheza Pahlevi, acometido de câncer e, virtualmente, moribundo.

Em outubro de 1980, poucos dias antes das eleições, Reagan chegou a encostar Carter, publicamente, contra a parede, durante um debate transmitido pela TV dos EUA para várias partes do mundo (inclusive para o Brasil). Exigiu que o então presidente explicasse para o eleitorado o que estava fazendo para conseguir a libertação dos 53 reféns. E Carter, não tendo como justificar que a maior superpotência do Planeta estivesse se curvando ante um bando de fanáticos, num país caótico e desorganizado, só pôde balbuciar desenxabidas desculpas.

Como poderia explicar, por exemplo, o fiasco incrível da desastrosa operação de resgate da Força Delta, em abril de 1980, no deserto salgado iraniano de Tabas? A explicação era ainda mais difícil quando se sabia que a frustrada tentativa de resgate tinha se dado apenas seis meses após a outra superpotência haver colocado, em questão de horas, com uma precisão fantástica, mais de cem mil homens no Afeganistão. Ali, naquele debate, Jimmy Carter perdeu a reeleição. E, provavelmente, encerrou sua carreira política.

Hoje, Ronald Reagan vê-se numa situação parecida. Mais de trinta norte-americanos estão em mãos de fanáticos (por coincidência, também xiitas), buscando chantagear a Casa Branca. Em 1980, os estudantes fundamentalistas exigiam de Carter apenas que os EUA admitissem seus “crimes no Irã”, durante o regime do antigo xá. Mas o presidente não se submeteu.

A exigência atual é mais concreta e muito mais difícil de atender. Não apenas por envolver uma questão de princípios, em especial o de não negociar com terroristas, mas porque os xiitas exigem a libertação de comparsas que nem mesmo estão em poder dos EUA.

Querem que 800 de seus companheiros, encarcerados em Israel, sejam postos em liberdade. E que o mesmo aconteça em relação a dois outros, prisioneiros na Espanha. Reagan, embora possa influenciar os governos desses seus dois aliados, se sente duplamente constrangido. E dificilmente aceitará esse tipo de solução.

Então, como resolver o impasse? Intervindo no Líbano? De que adiantaria? Como ele pode saber onde estão os reféns, após estes terem sido retirados do avião? Bombardeando Beirute, para que inocentes pagassem juntamente com os devedores?

Seria contraproducente e despertaria a ira internacional contra os EUA, que já não são, atualmente, um primor de popularidade. O que fazer? Essa é uma situação em que a força do forte acaba sendo, justamente, a sua fraqueza. Jimmy Carter que o diga...

(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 18 de junho de 1985).


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Apaixonante idealização feminina

Pedro J. Bondaczuk

A quarta das mulheres criadas por Jorge Luís Borges, das cinco que considero inesquecíveis, é a norueguesa Ulrica, personagem do conto do mesmo nome do volume “O livro de areia”, publicado, em espanhol, em 1975. Não sei se essa obra foi traduzida para o português e lançada no Brasil. Presumo que não. O exemplar que tenho em mãos é da edição original. Esse conto tem (pelo menos para mim), valor não digo maior, mas “diferente” dos outros tantos. Trata-se do único relato de amor (de amor mesmo, nascido, consumado e até relatado) publicado por Borges. Porém... tem final surpreendente!

Emma Zunz, por exemplo, entregou-se a um marinheiro sueco, pois precisava perder a virgindade para justificar seu álibi de ter sido estuprada por Loewenthal, a quem assassinou para vingar a morte do pai. Não se tratou, pois, de relação de amor. Beatriz e Teodelina são apresentadas já mortas e ambas nunca corresponderam à paixão mais para platônica do que carnal dos respectivos personagens masculinos que as amaram. Já com Ulrica o caso é diferente. Ou quase. Na epígrafe desse conto, Borges cita versos do capítulo 27 da saga islandesa “Volsunga”, "Hann tekr sverthit Gram okk / legger i methal theira bert", que significam: "Ele tomou sua espada, Gram, e colocou o metal nu entre os dois”. A citação não é gratuita. Tem papel muito importante no conto. Aliás, mais do que isso. Teve importância imensa (por razões que só o escritor poderia explicar) em sua vida. Tanto que foi reproduzida no verso da sua lápide no cemitério de Genebra, onde seus restos mortais estão sepultados.

Estes versos fazem referência ao herói Sigurd, que deveria partilhar seu leito com a bela Brynhild, pretendida por seu cunhado. Para não tocá-la, e não macular sua pureza, coloca a espada (cujo nome era Gram) entre ambos. Na saga islandesa, anos depois, Brynhild causa a morte de Sigurd e depois se suicida, para que os restos mortais de ambos ocupem a mesma pira funerária, um ao lado do outro, mas com a tal espada nua separando os dois corpos. O conto “Ulrica” fala do encontro do narrador, que também é o protagonista da história, o colombiano Javier Otárola, professor da universidade dos Andes, em Bogotá, com a mulher que considera ideal.

O conto começa assim (a tradução é minha): “Meu relato será fiel à realidade ou, em todo caso, à minha lembrança pessoal da realidade, o que dá no mesmo. Os fatos ocorreram há muito pouco, mas sei que o hábito literário é o de intercalar fatos circunstanciais e acentuar ênfases. Quero narrar meu encontro com Ulrica (não soube do seu sobrenome e talvez não saberei nunca) na cidade de York. A crônica abarcará uma noite e uma manhã. Nada me custaria referir que a vi pela primeira vez junto às Cinco Irmãs de York, esses vitrais puros de toda a imagem, respeitados pelos iconoclastas de Cromwell, mas o fato é que nos conhecemos na salinha do Northern Inn, que está do outro lado das muralhas. Éramos poucos e ela estava de costas. Alguém lhe ofereceu uma bebida, que recusou. “Sou feminista” – disse – “não quero copiar os homens. Desagradam-me seu fumo e seu álcool”. Em resumo, neste encontro, os protagonistas se apaixonaram e se apelidaram com os nomes dos heróis da saga islandesa da epigrafe: Brynhild e Sigurd.

O narrador descreve assim (com a visão de alguém apaixonado) sua musa: “Um verso de William Blake fala de mulheres de suave prata e de furioso ouro, mas em Ulrica estavam o ouro e a suavidade. Era esbelta e alta, de traços afilados e olhos castanhos. Menos que seu rosto, me impressionou seu ar de tranqüilo mistério. Sorria facilmente e o sorriso parecia distanciá-la. Vestia-se de negro, o que é raro em terras do Norte, cujos habitantes tratam de alegrar com cores o apagado do ambiente. Falava em inglês nítido e preciso e acentuava levemente os erres”.

A conquista se deu sem dramas. É narrada assim: “Compreendi que uma coisa inesperada não me estava proibida e lhe beijei a boca e os olhos. Afastou-me com suave firmeza e em seguida declarou: ‘Serei tua na posada de Thorgate. Peço-te, entretanto, que não me toques. É melhor que assim seja’. A saga islandesa aparece como subtexto. Javier e Ulrica se tratam por Sigurd e Brynhild. No começo da narrativa, o apaixonado colombiano ouve “o uivo longínquo de um lobo”. Na saga, para se matar Sigurd era necessário comer a carne desse animal, raro na Inglaterra. Há referência à espada, que na lenda foi a defensora da castidade de Brynhild.

A consumação física desse amor, em suma, a “transa”, é descrita assim por Borges: “Do alto da escada, Ulrica me gritou: ‘Ouviste o lobo? Já não restam lobos na Inglaterra. Apressa-te’. Ao subir ao andar superior, notei que as paredes estavam revestidas de papel à maneira de William Morris, de um vermelho carregado, com detalhes de frutos e de pássaros. Ulrica entrou primeiro. O aposento escuro era baixo, com teto de duas águas. A esperada cama se duplicava num vago cristal e a polida guarda me lembrou o espelho da Escritura. Ulrica já havia se despido. Chamou-me por meu verdadeiro nome, Javier.Senti que a neve derretia. Já não restavam móveis e nem espelhos. Não havia uma espada entre nós. Como a areia, escoava-se o tempo. Secular na sombra, fluiu o amor e possuí, pela primeira e última vez, a imagem de Ulrica”.

Fica implícito, todavia, que todo o caso não passou de um sonho, de um delírio ou de uma alucinação de Javier. Assim, não deixa de ser irônico o fato da única personagem feminina de Jorge Luís Borges com um rosto, e que demonstra ter sexualidade, nem mesmo existir. De não passar, apenas, de mera imagem idealizada na mente do maduro professor colombiano, sequioso por viver seu grande amor, de uma mulher ideal.


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