Wednesday, November 04, 2015

Hora de cair na realidade

Pedro J. Bondaczuk

O líder soviético, Mikhail Gorbachev, desde quando assumiu o comando de fato do seu país, em março do ano passado, vem demonstrando, pelo menos em público, uma preocupação maior do que seus antecessores em relação a um determinado tema. O assunto que mais excita o dirigente do Cremlin e para o qual dedica a maior atenção é o desarmamento nuclear. Pelo menos foi isso o que ele demonstrou ao suspender, unilateralmente, os testes atômicos do seu país, tempos antes do seu encontro com o presidente norte-americano, Ronald Reagan, em novembro de 1985, em Genebra. Durante aquela reunião, insistiu no assunto e ao final dela, não escondeu de ninguém a sua decepção ao não ter conseguido nenhum avanço nesse campo. Agora, ele volta a insistir em suas propostas e a prorrogar a moratória.

Analistas ocidentais, que se dizem especialistas em assuntos soviéticos, levantam várias hipóteses para explicar essa espécie de obsessão de Gorbachev. Uns dizem que tudo não passa de encenação, de simples manobra publicitária dele. Se de fato for este o motivo de tamanho empenho do dirigente russo, ele estará se revelando um ator de melhores qualidades do que foi o próprio presidente norte-americano, em seus tempos de Hollywood.

Os pronunciamentos, propostas e concessões do líder soviético nos seus 400 dias no poder, têm conseguido sensibilizar até círculos mais cépticos do Ocidente, tamanha é a impressão de sinceridade que transmitem. Há, por outro lado, os que garantem que a União Soviética sentiu que economicamente não tem poderio suficiente para acompanhar os passos gigantescos da superpotência ocidental e que, por isso, para poder colocar a casa em ordem, pretende parar de gastar em armas e "jogar a toalha", mas quer fazer isso sem que deixe transparecer que se rendeu.

Uma terceira hipótese, freqüentemente levantada também, diz que os russos desejam evitar o desenvolvimento do programa "Iniciativa de Defesa Estratégica" dos Estados Unidos, mais conhecido como "guerra nas estrelas", que se propõe a criar um escudo espacial contra os mísseis soviéticos, garantindo a segurança absoluta para o povo norte-americano e seus aliados.

Essa corrente afirma que, embora tudo leve a crer que essa tentativa de máxima proteção seja irrealizável (pelo menos a médio prazo), o Cremlin teria as suas dúvidas quanto a isso, dado o extraordinário avanço tecnológico do país mais rico do Planeta. Há, finalmente, os que atribuem esse empenho de Gorbachev por um acordo sobre proibição de provas nucleares a uma grande autoconfiança de que ele estaria possuído de que os arsenais de que dispõe são suficientes para qualquer eventualidade e que, por isso, a URSS não tem mais o que testar.

O interessante é que em todas essas considerações não houve ninguém que pensasse na possibilidade do líder soviético ter entendido que somente através do banimento desses artefatos malucos a humanidade poderá ter alguma esperança de ter um amanhã. Afinal, ele está no mesmo barco e é tão humano quanto qualquer um de nós.

Se este for o motivo dele estar tão empenhado em chegar a um acordo com os Estados Unidos, o recente desastre na usina eletronuclear de Chernobyl certamente terá reforçado, em muito, essa determinação. Conforme o próprio Gorbachev disse, ontem, ao povo do seu país, num pronunciamento pela televisão nacional, se o uso da energia atômica para fins pacíficos pode causar, em caso de acidentes, tamanhos transtornos para a vida de tantas pessoas, que cada um imagine à sua maneira o que ocorreria numa hipotética guerra.

Que chances a humanidade teria? Se escapasse da monstruosa explosão (o que é muito contestável), seria afetada por doses cavalares de radiação, capazes de levar a uma morte dolorosa e horripilante em questão de horas. E se por alguma eventualidade, por algum desses milagres, alguém não fosse atingido pelas assassinas nuvens radioativas, ficaria privado, por anos, da luz do Sol.

Não veria as estrelas, a Lua e asfixiado pela poeira e mergulhado numa apavorante e contínua escuridão, estaria desamparado, sem alimentos, água potável ou qualquer dos bens indispensáveis à sua sobrevivência. Por que não se aproveita, pois, esse lampejo de racionalidade, essa pontinha de lucidez, despertada pelo desastre de Chernobyl, para se fazer algo de construtivo pela espécie humana, banindo de vez as armas nucleares?

(Artigo publicado na página 12, Internacional, do Correio Popular, em 15 de maio de 1986)


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Histórias dignas de recordar

Pedro J. Bondaczuk

As histórias infantis, os tais contos de fadas, estão, provavelmente, entre as melhores lembranças de infância das pessoas da minha geração. Elas embalaram (pelo menos no meu caso), meus sonhos de criança e provavelmente determinaram meu caminho na vida, instalando em minha mente e em meu coração o gosto pela Literatura e, por conseqüência, a determinação de me tornar escritor. Busquei proporcionar essa mesma satisfação aos meus filhos, sobretudo às duas filhas mais velhas, e espero poder repetir isso com meu netinho mais novo, o João Vítor. Espero... Estou consciente, no entanto, de que terei que competir com a televisão, muito mais atrativa para a atual geração do que possam ser minhas canhestras narrativas. Está aí excelente desafio para eu encarar.

É verdade que nos tempos atuais, com sua correria amalucada e, sobretudo, com a sucessão de crises e mais crises de toda a sorte, que nos mobilizam, preocupam e não raro amarguram, tornou-se coisa do passado um hábito, que era tão comum há cinqüenta ou sessenta anos: o de contar histórias. Tive o privilégio de sonhar embalado por elas e estas são lembranças que não troco por nenhuma outra da minha infância (e, a rigor, de qualquer outra fase que vivi). Hoje, poucos, pouquíssimos têm tempo, disposição, ou mesmo imaginação para contar historinhas infantis, notadamente aquelas que atravessaram gerações, ao longo de pelo menos dois séculos, aos filhos, quando estes estão na cama, para eles dormirem. Isso sem falar, reitero, na concorrência da televisão. Ou, para ser mais atual, na fixação dos “pequenos” por computadores, tablets, smartfones e outras tantas engenhocas eletrônicas, cuja operação as crianças (algumas com apenas três anos ou pouco mais, juro!) dominam como que. Sinais dos tempos.

Os meninos e meninas de hoje só não são privados de histórias como “Chapéuzinho Vermelho”, “Os três porquinhos”, “Cinderela”, “Branca de Neve” e centenas de tantas outras, porque há muitos e muitos desenhos animados baseados nelas. Ainda assim, juro que as crianças prefeririam ouvi-las de pais, avós, padrinhos, tios, tias etc.etc.etc. de que gostam. Quando falo disso, muitos mal disfarçam um riso irônico ou fazem piadas quase sempre de péssimo gosto. Provavelmente, não tiveram infância. Não, pelo menos, aquela digna de recordar.

Alguns adultos, por exemplo, quando questionados a respeito, arrolam inúmeras desculpas para não terem esses momentos gratificantes de contato mais íntimo e amoroso com sua prole. E isso quando se dignam a justificar. A maioria sequer leva esse questionamento a sério. Muda de assunto quando se traz a questão à baila. Alguns dos que se desculpam, alegam, em geral, cansaço, depois de um dia exaustivo de trabalho, como se contar histórias aos filhos fosse alguma tarefa cansativa, estafante, estressante e não um agradável momento mágico de relaxamento e lazer para ambos. Não sabem o que estão perdendo.

Outros tantos alegam que essa é uma atividade de responsabilidade de escolas. E desfiam, invariavelmente, lamentações sem fim, apontando o quanto a educação da sua descendência lhes custa caro, com a mensalidade da escola, livros, material escolar, lanche etc.etc.etc. como se isso não fosse sua obrigação e que sequer deveria ser mencionado. Boa parte dessas pessoas sequer sabe alguma história, mesmo essas mais batidas e repetidas por guris de três anos, que as aprendem na TV. Estes, quando crianças, não tiveram o privilégio de ouvir tais narrativas feitas por quem gostavam de verdade. Se é que chegaram a gostar de alguém, o que tenho sérias dúvidas.

Duvido que essas pessoas sequer ouviram falar do dinamarquês Hans Christian Andersen, criador de histórias maravilhosas, como “O patinho feio”, “O soldadinho de chumbo”, “A pequena sereia” – que motivou o escultor Edvar Eriksen a produzir uma estátua de bronze alusiva a este conto que desde 23 de agosto de 1913 dá as “boas vindas” aos que chegam ao porto de Copenhague – ou essa pérola de poesia e sensibilidade que é o conto “A pequena vendedora de fósforos”. Não têm a mais remota noção do que estão perdendo. E, pior, privam seus filhos dessas maravilhas. Se não conhecem Andersen, sabem menos ainda dos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm, criadores de clássicos como “Branca de Neve” (popularizado por Walt Disney), “João e Maria”, “A gata borralheira”, “Rapunzel”, “Chapéuzinho Vermelho”, “Os músicos de Bremen”, “A bela adormecida” e vai por aí afora.

Os sisudos pesquisadores de Literatura raramente se dão conta de que essas histórias são clássicos literários universais, muito mais relevantes do que tantos romances, cujos autores veneram, mas que abordam (salvo exceções) apenas o que há de pior e mais perverso na natureza humana. Presumo que não tiveram infância. Não pelo menos aquela que desejo para meu neto e para todas as crianças, caracterizada pelo amor, pelo carinho, por sonhos e fantasias e por tudo o que realmente vale a pena e que um dia, na velhice, será algo maravilhoso de recordar. Afinal, o que é a vida se não um conjunto heterogêneo de lembranças? Sim, o que é?!!!


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Tuesday, November 03, 2015

Sou visceralmente contrário à mania que determinadas pessoas têm de apor rótulos a textos literários. Muito sujeitinho arrogante, que arrota pretenso bom-gosto, torce o nariz, por exemplo, diante de um soneto de Olavo Bilac, de algum poema de Castro Alves ou de um Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos ou Capistrano de Abreu. “Sou moderno e não gosto dessas velharias”, dizem do alto da sua empáfia, apegados à forma de se expor uma idéia ou sentimento, sem se dar conta do conteúdo. Se o poema for parnasiano, ou simbolista, para esses intelectuais de algibeira não presta. Esquecem-se que essas classificações, por “escolas”, existem, APENAS, para efeito didático, de estudo da literatura. Nenhum escritor atual está proibido de escrever como Olavo Bilac, Castro Alves, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos ou Capistrano de Abreu, entre outros. O diabo é conseguir fazê-lo. Com esta baboseira, com esta interpretação equivocada das escolas literárias, estão conseguindo estereotipar a literatura, notadamente os clássicos brasileiros. Que bobagem minha gente!

***

Se eu quiser compor um poema que possa ser classificado como simbolista, explorando com perícia e competência um tema original, se for rigorosamente correto na forma de me expressar, sem qualquer erro gramatical, sequer de acentuação ou pontuação, se for, principalmente, claro e minhas metáforas, apesar de supercriativas, forem altamente explicativas, ele não terá valor literário algum, por não ser “moderno”? Para ele ser bom, precisarei violar normas semânticas, eivar cada verso de neologismos estúpidos e ser contraditório e obscuro? Estou fora! Isso não é literatura. Pode ser, quando muito, exibicionismo literário. Ademais, o que é tido e havido como suprassumo da “modernidade”, hoje, mais dia menos dia, será encarado como antigo, ultrapassado e arcaico pelos que têm noção equivocada de Literatura e de seus objetivos. Pensem nisso!


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Presente de Natal

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Seqüestros, atentados e batalhas: é o Líbano


Pedro J. Bondaczuk


O Líbano, indiretamente, foi palco de três seqüestros de aviões nesta semana, além de combates e atentados em Beirute e em Trípoli. Em todos esses casos, de alguma forma ou de outra, muçulmanos xiitas estiveram envolvidos.

O primeiro, acontecido na terça-feira, dia 11, quando um Boeing 727 da Royal Jordanian Airlines foi seqüestrado por sete extremistas armados de submetralhadoras, ocorreu na capital libanesa. Os piratas aéreos, após passearem pela região do Mediterrâneo (foram para Larnaca, no Chipre; Tunis, na Tunísia; Palermo, na Sicília e voltaram a Beirute), depois de muita negociação, explodiram o caríssimo aparelho e escaparam, espetacularmente, num carro que os esperava num local prévio. Não sem antes levar oito guardas jordanianos como garantia, libertados horas mais tarde num lugar ermo da cidade. E os seqüestradores eram todos xiitas.

No dia seguinte, um palestino quis vingar o seqüestro anterior, que havia sido feito para exigir a saída de mil palestinos de Beirute. E, por muito pouco, o professor norte-americano, Landrey Slade, reitor-adjunto da Universidade Americana da capital libanesa, e seu filho, William, de 18 anos, deixaram de passar pelo dissabor de serem reféns novamente.

Pouco após eles desembarcarem em Chipre, depois de serem soltos pelos xiitas do Boeing que foi explodido em Beirute, o avião da Middle East Airlines que os levou para lá foi ocupado à força. Entretanto, o autor do seqüestro, o solitário e barbudo palestino, acabou facilmente dominado pelas autoridades cipriotas, sem maiores conseqüências.

Anteontem, finalmente, ocorreu a terceira (e mais séria) ocorrência desse tipo, quando um Boeing 727 da empresa Trans World Airlines, dos EUA, foi tomada `a força por dois xiitas, quando realizava um vôo entre Atenas e Roma, transportando turistas norte-americanos de regresso de Jerusalém.

A capital do Líbano foi palco dos incidentes mais sérios verificados neste caso: o frio assassinato de um jovem fuzileiro de 20 anos, dos EUA. E a falta de segurança, verificada em seu aeroporto, revelou-se tamanha, que os soldados do exército regular libanês resolveram, mesmo, abandonar aquele local. Agora, ele é controlado, virtualmente, pelos xiitas. Isto é, pela facção dos seqüestradores.

De todas as principais milícias que combatem, atualmente, na guerra civil libanesa, a xiita Amal revelou-se, portanto, a mais ativa. É claro que os episódios de pirataria aérea não podem ser atribuídos ao grupo do ministro Nabih Berri.

Eles são obras, provavelmente, da Jihad Islâmica, composta de fanáticos cujo objetivo principal é desestabilizar ainda mais a já instável situação nacional. E, na sua fúria cega, essa guerrilha, que se supõe inspirada e orientada pelo aiatolá Khomeini, não se importa, nem um pouco, com a vida e a propriedade alheias.

No próprio nome, o grupo já traz a marca indefectível da intolerância. “Jihad”, em árabe, significa “guerra santa”, como se algum conflito, por qualquer razão que seja, possa se revestir de alguma eventual aura de santidade.

Esses acontecimentos, somados aos tiroteios entre xiitas e palestinos, pela posse dos acampamentos de refugiados do Sul de Beirute, entre milicianos da Amal e os drusos, sunitas e cristãos, refletem, com fidelidade, o caos em que o Líbano se transformou.

Onde estão a ONU, os EUA, a União Soviética ou qualquer entidade ou país para tomar alguma atitude prática, visando acabar com essa situação? O que pode resultar de tudo isso é tão terrível, que sequer nos atrevemos a prever.

(Artigo publicado na página 16, Internacional, do Correio Popular, em 16 de junho de 1985).


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A inesquecível rebelde criada por Cronin

Pedro J. Bondaczuk

O castelo do homem sem alma”, do escocês Archibald Joseph Cronin, é um dos romances mais impressionantes que já li. É impossível lê-lo sem sentir, por exemplo, revolta pelas atitudes e desmandos do personagem principal, James Brodie, um chapeleiro falido, da cidadezinha inglesa de Levenford, que tortura, psicologicamente, e oprime a própria família e força-a a se isolar de tudo e de todos, por julgar que ninguém estava á sua altura. Nosso primeiro impulso é o de julgar esse protagonista, pintado com cores tão fortes, nuas e cruas, inverossímil, tamanha sua crueldade. Achamos, num primeiro momento, que não existe no mundo psicopata tão mesquinho, egocêntrico e dominador. Todavia... com um pouquinho só de reflexão, acabamos concluindo o contrário.

Há, sim, por aí, e não são poucos, indivíduos paranóicos que se julgam suprassumos da perfeição, para os quais ninguém presta, todos têm os piores defeitos, menos eles, que vivem em permanente estado de beligerância com o mundo. Vai me enganar que você nunca topou com chatos desse tipo alguma vez em sua vida, paciente leitor?! Com certeza já topou e nem se lembra, pois pessoas assim é melhor esquecer. O título original do romance de Cronin é “O castelo do chapeleiro”. Quem lhe deu o título em português, que cabe como uma luva ao livro, foi sua tradutora Rachel de Queiroz, que fez, aliás, primorosa tradução.

O enredo destaca ostensivamente, como num luminoso de neón intenso e gritante, o protagonista chave da história, James Brodie, que ofusca todos os demais. Quatro personagens femininas orbitam ao seu redor, oprimidas por ele, que nem tem o menor escrúpulo em arruinar suas vidas, sendo que uma delas considero inesquecível. Pelo menos é a que não consegui esquecer. Refiro-me à filha mais velha do cruel psicopata, Mary. Quem leu o romance entende porque Rachel de Queiroz decidiu dar o título de “O castelo do homem sem alma” à versão em português do romance. É o mínimo que se pode dizer de James Brodie.

As personagens femininas, reitero, são quatro. Uma delas, a mãe do psicopata, é a que menos sofre. Não que ele a poupe dos seus desmandos, longe disso. Ocorre que devido à senilidade, a anciã nem se dá conta do que ocorre ao seu redor e das atitudes do filho, que arruínam, irremediavelmente, a família. Santa alienação! A segunda protagonista, Margareth, a esposa, vive angustiada com o que acontece na família, incapaz de fazer qualquer coisa prática para proteger os filhos, notadamente as filhas, já que se dedica obsessivamente ao único garoto do clã, Matt, o qual teria “estragado”, conforme acusação do marido. Mimou-o em excesso, tornando-o fracote. Por isso, ele envereda por caminhos, digamos, tortuosos. Margareth sente, simultaneamente, angústia e ódio pelo marido, sentimento, no entanto, que reprime e que mantém apenas entranhado na alma.

Personagens femininas inesquecíveis, nesse romance, de fato, são duas, as irmãs Nessi e Mary, e por razões talvez opostas, com preponderância desta última, por sua personalidade forte e independente e pela preocupação em, de alguma forma, proteger os irmãos dos desmandos do tirânico James. Ela foi a que mais sofreu, desde a infância, com o comportamento anormal dos pais. Teve que se virar sozinha, sem amparo e sem afeto de ninguém. Nessie, por exemplo, era a queridinha do pai, por quem ele nutria doentia paixão. Era a mais esperta dos filhos. Na escola, tirava as melhores notas. Era orgulhosa e sabia o que queria. Para James, era a única que poderia sustentar o sobrenome Brodie, com honra e com dignidade. Com essa finalidade, ele encarregou-se, pessoalmente, da educação da menina, proibindo a mulher de se meter para não estragar Nessie, “como já havia estragado Matt”.

Mary, todavia, desde muito criança, teve que se virar sozinha. Não teve o interesse do pai, com fixação até doentia na irmã mais nova, e nem da mãe, que só tinha olhos para o único filho homem. À certa altura, rebela-se e sai de casa. Mas retorna, enfrentando as conseqüências do seu ato (tendo que ouvir toda a sorte de recriminações), na vã tentativa de proteger os irmãos. O grande mérito de Archibald Joseph Cronin foi o de criar personagens “vivos”, com sangue, nervos e vísceras, com comportamentos e paixões como qualquer um de nós tem. Inúmeras famílias mundo afora vivem dramas parecidos, ou até piores, sem que nem mesmo tomemos conhecimento. E pensar que o médico estressado – escreveu a obra quando teve que ir para as montanhas para buscar cura para um esgotamento nervoso – era “marinheiro de primeira viagem”, já que “O Castelo do homem sem alma” foi o primeiro livro que escreveu!

Em suma, trata-se de uma história em que tirania e submissão convivem, lado a lado, no mesmo espaço. Cronin escreveu, a certa altura: "A vida não é um corredor tranqüilo e reto pelo qual nós, seres humanos, andamos todos os dias, livres e sem qualquer empecilho, mas um labirinto de passagens, pelas quais nós devemos procurar nosso caminho, perdidos e confusos, de vez em quando presos em um beco sem saída. Porém se tivermos fé, uma porta sempre será aberta para nós, não talvez aquela sobre a qual nós mesmos nunca pensamos, mas aquela que definitivamente se revelará boa para nós". Em suma, por suas virtudes e defeitos, por sua coragem e humanidade, Mary Brodie é, sim, personagem feminina inesquecível, neste memorável romance de estreia de Archibald Joseph Cronin.


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Monday, November 02, 2015

O homem, em termos genéricos, se considera “imortal”? Mesmo os mais fervorosos crentes, os que ostentam inabalável fé (em alguns, desconfio, que exista, apenas, para “consumo externo”) crêem na imortalidade, posto que a espiritual? A experiência e a observação sugerem-me que não. Jorge Luís Borges concluiu que a convicção da imortalidade (e, lógico, não a física) é “raríssima”. Tudo indica que, de fato, não existe! O que há é uma “esperança” de que a alma nunca se extinga. Temos, todos, certeza da nossa efemeridade e a tememos. O temor é instintivo. Até mais alienado dos alienados sabe que um dia vai morrer, embora não pense nisso. Mas quando pensa, se aterroriza. Talvez ajamos como se nos sentíssemos imortais naquela fase dourada, de inconsciência e delírio, quando somos viciados em adrenalina: a da passagem da adolescência para a maturidade. Mas este é sentimento selvagem, sem raciocínio e nada de consciência. Não pensar em algo não equivale a ter convicção. Quando pensamos... aí é que são elas!


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Fome no país da abundância



Pedro J. Bondaczuk


O Brasil é o país de contrastes extremos. Olhando pela janela do meu gabinete de trabalho e vendo as brincadeiras despreocupadas das crianças na rua de casa – umas empinando papagaios, outras andando de bicicleta, outras, ainda, correndo atrás de uma bola, talvez sonhando em ser um Romário, um Bebeto ou, quem sabe, até mesmo um Pelé – fico imaginando quantos desses pequenos sonhadores conseguirão transformar em realidade os seus sonhos.

Esses meninos e meninas que vejo, por sinal, são uns privilegiados, por mais humildes que possam ser suas famílias. Têm infância! O mesmo não se pode dizer de 7,2 milhões de brasileirinhos abandonados nas ruas das grandes cidades deste país-continente.

Dizem que a crônica deve ser sempre bem-humorada, mas não consigo sorrir diante desse quadro trágico de miserabilidade e abandono. Não há como. Hoje, o Brasil já conta com 32 milhões de excluídos da cidadania, que não batalham, em absoluto, para concretizar grandes sonhos, elevados ideais ou mesmo por uma vida modesta. Nem mesmo à esperança parecem ter direito. Lutam, tão-somente, pela sobrevivência.

Enquanto crianças coradas e sadias passeiam seus ingênuos sonhos debaixo da minha janela, há, neste momento, milhares de outras perambulando, maltrapilhas e famintas, sem eira e nem beira, sem passado, presente ou futuro, pelas ruas de Campinas, de São Paulo, do Rio de Janeiro etc. Driblam os carros, nos cruzamentos das grandes avenidas, com uma flanela nas mãos ou carregando limões, chocolates, frutas ou balas para vender, à cata de alguns trocados dos sempre apressados e em geral mal-humorados motoristas.

Alguns desses garotos e garotas sequer sabem onde estão ou o que fazem, drogados com cola de sapateiro, quando não outros tóxicos mais fortes, como a maconha, o crack e às vezes até cocaína. Há quem esteja à espreita dos mais incautos, ou indefesos, para lhes surrupiar a carteira ou seja lá o que for que possam furtar.

Estes, em geral, estão a soldo de marginais adultos, que os exploram. Que terrível infância a do abandono, do desamor, da ausência de perspectivas e de dignidade! Como escrever bem-humorado sobre isso?!!     

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 21 de outubro de 1993)


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Troca da Medicina pela Literatura

Pedro J. Bondaczuk

O escocês Archibald Joseph Cronin – nascido em Cardross, em 19 de julho de 1896 – tem uma trajetória de vida no mínimo pitoresca. Fez, por exemplo, uma escolha que poucos fariam. Trocou a Medicina, que cursou com imenso sacrifício, pela Literatura que, salvo exceções, não permite que alguém viva com conforto e tranqüilidade financeira. Muito pelo contrário. Constituiu-se, todavia, em uma dessas raras exceções. Deu-se muito bem como homem de letras. Descobriu essa vocação quase que por acaso. Como tinha talento para escrever, tornou-se romancista dos mais consagrados até sua morte, ocorrida na cidade suíça de Montreux, em 6 de janeiro de 1981, seis meses antes de completar 85 anos de idade. Confesso que, por mais que goste de Literatura (e gosto demais!), eu não faria essa troca em hipótese alguma. Admito, todavia, que cada caso é um caso.  Mas... contemos essa história com um pouquinho mais de ordem e de coerência.

Cronin mostrou-se um filho amoroso e leal. Perdeu o pai ainda quando criança, quando coube à mãe, mulher guerreira, no melhor sentido da palavra (o figurado) a manutenção da casa. Casou-se muito jovem, mas o casamento durou pouco, com a morte da esposa  Como a mãe não conseguisse sobreviver sozinha, não teve dúvidas: sem vacilar, voltou à casa materna dois anos depois de enviuvar, para ajudá-la a sobreviver com dignidade. Cronin, apesar das dificuldades financeiras, tinha um sonho: cursar Medicina. Diga-se a seu favor que era bom aluno. Porém, não tinha dinheiro para cursar o que tanto queria.

Com muito esforço, e principalmente ajudado financeiramente por um tio, entrou, finalmente, na faculdade. E, em 1919, aos 23 anos de idade, formou-se médico. Qualquer outro se daria por satisfeito com esse sucesso. Afinal, fora uma conquista que compensou todos os sacrifícios feitos. Serviu algum tempo como cirurgião a bordo do Royal Navy. Após esse estágio, passou a atender em consultório próprio, no País de Gales, para onde se mudou depois do novo casamento. Tudo indicava que sua vida profissional estava resolvida. Não tardou para ser nomeado Inspetor Médico de Minas e a começar a empreender estudo detalhado das doenças que afetavam os mineiros de carvão.

Sujeito sensível e aplicado, vivia aflito com as péssimas condições sanitárias do lugar. O que mais o incomodava era o fato de não conseguir dar conta das doenças causadas pelas condições insalubres das minas, sobretudo a silicose. Foi tamanho seu empenho, e foram tantas as frustrações que passou, além da imensa quantidade de casos que tinha que tratar, que não demorou para Cronin entrar em um processo de esgotamento, tanto físico, quanto psicológico. Pudera! Ninguém é de ferro! Com a saúde abalada, viu-se obrigado a dar um tempo nas suas atividades médicas, retirando-se para as montanhas, em busca de ar puro e de tranqüilidade. Foi aí que o acaso atuou e mudou sua trajetória de vida por completo.

Possivelmente por “hobby”, para preencher o tempo ocioso, Archibald Joseph Cronin começou a escrever um livro. E, logo de cara, um romance! O texto fluiu. Quase sem perceber, redigiu uma história de mais de 400 páginas, uma temeridade para veteranos, imaginem para um “projeto de escritor”. Surpreendentemente, descobriu ser detentor de um estilo agradável, atrativo, gostoso de ler. Foi assim que nasceu o romance “O castelo do homem sem alma”. É desses livros que, apesar da quantidade de páginas, não cansa. Você quer logo chegar ao desfecho, ao final, sem nem mesmo perceber que leu tanto. Para surpresa geral, o romance foi estrondoso sucesso de crítica e de público. Cronin resolveu dar mais um tempo na Medicina. Não tardou para vir um segundo romance. Afinal, o sucesso do primeiro poderia não passar de “sorte de principiante”. Mas não foi.

O livro “Sob a luz das estrelas” confirmou o sucesso de “O castelo do homem sem alma” (que no Brasil recebeu primorosa tradução de Rachel de Queiroz). Foi, inclusive, vendido a um grande estúdio de cinema. Nascia, ali, magnífico romancista. A redação do terceiro livro, “A cidadela” (o mais polêmico, mas para mim o melhor de todos os que escreveu), apenas confirmou que ali estava um dos mais completos ficcionistas do século XX. Alcançou êxito retumbante. Foi então que Cronin decidiu renunciar de vez à medicina, para viver exclusivamente de sua produção literária. Eu não tomaria essa decisão. Tentaria conciliar as coisas e exercer, simultaneamente, as duas atividades que, aliás, nem mesmo são incompatíveis. Nosso (saudoso) Moacyr Scliar fez isso. Tornou-se magnífico escritor sem abrir mão da Medicina. Mas...

É aquela história do “em cada cabeça uma sentença”. O prestígio de Cronin cresceu mais ainda quando, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, mudou-se com a família para os EUA. Findo o conflito, fixou-se na Suíça, sem nunca parar de escrever (e de fazer sucesso). Foi um caso raro em que a Literatura permitiu a alguém se sustentar e ganhar mais do que talvez conseguiria como médico. Talvez, sabe-se lá! Todavia, correu um risco que, reitero, eu jamais correria. O saudoso escritor e teólogo Rubem Alves (de cuja companhia tive o privilégio e a honra de privar, tanto no Correio Popular de Campinas, quanto na Academia Campinense de Letras), escreveu, em um de seus tantos textos: “Amo a minha vocação, que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca”. Todavia ponderou, com o bom senso que o caracterizava: “O escritor tem amor, mas não tem poder”. E não tem mesmo, sobretudo no Brasil. Archibald Joseph Cronin fez uma “troca” que dificilmente dá certo para alguém, mas que para ele deu. Optou pela Literatura, em detrimento da Medicina. E se deu bem!!!


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Sunday, November 01, 2015

Milan Kundera escreveu um livro instigante e provocativo, intitulado, justamente, “A imortalidade”. Nele constata, em determinado trecho: “...a morte e a imortalidade formam uma dupla inseparável, aquele cujo rosto se confunde com o rosto dos mortos é um imortal vivo”. Em outro, escreve: “A imortalidade é uma ilusão derrisória, uma palavra vazia, um sopro de vento, que se persegue com uma rede de pegar borboletas, se a compararmos com a beleza do álamo, que o velho cansado vê pela janela. A imortalidade, o velho cansado não pensa nela absolutamente”. Para Jorge Luís Borges, damos importância excessiva a esse sonho impossível. Escreve: “Ser imortal é coisa sem importância. Exceto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível e o incompreensível é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima”. Borges entendia, como se observa, que para se “sentir” e, portanto, para “ser” imortal, basta ignorar a morte. Achava que nesse aspecto, todos os animais levavam vantagem sobre nós, humanos. Eles não têm consciência alguma dos extremos. Vivem. Aplicam todos os instintos na luta pela sobrevivência.


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Presente de Natal

Dê às pessoas que ama e admira o melhor dos presentes neste Natal: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas o ano todo, mas por toda a vida.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

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Mudanças exigem análise cuidadosa


Pedro J. Bondaczuk


As transformações que vêm ocorrendo no mundo desde que, em 1987, o presidente soviético, Mikhail Gorbachev, anunciou seu projeto reformista, baseado nos pilares da "glasnost" e da "perestroika", de uma forma tão vertiginosa, que praticamente não sobra tempo para uma análise mais cuidadosa das conseqüências e possibilidades futuras, têm gerado também muitas dúvidas e incertezas.

Alguns arriscam-se a fazer previsões, que logo são superadas pela realidade. Por exemplo, a primeira indicação de que Moscou estava disposta a aceitar a destruição do Muro de Berlim foi dada em maio de 1988. Na oportunidade, uma rápida reunificação da Alemanha não passava pela cabeça de ninguém, tão impossível ela parecia.

Todavia, a odiosa barreira que dividia a milenar cidade, e virtualmente toda a Europa, em duas correntes ideológicas antagônicas, e que pareciam inconciliáveis, ruiu, em 10 de novembro de 1989, levada de roldão pela vontade do povo alemão de acabar com décadas de ocupação estrangeira, e ninguém previu esse dramático desfecho.

Menos de um ano depois, o país estava reunificado, num processo surpreendentemente rápido. O mesmo ocorreu com a queda dos regimes comunistas dos Estados do Leste europeu. Funcionou, aí, o chamado "efeito dominó", mas de forma inversa à temida pelos norte-americanos na década de 1960, em relação à Ásia.

Nessa ocasião, os Estados Unidos argumentavam que o chamado "mundo livre" --- existe isso?! --- precisava impedir a todo o custo que o comunismo avançasse através das carentes sociedades asiáticas. Afirmavam que o avanço teria o efeito desse famoso jogo caseiro. Ou seja, a cada país que caísse sob a ditadura marxista, haveria um próximo, vizinho, que seria o próximo a cair.

Na região, ou por erro de enfoque --- o que é mais provável --- ou por causa da forte presença militar norte-americana, isto não aconteceu. O "dominó" restringiu-se apenas à antiga Cochinchina: Vietnã, Laos e Camboja.

O mesmo não ocorreu em relação ao Leste europeu. Todavia, parece que as análises sobre o fenômeno da falência do comunismo, ou por pressa, ou por desconhecimento dos problemas locais, vêm sendo, no mínimo, tendenciosas e em tom triunfalista.

Como diz a sabedoria popular: "muita água ainda irá passar por baixo da ponte". É indispensável que haja cautela nas conclusões, até para que potenciais crises futuras possam ser prevenidas e detidas no nascedouro.

Em recente entrevista, o filósofo francês, Alain Finkielkraut alertou para os perigos de um enfoque equivocado sobre tais acontecimentos, ao afirmar: "A partir da falência comunista, é um pouco apressado concluir pela vitória da democracia. Sejamos prudentes e atentos, não nos contentemos, para celebrar o sucesso da democracia, com a presença de certos sinais que são, por vezes, enganadores. Meu temor é que, sob o pretexto de que o comunismo ruiu, os europeus dêem provas de pouca sensibilidade diante de realidades sociais terríveis. Essa vitória sobre o comunismo entretém e disfarça o egoísmo que se chama burguês, e que é o mais brutal!"

E ademais, essa ideologia permanece viva, muito viva, em especial na Ásia. É mister que não se esqueça que o país mais populoso do mundo, a China --- um em cada cinco seres humanos que habitam este Planeta seguramente é chinês --- vive sob este regime, dominado por aquilo que de mais odioso ele possui: seu caráter policial sobre a vida dos cidadãos.

(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 15 de junho de 1991).


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Destino humano nas asas das abelhas?

Pedro J. Bondaczuk

As abelhas estão desaparecendo. Não me refiro ao seu desaparecimento do meu quintal, nem da minha cidade, do meu Estado, do Brasil enfim. Estão morrendo, minguando, se extinguindo. Estão desaparecendo do mundo todo. A continuar esse ritmo de extinção, em no máximo uma década, esse inseto tão útil, produtivo e até exemplar, no que diz respeito à sua “organização social” não passará de lembrança. Aliás, nem disso. Seu desaparecimento implicará, fatalmente, quase que de imediato, num intervalo estimado em quatro anos, também no nosso. Não haverá, pois, quem possa lembrar que as abelhas um dia existiram. Creiam-me, não é nenhum exagero, como pode parecer. Não se trata de delírio de algum tresloucado catastrofista (o que não sou), longe disso. O destino da humanidade, por estranho que pareça, está diretamente vinculado a esse frágil, laborioso e útil (na verdade, indispensável) inseto. Está em suas asas.

Pelo menos 80% das verduras e das frutas que nos alimentam – e aos demais animais herbívoros, destaque-se – dependem exclusivamente da ação polinizadora das abelhas. Sem sua atuação, não conseguem se reproduzir. Em resumo, sua extinção implicará no fim de importantes fontes de alimentos para o homem. E, sem comida... Há uns dez anos (pouco mais ou pouco menos), eu havia lido matéria a esse propósito, em determinado site da internet. Na ocasião, preocupei-me, sim, com a notícia, mas não muito. A reportagem estava incompleta. Carecia de dados que comprovassem a extinção em marcha e entrevistas com especialistas no assunto. Em suma, era o tipo de matéria que se passa por cima, por ser mal escrita e mal apurada.

Voltei a pensar no tema, todavia, neste 31 de outubro de 2015, ao ouvir o programa “Você é curioso”, na Rádio Bandeirantes de São Paulo, comandado pela dupla Marcelo Duarte e Silvânia Alves. Claro que a informação deles não veio detalhada. Mas foi apresentada corretamente, de forma tal a despertar-me a atenção. Resolvi conferir o quanto havia de verdade nisso tudo e pesquisar a respeito. E... encontrei uma infinidade de dados, detalhados e convincentes, a propósito. Minha conclusão é que a coisa está muito mais feia do que se possa imaginar!!! Feíssima!!!

Por exemplo, nos Estados Unidos – que são a segunda maior potência em termos de apicultura, abaixo, apenas, da China – cerca de 70% das populações de abelhas (de todas as espécies, incluindo marimbondos e assemelhados) já se extinguiram. Essa extinção em massa é tão séria, que o Congresso norte-americano teve de aprovar um plano de emergência, como faz em tempos de guerra ou de crise econômica. A situação na Europa não é nada melhor. Na Itália, Bélgica, Alemanha, França etc.etc.etc. metade das abelhas já desapareceu! Na Espanha, de acordo com boletim do Ministério da Agricultura, só entre 2004 e 2007, 3,5 bilhões de insetos morreram.

No Brasil, a coisa não é melhor. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) está investigando as causas da extinção e formas de combatê-las. O fato é que nossas abelhas, inclusive as que foram “africanizadas”, estão se extinguindo. Só no Estado de São Paulo, estima-se que em torno de 5 mil colméias do tipo ser extinguiram só neste ano.  As causas da extinção são as mais diversas, mas todas (ou quase todas) têm a ver com a ação do homem. O aquecimento global, por exemplo, é tido como um dos maiores vilões (posto que não o único). Sabe-se que as altas temperaturas afetam, entre outras coisas, o senso de direção das abelhas, impedindo-as de retornem às suas colméias. Os agrotóxicos são outra das causas. Além disso, a “varroose”, doença considerada a “Aids” desses insetos, causada por um ácaro (o “varrooa”), vem dizimando milhões e milhões de espécimes mundo afora.

Acresça-se a isso tudo a ação de um pequeno e voraz escarvelho, proveniente da África do Sul, que tem causado estragos imensos nas colméias. Originalmente, em seu habitat natural, ele se alimentava, preferencialmente, de frutas muito maduras. Não ameaçava, pois, as abelhas. Ao ser levado aos Estados Unidos, acidentalmente, em móveis e artefatos de madeira, no entanto, tornou-se um desastre para a apicultura. O presidente da União Nacional de Apicultores da Rússia, Arnold Butov, alertou: “Este escaravelho come não só as abelhas, mas também todo o conteúdo da colmeia – as células, os favos de mel, o mel e tudo mais. O pior é que ele pode ser transportado não só com produtos de apicultura ou as próprias abelhas, mas também com móveis e artigos de madeira”.

Os polinizadores são tão importantes que 80% da alimentação humana dependem, direta ou indiretamente, de plantas polinizadas ou beneficiadas pela polinização. Sem eles, os vegetais dependentes não se reproduzem. Por conseqüência, as populações que deles necessitam declinam. E a abelha produtora de mel (Apismellifera) é, disparado, o polinizador de importância agrícola mais utilizado no mundo. É imprescindível para a Agricultura e produção de alimentos! Como se vê, a humanidade tem, diante de si, outro imenso perigo, outro indigesto pepino a descascar, mas... a maioria esmagadora das pessoas sequer se dá conta. Alguns, quando informados, não só não acreditam, como ainda ironizam, como se fosse mera anedota, o que, óbvio, não é. Antes fosse!

Hoje de manhã, por exemplo, ao ouvir a informação, no programa “Você é curioso”, comentei o fato com alguém, que prefiro não identificar. Sabem o que ele me disse? “E eu com isso! Detesto mel!!!”. Maldita ignorância!!! Albert Einstein, questionado a respeito, no início da década de 50 do século passado, quando a extinção desses utilíssimos insetos não passava de remotíssima e improvável hipótese, alertou: "Quando as abelhas desaparecerem da face da Terra, o homem tem apenas quatro anos de vida". Exagero? Tomara que sim!! Eu, todavia, não apostaria nisso. Quem diria que nosso destino, e mais, nossa sobrevivência podem estar nas asas da frágil e operosa abelhinha!!!! Sim, quem diria!!!


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