Sunday, August 04, 2013

Eufemismos e estereótipos

Pedro J. Bondaczuk


Os homens que ocupam o poder, em qualquer de suas instâncias, seja em que parte do mundo (ou em que época) for, via de regra, salvo raras exceções, lançam mão, em seus contatos com as pessoas sobre as quais exercem domínio – caracterizadas genericamente como "povo" –, de eufemismos e de estereótipos para "explicar", ou no mais das vezes "justificar", ações (ou omissões). Acabam, por conseqüência, não explicando e nem justificando nada. Certamente não é essa sua verdadeira intenção.

Alguns jargões utilizados já se tornaram até motivos de anedota entre os politicamente esclarecidos (minoria em termos mundiais e mais ainda no Brasil), de tão cínicos que são. Tal manifestação de esperteza seria, de fato, risível, não fosse lamentável, por se tratar de uma forma de burla, de fuga à responsabilidade da prestação de contas àqueles que esses poderosos (teoricamente) representam.

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define assim o termo "eufemismo", em seu popular dicionário da língua portuguesa: "sm. Ato de suavizar a expressão duma idéia substituindo a palavra própria por outra mais polida". Já estereótipo é uma expressão emprestada das artes gráficas e usada como metáfora para clichê, para chavão, para a maneira geralmente distorcida e inalterável de caracterizar pessoas, grupos, objetos, conceitos etc.

Estereotipia, de acordo com o dicionarista, é o "processo pelo qual se duplica uma composição tipográfica, transformando-a em fôrma compacta, mediante moldagem de uma matriz sobre a qual se vaza metal-tipo".  O jornalista Jânio de Freitas, em artigo publicado na "Folha de S. Paulo" no dia 23 de novembro de 1998, intitulado "País Submergente", alinha alguns eufemismos muito comuns, utilizados, sem nenhuma parcimônia, especialmente por economistas e sociólogos.

O articulista cita, por exemplo, que a caracterização (até pouco tempo atrás muito em voga) para país pobre, atrasado e/ou mal administrado, ou seja, "subdesenvolvido", foi substituída  pelo termo "emergente". Mas o Brasil não "emergiu" do buraco onde está metido há quase cinco séculos. Pode estar a caminho de fazê-lo (e na minha opinião, está), mas ainda permanece “submerso”, se atentarmos para o seu potencial. Destaque-se que está nessa situação não por ausência de recursos naturais e de material humano, mas por falta de verdadeira consciência social, que não privilegie pessoas ou grupos, mas proporcione oportunidades relativamente iguais para todos.

O conceito de cidadania no Brasil (se é que de fato existe) está muito longe do real significado. Não passa de retórica, face à realidade cruel com a qual convivemos da infância à velhice e que por isso já nos acostumamos. Se "país emergente" é um eufemismo, o mito do "brasileiro cordial" é estereótipo. Nenhum dos dois condiz com a realidade dos fatos. Não, pelo menos, de toda ela.

O sociólogo alemão Ralf Dahrendorf, em discurso que proferiu em 20 de outubro de 1990 no Saint Anthony's  College, em Oxford, Inglaterra, na cerimônia de entrega do Prêmio Toynbee (texto inserido em seu livro "Após 1989 – Moral, Revolução e Sociedade Civil"), destacou: "...A cidadania visa a dar a pessoas que são diferentes em idade e sexo, em suas crenças e na cor de sua pele, em seus interesses sociais e em suas preferências políticas, os mesmos direitos básicos. Esses direitos incluem o que veio a ser denominado de direitos humanos, como a integridade da pessoa e a liberdade de expressão; eles incluem também os direitos civis de participação na comunidade política, no mercado de trabalho, na sociedade, incluindo também o direito de seguir as próprias preferências culturais".

Por essa conceituação, se pode dizer, mesmo "forçando a barra", que a maioria dos brasileiros exerce minimamente a cidadania? Claro que não! E as esperanças de mudança estão se exaurindo. O "passaporte" para a liberdade – a educação – ainda é muito precário no Brasil (uma parcela considerável da população não tem acesso a ele) e requer ajustes. Verdade seja dita que, nesse aspecto, houve ligeira evolução nos quatro últimos governos: o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os dois mandatos de Luís Inácio Lula da Silva e a atual gestão de Dilma Roussef. Mas há ainda longo, longuíssimo caminho, de se perder de vista, a percorrer.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) classificou, há quinze anos, o ensino brasileiro como um dos mais deficientes do mundo. E ele já foi pior, conforme frisei em várias oportunidades! Mas para poder ser considerado pelo menos “regular”, terá que evoluir muito, mas muito mesmo. Progredimos nesse campo, mas o progresso foi muito pequeno, diria irrisório, diante das necessidades e do tempo que já foi perdido.

Mas o subdesenvolvimento brasileiro, ao contrário da maioria dos outros povos da África, Ásia e América Latina, não decorre da falta de riquezas naturais ou das geradas com o trabalho da sua população. O País ostenta ora a quinta, ora a sexta maior economia do mundo, o que, convenhamos, não é pouco. No papel, a renda per capita anual (crescente) não é nada desprezível se, na realidade, fosse corretamente distribuída. Qualquer pessoa minimamente bem informada sabe que não é. Os números relativos à renda per capita do brasileiro são mentirosos. Oitenta por cento dos cerca de 200 milhões de brasileiros – que ou não têm nenhum rendimento, ou sobrevivem (ou vegetam) com entre meio e um salário mínimo mensal –, só podem rir desses dados estatísticos, longe de condizerem com sua verdadeira condição de quase indigência.

O pecado do Brasil, portanto, reside (reitero) na "repartição do bolo", prometida por sucessivos governos – quer ditatoriais, quer os livremente eleitos pelo voto – mas jamais cumprida. Não, pelo menos, de forma sistemática e contínua. Nesse aspecto, o da distribuição de renda, estatísticas precisas, de entidades internacionais confiáveis, demonstram, de sobejo, que somos a sociedade nacional mais injusta do Planeta (ou pelo menos entre elas). O fosso que divide ricos de miseráveis, apesar de se estreitar, ainda é muito profundo.

O Brasil, portanto, ainda não emergiu, a despeito dos progressos sociais que obteve que apenas impediram que a situação se agravasse. Outro eufemismo muito difundido é o de caracterizar o "retrocesso econômico" como sendo "crescimento negativo", evidente paradoxo, gritante contradição até mesmo semântica. "Favela" mudou de nome e é freqüentemente denominada pela tecnoburocracia de plantão de "assentamento urbano de baixa renda", como se a elegância da expressão apagasse, ou pelo menos atenuasse, a miserabilidade dessa forma subumana de "morar" (ou de se "esconder").

Em política, "infidelidade" para com partidos, aliados e principalmente com eleitores; "oportunismo" e "egoísmo" transformaram-se em "fisiologismo". O miserável e excluído, vítima do "apartheid" social que atinge a dois terços dos mais de sete bilhões de habitantes do Planeta, é chamado de "carente" (e põe carência nisso!). "Mão de obra ociosa" é o conjunto dos "desempregados".

O diplomata Josué de Castro, no livro "Geografia da Fome", advertiu que "dois terços da humanidade não comem e um terço não dorme com medo da revolta daqueles que não comem", que é fatal, mera questão de tempo e do grau de desespero desses famintos. A todo o instante, nos discursos e declarações de políticos, ou nos artigos e ensaios de economistas, cientistas políticos e sociólogos, topamos com desnecessários e cínicos eufemismos e estereótipos. São tantos que se torna redundante e, portanto, desnecessário, relacionar e repetir sequer os mais comuns.

Um deles, além do que diz respeito à suposta "cordialidade" do brasileiro (desmentida pelos crescentes e assustadores índices de violência e criminalidade), é o do "país do futuro" (infelizmente "deitado eternamente em berço esplêndido"). Outro desses estereótipos é o da "alegria" espontânea do povo. Outro, ainda, é a afirmação de que o Brasil "fatalmente se tornará superpotência" um dia. Neste último caso, até pode ser, já que dispõe de potencial para isso. Mas quando?

Para acontecer, será necessário vencer desafios imensos, nos campos da educação (principalmente), da saúde pública (em petição de miséria), da habitação (que apresenta déficits escandalosos), do bem-estar social e da distribuição de renda, entre outros. Não serão eufemismos e estereótipos que irão mudar a situação do brasileiro. O saudoso presidente eleito (e nunca empossado) Tancredo Neves destacou, em discurso proferido em 1985, que "enquanto houver nesse país um só homem sem trabalho, sem pão, sem teto e sem letras, toda a prosperidade será falsa". Quanto tempo ainda vai levar para que haja consciência consensual sobre essa cristalina realidade? Um ano? Os quatro da gestão da presidente Dilma Roussef? Cinco anos? Dez? Cinqüenta? Cem? Nunca?... Todas essas possibilidades, em maior ou menor grau, permanecem em aberto.


 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

Saturday, August 03, 2013

O otimismo é fundamental para uma vida de alto nível espiritual e de múltiplas satisfações. Muita coisa que consideramos nociva é apenas questão de ponto de vista, de mera interpretação. Esconde, em suas entranhas, satisfações insuspeitadas que só encontramos se as procurarmos de fato. Li, recentemente, um texto, de autor desconhecido, atribuído à sabedoria popular, que expressa, a caráter, o que quero dizer. Diz: “Há pessoas que choram por saberem que as rosas têm espinhos; outras há que sorriem por saberem que os espinhos têm rosas”. As primeiras são pessimistas, amargas e infelizes, que somente vêem as sombras, sem atentarem para a luz que as tornam possíveis. As segundas são positivas, agradáveis e felizes, que sabem transformar os azedos limões que lhes atiram em refrescantes e saborosas limonadas.


@@@@@@@@@@@@@

Presente do Dia dos Pais

Dê ao seu amigão o melhor dos presentes neste Fia dos Pais: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas nessa data. Mas em todos ops dias do ano, por anos e anos a fio.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet – WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria – Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk   

Redemocratização por etapas

Pedro J. Bondaczuk

O Haiti, às duras penas, avança em seu processo rumo à normalidade democrática. O primeiro e decisivo passo foi dado em fevereiro passado, quando a população, cansada de ser espezinhada, aterrorizada, humilhada e explorada, rebelou-se, em todo o país, e criou uma situação, de tal forma crítica, que determinou a fuga de Jean-Claude Duvalier, pondo fim ao terrível reinado, de um quarto de século de duração, de Papa Doc e de seu herdeiro, o Baby Doc.

Houve, a princípio, uma certa excitação nos meios políticos desse país insular, no sentido de se exigir eleições presidenciais imediatas após a saída do presidente, rumo a um confortável e nababesco exílio na Riviera Francesa. Opositores que viviam exilados encararam com desconfiança a mudança de comando, com a ascensão de uma junta civil-militar para gerir, provisoriamente, a vida nacional. Alguns chegaram a argumentar, não sem uma forte dose de precipitação, que se estava substituindo uma ditadura por outra.

O tenente-general Henry Namphy, a quem coube a tarefa de governo, num pronunciamento público que fez, em março passado, em Port-au-Prince, definiu, com clareza, o calendário do processo de normalização democrática do Haiti. Prometeu, primeiro, uma eleição para a escolha de uma Assembléia Nacional Constituinte.

A Constituição que existia, de tão viciosa e dirigida que era, foi, simplesmente, abolida e o país passou a ser regido por uma carta provisória. Era evidente que, sem uma lei maior para reger o Estado, uma convocação às urnas, para eleger um presidente, seria uma atitude prematura e tenderia, somente, a criar problemas mais sérios no futuro.

Para um país que teve todas as instituições virtualmente deturpadas e bombardeadas por 25 anos de arbítrio (foi a mais terrível e hedionda ditadura que se tem notícia nas três Américas, onde o caudilhismo, infelizmente, ainda é uma praxe), era indispensável que se fizesse uma reorganização por etapas do Estado.

Hoje, finalmente, os haitianos poderão sentir o prazer de manifestar sua cidadania nas urnas. Pelas notícias procedentes da ilha, acredita-se numa votação ordeira e livre, isenta das mazelas que marcaram este tipo de consulta popular em um passado ainda recente e que transformaram a palavra “eleição” em sinônimo de farsa e de corrupção.

Dado este primeiro passo, e redigida a nova Constituição, o Haiti terá todas as condições de, enfim, eleger um presidente civil. O tenente-general Henry Namphy comprometeu-se em realizar esse processo em novembro do próximo ano. Face ao cumprimento da primeira parte do compromisso que assumiu com a população, não há porque duvidar que a segunda etapa também serás desenvolvida com a mesma lisura.

Aliás, este oficial jamais escondeu de ninguém o fato de que não deseja continuar no poder. Assegurou que assumiu a função mais como missão militar, que considera a mais relevante da sua carreira. Os que privam da sua intimidade garantem que o tenente-general estaria contando, nos dedos, os dias que faltam para chegar fevereiro de 1988, quando reitera que pretende dar posse a um presidente eleito. E, ademais, se fosse sua intenção manter-se encastelado na presidência, não teria o menor sentido convocar as eleições de hoje.

Não haveria a necessidade de entregar ao povo o Poder Constituinte. Bastaria que agisse como todos os caudilhos. Ou seja, que ordenasse a alguns juristas afeitos a orbitar à sombra do poder para que rabiscassem algumas das tantas aberrações jurídicas, geralmente apelidadas de “revolucionárias”, que se redigem por aí, que faria as vezes de uma Constituição. E que prosseguisse comandando o Haiti a ferro e fogo, como seus dois antecessores o fizeram, se valendo do terror semeado pela implacável polícia secreta da ditadura, a “Tonton Macoute”.

Namphy, ao colocar em andamento o processo de normalização democrática, além de bom-senso, demonstra ser um patriota. E é disso que o Haiti tanto precisa, após ter sido, por tanto tempo, mero feudo pessoal de uma única e tirânica família. Que assim seja!!!

(Artigo publicado na página 17, Internacional, do Correio Popular, em 19 de outubro de 1986).


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk      
Charles Dickens e a exploração do trabalho infantil

Pedro J. Bondaczuk

O escritor inglês, Charles Dickens, um dos recordistas de vendas de livros de todos os tempos, construiu sua magnífica obra literária denunciando, sobretudo, as péssimas relações sociais do seu país, a Inglaterra, no século XIX. Valeu-se, para tanto, de sua experiência pessoal, do drama da sua família, que chegou a ser presa e aviltada por causa de dívidas. Vingou-se, todavia, fazendo boa literatura. Daí sua fantástica aceitação até hoje.

Parte considerável de seus personagens era de crianças e adolescentes, das classes menos favorecidas, explorados de maneira consistente e persistente por alguns espertalhões, que se valiam de sua ingenuidade, inexperiência e abandono para lucrar com seu trabalho,  sem que tivessem maneiras de se defender. É difícil, se não impossível, ler os romances desse autor sem se revoltar com o cinismo e o maucaratismo de adultos em todos os tipos imagináveis de exploração de menores de idade.

Há, até mesmo, quem considere que Dickens carregou nas tintas e descreveu tipos e situações inverossímeis, tamanha a crueldade a que as crianças (muitas das quais órfãs e criadas em orfanatos que apenas serviam de fachada aos exploradores) eram submetidas em suas histórias. Entendo que quem pensa assim e interpreta dessa maneira os enredos do eminente romancista seja, no mínimo, o alienado dos alienados, incapaz de enxergar um palmo adiante do nariz. Há muita gente assim, creiam-me, em quantidade muito maior do que ousamos desconfiar.

A exploração do trabalho infantil não era pecado exclusivo da sociedade inglesa da Era Vitoriana e está muito distante de ser coisa do passado no mundo. Inclusive no Brasil, onde é considerado crime, mas que raramente é punido. Desconheço casos de punição, embora conheça dezenas de episódios em que esse delito foi e continua sendo cometido. Remexendo em papéis velhos de meus arquivos jornalísticos, por exemplo, encontrei um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), datado de 1990 (há 23 anos, portanto), trazendo dados contundentes a respeito.  

As estatísticas, na frieza dos números que apresentam, é verdade, nem sempre levam as pessoas a refletir em seu real significado. Poderiam e deveriam levar, e não apenas à reflexão, mas a ações positivas para corrigir distorções. Mas... infelizmente não levam. Por exemplo, no referido relato do IBGE fiquei sabendo que na ocasião (reitero, há 23 anos) mais de 30% das crianças brasileiras, na faixa dos dez aos 17 anos, trabalhavam. O bom senso diz que deveriam era estar estudando.

Há, certamente, os que dirão que isso se trata de algo positivo e até desejável, já que o trabalho enobrece e quanto mais cedo se começar, maiores chances se terá de fazer o que seja útil, construtivo e permanente. Essa posição fica ainda mais sólida quando constatamos no noticiário cotidiano vários casos de crianças e adolescentes cometendo toda a sorte de delitos, como roubos, furtos, tráfico de drogas e principalmente assassinatos (há casos de menores, na faixa dos doze a catorze anos, se não menos, com no mínimo meia dúzia de homicídios em seus “currículos” da marginalia).  Mas a coisa não é bem assim. Um erro nunca justifica outro.

Como já dizia Eclesiastes, "há tempo certo para tudo". É a miséria que está ditando o futuro desses menores (como era a dos personagens de Dickens), fadados a exercer tarefas secundárias, mal remuneradas e que num prazo não muito distante, serão substituídas, inclusive, por robôs, por serem insalubres e perigosas, dada sua falta de preparo. Na ocasião, o IBGE apurou que eram 7,44 milhões de meninos e meninas que haviam entrado no jogo da vida com cartas marcadas. Que por absoluta carência de suas famílias, eram forçados a batalhar por nada mais do que a simples sobrevivência física, sem qualquer chance de realização pessoal enquanto seres humanos, destinados a uma existência carregada de frustrações, rancores e mágoas.

O estudo do IBGE apontava claramente que os menores eram obrigados a trabalhar porque viviam em famílias com renda mensal inferior a dois salários mínimos (teto esse que na época era muitíssimo menor do que atualmente). Ou seja, eram vítimas de planos mirabolantes de tecnocratas que ao longo de nossa história só conseguiram nos enredar em dívidas, num processo maquiavélico de concentração de renda e de antidemocracia.

É voz corrente por aí que a miséria é assunto predileto dos intelectuais, que nada sugerem para pôr fim a ela. Mas seria realmente assim? As soluções, se não são mencionadas, é porque são claras demais, óbvias demais, simples demais para serem postas em prática. Basta que se tenha uma visão profunda, um sentido aguçado de nacionalidade.  Parte da culpa desse quadro desolador, do fato de 14% das crianças em idade escolar, 3,6 milhões delas, estarem fora das escolas, cabia à sociedade, que aceitou e até incentivou ditaduras no País. Porque, como observou o pensador Reinhold Niebuhr, "a capacidade de justiça do homem torna a democracia possível, mas a inclinação do homem para a injustiça torna a democracia necessária".

Bem, o estudo a que me referi data de 23 anos. Depois disso, muita água rolou debaixo da ponte, foram criados diversos mecanismos sociais de proteção à infância, principalmente o “Bolsa Família”, condenado por muitos (pelos que não precisam dele, claro, pois pimenta nos olhos dos outros é colírio, como diz o povão) que se não deram fim a essa distorção, pelo menos impediram que ela se ampliasse. As coisas, nesse aspecto, não há como negar, melhoraram. Mas a exploração do trabalho infantil (que é crime, conforme a legislação vigente) deixou de existir? E nos casos em que eventualmente existam, os infratores são punidos? Ora, ora, ora. Achar que sim é mega-ingenuidade.

Revirando ainda mais meus arquivos, encontrei outro estudo, do mesmíssimo IBGE, mas feito 19 anos depois do que citei antes, ou seja, realizado em 2009. E qual foi a constatação? Não há mais exploração de mão de obra infantil no País (sempre lembrando que a prática é crime conforme nossa legislação)? Todos os brasileirinhos e brasileirinhas, até 16 anos de idade, estão na escola como preceitua a lei? Antes estivessem!

Esse novo estudo conclui que a prática ainda é comum em pelo menos onze setores da economia brasileira! Não é um e nem são dois: são ONZE!!! Essa pesquisa é mais abrangente e, baseada em relatório do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, conclui que 122 produtos são elaborados, em 58 países do mundo, com a utilização massiva (quando não única) de mão de obra infantil. O que mais me chateou nesse estudo foi saber que, em número de casos apurados, o Brasil ocupa a terceira posição, empatado com Bangladesh e abaixo, somente, da Índia e de Mianmar. Pois é, 19 anos depois e após tantos novos (e para mim providenciais) programas sociais, a prática de exploração de crianças em nosso país continuava mais ativa do que nunca. E desconfio que continue e talvez tenha até aumentado, embora não possa provar.

Charles Dickens, criador de personagens sofridos e hiper-explorados, como Oliver Twist, David Copperfield, Nicholas Nickleby e Philip Pirrip, por exemplo, caso vivesse nesta segunda década do século XXI no Brasil, teria campo fertilíssimo para a criação de centenas, milhares, milhões de tantos outros tipos, tão ou mais ofendidos e humilhados do que aqueles que criou. E nem precisaria recorrer à imaginação. Bastaria se limitar a descrever os meninos e meninas pobres com os quais se deparasse, sem nenhuma necessidade de carregar nas tintas. E há ainda quem ache que o romancista inglês exagerou e criou personagens inverossímeis! Seria alienação, burrice ou só maldade de quem pensa assim? Não consigo chegar a nenhuma conclusão.


 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

Friday, August 02, 2013

A palavra “viver” justifica, plenamente, sua condição de verbo. Caracteriza “ação” e não apenas uma e única, mas inúmeras, em quantidade quase infinita. Traz, implícita, dezenas de outros verbos vinculados, como amar, sofrer, sorrir, chorar, lutar, vencer e tantos e tantos outros. Há, todavia, pessoas que virtualmente não vivem, mas se limitam a “existir”. Fogem dos sentimentos, economizam ações e se julgam merecedoras apenas de vantagens e de proteção, sem que façam nada para justificar esse suposto merecimento. A esse propósito, Oscar Wilde fez essa constatação lapidar: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. Vivamos, pois, plenamente, com alegria e bom-humor. Sejamos confiantes e não tenhamos medo de nos expor ao que possa, eventualmente, nos ferir ou magoar. Não nos conformemos a meramente existir, como as pedras, as águas, os abismos e os montes. Sejamos, sobretudo, humanos.


@@@@@@@@@@@@

Presente do Dia dos Pais

Dê ao seu amigão o melhor dos presentes neste Fia dos Pais: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas nessa data. Mas em todos ops dias do ano, por anos e anos a fio.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet – WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria – Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk
Procura-se uma estrela

Pedro J. Bondaczuk

Eu perdi uma estrela
pequena, brilhante e azul...

Ontem, quando dialogava
com a lua, gorda matrona,
 vi uma estrela
que em tudo era a minha,
mas não era a minha!

Saí, pressuroso, alegre,
intentando possuí-la.
Mas aquela
não era a minha estrela!

Lancei um anúncio ao vento:
"Procura-se uma estrela
pequena, azul e serena"

Não achei minha estrela.

Tentei adotar outra estrela
que tinha tudo da minha
mas que não era minha estrela.

Intento vão!
Essa estrela pertencia
a um astrônomo inglês,
russo, americano ou francês,
sei lá!!

Devia existir uma lei,
um direito inalienável
de só os poetas poderem
adotar estrelas.

Estou triste!
Procuro a minha estrela
pequena, brilhante e azul.



(Poema composto em Campinas, em 29 de agosto de 1968 e  publicado no jornal "O Município" de São João da Boa Vista, em 24 de janeiro de 1970).

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

Crise, mudança, liderança e demagogia


Pedro J. Bondaczuk


As palavras crise e mudança, certamente, estão entre as mais utilizadas por todos os povos no decorrer da História, pelo menos da escrita. Problemas econômicos, de diversas naturezas e intensidades, foram causas de grandes conflitos, de imensas injustiças e de uma fartura infindável de retórica e de demagogia milênios afora.

Basta que uma determinada sociedade nacional revele incompetência para produzir e distribuir os bens que sua população necessita, ou os que possam ser trocados por elas com outros povos, para que surjam os charlatães que posam de salvadores da pátria. Aparecem, por sinal, sempre com a mesma conversa, não importa em que lugar ou em qual idioma.

Atacam, via de regra, a febre, nunca a infecção. Atuam sobre as conseqüências, jamais sobre as causas dos desequilíbrios econômicos. Pura irracionalidade!

A retórica dos poderosos, quando os governantes (boa parte deles) têm que dar satisfações aos governados, é invariável. Apela-se aos cidadãos para que “apertem os cintos”, mesmo que estes não tenham mais nenhum furo para apertar.

Esses magos das finanças juram, solenemente, que os mais humildes não serão afetados. A prática (dos sucessivos planos de reforma econômica conhecidos, dêem certo ou não) mostra, exatamente, o contrário. Os que pouco, ou nada, têm, invariavelmente são os que pagam a conta.

Decisões adotadas friamente, em confortáveis e luxuosos gabinetes, alteram a vida (na esmagadora maioria das vezes para pior) de milhões de seres humanos, que até então só conheceu sacrifícios e privações de toda a sorte, sem que essas pessoas pudessem e nem possam fazer qualquer coisa para evitar. São tratadas como rebanho, como massa, quando não como meros dados estatísticos, passivos de manipulação.

As sociedades democráticas contemporâneas têm discutido, cada vez mais, sobre se uma democracia autêntica comporta ou não lideranças fortes. Há os que temem líderes carismáticos, por causa de uma certa tendência que eles revelam para o culto à personalidade, que em geral descamba para a ditadura.

Mas o problema precisa ser, igualmente, dividido com os liderados. Estes têm que ter tirocínio para não se deixarem conduzir por qualquer megalomaníaco que fale bem, exponha com razoável clareza e lógica planos evidentemente mirabolantes (e, portanto, inexeqüíveis) e que, sobretudo, assumam postura de "salvadores da pátria".

O historiador norte-americano Arthur M. Schlesinger Jr. constatou: "A liderança pode modificar a história para melhor ou para pior. São os líderes os responsáveis pelos crimes mais horríveis e as loucuras mais extravagantes que desgraçaram a raça humana. Mas a eles também se credita terem induzido a humanidade a lutar pela liberdade individual, a justiça social e a tolerância religiosa e racial". Um corpo é absolutamente incapaz de sobreviver sem uma cabeça. O mesmo vale para uma sociedade acéfala. Ela acaba por se desagregar.

Mikhail Gorbachev e Saddam Hussein foram, ambos, líderes. Mas é possível igualar os dois, em suas respectivas atuações? Vaclav Havel e Muammar Khadafy também foram, assim como Adolf Hitler e Mohandas Karamanchand Gandhi. Mas as diferenças saltam à vista, sem que seja preciso lembrar a história para se fazer a diferenciação.

Nas democracias, as lideranças não se impõem através de golpes, conchavos, massacres, torturas e prisões em massa. Os líderes precisam mostrar clarividência e competir com outros que tenham a mesma aptidão. Submetem-se à escolha popular, correndo o risco de serem preteridos, através de indispensáveis mecanismos de voto, que entre nós boa parte dos cidadãos ainda não entendeu a relevância.

O pensador norte-americano Ralph Waldo Emerson explicou a razão de precisarmos de pessoas íntegras, de pulso forte e coração compassivo, que nos conduzam. Escreveu: "Nós nos nutrimos de gênio. Os grandes homens existem para que existam homens maiores".

Os liderados precisam desenvolver uma aptidão especial para identificar corretamente seu líder. Numa democracia, os erros podem ser corrigidos pelo exercício periódico do voto. Numa tirania, não. Alexis de Tocqueville alertou para esses riscos ao afirmar: "Uma democracia só pode obter a verdade como resultado da experiência; e muitas nações podem perecer enquanto aguardam as conseqüências do seu erro".

As invariáveis “recessões purgativas”, por exemplo, para deter processos inflacionários agudos e descontrolados, deflagrados por ações incompetentes de governos ineficazes (afinal, são eles que emitem moedas), determinam a perda de emprego – do seu ganha pão – de inúmeros pais de família, que já auferiam rendas irrisórias.

Seria interessante e, sobretudo, esclarecedor que se fizesse um levantamento honesto e criterioso para saber quantos países elaboram, ou estudam implantar, planos de ajuste econômico. Gregos, espanhóis, portugueses, irlandeses, italianos e cipriotas estão às voltas, atualmente, com medidas restritivas que vêm gerando desemprego em massa, descontentamento popular, protestos e violência. As medidas darão certo? Há segurança a propósito? Claro que não! E refiro-me, aqui, a democracias. Imaginem tudo isso em uma ditadura onde a mais inocente manifestação de descontentamento pode resultar na prisão, se não em coisa muito pior, para o infeliz que ousar agir assim.

Algo, portanto, está errado, muito errado, na própria forma do homem dito civilizado viver. O pior é que, na maioria dos países em dificuldades (entre 70% a 80% da comunidade mundial), os mais competentes, esforçados e capazes, em vez de serem premiados por suas virtudes, são, na verdade, penalizados.

Não é raro, nessas sociedades, se ver médicos, engenheiros, advogados e outros profissionais liberais de primeira classe exercendo funções muito aquém daquelas para as quais se prepararam e foram treinados a executar. E chamam isso de “democracia”. Aliás, essa palavra encobre uma série de tiranias e arremedos de liberdade mundo afora. São raros os ditadores (se é que existem) que admitem que o regime que encabeçam se trate de ditadura. Juram, por todas as juras, que se trate de “democracia”.  Conclui-se, daí, que embora mudem o cenário e os personagens, o enredo básico da história sempre tende a ter uma absurda e monótona repetição. É mais do mesmo e com idênticos resultados.


Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk

Thursday, August 01, 2013

O medo constitui-se numa faca de dois gumes. É um mecanismo instintivo de que a natureza nos dotou para fugirmos do perigo. Desde que lógico e racional, nos protege e evita que venhamos a nos ferir ou, até mesmo, a sermos mortos. Quem nada teme é insensato e irracional. Mas existe um medo que é nocivo e sumamente danoso. É o de tentar fazer aquilo para o que estamos habilitados, mas que, por falta de confiança ou de convicção, ou de fé, ou de vontade, relutamos em tentar e acabamos por desistir das grandes realizações. Este tipo de medo é sempre pernicioso e tem que ser combatido, com todas as nossas forças. A esse propósito, aliás, Ruth Renkel observou com muita pertinência: “Não há razão para termos medo das sombras. Apenas indicam que em algum lugar próximo brilha a luz”. E não é verdade?! Confiança, pois, é a palavra-chave para o sucesso. E, claro, acompanhada de competência, vontade, talento, constância.

@@@@@@@@@@@@

Presente do Dia dos Pais

Dê ao seu amigão o melhor dos presentes neste Fia dos Pais: presenteie com livros. Dessa forma, você será lembrado não apenas nessa data. Mas em todos ops dias do ano, por anos e anos a fio.

Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br

Com o que presentear:

Cronos e Narciso (crônicas, Editora Barauna, 110 páginas) – “Nessa época do eterno presente, em que tudo é reduzido à exaustão dos momentos, este livro de Pedro J. Bondaczuk reaviva a fome de transcendência! (Nei Duclós, escritor e jornalista). – Preço: R$ 23,90.

Lance fatal (contos, Editora Barauna, 73 páginas) – Um lance, uma única e solitária jogada, pode decidir uma partida e até um campeonato, uma Copa do Mundo. Assim como no jogo – seja de futebol ou de qualquer outro esporte – uma determinada ação, dependendo das circunstâncias, decide uma vida. Esta é a mensagem implícita nos quatro instigantes contos de Pedro J. Bondaczuk neste pequeno grande livro. – Preço: R$ 20,90.

Como comprar:

Pela internet – WWW.editorabarauna.com.br – Acessar o link “Como comprar” e seguir as instruções.
Em livraria – Em qualquer loja da rede de livrarias Cultura espalhadas pelo País.        

Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk..
Ponto e contraponto


Pedro J. Bondaczuk

A trágica morte da princesa Diana, em um acidente de carro no Túnel das Almas, em Paris, levanta uma questão há muito debatida e a cuja conclusão definitiva nunca se chegou: o limite entre o público e o privado. Até onde a imprensa pode ir para manter a população informada? As opiniões divergem e cada uma das partes tem argumentos a favor e contra a exploração virtualmente ilimitada da imagem e das ações das personalidades do mundo artístico, político ou esportivo.

Apesar do laudo da polícia francesa haver comprovado que o motorista que dirigia o Mercedes 280s --- que conduzia lady Di e seu suposto namorado, Dodi Al-Fayed --- estava embriagado, e portanto sem condições de dirigir, muita gente atribui o desastre à perseguição movida pelos fotógrafos "free-lance", conhecidos como "paparazzi" (pára-raios, em italiano). Pode ser. Mas a imprudência foi de ambos os lados: de perseguidores e perseguidos.

Muitas figuras públicas já sofreram o assédio dessas pessoas que fazem de uma máquina fotográfica uma espécie de arma. Mas em nenhum dos casos o desfecho foi nem de longe tão dramático. No máximo valeu discussões, apreensões de filmes e alguns tapas e empurrões de seguranças. Jacqueline Kennedy Onassis foi uma das mais assediadas. O cantor norte-americano Michael Jackson tem sido outro. E a relação de nomes é extensíssima para ser nominalmente citada.

No caso de Diana --- disso não há como fugir --- o crime dos fotógrafos foi o de não terem prestado socorro às vítimas, como é obrigação de qualquer cidadão que se preze e mais: de qualquer ser humano com um mínimo de decência e responsabilidade.

Alguns dos "paparazzi" se assustaram e, temendo as conseqüências do desastre (que de alguma forma contribuíram para acontecer), fugiram do local. Sete permaneceram (seis franceses e um macedônio). Desses, houve os que aproveitaram a cena para fazer o que se haviam proposto: fotografaram a tragédia, com todos os seus detalhes e nuances, para satisfazer um público ávido por fofocas e por sangue (especialmente quando isso envolve personalidades).

Quando a "poeira baixar", não tenham dúvidas, essas fotos vão valer milhões de dólares. Os meios de comunicação são um "espelho". Apenas refletem a imagem da sociedade. Não fazem ficção e nem inventam nada. Limitam-se a reproduzir, com maior ou menor ênfase, o que acontece. Se os detalhes que mostram são escabrosos, não lhes cabe culpa. Se a imagem refletida é feia, não será quebrando o "espelho" que ela irá melhorar.

Claro que, como em todas as profissões, há jornalistas e jornalistas. Há os que apenas apostam na desgraça e no negativismo e que exageram na dose, descambando para o sensacionalismo. Mas existem os que, --- como se propôs a ser e tem sido, desde que foi fundada, a Folha do Taquaral --- fazem "o jornalismo que crê". Ou seja, criticam o que é criticável, mas mostram também o lado positivo da realidade. Transformam o ato de informar em missão. E isso com um sentido sempre construtivo.

Os "paparazzi" limitam-se a fazer o "trabalho sujo" de um tipo de imprensa, apelidado de "marrom". Só existem, porque há editores de tablóides sensacionalistas que compram a peso de ouro as fotos que tiram. E estes adquirem tais imagens porque são as que seus leitores querem ver. Prova é a vendagem dos seus jornais nas bancas. Portanto, em vez de quebrar o "espelho", o que se precisa fazer, e com urgência, é melhorar a "imagem" que eles refletem: o senso ético da própria sociedade.

(Texto escrito em 1 de setembro de 1997 e publicado como editorial na Folha do Taquaral).



 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk
Antídoto para a solidão

Pedro J. Bondaczuk

A expansão vertiginosa da rede mundial de computadores, a Internet, está provocando sensíveis mudanças de comportamento na sociedade, cuja profundidade e alcance ainda não podem ser mensurados. Tudo bem, não fiz nenhuma descoberta revolucionária e nem descobri a pólvora. Limitei-me a constatar um fenômeno que se verifica bem debaixo dos nossos narizes. Cada vez mais pessoas ao redor do mundo se tornam "internautas" (neologismo que já se consagrou na linguagem cotidiana em vários idiomas), em busca de informação, entretenimento, comunicação e realização de negócios.

Mais e mais usuários fazem suas compras sem sair de casa. Depositam e sacam dinheiro em bancos, fecham contratos comerciais e realizam outras operações da vida prática, usando apenas um microcomputador e um bom servidor (nem todos são confiáveis, mas... deixa pra lá!). Nota-se uma adesão crescente de jovens à Internet. Muitos já trocam, até mesmo, bailes e boates que freqüentavam pela "navegação" na rede mundial. Fogem, com isso, dos riscos da violência e do consumo de drogas.

Nem é preciso lembrar que nem tudo é um mar de rosas no mundo internético. Há uma quantidade enorme de imbecis que se utilizam de um meio intrinsecamente tão positivo e bom, para praticar delitos de toda a sorte. Cabe aos usuários se precaverem, adotando algumas medidas simples, básicas, elementares até para não caírem nas garras desses supostos “espertalhões”. Claro que não são espertos coisa nenhuma. Mais cedo ou mais tarde, acabam descobertos, localizados e punidos. Mas acham que isso nunca lhes acontecerá. Um dia acontece.

Já os usuários criam jargões apropriados, fazem pesquisas para a escola, "namoram" à distância  (às vezes separados até por continentes) e muitos têm sua iniciação sexual com o "sexo virtual". Essa parte acho estranhíssima, mas é uma realidade. Bem, há gosto para tudo, não é mesmo? Os internautas desenvolvem, portanto, novos valores e impõem novos comportamentos. Pais preocupados buscam conter excessos dos jovens (ou o que julgam ser excessivo).  Depende do que entendem como "exagerado".

Muitas pessoas têm enorme dificuldade de se relacionar com outras, de sustentar um relacionamento qualquer – que nem precisa ser afetivo, ou mesmo de amizade, mas de mero “coleguismo” – na base do olho no olho, da presença física. Antes do advento do computador pessoal, encerravam-se em “cavernas”, retraíam-se, mantinham-se aprisionadas em casulos de solidão, que sabiam ser perversos, mas dos quais não conseguiam se livrar. Várias delas, em geral bem situadas na vida, sem problemas financeiros, com nível de instrução de razoável para bom, chegavam ao extremo de cogitar em darem cabo de si próprios. Alguns iam além e se matavam. Ainda há, óbvio, quem se sinta ou aja dessa forma. Muitos, no entanto, descobriram uma forma de se relacionar sem que seja preciso se expor. Como? Pelas redes sociais.

Fico imaginando cá com meus botões: Que mecanismo emocional se desregula a tal ponto de levar o instinto de sobrevivência (o erótico) de alguns a ser sobrepujado pelo de destruição (o tânico)? Os estudiosos do assunto dizem que, em geral, os que cometem esse ato de agressão extrema contra si próprios não querem, na verdade, morrer. O que desejam é chamar a atenção para seus problemas; para sua imensa solidão; para a carência afetiva que os domina; para seu enorme desamparo emocional. Como nos tempos atuais as pessoas estão se isolando cada vez mais, se auto-encarcerando, se mantendo solitárias mesmo quando estão no meio de uma multidão, esses seres carentes e psicologicamente frágeis encontram cada vez mais dificuldades para se fazerem ouvidos. Encontravam.

Seus obstáculos de relacionamento podem ser (e em muitos casos, são) atenuados pelos contatos que fazem pelo computador. Afinal, nem é preciso ser nenhum psicólogo, psiquiatra ou psicanalista para deduzir que, na maioria das vezes, uma boa conversa (e somente isso) salvaria e provavelmente tem salvado inúmeras pessoas até de atentarem contra a própria vida. Conheço muitos casos assim.

Esse novo comportamento é bom ou ruim? Ainda é cedo para uma conclusão definitiva. Entendo, da minha parte, como positivo e irreversível. Mas... não sou dono da verdade. Ninguém é. O escritor Arthur Clarke, num ensaio publicado em 3 de setembro de 1978 no Suplemento Literário do "O Estado de São Paulo", sob o título "O futuro no mundo das comunicações", me dá razão e justifica porque é bom. Escreve: "O homem é um animal comunicativo. Exige notícias, informações, divertimentos, quase tanto quanto alimento. Na verdade, como um ser humano na ativa, pode sobreviver muito mais sem alimento – e mesmo sem água – do que sem informação, como nos mostraram experiências de privação sensorial". E, neste caso, a Internet é um perfeito "kit de primeiros socorros" em termos de comunicação. Veio para ficar, e por isso se impôs, criando novas posturas e comportamentos.

Queiram ou não, admitam ou contestem, a Internet é poderoso antídoto para a solidão. Talvez (ou provavelmente) não ideal, mas não deixa de ser bom recurso. E é positivo, claro, com ressalvas: sem exageros e com as devidas cautelas para escapar das armadilhas dos perversos, dos bandidos internéticos e dos imbecis que pululam mundo afora.


 Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk