Saturday, November 07, 2015

Há dois tipos de idealismo: o ativo, que se reflete em ações concretas e eficazes para que aquilo que se idealize tenha a mínima chance de se tornar concreto, e o romântico, estático, imóvel, que se limita a meras cogitações individuais e fica na dependência exclusivamente das circunstâncias, quando não do acaso, para produzir efeitos. Este último pode ser classificado, sem nenhum exagero, de mero “devaneio”. Os idealistas de fato, os que, com suas idéias, sonhos e realizações mudaram o mundo para melhor, não se limitaram jamais a idealizar realidades desejáveis e promissoras. Agiram!. Trabalharam duro pelas causas que abraçaram, sem se importar se teriam ou não eventuais vantagens pessoais. Já os simples sonhadores, que achavam que as coisas iriam se acertar por si sós, terminaram a vida frustrados, amargos e infelizes. O que sonharam nunca ocorreu, e nem poderia. Não idealizaram. Limitaram-se a “devanear”. E jamais agiram...


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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
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“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

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Melhores perspectivas para os devedores



Pedro J. Bondaczuk


O panorama para os países endividados do Terceiro Mundo, em especial os da América Latina, no que diz respeito à dívida externa (já chamada de “eterna”) começa a clarear. Há vários sinais positivos no ar, que deixam entrever um ainda débil raio de luz no fim do túnel.

Depois do sistema financeiro internacional ter concordado, não sem certa relutância, com a tese brasileira, de que a única forma dos débitos serem pagos um dia seria através do crescimento econômico (posição hoje já incorporada, e absorvida, pelo ultraconservador Fundo Monetário Internacional), novos mecanismos começam a ser propostos e alguns, até, estão em vias de implementação.

Um deles é o que transforma parte da dívida em investimentos. Com o tempo, quem sabe, isso poderá acabar sendo feito com a totalidade do débito. A solução, embora não seja nova (há tempos vem sendo pregada por economistas sérios dos Estados Unidos), pode vir a ser histórica para a América Latina e, em especial, para seus três maiores devedores: Brasil, México e Argentina.

Em primeiro lugar, a medida tende a estimular a privatização, pois o Estado lucrará duplamente com ela. Deixará de sustentar empresas ineficientes e deficitárias, que em mãos da iniciativa privada, certamente, serão saneadas e se tornarão lucrativas. E, de quebra, se livrará de um penoso compromisso externo. Ou seja, ficará devendo bem menos do que deve.

Outro ponto positivo será a vitalização do mercado de capitais, carreando recursos para setores realmente produtivos da economia, multiplicadores de empregos e de riquezas. As ações ficarão cada vez mais atrativas para os investidores, tirando recursos da mera especulação e trazendo, com isso, os juros para patamares suportáveis.

Terá, portanto, o efeito de uma bola de neve descendo uma montanha. O importante é que, a médio prazo, o principal da nossa dívida externa ficará menor. Conseqüentemente, o serviço desse endividamento será mais suave e mais suportável.

O superávit da nossa balança comercial servirá, então, para outros fins, além do cumprimento desse hoje insuportável compromisso. O País vai dispor de crescentes reservas de moeda forte para as emergências e, quem sabe, até para investir.

Será contida, portanto, a sangria desatada de capitais que o Terceiro Mundo vem sofrendo, em especial desde 1982. Oxalá na prática tudo isso funcione tão bem. Em tese, esta pode ser a nossa grande saída da armadilha em que nos metemos quando os dólares no sistema financeiro internacional eram fartos e os juros tentadores.   
  
(Artigo publicado na página 11, Internacional, do Correio Popular, em 14 de agosto de 1987)


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A ingênua menininha criada por Érico Veríssimo

Pedro J. Bondaczuk

O escritor gaúcho (meu conterrâneo) Érico Veríssimo marcou sua passagem pela rica e variada Literatura Brasileira com a criação de personagens fortes, míticos, característicos, retratando, através deles, o comportamento, os gostos, os costumes, tradições e história do seu (e do meu) Estado natal: o Rio Grande do Sul. Prova disso é a saga “O tempo e o vento”, conjunto de romances em que, através das peripécias da família Terra Cambará, traz à baila um pouquinho da trajetória política e social dessa importante parte do País. Entre suas criações, estão diversas figuras femininas impossíveis de serem esquecidas. Quando a questão vem à baila, as mulheres que descreveu que imediatamente vêm à mente são, pela ordem, a valente e determinada Ana Terra, paixão do aventureiro Capitão Rodrigo, e sua neta, Bibiana Terra Cambará. É inegável que ambas são dignas de figurar em qualquer lista que se faça de personagens femininas inesquecíveis.

Todavia, se eu tivesse que escolher apenas uma das mulheres notáveis que Érico Veríssimo criou, optaria por outra, que não as duas protagonistas da saga “O tempo e o vento”, escolheria Clarissa. E não só pela sua, digamos, “atualidade”, mas pelo quê de humanidade que ela tem. Aliás, ela foi a primeira das suas inesquecíveis personagens, figura central do seu primeiro romance, datado de 1933, que traz, inclusive, seu nome no próprio título do livro, o que, por si só, já sugere sua importância. A relevância que Érico lhe deu foi tamanha, que ela aparece em outros três dos seus livros: “Caminhos cruzados”, “Música ao longe” e “Um lugar ao sol”.Ou seja, foi inesquecível, está mais do que claro, para seu próprio criador.

E o que essa tal de Clarissa tinha de tão especial? Nada! Rigorosamente nada. Era, na criação de Érico, figura feminina até que comum, como tantas e tantas e tantas da sua idade, o início da adolescência, aquela difícil época de transição da infância para um período de transformação de uma “larva” em belíssima “borboleta” que todas as garotas passam. Mas é aí é que está o segredo do fascínio que ela desperta no leitor (e na leitora, claro). Clarissa é filha de fazendeiros, que vai morar em uma pensão, comandada por tia Eufrasina (Dona Zina) e que estuda em Porto Alegre.

Naquele restrito mundinho que passa a ser o seu faz algumas descobertas de coisas boas e ruins que, em sua juvenil ingenuidade, nem desconfiava que existissem. Tudo é novo para ela. Decepciona-se, por exemplo, com a infidelidade de Ondina a seu marido, o caixeiro viajante Barata, a quem trai com Nestor, solteirão irresponsável e folgado, o que a impressiona demais, já que julgava que o amor não tivesse dessas, digamos, “feiúras”. Condói-se da deficiência física de Tonico, com quem se apega e, principalmente, do sofrimento da mãe dele, a pobre e trabalhadora viúva Dona Tatá, que se esfalfa na costura para arrancar seu sustento. Testemunha as discussões políticas de Levinsky, um judeu comunista que não perde a chance de encontrar defeitos e contradições na religião cristã. Compara a vida da vizinha rica, que contrasta com a pobreza de Dona Tatá, e considera que se trata de grande injustiça. Santa ingenuidade!

Um personagem se destaca naquele universo restrito. Trata-se de Amaro, bancário que sonhava em ser grande pianista e que vivia compondo. Clarissa torna-se amiga de Tonico, acreditando na sua recuperação. Intimamente, fica em dúvida se essa amizade era só isso mesmo ou se era amor. Quando o garoto deficiente morre, a menina chega a fantasiar, até, um romance com ele. Coisa de adolescente! Chama-me, em particular, a atenção como Érico descreve o bancário, mas artista sonhador e o ambiente que o cerca, como neste magnífico trecho, um primor de tirocínio descritivo, que partilho com você, caríssimo leitor:

“(…) Amaro caminha para o piano. Seus dedos magros batem de leve nas teclas. Duas notas tímidas e desamparadas: mi, sol... Mas a mão tomba desanimada. O olhar morto passeia em torno, vê as imagens familiares: a cama desfeita, os livros da noite, empilhados sobre o mármore da mesinha de cabeceira, a escrivaninha com papéis em desordem; nas paredes brancas, a máscara mortuária de Beethoven e o espelho oval por cima da pia, o espelho que rebrilha, refletindo na superfície lisa o semblante dum homem triste (…)”. Soberbo!!! Um primor de descrição, não é mesmo?

Por estas e outras é que Clarissa é a minha personagem feminina inesquecível na obra ficcional de Érico Veríssimo, com “menção honrosa” para duas das protagonistas de “O tempo e o vento”: Ana Terra e Bibiana Terra Cambará. Ela também o foi para seu talentoso “criador”, que a inseriu em quatro de seus romances. Como foi, igualmente, para o sonhador Amaro, que tanto queria ser pianista, e que no enredo de “Clarissa” nutria pela garotinha ingênua de treze anos secreta paixão. Se nenhum dos citados a esqueceu, não seria eu que a esqueceria, ora bolas!!!


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Friday, November 06, 2015

Afirmo, sem receio de contestação que só há um jeito de conquistar a grandeza (do espírito e do intelecto): sendo grande!. É empenhando toda a nossa inteligência e talento no permanente, no durável, no infinito e no transcendente. A escritora francesa Freya Madeleine Stark assinalou que “o amor do estudo é um elo agradável e universal, pois trata do que a gente é e não do que a gente tem”. Afinal, nossa efemeridade impede que, de fato, “tenhamos” o que quer que seja. Temos, quando muito, posse transitória sobre objetos que nomeamos, arrogantemente, como sendo “nossos”, até que a morte nos colha, sorrateiramente e sem aviso, em qualquer instante e lugar. Por que batalhar tanto, por que empenhar nossos esforços e melhores capacidades por mesquinhos objetos feitos pelo homem, que tanto nos obcecam, quando a descoberta de um mundo novo, rico e fascinante, o do autoconhecimento, nos confronta e desafia? Por que tentar encontrar frios diamantes quando o brilho das estrelas nos atrai?


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Roleta russa universal


Pedro J. Bondaczuk


As superpotências, além de não conseguirem qualquer resultado prático nas negociações sobre armas nucleares, que se arrastam, em Genebra, e cujo segundo turno recomeçou no início desta semana, ainda estão em vias de um significativo retrocesso.

É que, a despeito de uma posição unânime contrária, por parte dos seus aliados da Organização do Tratado Norte, os Estados Unidos estão prestes a romper o Tratado Salt-2, firmado em 1979 pelo ex-presidente norte-americano, Jimmy Carter, e pelo ex-líder soviético, Leonid Brezhnev.

Embora esse acordo nunca viesse a ser homologado, ambas as partes (aparentemente) respeitaram, até aqui, os seus termos. Segunda-feira isso pode mudar. Há seis anos, quando o Salt-2 foi obtido, o mundo entendeu-o como avanço considerável no sentido de conter a corrida armamentista,  pelo menos no que se referia aos balísticos intercontinentais com ogivas múltiplas.

Através dele, ficou estabelecido que cada uma das partes poderia contar, no máximo, com 1.200 mísseis dessa espécie. No final do ano passado, a Casa Branca, e, mais especificamente, o Pentágono, já vinham ensaiando a sua ruptura, preparando, sutilmente, a opinião pública, especialmente a dos Estados Unidos, para esse desfecho.

Sempre que podiam, Reagan e Weinberger insinuavam que os soviéticos estavam violando o acordo, de uma maneira genérica, sem especificar datas, cifras e locais. É até possível que os russos não estejam, realmente, respeitando os termos do Salt-2.

Nesse caso, a opinião pública mundial merece mais esclarecimentos. Desde quando as violações vêm ocorrendo? Quais os tipos de mísseis novos que saíram das suas fábricas? Quantos eles são? Só respondendo a essas questões, com provas, evidentemente, será possível fazer pressão sobre o Cremlin e cobrar da URSS que honre a palavra empenhada. Ou, pelo menos, haverá um jeito de desmoralizar o pretenso pacifismo das autoridades soviéticas.

O que não se admite é que, para tornar viável o lançamento do novo submarino “Alaska”, os Estados Unidos decidam, sem esta ou mais aquela, fazer, simplesmente, vistas grossas ao acordo, mesmo que à revelia dos seus aliados. Se os soviéticos não vinham violando o Salt-2, passarão, certamente, a violar, contando, agora, com um sólido pretexto para isso. Se já não estavam respeitando os seus termos, vão se sentir descomprometidos, doravante, diante de idêntica atitude norte-americana. E a corrida armamentista, que já está em níveis paroxísticos, deverá, certamente, atingir velocidade ainda mais vertiginosa, literalmente impossível de ser freada.

As superpotências, portanto, além de estarem tapeando a opinião pública mundial, em conversações que ambas sempre souberam que chegariam ao impasse, e que não conduziriam a lugar algum, estão prestes a levar a sua insensatez ainda mais longe, jogando por terra uma das poucas conquistas, nesse perigoso e delicado terreno, dos últimos trinta anos. Até onde elas pretendem ir, ninguém jamais conseguirá atinar. É o que se pode chamar, com todas as letras, de “roleta russa”.

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 8 de junho de 1985).


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Falta de “luz”


Pedro J. Bondaczuk


O “País da Luz” é o título de um dos meus tantos livros de crônicas, a imensa maioria inédita. Este também jamais foi publicado.  Até hoje não entendo a razão de tê-lo preterido quando surgiu a oportunidade de publicar nova obra. Na época, não lhe dei o devido valor. Entendia que tinha coisas melhores, mais profundas e úteis, para partilhar com o público. Deveria ter sido humilde e pedido a opinião de alguém de bom gosto antes de tomar tal decisão. Mas... não pedi. Dia destes, encaminhei a um amigo, crítico literário, pessoa que reputo como de vasto conhecimento de Literatura, os originais (inéditos) do “País da luz”. Esperava que ele viesse me soterrar com uma tonelada de imprecisões que acreditava que viesse a encontrar no referido livro.

Enviei-lhe esses textos justamente por conhecer sua fama de implacável crítico, desses Caxias, que nunca fazem concessões a quem quer que seja, quando se trata de qualidade. Para minha surpresa, recebi detalhado (e entusiástico) relatório, apontando inúmeras virtudes que ele detectou no livro. Como deficiências detectou, apenas, meros erros de digitação (simples troca de letras em determinadas palavras, o que ele atribuiu, com razão, à pressa). Não deixou de criticar, como se vê. Não criticou, porém, meu estilo, como eu esperava, nem os temas abordados, ou as informações prestadas, enfim, o essencial: o conteúdo. Criticou, isto sim, meu “relaxo” na revisão. Não deixou de ser chata, para mim, essa constatação, já que no início da minha carreira jornalística fui revisor, tido e havido como dos melhores pelos meus patrões. Pressa... Ah, como a afoiteza é implacável inimiga da perfeição!

A avaliação positiva do livro, todavia, e feita por alguém rigorosamente credenciado a avaliar, com o critério requerido, obras literárias, comprovou-me, entre tantas outras coisas, que quem escreve é o menos indicado para julgar o que escreveu. É como um médico, por exemplo, querer curar as próprias doenças. Raramente dá certo. A obra que eu julgava eivada de defeitos tinha, como deficiência única, apenas reles errinhos de digitação, frutos de pressa e de distração, que, certamente, o revisor da editora a que fosse encaminhada localizaria e corrigiria num piscar de olhos, sem nenhum drama. Maldita insegurança!!!

Quando surgiu a oportunidade de publicar novo livro (na verdade, foram dois), a editora queria que eles fossem de gêneros diferentes. Para o de contos, optei por “Lance fatal” (e agora fico na dúvida se fiz, também,  escolha correta. Desconfio que o indicado deveria ser “Passarela de sonhos”). Já quanto ao de crônicas, fiquei na dúvida se publicava “Cronos & Narciso” ou “País da Luz”. Minha intuição indicava que deveria ser o primeiro. Hoje não sei se fiz a escolha adequada. Provavelmente, não. O tal amigo detestou o livro que foi publicado. Garantiu que se fosse consultado, indicaria, sem pestanejar, aquele que preteri. Achou “Cronos & Narciso” um tanto pedante, mesmo reconhecendo méritos literários mele. Mas desmanchou-se em elogios sobre “País da luz”.

Lembro que este livro começou a nascer quando ouvi determinada canção de Chico Buarque de Holanda (que nem é das suas composições mais conhecidas), que tem, em determinado trecho, estes versos:

"A novidade
que tem
no Brejo da Cruz
é a criançada
se alimentar da luz".

Achei, na ocasião, e acho muito mais ainda hoje, esses versos magníficos, verdadeira pintura, posto que feita com este instrumento frágil (e que nos fornece tão poucos recursos para criar) que é a palavra. Trazem uma carga poética imensa em sua simplicidade. Despertam, sobretudo, nossa "imaginação". Ou seja, nossa capacidade de transformar conceitos abstratos em imagens (que é o significado do termo). E trazem um elemento essencial à vida (animal ou vegetal), como a conhecemos, e à percepção do próprio mundo e de tudo o que nos cerca: a luz.

Sabe-se que nas profundezas abissais dos oceanos há um peixe que vive na absoluta escuridão. Por não precisar, não tem olhos. Para quê? No ambiente escuro em que habita não poderia mesmo ver! E a natureza é sumamente sábia....e prática. Não faz nada que seja supérfluo. Qualquer órgão que não seja utilizado, finda por se atrofiar, até desaparecer. O homem, por exemplo, tem vestígios de guelras, herdadas dos antepassados que teriam vivido no mar. Hoje, esse órgão não teria qualquer função para o ser humano. Daí ter se atrofiado a tal ponto de ser quase imperceptível.

Todos nos "alimentamos" de luz... Aqui ou no "Brejo da Cruz". Mais ainda o artista, comprometido em reproduzir e, quando possível, criar beleza. Ou em sugeri-la, para que o leitor, ou o apreciador de um quadro ou de uma escultura, a projetem em imagem. Ou seja, "imaginem" um cenário qualquer. Arte, portanto, é antes de tudo sugestão. É sempre, no mínimo, um dueto. Requer uma parceria: a do autor e de seu consumidor. Jamais um mesmo quadro, por exemplo, vai ser visto e interpretado da mesma forma por duas pessoas. Ou um poema será sentido de maneira igual. Ou uma sinfonia despertará idênticas emoções e fantasias. A arte é, em essência, coletiva.

Luz...Três simples letrinhas no nosso idioma com significado, função e mistério tão transcendentais! Nada a supera em velocidade (300 mil quilômetros por segundo). Os cientistas ainda não definiram com precisão sua natureza. É matéria? É energia? É ambos? Não é nenhum dos dois? Ninguém pode afirmar nada a seu respeito. Seus raios são dotados de determinada quantidade de calor. Concentrados (lasers ou masers), são poderosíssimos. Cortam uma chapa do mais duro dos metais (titânio, aço, etc.) como se fosse um tablete de manteiga. Os místicos associam-na à divindade ou à glória divina.

"Luz, quero luz. Luz na janela, nas ruas, no mar, no coração de todo mundo. Luz na cabeça dos que nos (des)governam". Estas palavras não são minhas. São de uma crônica de Antônio Torres, publicada no caderno "Idéias", do "Jornal do Brasil" do Rio de Janeiro, em 5 de janeiro de 1992, destas que nunca perdem a atualidade. Ou seja, escrita em pleno verão, o período do ano marcado pela descontração e pela alegria de viver. É a época em que, como a criançada do Brejo da Cruz, quebramos nosso jejum nos "alimentando de luz"... Da luz mental que me faltou ao manter inédito um livro com tão valioso “atestado de qualidade”.


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Thursday, November 05, 2015

Sem objetivos sólidos, sem a busca incessante pela autêntica grandeza, que é a concretização do nosso potencial físico, intelectual e moral, materializado em obras duradouras e consistentes, antes que a morte impeça que as elaboremos, nos sentimos perdidos, enredados na insignificância do dia a dia, neuróticos, frustrados, revoltados e solitários. Isto, infelizmente, é o que caracteriza as pessoas neste tormentoso início da segunda década do terceiro milênio da era cristã. Problemas não nos faltam, posto que quase todos gerados por nós mesmos, para nos preocupar e desesperar. Vivemos num planeta superpovoado, com mais de sete bilhões de habitantes e recebendo novos tripulantes – à razão de três novos bebês nascidos por segundo, em média – nessa relativamente acanhada espaçonave cósmica que singra o vazio infinito. Só isso já explica a indagação aflita de André Malraux: “Que noção do homem a civilização da solidão, aquela que separa de todas as outras a posse dos gestos humanos, saberá tirar da sua angústia?”. Sim, qual?


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Presente de Natal

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Momento de reflexão


Pedro J. Bondaczuk


A data de ontem, 8 de maio, marcou o 39º aniversário da rendição alemã, na Segunda Guerra Mundial, abreviando o fim daquele conflito, que só terminaria de vez em 15 de agosto de 1945, uma semana após o lançamento da segunda bomba atômica, dessa vez sobre a cidade japonesa de Nagasaki.

Assim que terminaram as conflagrações, responsáveis pela morte de dezenas de milhões de pessoas, a impressão que os líderes mundiais da época procuravam passar era a de que, de então a esta parte, dificilmente o mundo viria a assistir novos combates. Engano! Rotundo engano!

No correr desses derradeiros 39 anos posteriores à Segunda Grande Guerra, mais de 300 conflitos, em todos os continentes, continuaram opondo ideologias, regimes e governos, ceifando, a troco de nada (e sempre em nome da “liberdade” e da “democracia”), preciosas vidas.

Muitos outros líderes carismáticos, como Adolf Hitler (alguns até piores do que ele) apareceram. E só não conduziram a humanidade ao pior porque não dispunham do poderio, da magnífica máquina bélica do III Reich alemão.   

Conclui-se, daí, que milhões de bravos, de pessoas idealistas, deram as suas vidas por quase nada. Seus ideais de liberdade foram sepultados nas mesmas valas rasas em que seus corpos repousam (na maioria das vezes anônimos), encimadas, apenas, por uma ou outra cruz que indica que ali estão os restos mortais de um homem.

A data de ontem, mais do que de comemoração, é própria para reflexão. Para solene, séria e sincera avaliação dos rumos tomados por essa imensa confraria, que é a espécie humana, que corre o risco de, por intolerância, cobiça e apego cego a passageiras ideologias (posto que obras humanas e, portanto, revestidas da mesma efemeridade que seus criadores) extinguir a vida no único planeta habitado do Sistema Solar.

(Artigo publicado na página 10, Internacional, do Correio Popular, em 9 de maio de 1984)


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A menininha que vendia fósforos...

Pedro J. Bondaczuk

O conto de fadas “A pequena vendedora de fósforos” tem, como protagonista, uma personagem feminina absolutamente inesquecível. É uma criança, adianto. Poderia ser minha filha, a sua ou, quem sabe, nossa neta. Em sua simplicidade, essa é uma história sumamente tocante, diria pungente, dessas que uma pessoa sensível e humana e, sobretudo de bom gosto, não se esquece jamais. Eu nunca a esqueci. Nem poderia! Não me recordo qual o adulto que ma narrou, quando eu tinha sete ou oito anos. Mas me lembro, como se estivesse ouvindo agora, palavra por palavra do enredo, verdadeiro poema em prosa, que considero uma das páginas mais lindas da Literatura mundial.

Com o passar dos anos, li e reli várias vezes esse conto e decorei-o até, palavra por palavra. Não por acaso, seu autor, Hans Christian Andersen, é considerado, com toda a justiça, mito literário em sua terra natal, a Dinamarca. Considero-o, mais do que autor de contos de fadas, magnífico poeta. Criou beleza mesmo onde só existia, e sempre existiu, feiúra. Empolgo-me quando trato dele. Pudera!

Para quem não sabe, (ou se esqueceu), informo (ou lembro) que a data de seu nascimento, 2 de abril (de 1805, na cidade dinamarquesa de Odense) foi estabelecida como o “Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil”. Justíssimo! Afinal, ele foi o pioneiro nesse gênero, que só recentemente passou a ser devidamente valorizado. Desconfio que, se na sua época o Prêmio Nobel de Literatura já existisse, Andersen seria premiado. Bem, certeza, certeza mesmo não tenho, pois nem sempre os encarregados na atribuição dessa prestigiosa premiação mostraram muito critério. Mas que o escritor dinamarquês mereceria ser premiado, disso tenho absoluta convicção. Foi um gênio, que encheu de sonhos e fantasias a infância de muita gente ao redor do mundo (e a minha também, claro).

O maior prêmio de literatura infanto-juvenil da atualidade presta-lhe homenagem. Refiro-me à “Medalha Hans Christian Andersen”, atribuída anualmente pela “International Board on Books for Young People (IBBY)” aos melhores autores mundiais de histórias do gênero. Escrever para crianças, cativá-las, prender sua atenção e penetrar seus corações e mentes é um desafio dos maiores. Não é qualquer escritor, por genial que seja, que consegue tal façanha. Tal tarefa requer, sobretudo, sensibilidade para entender a psicologia infantil. Mais quer isso, exige estilo simples e despojado, sem, no entanto, descambar para o simplório. Requer sentimento, muito sentimento brotando por todos os poros, sem resvalar, logicamente, para a pieguice. Enfim, é um desafio, que poucos, pouquíssimos estão preparados para enfrentar com sucesso.

Para que o leitor entenda por que relaciono a pobre e desvalida menininha que vendia fósforos na noite gélida de uma cidadezinha dinamarquesa, entre as tantas personagens femininas inesquecíveis da literatura mundial, peço-lhe licença para transcrever, na íntegra, o conto de Hans Christian Andersen, em que ela é a protagonista. Pena que, por mais que tenha tentado, não consegui descobrir o nome de quem o traduziu (e muito bem, por sinal).

“Fazia um frio terrível; caía a neve e estava quase escuro; a noite descia: a última noite do ano. Em meio ao frio e à escuridão uma pobre menininha, de pés no chão e cabeça descoberta, caminhava pelas ruas.Quando saiu de casa trazia chinelos; mas de nada adiantavam, eram chinelos tão grandes para seus pézinhos, eram os antigos chinelos de sua mãe. A menininha os perdera quando escorregara na estrada, onde duas carruagens passaram terrivelmente depressa, sacolejando. Um dos chinelos não mais foi encontrado, e um menino se apoderara do outro e fugira correndo. Depois disso a menininha caminhou de pés nus - já vermelhos e roxos de frio.

Dentro de um velho avental carregava alguns fósforos, e um feixinho deles na mão. Ninguém lhe comprara nenhum naquele dia, e ela não ganhara sequer um níquel.

Tremendo de frio e fome, lá ia quase de rastos a pobre menina, verdadeira imagem da miséria! Os flocos de neve lhe cobriam os longos cabelos, que lhe caíam sobre o pescoço em lindos cachos; mas agora ela não pensava nisso. Luzes brilhavam em todas as janelas, e enchia o ar um delicioso cheiro de ganso assado, pois era véspera de Ano-Novo. Sim: nisso ela pensava!

Numa esquina formada por duas casas, uma das quais avançava mais que a outra, a menininha ficou sentada; levantara os pés, mas sentia um frio ainda maior. Não ousava voltar para casa sem vender sequer um fósforo e, portanto sem levar um único tostão. O pai naturalmente a espancaria e, além disso, em casa fazia frio, pois nada tinham como abrigo, exceto um telhado onde o vento assobiava através das frinchas maiores, tapadas com palha e trapos.

Suas mãozinhas estavam duras de frio. Ah! bem que um fósforo lhe faria bem, se ela pudesse tirar só um do embrulho, riscá-lo na parede e aquecer as mãos à sua luz! Tirou um: trec! O fósforo lançou faíscas, acendeu-se. Era uma cálida chama luminosa; parecia uma vela pequenina quando ela o abrigou na mão em concha... Que luz maravilhosa!

Com aquela chama acesa a menininha imaginava que estava sentada diante de um grande fogão polido, com lustrosa base de cobre, assim como a coifa. Como o fogo ardia! Como era confortável! Mas a pequenina chama se apagou, o fogão desapareceu, e ficaram-lhe na mão apenas os restos do fósforo queimado.

Riscou um segundo fósforo. Ele ardeu, e quando a sua luz caiu em cheio na parede ela se tornou transparente como um véu de gaze, e a menininha pôde enxergar a sala do outro lado. Na mesa se estendia uma toalha branca como a neve e sobre ela havia um brilhante serviço de jantar. O ganso assado fumegava maravilhosamente, recheado de maçãs e ameixas pretas. Ainda mais maravilhoso era ver o ganso saltar da travessa e sair bamboleando em sua direção, com a faca e o garfo espetados no peito! Então o fósforo se apagou, deixando à sua frente apenas a parede áspera, úmida e fria.

Acendeu outro fósforo, e se viu sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Era maior e mais enfeitada do que a árvore que tinha visto pela porta de vidro do rico negociante. Milhares de velas ardiam nos verdes ramos, e cartões coloridos, iguais aos que se vêem nas papelarias, estavam voltados para ela. A menininha espichou a mão para os cartões, mas nisso o fósforo apagou-se. As luzes do Natal subiam mais altas. Ela as via como se fossem estrelas no céu: uma delas caiu, formando um longo rastilho de fogo. "Alguém está morrendo", pensou a menininha, pois sua vovozinha, a única pessoa que amara e que agora estava morta, lhe dissera que quando uma estrela caía, uma alma subia para Deus.

Ela riscou outro fósforo na parede; ele se acendeu e, à sua luz, a avozinha da menina apareceu clara e luminosa, muito linda e terna.
- Vovó! - exclamou a criança.- Oh! leva-me contigo! Sei que desaparecerás quando o fósforo se apagar! Dissipar-te-ás, como as cálidas chamas do fogo, a comida fumegante e a grande e maravilhosa árvore de Natal!

E rapidamente acendeu todo o feixe de fósforos, pois queria reter diante da vista sua querida vovó. E os fósforos brilhavam com tanto fulgor que iluminavam mais que a luz do dia. Sua avó nunca lhe parecera grande e tão bela. Tomou a menininha nos braços, e ambas voaram em luminosidade e alegria acima da terra, subindo cada vez mais alto para onde não havia frio nem fome nem preocupações - subindo para Deus.

Mas na esquina das duas casas, encostada na parede, ficou sentada a pobre menininha de rosadas faces e boca sorridente, que a morte enregelara na derradeira noite do ano velho.

O sol do novo ano se levantou sobre um pequeno cadáver. A criança lá ficou, paralisada, um feixe inteiro de fósforos queimados. - Queria aquecer-se - diziam os passantes. Porém, ninguém imaginava como era belo o que estavam vendo, nem a glória para onde ela se fora com a avó e a felicidade que sentia no dia do Ano­ Novo”.

Como não se emocionar com a pungente beleza desse poema em prosa?!!! Como esquecer aquela criança pobre, desamparada, sem a devida proteção que merecia?!!! Como não se impressionar e não se comover com aquela menininha inocente que acreditava, em sua infantil ingenuidade, que simplesmente acendendo os fósforos, de que fora encarregada de vender, haveria luz mágica que a arrebataria para o infinito, para o céu, para junto da pessoa que tanto amava e que um dia a amou?! Sim, paciente leitor, como?!!!!


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Wednesday, November 04, 2015

Pela sua ação, o homem tem condições de alterar situações e condições adversas e perpetuar-se, se não fisicamente, pelo menos através das obras que vier a produzir. André Malraux observou: “Alguma coisa de eterno permanece no homem, alguma coisa que chamarei sua parte divina”. O ex-ministro de Cultura francês afirmou mais: “O humanismo não é dizer ‘o que fiz nenhum animal teria feito’. É dizer ‘recusamos o que em nós queria a besta e queremos reencontrar o homem onde quer que tivermos encontrado o que o esmaga’”. As ocorrências do nosso cotidiano, que nos preocupam e amofinam tanto, não passam de triviais detalhes, de circunstâncias de somenos, embora as julguemos a essência, o fundamento da vida. A corrida pelo poder, o empenho desesperado e despropositado por amealhar bens materiais, corruptíveis e de nulo valor intrínseco, a busca incansável por prestígio, glória e prazeres sensoriais, são miragens, são ilusões, são fantasias que criamos e às quais nos apegamos para contar com motivação para viver. Todavia, distraem-nos do que, se não é, deveria ser nosso principal, se não único, papel: o de sermos racionais, na lídima acepção do termo..


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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

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