Friday, May 15, 2015

Conheça de perto o Eurotúnel

Pedro J. Bondaczuk

O Eurotúnel, ligando a Inglaterra à França, por via ferroviária, passando sob as águas agitadas e tempestuosas do Canal da Mancha, é, sem dúvida, um dos maiores feitos de engenharia não apenas do século XX, mas de todos os tempos. Surpreendem tanto o arrojo, quanto as técnicas adotadas na sua construção. Não menos surpreendente, também, é o enorme investimento em dinheiro para que um projeto, ou, como queiram, um sonho que durou tanto para ser concretizado (e que foi considerado pelos céticos como irrealizável) se tornasse realidade. Contudo, para mim, a maior surpresa não é nada disso. É o fato de uma obra desse porte não haver se tornado, “ainda” um ícone cultural, poderosa e irresistível atração turística que atraia milhões de curiosos. Creio que mais cedo ou mais tarde se tornará.

Confesso que, se tivesse recursos para tal, não titubearia: não deixaria de viver a experiência de ir da Inglaterra à França (ou vice-versa) em um trem utilizando o Eurotúnel. Obras tidas e havidas como maravilhas do mundo moderno, como a Ponte Golden Gate, em São Francisco, na Califórnia; a Torre Eiffel, de Paris; o Empire State Building, de Nova York e o Cristo Redentor, do Rio de Janeiro, apenas para citar algumas, atraem turistas de todas as partes do mundo há muito tempo. Além do que, são eleitas como cenários preferenciais de filmes, de enredos de romances, de contos e de novelas e de outras tantas obras de arte. São, portanto, ícones culturais nunca esquecidos.

Qual a razão de não ocorrer o mesmo com o Eurotúnel? Pelo que eu saiba, apenas um único e solitário filme utilizou essa mega-obra de engenharia como cenário. E, assim mesmo, não foi “ao vivo”. Ela não foi “locada” para as filmagens. Utilizou-se, em vez disso, um truque de computador (com gritantes falhas), para sua produção. Refiro-me ao filme “Missão impossível” (baseado em série homônima de televisão, de muito sucesso), dirigido por Brian de Palma. Confesso que não percebi que o Eurotúnel da famosa película é apenas fruto de efeito especial. Fiquei sabendo disso na enciclopédia eletrônica Wikipédia.

Mas por que não foi utilizada a obra verdadeira se ela está lá e é bastante acessível? Afinal, o filme foi rodado em 1996, dois anos após a inauguração dessa miraculosa ligação submarina da Inglaterra à França, que ocorreu, com pompa e circunstância (com as presenças, óbvio, do presidente francês da época, François Mitterrand, e da rainha inglesa Elizabeth II) em 4 de maio de 1994. Não faltou, pois, tempo para isso. Foi medida de economia? Se foi, foi desastrosa!

A cena em que o “fake” do Eurotúnel aparece é justamente no clímax de “Missão impossível”, como a Wikipédia destaca. É a em que o protagonista do filme, vivido pelo ator Tom Cruise, acima de um vagão de um trem de alta velocidade, é caçado por um helicóptero. E é quando as “mancadas” acontecem. O primeiro erro é a impossibilidade de vôo de uma aeronave, não importa qual, no interior do túnel submarino. Mas essa falha ainda passa, pois em cinema tudo (ou quase tudo) é possível. Mas há, de acordo com a Wikipédia, duas bobagens ainda maiores. A primeira é a utilização do trem de alta velocidade, do TGV (Train à Grand Vitesse, em francês). Esse não é o sistema operado no Eurotúnel. O veículo que opera ali, levando passageiros de Folkestone, no Reino Unido, a Coquelles, em Pas-de-Calais, perto de Calais, no Norte da França, é o Eurostar. Também é de alta velocidade, mas não é TGV.

O segundo erro de continuidade é o que mostra um único túnel retangular, com duas linhas de trem. O Eurotúnel, todavia, utiliza dois!!! E ambos são fisicamente separados, sendo um para quem se dirige à França e o outro para quem vai para a Inglaterra. Daí ser lógico e lícito se concluir que quem fez o truque de computador jamais esteve nessa obra espetacular. Não conhecia nada, absolutamente nada do Eurotúnel. Custava fazer a travessia, nem que fosse por simples curiosidade? Se o fizesse, não cometeria os erros que cometeu, mesmo recorrendo a truque de computador. Claro que isso não invalida o filme de Brian de Palma, que rendeu, até, excelente bilheteria. Mas ele poderia ser ainda melhor caso se atentasse para detalhes tão simples, facilmente perceptíveis para quem já fez essa travessia por baixo do Canal da Mancha.

O Eurotúnel tem, além do Eurostar, para transporte de passageiros, mais dois sistemas. O primeiro é o “Eurotunnel Shuttle”, o maior veículo de transporte de cargas do tipo roll on/roll of do mundo. O segundo é um serviço de trens de transporte ferroviário internacional convencional. Portanto, escritor amigo (ou mero “aspirante” a sê-lo), se você estiver pensando em fazer, um dia, dessa obra monumental cenário para o enredo de alguma de suas histórias que esteja projetando, ou mesmo já escrevendo, tenha, pelo menos, a cautela de conhecê-la pessoalmente. Dê um jeito de arranjar uma graninha e faça um “tour”, de preferência de ida e volta, pelo Eurotúnel. Asseguro que, sob todo e qualquer aspecto, não irá se arrepender. Fica, aí, minha sugestão.


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Thursday, May 14, 2015

Os artistas – não importa qual seja a sua arte, seu local de origem ou tempo em que viveram – têm, desde os primórdios da civilização, uma obsessão que os acompanha a vida toda. Perseguem, obstinada e incansavelmente, um “tosão de ouro” (como os argonautas da mitologia grega), um “santo graal” (como os cavaleiros da távola redonda), que é a originalidade. Na impossibilidade de escolherem temas que ninguém jamais abordou, procuram ângulos novos, detalhes inusitados, nuances e minúcias de assuntos batidos, mas que entendem nunca antes terem sido explorados. E por melhores que suas obras venham a ser, frustram-se nesse aspecto, que julgam fundamental. Claro que não declaram sua frustração publicamente e não saem por aí confessando que fracassaram. Carregam consigo, vida afora, como um estigma de fracasso, essa decepção íntima, mesmo que sejam bem-sucedidos em todos os aspectos. Nunca se sentem assim. A insatisfação é o seu paradigma.


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Vida cercada de mistérios


 Pedro J. Bondaczuk


As circunstâncias da morte do ex-número dois do regime nazista, sucessor virtual de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, Rudolf Hess, ocorrida há uma semana, vêm despertando dúvidas e controvérsias, como, ademais, sempre aconteceu com tudo o que se referisse a essa figura um tanto quanto misteriosa.

Tendo nascido no Egito, esse político alemão foi criado na Alemanha, aderiu ao Partido Nazista e galgou os mais altos postos da organização, abaixo, somente, do próprio fuherer. Todavia, no segundo ano do conflito, na Europa, repentinamente, apareceu na Escócia, numa época em que a chamada “blitzkrieg” germânica estava em pleno apogeu (parecendo que iria levar de roldão a Europa inteira), com uma história, no mínimo, inverossímil.

Hess alegou que estava em território britânico com o objetivo de fazer uma tentadora proposta aos aliados: a da rendição alemã, caso a Grã-Bretanha o ajudasse a depor Adolf Hitler e se tornar o líder do país. As dúvidas a respeito dessa estranha figura não se restringem, como se vê, apenas à sua morte que, convenhamos, não deixa de apresentar aspectos muito estranhos. Diria: estranhíssimos.  

Não se entende, por exemplo, como um ancião de 93 anos poderia ter se enforcado, usando, apenas, as próprias mãos e um fio elétrico e sem a ajuda de ninguém. Isto, sem pendurar-se em nenhum travessão. Outro ponto obscuro é o fato do guarda, encarregado da sua estrita vigilância, dia e noite, em todos os momentos e circunstâncias, ter se descuidado do seu papel, o que nunca antes havia acontecido.

Mais suspeita, ainda, foi a presença de elementos estranhos à prisão de segurança máxima de Spandau, de operários, que estariam trabalhando em uma reforma. Por que reformar o presídio, se as autoridades das quatro potências aliadas na Segunda Guerra Mundial haviam decidido demoli-la, tão logo seu único prisioneiro, exatamente Rudolf Hess, morresse?

Dúvidas há, também, por exemplo, sobre a verdadeira identidade do preso. Seria, ele, o verdadeiro Rudolf Hess, ou alguém que se passava por ele? O escritor britânico, e médico até certo ponto conceituado, Hugh Thomas, vem afirmando, para quem queira ouvir, desde 1973, quando visitou esse complexo carcerário de Berlim Ocidental, que se tratava de um impostor. Não somente disse isso, em inúmeras entrevistas que deu, como até escreveu um livro a respeito. De onde lhe vinha tamanha convicção? É caso para se pensar.

Para complicar ainda mais esse estranho caso, as autoridades da cidadezinha alemã de Wunsiedel informaram que o prisioneiro de Spandau (fosse ele quem fosse) foi sepultado, secretamente, no último fim de semana, num local ignorado, sob a alegação de que isso fora feito para espantar fanáticos neonazistas (ainda há malucos que não aprenderam nada com a história, intoxicados por ideologias exóticas, que não entendem e não conseguem digerir5, mas às quais teimam em aderir).

Criou-se, por conseguinte, mais um mistério em torno de um dos períodos mais deprimentes e de triste memória para a humanidade da história contemporânea. É uma nova lenda, como a que cercou a possível (não sei se provável) fuga de Hitler para o Paraguai, as circunstâncias que permitiram que Eichmann, Stangl, Mengele e outros notórios criminosos de guerra escapassem do Tribunal de Nuremberg (e alguns, inclusive, morressem de velhice) e tantas histórias mais, que o povo conta, à boca pequena.     

(Artigo publicado na página 14, Internacional, do Correio Popular, em 25 de agosto de 1987).


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Nossos cenários são incompletos

Pedro J. Bondaczuk

Os grandes feitos humanos da atualidade, aquelas obras de engenharia e aquelas tantas conquistas da ciência, da medicina e, sobretudo, da tecnologia, que assombrariam os antepassados, fazendo-os crer que fossem frutos da imaginação ou de delírio, estranhamente, não são apropriados pelos artistas das mais diversas artes do nosso tempo. Aliás, são sim, posto que rarissimamente. Quando são, todavia, tardam a ser. E quando inspiram obras artísticas – pinturas, esculturas, literatura etc. – o são, estranhamente, apenas quando já estão ultrapassadas. Ainda hoje, raramente encontro, na descrição de cenários de novelas, romances ou contos, ambientados neste início de século XXI, menções, por exemplo, à televisão, ao rádio e mesmo ao cinema, como se essas maravilhas tecnológicas não existissem. Equipamentos como celulares, computadores, tabletes etc. são mais raros ainda. Por que?

Sei que essa minha colocação é um tanto polêmica e que muitos a considerarão bobagem. Paciência! Em conversa com vários amigos escritores, esse aspecto invariavelmente gera, sempre que o trago à baila, acaloradas discussões. A maioria atribui à minha suposta desatenção quando da leitura dos vários livros recentes, o fato de eu não detectar qualquer menção a esses símbolos da modernidade. Quando desafio-os a citarem algum romance, conto ou novela em que os autores citem, mesmo que ocasionalmente, essas coisas todas, hoje tão triviais em nossas vidas, meus interlocutores se enrolam e são incapazes fazê-lo. Não citam uma única e reles obra literária em que haja tais referências. Não digo que elas não existam. Existem e eu mesmo já citei, aqui neste espaço, quem, quando e como as citou. Quem me desafia e contesta, porém... é incapaz de mencionar um único caso concreto, embora garanta, com ênfase, que essas maravilhas são onipresentes na literatura contemporânea. Não são!

E por que faço tanta questão que coisas tão triviais do cotidiano sejam registradas em nossas obras literárias? Por uma razão bem objetiva e até óbvia. Não me canso de enfatizar que o escritor é testemunha ocular do tempo em que vive. Ao contrário do jornalista, não escreve “para o dia seguinte”, mas “para a eternidade” (caso isso fosse ou seja possível, sabe-se lá). Como um leitor do futuro, digamos do século XXII, irá visualizar esta nossa época, se não a descrevermos com detalhes? Afinal, não se concebe que o homem do futuro (caso, claro, a humanidade tenha um e não se destrua antes, por sua insensatez e imbecilidade) ficará tecnologicamente estagnado no que criou até aqui. Provavelmente – ouso afirmar que certamente – todas estas invenções atuais, que pasmariam os antepassados – serão tidas e havidas como meras bugigangas imprestáveis, como coisas obsoletas, antigas e ultrapassadas pelos nossos descendentes do século XXII (supondo, claro, que existam e que alguém as registre para seu conhecimento).

Não saberíamos nada do século XIX, ou dos primeiros anos do século XX (apenas para citar períodos mais recentes), se escritores como Machado de Assis, Victor Hugo, Honoré Balzac, Fedor Dostoievsky, Charles Dickens, Edgar Alan Poe e vai por aí afora, não descrevessem, com clareza, perícia e objetividade, como eram as cidades do seu tempo: o que as pessoas vestiam, como moravam, como se locomoviam etc.etc. etc. Não sei onde está a dificuldade de dotarmos nossos personagens das mesmas facilidades tecnológicas de que usufruímos. Qual a razão, por exemplo, deles não terem televisão em casa – equipamento tão trivial que dia desses vi um sem-teto, que improvisou um “cafofo” no vão de um viaduto aqui da minha cidade, como sua “moradia”, que não tinha, óbvio, o essencial, nem mesmo cama para dormir, dispor de um televisor portátil, que provavelmente encontrou no lixo, mas que era seu e estava ali? Exagero? Não! Fiquem atentos quando andarem pelas ruas (e a capacidade de observação é característica básica de bons escritores) que vocês verão coisas iguais.

O que impede que nossos personagens tenham celulares (hoje quase todo mundo tem)? Ou que contem com computadores, mesmo que dos já defasados? Ou que tenham perfis no Facebook, no Twitter ou em outra qualquer das tantas redes sociais? O que impede? Como tornar os enredos minimamente verossímeis sem nada disso? Qual o motivo de nossos personagens não gostarem de futebol, não torcerem fanaticamente por algum time, ou não apreciarem vôlei, basquete ou outro dos tantos esportes praticados na atualidade? Não são coisas comuns do nosso tempo? E por que não aparecem nos enredos que urdimos? O que o potencial leitor do século XXII pensará de seus antepassados do século XXI? Que retroagiu às cavernas, à era da pedra lascada? Provavelmente sim! Eu, no lugar deles, concluiria isso.

Por que raros mencionam as grandes obras de engenharia da atualidade? Em que romance, conto ou novela, por exemplo, você já leu a mais remota referência ao Eurotúnel, que atravessa, debaixo do mar, a profundidades de até 240 metros, a distância que separa a Grã-Bretanha da França por ferrovia sob o Canal da Mancha? Aliás, nem mesmo os meios de comunicação sequer citam essa que é uma das maiores obras de engenharia de todos os tempos, rivalizando com as pirâmides de Gizé, no Egito, com a Muralha da China e com o Coliseu de Roma, até por ser infinitamente mais útil e mais complexa do que elas. Por que nenhum escritor menciona, nem mesmo de passagem, o Eurotúnel? Aliás, tenho certeza que a imensa maioria dos brasileiros sequer sabe que ele existe e para o que serve. Imaginem o potencial leitor do século XXII!!! Por ser tão polêmico, certamente voltarei a tratar desse tema.


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Wednesday, May 13, 2015

O sucesso de um escritor e, mais do que isso, sua consagração, dependem muito das circunstâncias e do acaso. Claro que a qualidade e a relevância dos assuntos que trata em seus livros contam, e muito. Todavia, há obras excelentes, sob todos os aspectos, que não vendem quase nada e passam batidas pelo crivo, nem sempre atento e justo, dos críticos. E caem no esquecimento. Muitas sequer chegam a ser publicadas, embora merecessem atenção dos editores e, sobretudo, dos leitores, que ficam privados desses tesouros da sabedoria humana. Por que isso acontece? As causas são várias e conheço inúmeros casos como esses. Em contrapartida, há livros que melhor seria se nunca fossem impressos e difundidos, por semearem preconceitos, discórdias, ódio e tudo o que há de ruim, ou de pior, na natureza humana. Deveriam ser extirpados. Um exemplo? Fácil. Que tal o “Mein Kampf”, de Adolf Hitler? Como este, há muitos outros, que me reservo o direito de não mencionar, para não fazer propaganda gratuita de produtos que considero nocivos para a mente e para o espírito.


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Falta de líderes


Pedro J. Bondaczuk


O mundo comemora, nestes próximos dias, os 50 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, responsável pela morte estimada de 50 milhões de pessoas e por uma destruição como jamais se viu antes e depois desse trágico momento da História.

Todavia, a realidade contemporânea demonstra que a humanidade não aprendeu nada com esta tragédia e repete os mesmos erros que a conduziram ao conflito. Por exemplo, na ex-Iugoslávia, volta-se a falar em limpeza étnica, termo hediondo por aquilo que significa, numa prova de que o bárbaro e absurdo Holocausto, que eliminou, em série, numa insana indústria da morte, pelo menos seis milhões de judeus, sem falar nos ciganos, russos ou deficientes que não pertenciam a nenhum desses povos, muitos dos quais próprios alemães, exterminados sem chance de defesa, não deixou nenhuma lição.

Causam arrepios acontecimentos como o atentado de 19 de abril passado, com carro-bomba, contra o edifício federal Alfred P. Murrah, em Oklahoma City, nos Estados Unidos, que matou um número estimado de 180 pessoas, inclusive crianças de uma creche que funcionava no prédio.

É aterrorizante pensar que a explosão, provavelmente, foi obra de um grupo neonazista norte-americano, que prega a ideologia do ódio e do preconceito racial. A maldita ideologia do ódio deixou sementes que continuam germinando.

Não menos chocante foi o ataque com gás sarim, no metrô de Tóquio, que causou 12 mortes e deixou mais de 5.500 passageiros intoxicados, ação atribuída a uma seita de fanáticos, a Verdade Suprema de Aum, liderada por um guru paranóico, Shoko Asahara.

Violência, intolerância étnica, política e religiosa e injustiça social são as características deste século. Aliás, se consultarmos a História, concluiremos que são comportamentos que sempre acompanharam os homens e as nações ao longo dos tempos. A situação atual, no entanto, é mais perigosa por uma série de razões.

Um desses motivos é a simples existência de armas que podem destruir em minutos dezenas de planetas do porte do nosso, extinguindo todas as formas de vida que nele habitam. O fim da Guerra Fria, que mantinha o mundo permanentemente na corda-bamba, diante da possibilidade de uma guerra nuclear entre as superpotências, trouxe inegável alívio para a humanidade. No entanto, ao contrário do que pode parecer, a situação agora é muito mais perigosa do que antes da extinção da União Soviética.

Recente informe do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, com sede em Londres, revela que há um vazio de poder mundial. Os Estados Unidos, sob a gestão de presidente Bill Clinton, não vêm exercendo a mesma liderança que exerceram no período pós-guerra.

A União Européia mostrou-se incompetente para fazer as vezes dos norte-americanos nesse papel. O mundo carece de líderes, de acordo com esse relatório. Aliás, podemos contar os remanescentes, aqueles de grande projeção internacional, nos dedos, talvez, de uma única das mãos.

Sem levar em conta sua ideologia e se a sua liderança é positiva ou não, vêm à mente, apenas, os nomes do cubano Fidel Castro, às voltas com a terrível crise em seu país; de Saddam Hussein, no Iraque, talvez um dos homens mais odiados no mundo hoje (e provavelmente, também, dos mais temidos); Nelson Mandela, na África do Sul, fator de equilíbrio na integração racial sul-africana; Yasser Arafat, chefe da Autoridade Palestina Autônoma; além de um decrépito, e talvez moribundo, Deng Xiaoping, na China, e um François Mitterrand, em fins de mandato, e corroído por um câncer na próstata. Os demais não passam de burocratas, sem talento algum para mobilizar as massas ou mudar as tendências.

As Nações Unidas mostram-se impotentes para arbitrar e solucionar os inúmeros conflitos que se multiplicam. Ao completar 50 anos, a ONU não passa de simples fórum de debates, embora em termos sociais tenha sua importância graças a alguns de seus órgãos, como o Unicef, a Unesco, a FAO, a OIT e a Organização Mundial de Saúde.

Enquanto o mundo se mostra carente de lideranças, o crime organizado, em todas as suas formas, principalmente o narcotráfico, o fanatismo religioso, o nacionalismo extremado (provavelmente oportunista e aventureiro) e o racismo seguem fazendo estragos em países como a Colômbia, a Itália, a Argélia, a Chechênia, a ex-Iugoslávia, Ruanda, Burundi e vai por aí afora.

As comemorações do fim da Segunda Guerra Mundial são, portanto, uma oportunidade para que as pessoas com capacidade de decisão reflitam sobre os rumos que estamos tomando, para evitar uma terceira e última conflagração que, com toda a certeza, pulverizaria o Planeta.

Como Adolf Hitler surgiu do ostracismo, numa época de vazio de lideranças como agora, há o perigo de estarem se desenvolvendo, nas provetas do ódio e da intolerância, como monstruosos embriões, um, dois, dez ditadores homicidas como ele. Um único já bastaria para selar nosso destino.       

(Artigo publicado na página 2, Opinião, da Folha do Taquaral, em 6 de maio de 1995)


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Trilha sonora de uma revolução

Pedro J. Bondaczuk

O rock impôs-se, fixou-se e se consolidou na preferência da juventude dos anos 50 como uma espécie de “trilha musical” de todo um processo de transformação de costumes, que havia começado, destaque-se, pouco antes do grande público conhecê-lo e se apaixonar por ele. Tornou-se símbolo de uma revolução sem armas e nem barricadas, mas que gerou efeitos. O ritmo trepidante, o som estridente da guitarra e, sobretudo, a dança frenética a que o novo estilo musical induzia, refletia bem o espírito de rebeldia, os anseios de renovação geral de toda uma geração que se via aturdida face às incertezas do futuro e que “amadureceu”, ou tentava amadurecer, nos complicados anos imediatamente posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial.

O rock apenas foi uma parte das tantas mudanças comportamentais, bastante rápidas, boa parte, aliás, ditadas pelo cinema, que se refletiram na moda, na forma de se apresentar, de falar, de amar, de se relacionar etc.etc.etc. dos jovens. E exacerbou o conflito de gerações, que ademais sempre existiu, mas que nessa época atingiu o auge. Um ano antes da estréia do filme “Blackboard Jungle” – em cuja trilha musical destacava-se a composição “Rock Around the Clock”, de Bill Halley, interpretada por ele e por sua banda, “The Comets”, considerada, oficialmente, por muitos historiadores, como o marco inicial do rock – Hollywood havia lançado uma produção, dirigida por Elia Kazan, aparentemente comum, como tantas outras, mas que se tornou uma espécie de ícone desse período. Foi o “Sindicato dos ladrões” (título com que foi exibido aqui no Brasil).

Esse filme, porém, exacerbou o espírito de rebeldia já latente no espírito dos chamados “baby booms”. Tratava-se, frise-se, de um drama policial aparentemente comum, como tantos e tantos outros similares levados às telas, antes e depois, pelos estúdios da “capital do cinema”. E por que essa produção específica teve tanta influência sobre a juventude? O que tinha de tão especial? Bem, não foi propriamente pelo enredo, uma história até trivial de gangsters disputando território nos cais de Nova York, que a levou a fazer o sucesso que fez. Foi por causa do personagem interpretado por Marlon Brando. Tratava-se do protótipo do jovem rebelde, anseio de muitos adolescentes insatisfeitos com a forma como eram tratados pelos mais velhos. Subitamente,  os gestos, os trajes, a forma de falar e de se comportar desse personagem passaram a ser copiados por milhões e milhões de rapazes, não só nos Estados Unidos, mas em várias partes do mundo (inclusive no Brasil).

Praticamente dois meses antes da estréia de “Blackboard Jungle”, outro filme viria a mexer mais ainda com a imaginação, já delirante, da juventude. Refiro-me a “Rebel without a cause”, dirigido por Nicholas Ray, lançado nos Estados Unidos em 27 de janeiro de 1955.  Essa produção fez ainda maior furor do que “Sindicato de ladrões”. E, igualmente, por causa de determinado personagem, interpretado por um ator que, mais do que Marlon Brando, passou a simbolizar o verdadeiro espírito de rebeldia que pairava no ar. O título norte-americano (que, traduzido, queria dizer “Rebelde sem causa”), foi muito mais apropriado do que como essa produção ficou conhecida no Brasil, ou seja, “Juventude transviada”.

Seu protagonista, James Dean (cujo nome de batismo era Jim Stark) passou a ser imitado por milhões. Esse ator era, digamos, rematado “encrenqueiro” (dentro e fora das telas), fazendo tudo o que os adultos (pais, avós, professores etc.etc.etc.) coibiam, ou tentavam coibir, para seus filhos, netos, alunos e vai por aí afora, rapazes que mal haviam entrado na fase de adolescência (sem medir riscos e conseqüências). Tanto é que, nesse mesmo ano de 1955, em 30 de setembro, envolveu-se em um acidente automobilístico, em Cholame, na Califórnia, quando se dirigia, justamente, para uma corrida de automóveis, o que lhe custou a vida. O filme “Juventude transviada” foi exibido em São Paulo no ano seguinte do seu lançamento nos EUA, em 1956. Foi um arraso! Não tardou para que fossem vistos nas ruas, nos colégios etc.etc.etc., enfim, nos pontos de encontro de rapazes e moças da cidade, garotões com espinhas no rosto imitando trajes, penteado, gestos, expressões e comportamentos suscitados por James Dean.

A moda “pra frente” (como se dizia, então) era a de blusões, geralmente vermelhos, amarrados na cintura, como se fossem aventais. Eram cabelos cheios, bem assentados com farta brilhantina, com algumas mechas caindo na testa, como os de Elvis Presley ou de Marlon Brando. Ou cortados à moda escovinha, como os de James Dean. Os gestos desses atores (e, sobretudo, do cantor que logo seria elevado à condição de “rei do rock”), suas atitudes e expressões, eram todos copiados à perfeição, ou então caricaturados, para irritação e desespero dos mais velhos. E tudo tendo como trilha musical o novo ritmo, com sua frenética dança, cujos discos vendiam aos milhões. Embora existisse no mercado  grande quantidade de versões, sua venda era relativamente pequena. O público jovem optava, mesmo, pelos originais norte-americanos.

O comportamento da juventude brasileira, naquela segunda metade da década de 50 do século XX, seguia a tendência dos Estados Unidos e se modificava radicalmente, apesar da ferrenha oposição dos conservadores. Um juiz paulistano chegou, mesmo, a propor que se proibisse o rock, sobretudo sua dança, “em nome da moral pública e dos bons costumes”. Os jovens de hoje, ao lerem estas considerações, certamente acharão que estou exagerando, carregando nas tintas. Podem duvidar, sobretudo, que a oposição ao novo ritmo e aos novos modismos suscitados por ele, não tenha sido tão radical como narrei. Mas foi! Aliás, foi até pior. Eu vivi aqueles momentos. Ninguém me contou. Fui adolescente justamente nessa época.

Para quem duvidar da veracidade desse meu precário testemunho proponho que consulte os jornais da época na biblioteca de sua cidade. Os jovens que então aderiam a esse comportamento (e não eram todos, diga-se de passagem), passaram a ser rotulados de “playboys”. Mas com conotações nitidamente pejorativas. Na cabeça dos adolescentes de então, todavia, essa designação era distintiva de rebeldia e eles a assumiam sem nenhum pudor ou constrangimento. Hoje, esses “rebeldes sem causa” são cidadãos comportados, com idades na casa dos setenta anos ou mais (refiro-me, óbvio, aos remanescentes, aos que sobrevivem ao tempo). Todos (salvo uma ou outra exceção), cumpriram seus respectivos papeis na vida. Têm netos, quando não bisnetos, que por sua vez consideram tudo isso já um tanto antiquado. E o rock sofreu inúmeras transformações e dividiu-se em dezenas de estilos e tendências pelo mundo afora. A moda, o linguajar e tudo o mais se modificaram bastante com o tempo, como seria de se esperar. Restou, para quem viveu tão intensamente aquele período, somente a saudade e... uma certa nostalgia. Mas...


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Tuesday, May 12, 2015

As pessoas mudam com o tempo, embora nem sempre as mudanças sejam para melhor. Enquanto algumas evoluem, aprendem com a vida, extraem preciosas lições de fracassos e frustrações, outras tantas caminham para trás, retrocedem inúmeros passos, corrompem-se, desencantam-se e ficam pelo caminho lamentando a má sorte, quando na verdade suas desventuras são frutos do próprio comportamento tolo. A vida, como todos sabemos, e sentimos na própria carne, é rápida demais. Chega um dia em que já não temos mais projetos ou ideais, ou por haver concretizado todos os que tínhamos, ou por haver fracassado por completo em sua realização. Restam-nos, então, apenas lembranças, suaves recordações de pessoas que amamos e que não existem mais, de circunstâncias que nos fizeram momentaneamente felizes e de deliciosos sonhos que então acalentávamos. Quem não tem nada de positivo e bom a recordar é o mais miserável dos miseráveis, embora tenha posses em profusão.


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"Glasnost" é chave da "perestroika".


Pedro J. Bondaczuk


O presidente soviético, Mikhail Gorbachev, teve como padrinho político o general Yuri Andropov, ex-chefe da polícia política do país, a KGB, e que no pouco tempo em que ocupou o poder --- de 10 de novembro de 1982, após a morte de Leonid Brezhnev, até 10 de fevereiro de 1984, quando morreu --- buscou empreender uma tímida reforma no país. Não na estrutura socialista, nem uma que fosse de caráter político-social. Muito menos na forma centralizada de gestão da economia.

Buscou moralizar a burocracia do partido, apodrecida pela galopante corrupção, punindo os corruptos que pilhava cometendo delitos até mesmo com a pena capital. Pretendia tão pouco e isso já era demais na URSS!

Quando Constantin Chernenko --- que era tido e havido como mero "aparatnykh", uma expressão que poderia ser traduzida livremente como "puxa-saco" por ter esse sentido, de Brezhnev --- passou a governar o país, tal cruzada moralizadora foi deixada de lado. Tudo voltou a ser como sempre havia sido. A cúpula do Partido Comunista, e principalmente os burocratas inexpressivos de segundo e terceiro escalões, continuaram roubando desavergonhadamente o povo, exorbitando da autoridade de que estavam investidos não por capacidade mas pelo seu servilismo e cometendo toda a sorte de bandalheiras. E ai de quem ousasse protestar ou denunciar!

Seu destino, quando não fosse a morte, seria desaparecer num dos inúmeros "gulags" espalhados pelo vasto território soviético, campos de concentração até mais perversos do que os de Hitler na Segunda Guerra Mundial, ou em algum manicômio judiciário, o que era pior, pois os que ali caíam passavam a ser mortos-vivos. Tinham decretada a sua morte social. Afinal, ninguém confia em alguém que tenha sido internado em hospício, mesmo não sabendo a razão desse internamento.

Gorbachev, portanto, assumiu um país aterrorizado, traumatizado e desesperançado. Não possuía a matéria-prima indispensável para promover mudanças. Não tinha sequer um quadro exato das dimensões da catástrofe nacional. Daí ter convocado a população para a tarefa de reconstrução partindo literalmente do nada. Estava ciente dos riscos que corria num Estado artificial, composto por mais de 100 etnias diferentes, antagônicas, que nutriam, umas pelas outras, um ódio mortal e secular.

Sabia que ao cabo do processo, ao invés de ter uma superpotência que de fato merecesse este nome, poderia, na verdade, desagregar de vez a União Soviética. No entanto, resolveu, conscientemente, correr o risco.

Estabeleceu, como instrumento de diagnóstico político, econômico e social, um processo muito mencionado e pouco entendido no Ocidente: a "glasnost". O significado literal dessa palavra, geralmente traduzida como "transparência", é mais amplo do que tal limpidez. É "o direito de falar alto, publicamente, para que todos ouçam".

Como conseguir isso, porém, de um povo apavorado por várias décadas de terríveis perseguições, de lavagens cerebrais ideológicas, uma população acostumada a viver da mentira de seus líderes, alçada à categoria de dogmas incontestáveis?

Era preciso que alguém mais corajoso se arriscasse a fazer a primeira grave denúncia de desmandos, publicamente, e esperar os resultados, para só depois, se estes não fossem à prisão, o internamento num manicômio ou o desaparecimento, os demais começarem a falar.

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular, em 23 de março de 1991).


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O fenômeno Elvis Presley

Pedro J. Bondaczuk

O rock, possivelmente, não seria o que foi (e o que é), nesses quase 60 anos (oficiais) de existência, sem uma figura excepcional, carismática, que se tornou símbolo, ícone, mito da cultura pop – tanto que quase 38 anos após sua morte, esta ainda é negada por bilhões de fãs ao redor do mundo que juram que ele ainda está vivo, e de certa forma está mesmo – consensualmente aceito como seu único e legítimo “rei”. Refiro-me, óbvio, ao fenômeno Elvis Aaron Presley. Sua vida e trajetória artística são para lá de conhecidas, dada a existência de milhares de biografias. Portanto, torna-se dispensável, da minha parte, tratar desse aspecto, dada a impossibilidade, até, de trazer novidades a propósito. A única coisa original de que posso me valer é a impressão que ele me causou (e ainda me causa). Afinal, foi dos poucos ídolos da minha juventude e, como todo adolescente da segunda metade dos anos 50 do século XX, também procurei imitá-lo, sobretudo na aparência, com seu cabelo cheio, sempre bem penteado e suas vastas costeletas.

Embora não tenha gravado somente composições de rock, Elvis foi, sem dúvida, seu grande divulgador. E não apenas em discos, mas em shows, programas de televisão e em vários filmes que estrelou. Era dotado de uma voz privilegiadíssima e rara. Tinha alcance vocal muito acima da média. Especialistas dizem que alcançava notas musicais de dificílimo alcance para cantores populares. Mas sua característica mais notável, a que ajudou a torná-lo popular com a velocidade da luz, era sua maneira exótica, extravagante e peculiar de dançar, o que lhe valeu o apelido de “Elvis The Pelvis”. Foi, certamente, o que mais chamou a atenção do público e conquistou tantos fãs desde sua estréia em televisão, nos Estados Unidos, em 1956.

Naquela oportunidade (e foge-me o canal em que isso se deu) tão logo começou a cantar, com seu vozeirão característico e sua rigorosa afinação, a composição “Hearthbreak Hotel”, contorcendo-se da cabeça aos pés, numa demonstração inequívoca de que o então tido e havido como novo ritmo não era só para se ouvir, mas principalmente para se dançar, e de forma vigorosa e frenética, a platéia entrou em transe, em delírio, enlouqueceu de entusiasmo. E mais: milhões de telespectadores norte-americanos, país afora, imitaram-no na dança, em suas casas. Os telefones da emissora não pararam de tocar, com milhares e milhares de pessoas querendo saber mais a respeito do artista. Ele já era relativamente popular no rádio e nos show, limitados e locais, em que se apresentava. Sua aparição na TV, todavia, foi a consagração. Em questão de poucos dias, “Hearthbreak Hotel” saltou para o primeiro lugar das principais paradas de sucesso norte-americanas. Foram vendidas milhares e milhares, na verdade vários milhões de cópias dessa gravação. O rock estava consagrado, de vez, na preferência do público.

Há quem considere que, em termos de popularidade, os Beatles superaram Elvis Presley. Isso pode, até, ter ocorrido no auge do sucesso dos cabeludos de Liverpool. Todavia, comparando ambas carreiras, o roqueiro norte-americano é imbatível nesse aspecto. Basta dizer que seus discos e filmes continuam vendendo em quantidades “macro”, “hiper”, “mega”, ou seja, incalculáveis, mundo afora, como se ele estivesse vivo e fosse se apresentar amanhã em algum show. Já os Beatles vão ficando, cada vez mais, à medida que o tempo passa, só na lembrança de saudosistas de sua geração, quando estavam no auge do sucesso.

Confesso (para admiração de alguns e decepção de outros tantos dos meus amigos) que nunca fui, propriamente, um “beatlemaníaco”. Não que não apreciasse o conjunto de Liverpool. Mas este, em momento algum de minha vida, me empolgou e esteve entre meus preferidos. Já Elvis Presley... continuo ouvindo suas gravações com o mesmo entusiasmo e idêntica empolgação que tinha em 1956, quando estava com treze anos de idade e buscava “copiar” sua aparência. Meu gosto musical evoluiu muito desde então. Sou cultor dos clássicos, de Bach, Beethoven, Mozart, Bellini, Verdi, Chopin, Carlos Gomes e de centenas de outros. O rock está longe, muito distante de ser meu ritmo predileto. Mas há uma exceção, uma única: Elvis Presley.

É certo que vez ou outra ainda ouço gravações de roqueiros da segunda metade da década de 50 e aprecio. São os casos, por exemplo, do canadense Paul Anka (“Love letters in the sand”), de Neil Sedaka (“Teenie Weennie Yellow Polkadot Bikini”), de Little Eddie (“The Frankenstein Rock”), de Pat Boone e da então menininha Brenda Lee com sua empolgante interpretação de “Jambalaya” (que somente muitos anos depois vim a saber que se tratava de um prato típico da culinária de Nova Orleans). Todavia, nenhum desses cantores e nenhuma dessas gravações me empolgam tanto quanto os rocks interpretados pelo seu eterno “rei””. Isso tem tudo a ver com minha trajetória de vida, principalmente, com as várias etapas do meu processo de amadurecimento.

Quando Elvis despontou para o estrelato, eu era adolescente, de treze anos, cheio de sonhos e de vida e, principalmente, de energia, que brotava por todos os poros. Os hormônios prevaleciam, pois, sobre os neurônios. Já os Beatles surgiram na época da minha maturidade. Nesse período, meus gostos e conhecimentos mudaram, transformaram-se, evoluíram. Foi na ocasião em que já cursava a universidade e começava a esboçar meus primeiros “rabiscos” literários, com a pretensão de um dia tornar-me escritor. Hoje, no entanto, já setentão, ainda sou um dos bilhões de fãs, mundo afora, para os quais “Elvis não morreu”. Não morrerá jamais!


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Monday, May 11, 2015

A África – provável “berço” da espécie humana, de onde ela teria se irradiado para o resto do mundo – que abrigou notáveis civilizações e teve pujantes culturas, quando o homem da Europa ainda sequer havia deixado a caverna primitiva, luta para se reconstruir, praticamente partindo do zero. Cerca de cinco séculos de brutal e predatório colonialismo deixaram o continente em estado de terra arrasada. Suas riquezas foram drenadas por quem não tinha direito algum a elas. Suas florestas foram devastadas. Sua fauna quase desapareceu, caçada por pessoas de olho em peles ou em marfim ou, simplesmente, por “esporte”. E, para culminar suas desgraças, muitos de seus povos foram escravizados e obrigados a gerar riquezas aos escravizadores, notadamente nas Américas – Brasil, Caribe, Estados Unidos etc. Ainda hoje, convive com a miséria e suas seqüelas: fome, epidemias (como a da Aids e do ebola), guerras civis e ditaduras de todas as espécies. As potências mundiais têm uma dívida, principalmente moral, com os povos africanos.

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