Monday, March 17, 2014

Gênio ou louco?

Pedro J. Bondaczuk

A linha divisória entre a genialidade e a loucura é sumamente tênue, imperceptível, no mínimo duvidosa e, para muitos, sequer existe. Tanto o gênio, quanto o louco fogem do padrão considerado “normal” na sua maneira de pensar e, principalmente, de se comportar em sociedade. Não raro, ambos são confundidos e pagam, muitas vezes, preço proibitivo por essa confusão. O louco, por deixar de receber o devido tratamento e o gênio por ser submetido a terapias duvidosas que findam por enlouquecê-lo de fato. Suponho que o primeiro tenha, vez ou outra, rasgos de genialidade e que o segundo apresente, em algumas circunstâncias (só não sei em quais) assomos de loucura.

Um dos personagens do mundo literário que mais me fascinam e que, até hoje, não consegui me convencer se foi gênio, como muitos asseguram, ou louco, como a sociedade o considerou enquanto vivo, foi Antoine Marie Joseph Artaud. Identificado assim, pelo nome de batismo, poucos saberão de quem se trata. Mas o caso muda de figura quando se menciona o pseudônimo que adotou em sua vida artística: Antonin Artaud.

É uma figura simultaneamente respeitada no mundo artístico, como poeta, ator, escritor dramaturgo, roteirista e diretor de teatro, e repudiada pela sociedade, como um sujeito insano, perigoso e que teria de ser segregado do convívio com as pessoas “normais”. Tanto que passou parte considerável da vida em manicômios e foi encontrado morto no quarto de um deles. Há, como em tudo que cercou a sua vida, duas versões antagônicas a propósito de sua morte. Uma dá conta que ele cometeu suicídio (a mais aceita e que me parece mais verossímil). Outra, todavia, é a que assegura que ele morreu de causas naturais.

Ele foi muito mais personagem, de uma infinidade de escritores, do que propriamente autor, embora tenha escrito vários livros, quatro dos quais traduzidos para o português e lançados no Brasil, a saber: “Linguagem e vida” (Perspectiva, 2011), “Eu, Antonin Artaud” (Assírio & Alvim, 2007). “O teatro e seu duplo” (Martins Editora, 2006) e “Heliogabalo” (Assírio & Alvim). Há inúmeros filmes em que ele é o personagem enfocado. Há, ainda, documentos sonoros e audiovisuais em profusão que tratam dele. E a dúvida persiste e até se acentua: foi gênio ou louco?

Antonin Artaud nasceu na cidade francesa de Marselha, em 4 de setembro de 1896. Foi encontrado morto no quarto de um manicômio do bairro de Ivry-sur-Seine, em Paris, em 4 de março de 1948, quando faltavam seis meses para completar 52 anos de idade. Apesar de haver certo escrúpulo da imprensa ao tratar de suicídios, é praticamente certo que ele se matou. Internado, pela primeira vez, em 1937, em decorrência de algumas atitudes tidas e havidas como anormais, passou seis anos sendo transferido de um manicômio para outro, num cruel jogo de empurra, sendo submetido a tratamentos sumamente duvidosos (hoje banidos, por serem comprovadamente ineficazes). Só não sofreu lobotomia. No mais... Após tantas transferências, tantas idas e vindas. foi parar no renomado hospital psiquiátrico de Rodez, onde permaneceu por mais três anos. Mesmo ali, nessa instituição que tinha a fama de se utilizar de terapias humanas e que apresentavam resultados, passou por várias sessões de eletrochoque. Como se vê, o cara sofreu e sofreu demais.

Em 1946, recebeu alta e foi para Paris. Mas permaneceu solto por pouquíssimo tempo. Voltou a ser internado, desta vez num manicômio do bairro de Ivry-sur-Seine, em cujo quarto foi encontrado morto. Não é de se estranhar que tenha dado cabo da própria vida (se é que o deu mesmo). Embora boa parte da sua obra, tanto a literária quanto a teatral, tenha sido produzida antes dos anos 30, quando começou sua peregrinação por diversos manicômios, escreveu muita coisa, hoje considerada genial, nesse longo período de confinamento e de tortura física, mental e psicológica. Pena que sua obra poética, a anterior à do período em que foi considerado louco, tenha se perdido para sempre. E perdeu-se por obra do próprio Artaud. Ele queimou todos os poemas que escreveu na juventude, até para ser coerente com o que passou a pregar. E qual foi essa pregação? O “gênio” (ou “louco”) definiu o poeta não como o sujeito que escreve poesias, mas aquele que faz da vida um poema, mesmo que jamais tenha escrito um único e reles verso. Ainda assim, na fase, digamos, de “loucura”, escreveu inspirados textos poéticos, como é o caso de “Para acabar com o julgamento de Deus”, composto em 1948, semanas antes da sua morte.

Após ler livros e mais livros, tanto os escritos por Artaud quanto, e principalmente, “sobre” ele, minha dúvida inicial persiste e até se acentuou: Essa figura trágica, sofredora e polêmica foi gênio ou louco? Ou ambas as coisas, com assomos ora de loucura, ora de genialidade? Sou “quase” induzido a me convencer desta última alternativa. Contudo, nunca consegui chegar a qualquer conclusão a propósito desse tema, dada a ambigüidade das definições a propósito. Afinal, o que é loucura? O que é genialidade? Existe algum limite, alguma linha divisória entre uma e outra? E se existir, como identificá-la? Não sei!!! Por acaso você sabe, atento e bem informado leitor?


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