Monday, May 11, 2015

Revolução moderna não tem barricadas


Pedro J. Bondaczuk


O terrorismo há muito deixou de ser uma ação que pudesse ser considerada, mesmo distorcidamente, como de caráter político. Não passa de crime comum, e da pior espécie, posto que, premeditadamente, os seus autores assassinam, fria e conscientemente, pessoas inocentes, na maioria das vezes alheias às controvérsias ideológicas que dominam o nosso tempo. A eles não importa a identidade de suas vítimas.

Há quem argumente que diversos grupos guerrilheiros ascenderam ao poder através desse expediente, principalmente na África. Em Moçambique, por exemplo, a Frelimo era dedicada a praticar terrorismo e hoje é o partido único do país. O mesmo verificou-se em Angola, no Zimbabwe e na Nicarágua, com a Frente Sandinista.

Coincidentemente, contudo, todas essas sociedades vivem, há anos, sangrentas guerras civis. É óbvio que ódio gera ódio, violência gera violência e quem promove tudo isso, fatalmente, acaba sendo colhido por uma reação idêntica e contrária.

Mesmo a prática política tendo demonstrado a inutilidade desse expediente como forma de se fazer uma revolução, muita gente continua ainda lançando mão de tal meio. Outros líderes, mais pragmáticos, contudo, que antes tinham no terror seu instrumento de contestação, estão abandonando tal estratégia, como é o caso típico de Yasser Arafat, da Organização para a Libertação da Palestina.

O terrorismo hoje possui duas vertentes. A primeira é a dos fanáticos desesperados, que atingem a tudo e a todos, sem que tenham uma noção clara da razão de seus atos. A segunda, está se manifestando mais agudamente de uns dois anos para cá. Trata-se da união da guerrilha com o narcotráfico, com fins nitidamente "comerciais".

O futurólogo alemão, Robert Jungk, fez uma afirmação bastante sensata sobre como lutar contra injustiças que poderia ser aproveitada pelos contestadores que possuam massa cinzenta: "...Creio que na sociedade desenvolvida, a revolução nos velhos moldes, com barricadas, arrisca a destruir mais do que construir". E para um autêntico revolucionário, de nada interessa a destruição.

Ele não deseja a derrubada de um sistema para a imposição do caos. Sonha em construir algo melhor. Por isso, o poeta Jorge Luís Borges sugeriu uma outra forma de ação, levando em conta o estabelecimento de uma nova ética. O escritor argentino, céptico com a democracia e com a prática política, pregou "uma revolução no peito de cada homem", que nos "devolvesse a honra".

Terrorismo, portanto, nada tem a ver com idéias tão requintadas quanto as necessárias para as grandes transformações da sociedade. Os que lançam mão dele são criminosos comuns, feras perigosas e é assim que devem ser sempre tratados.

(Artigo publicado na página 13, Internacional, do Correio Popular, em 28 de setembro de 1988)


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 
Rock se impõe a despeito de oposição

Pedro J. Bondaczuk

O rock tardou a se impor e se popularizar, primeiro nos Estados Unidos e, posteriormente, no resto do mundo, pela forte oposição que enfrentou por muitos anos, motivada, principalmente, pelo preconceito racial. Afinal, era um ritmo confundido com duas de suas principais vertentes – o blues e o rhytm and blues – características de artistas negros. Recorde-se que nos anos 50 do século XX os conflitos raciais, na terra de Tio Sam, eram tão ou mais agudos que na África do Sul, com sua política segregacionista do “apartheid”. Estes apenas foram atenuados em meados dos anos 60, com a política integracionista iniciada pelo presidente John F. Kennedy. Sabe-se que jovens brancos, da classe média norte-americana, adquiriam “secretamente” gravações de rock. Afinal, para eles, essa música exótica e tão animada não lembrava em nada as manifestações musicais negras. As letras, por exemplo, eram alegres e tratavam de amor e de erotismo, sem os lamentos, portanto, dos blues, que no próprio nome já sugere tristeza, melancolia e sofrimento. O ritmo era frenético, contagiante e convidativo à dança.

O rock, todavia, era ferozmente combatido pelos adultos, que o consideravam foco de perdição para a juventude, por, no entender deles, sugerir liberdade sexual e rebeldia em relação aos “bons costumes”. E isso ocorria não apenas nos Estados Unidos, mas em várias outras partes do mundo. O novo ritmo chegou ao Brasil no início da minha adolescência, lá pelos idos de 1956. Lembro-me bem da oposição dos mais velhos a ele, alegando tratar-se de símbolo da imoralidade e da “corrupção dos costumes”. O filme “Blackboard Jungle”, cuja trilha sonora incluía o “Rock Around the Clock”, interpretada por Bill Halley e The Comets, por exemplo, chegou a ser proibido pelo então governador do Estado de São Paulo, Jânio Quadros, que o considerava “moralmente pernicioso”.

Nos Estados Unidos, foram inúmeros os artigos, nos principais jornais e revistas do país, dos tais “formadores de opinião”, condenando o rock e os novos costumes por ele ditados. Para não parecerem, excessivamente conservadores (que de fato eram) e muito menos preconceituosos, argumentavam que o ritmo era, musicalmente, pobre. Muitos e muitos – e tenho comigo, em meu arquivo, alguns desses textos para comprovar – garantiam, de forma pedante e arrogante, que se tratava de mero modismo, portanto de vida efêmera, que logo seria deixado de lado, assim surgisse algo que o substituísse. Obviamente, se enganaram. Gostaria de saber – caso estejam ainda vivos – o que esses articulistas achariam hoje dessas opiniões tão “furadas” e infelizes que emitiram, e por escrito. Provavelmente, negariam a autoria.

Entendo que, mais importante do que a produção cinematográfica “Blackboard Jungle”, em cuja trilha sonora constava o “Rock Around the Clock”, o rádio foi o verdadeiro responsável pelo sucesso do novo ritmo. Os programadores, sabe-se lá por qual razão (provavelmente por gosto pessoal), incluíam, em sua programação musical, esse estilo tão frenético e dançante. Foram eles que influenciaram milhões de jovens brancos a comprarem,, “escondidos”, os discos dessa música tida e havida como sendo dos “negros”, mas que mexia tanto com eles. E, afinal, o produtor Richard Brooks decidiu incluir a composição de Bill Halley no filme que produziu e dirigiu após ouvir a gravação no rádio de seu carro. Justiça, portanto, seja feita. Aliás, tratou-se de algo de mútuo benefício. Explico.

Nos Estados Unidos, a televisão ganhava, cada vez mais, espaço, ameaçando “matar” o rádio, que já vinha atravessando crise e sendo considerado por muitos como “obsoleto”. Precisava, pois, de novidades, de coisas que a TV não mostrava, para justificar sua existência e não perder anunciantes, o que, se acontecesse, seria seu fim. E o rock foi uma dessas coisas “novas” que esse veículo (hoje mais vivo do que nunca) apresentou, até exaustivamente, aos ouvintes. Foi, pois, uma aposta coroada de total êxito. No Brasil a coisa não chegava a tanto. A televisão ainda “engatinhava” por aqui, pois quando o rock apareceu entre nós, tinha apenas seis anos de existência. Só uns pouquíssimos privilegiados podiam despender a relativamente elevada quantia de dinheiro para adquirir um aparelho receptor de TV, o que erra, portanto, raríssimo.

Ademais, não valia a pena fazer esse investimento. As opções oferecidas eram escassas e pífias por parte dos três canais que então existiam em São Paulo (Tupi, Record e Paulista, que mais tarde se transformaria na Globo paulistana). Havia um punhado de filmes velhos e mal legendados e uma infinidade de programas feitos na base da pura improvisação, muitos deles chatíssimos e até sem sentido. As transmissões não eram contínuas. Começavam às 15 horas e encerravam-se por volta das 23. E eram apenas locais (no caso em tela, da cidade de São Paulo). Os sucessos, aqui no Brasil, no ano em que o rock começou a despontar e se impor em todo o mundo, eram feitos e desfeitos pelo rádio, este sim veículo de imensa penetração popular.

Ao contrário, todavia, do que ocorria nos Estados Unidos, nossos programadores tinham certa prevenção em programar composições desse novo ritmo. Era ousadia demais para eles, diante da feroz oposição dos meios mais conservadores da sociedade (que no Brasil sempre teve, e ainda tem essa característica). Um ou outro ousava introduzir alguma gravação de astros que despontavam no cenário internacional, não sem antes tecerem contundentes críticas a propósito. Ninguém me falou disso. Eu testemunhei o que afirmo. Vivi isso e faço questão de registrar. Foi no início, reitero, da minha adolescência. O cantor, geralmente programado, era o que não tardaria a ser considerado “rei do rock” (e o é até hoje, décadas após sua morte, até mais do que isso, um mito), ou seja, Elvis Presley. Seus sucessos apareciam, meio que perdidos, em nossas paradas, em meio aos hits de Sílvio Caldas, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Elizeth Cardoso, Roberto Luna, Morgana e Lana Bittencourt, entre tantos outros. Bem, é verdade que se tratava de tempo em que nossa cultura era, pelo menos, valorizada. Já hoje... Deixa pra lá!!

Todavia na imprensa, as discussões rolavam soltas (a exemplo do que ocorria nos Estados Unidos). Educadores viam no rock, que começava a se popularizar também entre nós, péssima influência para a juventude. Cansei de ouvir vários dos meus professores de então fazerem intermináveis sermões condenatórios a propósito. Médicos, por sua vez, garantiam que as contorções dessa dança frenética e trepidante causavam artroses e outros comprometimentos na coluna e nas articulações, além dos músculos. Advertiam que poderiam provocar, em casos extremos, até irreversíveis paralisias. E as velhas senhoras, do alto de sua sabedoria, supostamente ditada pela experiência, sentenciavam: “É coisa do demônio!!! Onde já se viu moças e rapazes se agarrarem e se contorcerem dessa forma?!!”. Ora, ora, ora...


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

Sunday, May 10, 2015

Se o escritor for relaxado em seu linguajar, sequer encontrará editor que tope embarcar nessa canoa furada com ele (para não partilhar do ridículo). Seu livro nascerá “morto”, ou seja, permanecerá inédito, a menos que o banque do próprio bolso. E se o fizer, por um excesso de vaidade que o cegue ao ponto de perder a noção de autocrítica (o que, aliás, é bastante comum), certamente irá arcar com monumental prejuízo, por falta de leitores que se habilitem a comprar tamanha baboseira. Muitos escritores de primeiríssima linha reproduziram a linguagem do povo em diálogos de personagens (quando isso se impunha, claro) em romances de grande sucesso. Mas fizeram-no com bom-senso, elegância e, sobretudo, pertinência. É isso o que recomendo aos que vivam de textos e tirem da escrita o seu ganha pão. O livro, depois de impresso, não tem volta. Por isso, deve ser tratado com o máximo de atenção e de capricho, para que saia rigorosamente correto em todos os aspectos.


@@@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk         

Horda de miseráveis


Pedro J. Bondaczuk


A Organização das Nações Unidas promove, como parte das comemorações do 50º aniversário de fundação, em Copenhague, na Dinamarca, a primeira Reunião de Cúpula sobre o Desenvolvimento Social, reunindo chefes de Estado e de governo de 111 países-membros. O encontro, de suma importância, por tratar de um tema em geral deixado para segundo plano, embora se constitua no maior problema da humanidade nesta virada de milênio, ficou um tanto esvaziado pela ausência de alguns governantes tidos como pesos-pesados mundiais, como é o caso do presidente norte-americano, Bill Clinton. Mas nem por isso a conferência deve ser considerada menos importante.

Que não se espere, porém, alguma solução imediata para a questão mais angustiante que está sendo discutida, a da pobreza absoluta, que afeta a 20% de toda a população do Planeta. Ou seja, mais de um bilhão de pessoas dependem completamente dos semelhantes para sobreviver. Não têm renda, moradia, acesso à saúde, à educação e a outros direitos básicos, que lhes garantam uma vida digna e produtiva. São os excluídos da Terra. São os miseráveis, os “invisíveis”, os “sombras”, os parias, os mais pobres entre os pobres.

Nesse ranking da miserabilidade, desgraçadamente, o Brasil está bem situado. Num documento oficial encaminhado aos organizadores da cúpula, o governo brasileiro admite que o País tem 16 milhões de indigentes. A cifra apenas será melhor percebida, em sua trágica magnitude, se for lida junto com comparações.

Esse número de mendigos equivale, por exemplo, à totalidade da população chilena. Ou à metade dos habitantes da Argentina. Ou a todas as pessoas, homens, mulheres e crianças, que vivem na Grande São Paulo. Terrível!

A tragédia brasileira, porém, ainda é maior. Basta informar que, além desses 16 milhões de indigentes, há outros 25 milhões de cidadãos que têm, somente, o suficiente para a comida. Oscilam à beira do abismo, num desespero que parece não ter fim.

Moram em favelas e mesmo ali muitos já não conseguem pagar aluguel. Uma fatalidade, uma perda de emprego, um pacote econômico mais desastrado e pronto. Tais pessoas passam a engrossar o vasto contingente dos que estão abaixo da linha da pobreza absoluta.

Diante desses números aterradores, não é de se estranhar que a violência esteja se tornando a preocupação número um da população, em todas as camadas sociais. Hoje, ela é assunto obrigatório em todas as conversas. Ocupa quase que a totalidade do espaço dos noticiários das televisões e uma quantidade razoável de centimetragem nos jornais.

Se considerarmos formas mais sutis em que ela se manifesta, está presente em toda a parte, preenchendo todo o nosso dia. Violência, por exemplo, é o salário-mínimo que não permite a quem o recebe sequer comprar os alimentos básicos à sua sobrevivência. É o mau atendimento nos hospitais públicos – que lembram os métodos medievais de tratamento e cura, esta última verdadeiro milagre. É a qualidade de ensino dado pelo Estado no 1º e 2º graus.

Por tudo isso, não se entende a omissão do governo brasileiro em não se fazer representar na cúpula de Copenhague pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. O governante, homem culto e sensível, conhecedor profundo dessa problemática até por formação, já que se trata de um sociólogo, fica privado de uma tribuna mundial para defender a causa dos excluídos, para denunciar esse sistema internacional insensato, que exclui um quinto da humanidade de todos os direitos, que é incapaz de prover trabalho a 800 milhões de pais e mães de família, que faz vistas grossas à morte de 250 mil crianças somente no prazo de duração do encontro da Dinamarca. Que mundo é esse? O que pensam os que geraram essa situação ou que se recusam a acabar com tamanha injustiça?

Diga-se, a favor de FHC, que ele não é o único presidente da América Latina a se ausentar da cúpula. Carlos Menem, da Argentina; Ernesto Zedillo, do México; Eduardo Frei, do Chile e Julio Maria Sanguinetti, do Uruguai, apenas para citar alguns, também não comparecem ao encontro.

Embora dessa conferência não vá sair mais do que um conjunto de intenções, sua simples realização já é um avanço. Mostra que, finalmente, a humanidade começa a vislumbrar qual é, de fato, o seu maior problema, raiz de todos os demais que a atormentam. Espera-se, somente, que não se limite a ficar no vislumbre e que algo de prático venha a ser feito para desmontar a terrível bomba da miséria que ameaça o Planeta.    

(Artigo publicado na página 2, Opinião, da Folha do Taquaral, em 11 de março de 1995)


 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk   
Raízes negras do rock

Pedro J. Bondaczuk

A verdadeira origem do rock – atribuída, oficialmente, ao filme “Blackboard Jungle” e, mais especificamente, à sua trilha sonora com destaque para a composição “Rock Around the Clock”, de Bill Halley, interpretada por ele e sua banda, “The Comets” – é certamente muito anterior a isso. É, na verdade, fruto de um processo. e não somente musical, mas também cultural e social, que se desenvolveu ao longo do século XX e que é, até mesmo, anterior a ele. Sua raiz, de fato, é afro-americana. São os negros e suas manifestações que estão por trás dessa colcha de retalhos de ritmos. O rock é, queiram ou não, fusão de vários e vários deles, cada qual contribuindo, muito ou pouco (não importa) para o produto final.

Minha proposta, portanto, não é a de apurar, tim-tim-por-tim-tim, sua “verdadeira” história, com cada detalhe e respectiva prova documental, o que demandaria muito tempo para pesquisa, para a busca de fontes confiáveis (se é que elas existam) e sempre restaria algum “furo”. O rock não nasceu pronto. Foi se formando e transformando ao longo do tempo (transformação esta que ainda não acabou). Em suma, foi (na verdade é) um “processo”. O rock conquistou, de forma tão rápida e generalizada, público tão grande, principalmente depois que começou a ser divulgado massivamente, sobretudo pelo rádio (de certa forma salvou-o de desaparecer após o advento da televisão) pelo seu caráter interativo. Ao contrário de outros estilos musicais, ele exige uma troca entre quem o canta e toca e quem o ouve. Não é para ser, simplesmente, ouvido. Pelo contrário, induz os expectadores e ouvintes a dançarem, a movimentarem cada parte do corpo, a darem vazão ao entusiasmo, numa espécie de desabafo, de grito de liberdade. Pressupõe isso.

É o que se espera do público durante sua apresentação. Paulo Chacon, no livro “O que é o rock”, observa: “Por isso, dançar é fundamental. Se não houver reação corpórea quente, não há rock”. Vocês já viram um show desse ritmo em que a platéia permaneça passiva, calada, atenta, apenas “ouvindo” a apresentação do cantor e da banda que lhe dá sustentação rítmica, como ocorre, por exemplo, em concertos de música clássica? Ora, ora, ora... Onde? Quem? Duvido!!! Isso não combina com o rock. O que se vê, invariavelmente, é o público participando ativamente, cantando junto, apupando, gritando, participando e, se houver espaço no local do show, dançando. Mesmo quando não há, as pessoas acabam dando um jeito. Ou seja, a platéia interage. Não raro, vai ao delírio. Chega a entrar em transe. Provavelmente nisso esteja o segredo do seu sucesso.

Como afirmei, esse estilo musical é uma fusão de vários outros estilos (e comportamentos) que, ao longo do tempo, foram se fundindo, emprestando seus elementos mais característicos – muitos dos quais ainda é possível identificar no produto final: ou seja, no rock. Cite-se, por exemplo, o “Rhythm and blues” (o famoso R&B). E citem-se outros tantos ritmos de música negra, notadamente dos tão socialmente discriminados negros do Sul dos Estados Unidos. Com a maciça migração de artistas afro-americanos para os subúrbios das grandes cidades do Norte, surgiu um blues, digamos, urbano, que influenciou, decisivamente, o rock. Outra grande influência foi a da música gospel, de onde proveio, certamente, sua interação. Afinal, esses hinos religiosos pressupunham (ou pressupõem, pois ainda existem) acompanhamento com palmas dos fieis e estribilhos cantados por eles.

Não se pode esquecer o papel do “Jump band Jazz”. Essa vertente incorporou-se ao R & B, que ao fim e ao cabo, é uma espécie de proto-rock. O editor e produtor editorial Filipe Laredo, no excelente texto “A origem negra do Rock n’ roll”, destacou o seguinte fator que tornaria, mais adiante, o novo ritmo tão atrativo: “Deixando para trás os lamentos de sofrimento e dor dos tempos da depressão tocados pelos bluesmen rurais, o R&B contemplava principalmente o amor e as experiências sexuais da vida real. Enquanto o ritmo ia se tornando cada vez mais popular, um novo público de jovens ouvintes negros ia surgindo, à revelia de grande parte da população branca, que tinha excesso de pudor e também não aceitava que uma música negra invadisse seus ouvidos”.

Bem, resumindo tudo, já que o processo não foi tão simples como possa parecer na leitura dos meus inábeis comentários (afinal, não sou especialista na matéria, mas mero curioso), Filipe arremata, assim, seu brilhante texto:  “Coube... aos jovens sedentos por mudanças a mistura sócio-musical tão importante para a origem de um ritmo que vem se fazendo presente até os dias atuais. Dessa forma, a juventude mostrou toda a sua força para a sociedade, especialmente a americana, cheia de recalques e preconceitos. Tanto negros quanto brancos passaram a cantar e dançar juntos e o rock serviu como instrumento de contestação e revolta, mesmo que de maneira sutil e despretensiosa”. É certo que acabou cooptado pelo “sistema”. Mas...


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk    

Saturday, May 09, 2015

O escritor, além de precisar ser criativo e sempre exato em seu linguajar, necessita da mesma precisão quando se refere a lugares, fatos, pessoas etc. que menciona em seus textos. Para isso, todavia, tem que cultivar o saudabilíssimo hábito da pesquisa. Quem confia só na memória, quase sempre resvala para o irremediável ridículo. Muitas vezes, o escritor arruína um bom livro por falta de capricho, apenas por causa de mero detalhe que deixou escapar e que estava ao seu alcance corrigir. Mas os críticos, e principalmente os leitores, detectam esses senões, que poderiam ser evitados com um tiquinho, um pouquinho a mais de cuidado. Fontes de pesquisa é que não faltam. O ideal é contar com boa e variada biblioteca, que tenha um pouco (se possível muitíssimo) de todos os assuntos. Uma hemeroteca bem organizada tende, igualmente, a ser providencial “pronto-socorro” nos momentos mais inesperados. Reitero, não confie cegamente na memória. Não é preciso. Hoje há fartura de informações e você não pode ser preguiçoso e deixar de acessá-las.


@@@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk  
Pressupostos para negociações


Pedro J. Bondaczuk


O presidente norte-americano, Ronald Reagan, e o líder soviético, Mikhail Gorbachev, ao que tudo indica, seguiram, para as gélidas terras da Islândia, imbuídos de uma vontade férrea de descongelar, de vez, as sempre tensas relações das duas superpotências. Parecem determinados a substituir o permanente tom de hostilidade e de ostensiva (ou velada) ameaça mútua, com que os dois países se tratavam até aqui, por pelo menos uma linguagem mais civilizada. E, mais do que isso, por negociações em torno dos temas que os separam e os confrontam.

Cada qual, é evidente, está levando no bolsinho do colete uma listinha de exigências a fazer à outra parte. Do lado norte-americano, a imprensa internacional divulgou, “ad náusea”, o que se exige que o Cremlin faça para que ganhe credibilidade aos olhos do Ocidente..

A primeira questão (excluído, evidentemente, o tema básico da própria reunião de cúpula informal de Reykjavik, que é o desarmamento nuclear), que Reagan, fatalmente, vai abordar em sua conversa de hoje (ou, talvez, na de amanhã) será a incômoda e desestabilizadora presença militar soviética no Afeganistão. Por tabela, vai aproveitar para pedir a desocupação de outros países, como Angola, por exemplo, que conta com a presença de 20 mil soldados cubanos; Cambodja, com dezenas de milhares de vietnamitas e, talvez, mencione a Nicarágua, quem sabe.

Outro pedido que, fatalmente, fará será o referente ao cumprimento dos acordos de Helsinque, a respeito de direitos humanos. É verdade que na atual gestão de Mikhail Gorbachev, nenhum caso de grande repercussão internacional, envolvendo dissidentes conhecidos no Ocidente, foi registrado. Ao contrário, alguns prisioneiros célebres até ganharam a liberdade. Mas há, ainda, dezenas de outros encarcerados pelo “crime” de desejarem viver em uma sociedade diferente daquela que vivem; que não concordam com invasões intempestivas a países pobres e indefesos (como o Afeganistão), como é o caso específico do renomado físico nuclear Andrei Sakharov, amargando, há seis anos, um exílio interno em sua própria pátria, apenas por esse motivo.

Há, ainda, inúmeros homens e mulheres sepultados vivos em manicômios, como se, de fato, fossem loucos, dopados de poderosos psicotrópicos para que se desequilibrem de vez, punidos com tão cruel castigo apenas por terem discordado de algum burocrata burro e ocioso ou de algum funcionário venal, mas poderoso, do onipresente Partido Comunista.

Outras tantas dezenas deles, em geral intelectuais, engenheiros, biólogos, físicos, químicos, médicos, jornalistas, gente que poderia estar servindo à humanidade e ao seu país, segregada dos familiares e amigos, aviltada em sua dignidade pessoal e reduzida à humilhante escravidão, fazendo serviços braçais em campos de trabalhos forçados, nos inúmeros “gulags” espalhados pelo imenso território soviético, de dimensões continentais. 

Gorbachev, é verdade, pode não ter tido nenhuma responsabilidade nesses casos. Provavelmente, não tem. Mas conta com o poder de acabar com essa vergonhosa prática, vexatória e inconcebível num país que fez uma revolução para que jamais um camponês voltasse a ser tratado como propriedade dos outrora todo-poderosos senhores feudais.

Só que muitos desses mujiques, outrora objetos, hoje membros ilustres do partido único, fazem, atualmente, com 249 milhões de soviéticos, o mesmo contra o que arriscaram as suas vidas para se livrar. Submetem seu povo à pior das servidões, à de não poder pensar, de não ter direito a uma opinião própria e de sequer esboçar algo nesse sentido.

Se Mikhail Gorbachev concordar, num só desses pontos, com Reagan, estará dando um passo histórico. Obterá, certamente, concessões no tocante a desarmamento e muito mais. Estará criando uma base permanente de confiança para um diálogo profícuo. Se isso acontecer, a reunião de Reykjavik, mesmo que não redunde na assinatura de qualquer acordo, ficará nos registros políticos como o início de um processo de desarmamento mundial.   .

Mas se preferir encastelar-se em suas rígidas posições e não ceder em absolutamente nada, as superpotências estarão perdendo, provavelmente, a última oportunidade de garantir um futuro a salvo do maquiavélico “MAD” (Mútua Destruição Assegurada), chamado de “equilíbrio do medo”. Ambos têm, a partir de hoje, um grave compromisso com a história, com o futuro, com a humanidade e, principalmente, com a vida.

(Artigo publicado na página 9, Internacional, do Correio Popular em 11 de outubro de 1986).


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 
Fruto do acaso e de teimosia

Pedro J. Bondaczuk

O rock and roll já existia bem antes de 21 de março de 1955 – data adotada pelos historiadores como a do “nascimento” desse ritmo consagrado e de tanto sucesso, por causa da estréia do filme “Blackboard Jungle”, em que a composição “Rock Around the Clock”, de Bill Halley, aparecia como trilha sonora – embora não fosse conhecido por essa designação. Um ou outro músico (ou apresentador de rádio) usava, informalmente, esse nome ao se referir a esse tipo de música, que lembrava o som de pedras rolando ladeira abaixo, mas não havia consenso. O rock não era identificado, ainda, nem mesmo como novo ritmo. Uns tratavam-no como variação do “country”, outros, como um tipo de blues e outros, ainda, como tantas vertentes musicais, algumas que nem tinham e nunca tiveram nada a ver com ele.

É curioso como “Rock Around the Clock” acabou se tornando trilha sonora de “Blackboard Jungle”. Foi puramente por acaso. Sua inclusão não estava, originalmente, nos planos dos responsáveis por essa produção cinematográfica. Quem fez essa revelação foi o único ator latino-americano desse filme, o dominicano Rafael Campos, em entrevista telefônica que concedeu à agência de notícias UPI, do quarto do hospital Woodland Hills, na Califórnia, onde se recuperava de uma cirurgia para a remoção de um câncer no estômago. Ele foi entrevistado, na oportunidade, em 1985, quando a estréia de “Blackboard Jungle” completava trinta anos.

“Nós, quando filmamos, em 1954, não conhecíamos o disco de Bill Halley. Foi depois que acabamos de filmar que ocorreu ao diretor incluir o ‘Rock Around the Clock’ na trilha”, revelou Campos. E explicou como isso aconteceu: “Mr. Brooks dirigia, um dia, seu carro, quando ouviu no rádio essa composição. Ficou entusiasmado. Telefonou de imediato para a emissora para informar-se do que se tratava, sobre quem era o compositor, quais eram os cantores que o acompanhavam e coisas assim. Depois, adquiriu os direitos da composição e incluiu-a no filme. Deu no que deu”. Mas quem foi esse William John Clifton Halley, ou somente Bill Halley como ficou conhecido, de quem tanto falo e que subitamente foi alçado à fama e entrou para a história da música popular mundial? Bem, foi um músico (tocavas guitarra e baixo), cantor e compositor, nascido na cidade de Highland Park, Estado de Michigan, em 6 de julho de 1925, mas criado na Pensilvânia.

Criou seu primeiro grupo profissional em 1946. Era uma banda especializada em “country” (a “moda caipira” norte-americana, pode-se assim dizer), chamada Down Homers. Essa não fez muito sucesso e logo foi dissolvida. Bill Halley decidiu, então, seguir carreira solo. Gravou diversos discos “country” sem que nenhum chamasse em especial a atenção do meio musical. Enquanto isso, ganhava a vida como músico itinerante, atuando em shows, boates e em rodeios país afora. Em 1951, formou nova banda, “The Saddlemen” e o grupo decidiu criar repertório diferente do que tinha até então, com novos ritmos, mais exóticos, mais frenéticos, mais agitados. Gravou, então, versões de “Rocket 88” e “Rock this joint” de Jackie Brenston e Delta Cats.

A decisão foi das mais acertadas. A gravação vendeu relativamente bem, dando impulso à carreira de Halley e de sua nova banda. Seu primeiro grande sucesso, porém, foi a composição “Crazy man crazy”, gravada em 1952, o primeiro rock (alguns já chamavam o ritmo dessa forma) a entrar na parada de sucessos em âmbito nacional. Nesse mesmo ano, a banda “The Saddlemen” trocou de nome, adotando o atual, “The Comets”. Não estranhem. É atual mesmo. Apesar da morte de Bill Halley, em 9 de fevereiro de 1981, aos 55 anos, em Harlington, no Texas, o grupo existe até hoje e continua se apresentando ao redor do mundo. Seus integrantes estão na faixa etária dos 72 aos 85 anos, mas os “The Comets” parecem incansáveis, apresentando-se com o mesmo entusiasmo e vigor da juventude, em shows e mais shows, nas sucessivas turnês que realizam.

“Rock Around the Clock”, considerada a “certidão de nascimento” do rock, foi composta em 1953. O curioso é que a gravadora, inicialmente, recusou-se a gravá-la, sob pretexto de que não era “comercial”. Seu compositor, todavia, insistiu, insistiu e insistiu até que teve êxito. A composição foi gravada, mas apenas em 12 de abril de 1954. A princípio, não emplacou, dando razão à gravadora que não via nenhum futuro nela. Halley, contudo, não desistiu. E nem precisava dessa canção – ele já fazia estrondoso sucesso com outra composição sua, “Shake, Rattle and Roll”. Promoveu-a, todavia, junto aos programadores das emissoras de rádio, incluiu-a em todos os shows que fazia e... finalmente, deu no que deu. “Rock Around the Clock” tornou-se o hit dos hits dos roqueiros, integrou a trilha sonora do filme “Blackboard Jungle” e lançou, de vez, para a posteridade, o novo e exótico ritmo. Seu teimoso compositor é reverenciado graças, sobretudo, a essa composição, até hoje, por bilhões (e não é exagero meu, é por bilhões mesmo) de fãs nos Estados Unidos, Europa, Américas, Ásia e ao redor do Planeta. Além disso, integra o “Hall da Fama do Rock and Roll” desde 1987, seis anos após sua morte. Valeu ou não valeu a pena tanta insistência (ou teimosia)?


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk 

Friday, May 08, 2015

Não há limites para a imaginação dos bons escritores na escolha dos temas e na criação de cenários e personagens de suas histórias. Tanto podem abordar o que existe, enfocado, todavia, por ângulos inusitados, inesperados e originais, quanto o que nunca existiu, mas que poderia (pode?) existir. Ou, então, cuja existência nos pareça impossível (e talvez o seja), mas a que, com seu talento e inventividade, conferem verossimilhança. De fato, não há limites para a criatividade e, sobretudo, para a imaginação. Alguns escritores, por exemplo, retornam, se não ao princípio de tudo, pelo menos ao remotíssimo passado, quando o homem ainda habitava as cavernas, era rústico e selvagem e mal tomava consciência do que era, onde estava e se apercebia pela primeira vez que podia até se reproduzir, mas que era impotente para evitar a morte. Quão terrível deve ter sido ao primitivíssimo Homo Sapiens tomar consciência dessa realidade!


@@@@@@@@@@

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.  

O que comprar:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista).Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro.Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internetWWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livrariaEm qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País. 

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk        

Por um pacto social autêntico


Pedro J. Bondaczuk


O propalado pacto social que se busca obter (e deve ser conseguido, para o bem de todos nós) vem sendo chamado de forma inadequada. Na verdade, este, que está sendo negociado, é, meramente, de caráter econômico.

O País precisa, todavia, de um acordo nacional mais amplo para proteger, por exemplo, cerca de 36 milhões de crianças abandonadas ou carentes. E, principalmente, para evitar que cerca de sete milhões de meninos, meninas e adolescentes brasileiros continuem vivendo nas ruas, revolvendo lixeiras, esmolando ou trabalhando como vendedores ambulantes, quando não empregados por perversos traficantes de drogas, na qualidade de entregadores, ou explorados por calejados bandidos para a prática de pequenos delitos, como roubo de bolsas.

A Anistia Internacional acaba de divulgar um relatório chocante a esse respeito. E, dada a seriedade de postura dessa organização de defesa dos direitos humanos, com sede em Londres, não há porque duvidar de suas denúncias. Até porque elas são perfeitamente constatáveis. Basta que se abram bem os olhos e que se deixe um pouco de lado esse nosso individualismo pernicioso, que descamba para o puro egoísmo.

A entidade relatou que centenas de crianças vêm sendo assassinadas por esquadrões da morte em cidades brasileiras, sob a alegação dos bandos de extermínio de que estão cometendo esse hediondo crime para que “as ruas possam ficar limpas”. A sociedade é que precisa ficar limpa de elementos doentios, que se arrogam ao direito de vida e morte sobre seus semelhantes, à margem da ética e da lei.

Torna-se urgente, urgentíssima uma política consistente, que impeça que o País continue a jogar o seu futuro pelo ralo. Trata-se de uma tarefa que não pode mais esperar coisa alguma, nem vitórias sobre a inflação, nem que trabalhadores e empresários cheguem a eventuais entendimentos, nem o equacionamento da dívida externa (ou eterna?), nem coisa alguma.

Afinal, são vidas que estão em jogo. Para complicar, o tempo atua contra essas pessoas, absolutamente abandonadas e largadas ao Deus dará. O relatório da Anistia faz, em certo trecho, esta constatação, sumamente vexatória, ao afirmar, literalmente: “As crianças pobres no Brasil são tratadas com desprezo pelas autoridades e arriscam a vida pelo simples fato de sair às ruas”.

Que venha, pois, um genuíno pacto social, para não acontecer no País o que foi descrito pelo poeta francês, Leconte de Lisle, no poema “Sonhos Mortos”: “Mas o gênio, a esperança, a força, a mocidade/ei-los mortos na espuma e no sangue da luta”.        

(Artigo publicado na página 2, Opinião, do Correio Popular, em 7 de setembro de 1990)



Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk       
A certidão de nascimento do rock

Pedro J. Bondaczuk

O rock and roll, esse ritmo frenético que ainda mobiliza e apaixona bilhões de pessoas ao redor do mundo, sobretudo jovens (mas não somente eles), sofreu e vem sofrendo influências várias, de tantas outras vertentes musicais, e se transformando ao longo do tempo, posto que sem perder as características básicas da sua origem. É fruto do inconformismo de uma geração específica, a que era adolescente nos primeiros e complicados anos do pós-guerra, que encontrou nele uma maneira de expressar rebeldia, uma forma de protesto contra o “establishment” e os mandos e desmandos de um sistema oficial que resultaram na quase destruição da espécie com os conflitos bélicos de 1914-1918 e com seu conseqüente, o de 1939-1945. Simboliza todo um estilo de vida de uma juventude que, a despeito da imaturidade, exigia ser ouvida e acatada pelos mais velhos.

Quando o rock “nasceu” de fato, ganhou as ruas, conquistou o público, se expandiu e se consolidou? Há muita controvérsia a respeito. Alguns situam sua origem, ou pelo menos sua proto-história, nos anos finais da década de 40 do século XX e nos iniciais dos anos 50. Não precisam, todavia, uma data. Há quem diga que algo parecido com esse ritmo foi apresentado pela primeira vez em 1910. Se de fato foi, não teve continuidade e muito menos registro. É verdade que na época praticamente inexistiam os meios de gravação de sons e imagens que hoje temos. O cinema mal engatinhava e ainda era mudo. Televisão? Nem pensar! E a indústria fonográfica sequer estava em cogitação. O que se pode identificar, com certeza, são as influências que o rock sofreu: do blues, da música country, do rhytm and blues, do folk, do jazz e até da música clássica. Toda essa “salada rítmica” combinou-se resultando em uma estrutura simples, que era “rápida, dançável e pegajosa”, conforme caracterização da publicação especializada “All Music Guide”.

Mas é possível determinar uma data específica do  “nascimento” do rock? Entendo que sim. E esta é o dia 21 de março de 1955. E qual a razão disso? É que nessa ocasião se ouviu, pela primeira vez, uma execução de rock tendo o grande público por testemunha. Bill Halley e seu conjunto (“The Comets”) cantaram “Rock Around the Clock”, que é considerada, pela maioria dos historiadores de música popular, como a inequívoca “certidão de nascimento” do novo ritmo. E este, desde então, não tardaria em se transformar, também, em vigoroso movimento da contracultura, espalhando-se, primeiro, por todo o território norte-americano e, posteriormente, para o resto do mundo. Há, admito, intensa polêmica a propósito dessa origem. Mas ninguém conseguiu documentar outra data se não esta.

Dessa forma, portanto, em 21 de março de 2015, vão se completar, oficialmente, 60 anos do nascimento do rock. Bill Halley e “The Comets” cantaram “Rock Around the Clock” no filme “Blasckboard Jungle”, cuja trilha sonora ficou a seu cargo, exibido pela primeira vez nessa data. Tratou-se de produção (que no Brasil recebeu o título de “Sementes da Violência”) dirigida e roteirizada por Richard Brooks. Contou, no seu elenco, com Glen Ford, Anne Francis, Louis Calhern, Margareth Hayes, John Hoyt, Richard Kiley, Emille Meyer, Warner Anderson, Basil Ruysdael, Sidney Poitier, Vic Morrow, Dan Terranova, Paul Mazursky, Horace MacMahon e o ator dominicano Rafael Campos. Quando o filme (e, por conseqüência, o rock) completou 30 anos da sua estréia, ou seja, em 1985, escrevi longa matéria a respeito, publicada no jornal Correio Popular de Campinas, na edição de 4 de abril daquele ano.

No texto, destaquei, com ênfase especial, a entrevista concedida à agência United Press International (UPI) pelo único ator de fala hispânica dessa histórica produção, o dominicano Rafael Campos. Na ocasião, ele estava internado no hospital de Woodland Hills, na Califórnia, refazendo-se de uma cirurgia para a retirada de um tumor maligno no estômago. Quando o filme foi rodado, ele tinha, somente, 18 anos de idade. Protagonizou o personagem Pete Morales, adolescente de fala espanhola de um bairro de Nova York. Era um dos estudantes rebeldes do enredo, que fizeram o professor, protagonizado por Glen Ford, passar maus bocados. “Eu me sinto muito orgulhoso de ter tomado parte nessa histórica produção”, declarou Campos à UPI, em 1985, na entrevista telefônica que então deu, de seu apartamento no hospital em que estavas internado.

O ator dominicano – que morreu em 9 de julho de 2010, muito popular nas décadas de 50, 60 e 70 e que hoje está esquecido até mesmo em sua terra natal – lembrou que o beatle John Lennon disse, várias vezes, que o filme “Blackboard Jungle” o havia inspirado para se dedicar ao rock. “É irônico que eu tenha começado minha carreira artística com o diretor Richard Brooks e que, justamente, com ele tenha feito o último trabalho, ‘The fever’, antes de ficar doente”, observou. Campos morreu, 25 anos depois, justamente por causa do câncer de estômago que havia retirado em 1985, mas que voltou tempos depois.

“Elvis Presley também foi influenciado por ‘Blacboard Jungle’, conforme me disse depois que nos tornamos amigos”, acrescentou o ator dominicano na citada entrevista à UPI. E depois de “Rock Around the Clock”, que para os entendidos (que não é o meu caso) foi uma mescla de blues e do country (em voga nos Estados Unidos, nas décadas de 40, 50 e 60), este novo gênero musical se impôs firmemente nas paradas de sucesso. Seus responsáveis foram vários cantores. Entre estes, destacaram-se, especialmente, Chuck Berry (Maybelline”) e Elvis Presley (“Baby Lets Play the House”). Esta é uma história polêmica que merece ser melhor contada, o que me proponho a fazer, embora, reitero, não seja, propriamente, nenhum roqueiro.


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk